Romeo And Frankenstein
1 once upon a time, a Romeo and a Frankenstein....
Notas iniciais
Por que nós tínhamos que brigar tanto? Eu não suportava vê-lo deixar a sala daquela maneira insolente, chutando as coisas e pisando fundo no assoalho escuro, como quem quer se fazer ouvir. Ele quer que eu ouça que ele está irritado, que não deseja ou sequer pensa em me ouvir. Nem a mim e nem a minhas justificativas para fazer sempre tudo errado com ele.
HyukJae por vezes era incompreensível, impulsivo, extremo e egoísta. Não muito diferente de mim, mas eu procurava ser um pouco compreensivo, e como nem sempre conseguia acabávamos brigando como nunca. Nós nunca estávamos preparados para fazer as pazes, trocávamos ofensas e conseguíamos bater o recorde de não conseguir se falar até mesmo dormindo na mesma cama.
Eu não iria atrás dele, e nem ele viria atrás de mim. Era assim. Geralmente eu nem lembrava como fazíamos as pazes, só me recordo da última vez antes daquela, em que SungMin apareceu em nossa casa, sorrindo e distribuindo chocolates como quem não queria nada. HyukJae deveria ter ligado pra ele, por que ele era um orgulhoso incapaz de descer a porra da escada e me pedir desculpas, ele precisava contratar um coelho pra isso.
Não que eu não apreciasse a presença e fofura de SungMin, que era um dos melhores amigos tanto meu quanto de HyukJae, mas nossos problemas às vezes precisavam ser discutidos entre nós, e somente isso. No final, acabou sendo divertido. SungMin fez HyukJae jogar chocolate por baixo da porta do quarto onde eu estava isolado, e dentro da embalagem havia escrito coisas como “Eu te amo, me perdoa~~” junto de uma bala de coco recheada de creme de morango, minha preferida. A letra nos bilhetes era de HyukJae, e eu só conseguia rir com toda aquela coisa de pré-adolescente bipolar.
Quando saí no quarto – com o rosto cheio de chocolate -, HyukJae me beijou. Assim, sem timidez nenhuma, completamente afoito, na frente de SungMin que ficou olhando tudo com uma cara de quem estava vendo duas crianças brincarem no parque de areia às cinco da tarde.
— Você é muito idiota, HyukJae, sabia?
— Não me chama de HyukJae, me chama de Hyukie. Não gosto de Hyukjae.
— Hyukie... – Curvei o pescoço para o lado, piscando freneticamente – SungMin havia me ensinado o truque – e colocando as mãos ao lado do rosto, para logo depois parar o teatro e olhá-lo com olhos de quem ainda estava irritado com ele. – Você é um imbecil.
Ele riu me abraçando forte o suficiente para me tirar do chão e girar comigo.
Sentando naquele sofá, agora, com os dedos pressionados nas têmporas, ri um riso gostoso, carregado dessas memórias bonitas que me sobravam quando o assunto era Lee HyukJae, sua bipolaridade, seu sorriso, sua birra, seu corpo definido, sua voz anasalada, suas mãos compridas, suas manias, tiques de timidez, o som de seu choro, o timbre de sua risada, e cada uma de todas as peculiaridades com as quais eu aprendera a lidar, e não só isso; eu amava cada uma delas.
Eu já não sabia mais o que era uma pessoa sem uma tara doentia por uma cachorra chata chamada Choco. Também não sabia mais o que era ver um filme de ação sem gritos, ou uma comédia romântica sem reclamações. HyukJae era infernal, um pirralho num corpo sensual, que me tirava a paciência e o eixo, mas talvez ele precisasse disso para ser ele, para ser meu. Não havia espaço para discussões, eu também era dele.
Quando nos conhecemos, talvez não fizéssemos a mínima ideia da história que escreveríamos juntos nesses onze anos. Primeiro, inimigos mortais. Muito clássico da nossa parte, não? Eu o odiava, a verdade era essa. Ele era metido, grosseiro, e vivia me desafiando em toda e qualquer coisa que eu fosse fazer. Ele tomou meu lugar uma vez numa apresentação de dança da escola, no segundo ano, e brigamos em cima do palco, na exata hora da apresentação. Os holofotes brilharam em nossa direção no meio da discussão e ficamos calados, um olhando para o outro, sem saber o que fazer.
Decididos de não perder um para o outro, dançamos juntos, brigando o tempo inteiro pela coreografia, e se alguém chegasse perto o suficiente perceberia o quando eu o xingava a cada vez que ele chegava mais perto. No fim das contas fomos aplaudidos, apesar do improviso e da confusão, e fomos obrigados pela professora a agradecer juntos e num abraço lateral fraterno em cima do palco. Foi a primeira vez que o toquei. Ele tinha um cheiro almiscarado delicioso – que eu descobriria ser a colônia preferida dele, até hoje.
Lentamente as brigas já não eram tão frequentes, tampouco ficávamos trocando ofensas o tempo inteiro, e por vezes até poderia jurar que Lee HyukJae era uma pessoa boa. Passei a observá-lo melhor, e descobri que ele gostava de suco de tomate e de ensaiar coreografias sozinho no estúdio. Suco de tomate, gente!
Certo dia ele me flagrou espionando sua dança, e eu acho que até hoje nunca o convenci de que estava só entrando no estúdio para pegar um CD – eu estava mesmo espionando ele, afinal. Ele estava dançando uma boa música, e para desconversar mais minha falta de vergonha em espioná-lo disse algo como “Essa música é legal, gosto dela”, ao que respondeu: “Eu também, mas não estou conseguindo coreografar isso. Você me ajuda?”.
Passamos a tarde no estúdio, e eu nunca havia rido tanto em toda a minha vida. HyukJae era um palhaço, e seu bom humor era algo quase sobre-humano, que não tirava a elegância absurda com que seu corpo seguia o ritmo da música, entregando-se completamente. Pela primeira vez em minha vida não senti inveja de alguém melhor que eu. Uma coisa que aprendi com HyukJae nasceu ali, enquanto eu o observava dançar e absorvia cada um de seus passos, uma coisa que eu só poderia sentir por alguém como ele: Admiração.
Quando me pegava olhando, perguntava o que era e eu respondia um “Nada” meio tímido, e ele me dava aquele sorriso aberto e voltava a dançar como se nada no mundo pudesse atrapalhá-lo. Eu, como não era de todo ruim, ajudei-o com a coreografia. Ensaiamos por horas a fio, e durante muitos dias aquele era nosso ponto de encontro, após as aulas o meu único destino era o estúdio de dança, onde os inimigos declarados Lee DongHae e Lee HyukJae dançavam juntos, esquecendo-se dos rótulos lá fora.
A véspera formatura então chegou, e eu comecei a achar que não veria HyukJae nunca mais. Olhar para ele se tornou uma tortura, por que eu jamais assumiria em sua frente que sentiria sua falta, tampouco perguntaria para qual faculdade ele iria ou o seu endereço para visitá-lo de vez em quando. Eu jamais faria isso. Até por que eu não sabia direito às quantas estávamos. Eu sentia a falta dele, gostava de estar com ele, ria com ele e sentia que ao lado dele poderia alcançar o céu, mas quando saíamos daquele estúdio nos ignorávamos como se sequer nos conhecêssemos.
Faltavam duas semanas para a festa, e eu há dias andava cabisbaixo pelos cantos como se minha tristeza não tivesse cura. Estava num estado tão desesperado e sufocado que na segunda noite de chuva consecutiva em Seul eu chorei ouvindo H.O.T no meu quarto. H.O.T, gente! Já não queria dançar, e ficava isolado em minha esfera atemporal, temeroso de deixar o tempo passar mesmo sabendo que eu não poderia impedir nada; também não comparecia ao ‘nosso’ estúdio, e ficava mais triste a cada dia que passava.
A pior coisa que existe é a frustração. Você não pode evitá-la, tampouco aplacá-la. Ela simplesmente vem e acaba com suas estruturas, tirando aquele chão calejado que você já estava acostumado a pisar.
HyukJae, um tempo depois de minhas faltas nos ensaios, pareceu bobamente preocupado comigo. Em uma das minhas crises de isolamento social ele se sentou ao meu lado na parte de trás da arquibancada da grande quadra do colégio.
“DongHae, o que está acontecendo? Você não vai mais ao estúdio, eu... Fiquei preocupado, sabe, com a nossa coreografia, e se você perder a prática?”
Ah, claro, a porra da coreografia.
“Não vou perder”
“O que está havendo? Eu também, sabe, também estou preocupado com você”
Era tão duro olhar pra ele! Eu me lembro ainda hoje como aquele foi um dos dias mais torturantes da minha vida, seguido do dia em que ele decidiu dançar sem camisa no estúdio “por que estava um calor dos infernos”. HyukJae suando na sua frente não é bem uma visão que te inspire controle. E ele suava muito.
Bom, acho que está na hora de admitir. Eu estava apaixonado pelo inimigo. Eu estava louquinho pra passar a mão no corpo dele, é isso mesmo. Aquela boca me tirava do sério, e os olhos dele eram tão lindos e exóticos que me hipnotizariam se eu não tomasse cuidado. HyukJae era um príncipe digno de algum livro de Stephen King, por que ele não fazia o estilo Romeu Montecchio. Ele não era normal. O normal era eu. Eu era o Romeu, ele era... O Frankenstein ou coisa que o valha, por que não havia nada que me deixava mais temeroso que Lee HyukJae. Ele era meu monstro particular, mais atraente que balas de coco com recheio de creme de morango. E se alguém é mais atraente pra mim que balas de coco com recheio de creme de morango, isso significa perigo.
“HyukJae...”
Ele virou pra mim, me olhando com aqueles olhos cor de ônix sem qualquer rastro de amêndoa; eram perfeitos círculos escuros que me engoliam com a voracidade de um túnel num caminho onde o trem não pode frear. A ordem dos fatos foi a seguinte: Eu o olhei; ele decidiu que ia falar alguma coisa, entreabrindo os lábios; eu o beijei.
Foi bem rápido, mais considerado um selar medroso que propriamente um beijo, e nem foi assim a coisa mais linda do mundo. Lindo foi depois, quando ele me tomou nos braços e me beijou novamente, para logo depois me olhar com o desespero nos olhos e sair correndo, me deixando ali na maior cara de tacho.
Ferre-se a fuga. Os lábios dele eram demais! E eu não preciso dizer que eu já tinha me assumido desde o dia do abdômen descamisado, não é? Eu gostava mesmo dele, mesmo com tudo isso dele ser homem e eu também. Eu gostava mesmo dele.
Então o dia da formatura chegou, a alegria do beijo passou, e no final das contas HyukJae não queria mais olhar na minha cara e ficava verde de vergonha toda vez que nos encarávamos. Era hilário – mas na época foi uma droga, acreditem. A formatura seria bem Black&White – uma ideia bem doentia das meninas da turma – e eu teria que usar terno e gravata, além de terem me sugerido um gel no cabelo. Segui o conselho e apareci na festa com três quilos de gel e uma cara de quem poderia engravidar alguém com uma lambida no umbigo. Todo mundo adorou. Mas quem eu queria que adorasse eu nem cheguei a ver assim que entrei. Onde estava HyukJae? Nunca vou descobrir.
Quando eu já tinha desistido de esperar, resolvi engolir a tristeza e começar a dançar um pouco, não me lembro do que tocava, só sei que eu estava atrás de um bom porre pra tirar a solidão, e isso ninguém me negaria. Copos e mais copos de não sei o quê, mas estava funcionando. Foi então que senti algo me puxando para fora da nuvem de gente que se balançava ao ritmo da música, eu não vi quem era e nem em que direção estava me levando até que decidiu parar e largar meu braço.
“DongHae, precisamos conversar”
“UHUL! Conversar? Quem é você? UHUL!”
Eu estava bêbado, gente.
“Você está embebedado com ponche?”. Ele me perguntou, aí eu me dei conta do líquido vermelho no meu copo e da cara de desprezo de HyukJae na minha direção. Ainda tentei manter a pose: “Estou! E daí? Estou morto de porre, me dá licença!”.
“Hae-ah, você tem porres psicológicos, é isso mesmo?”. Então eu desisti de lutar e revirei os olhos pra ele. “O que você quer, Hyuk? Já consegue olhar pra mim ou ainda está com nojo?”
“Nunca senti nojo de você, não diz isso”. Aquilo foi tão fofo, acho que foi umas coisas mais lindas que ele já me disse, e eu me lembro como se tivesse sido ontem. “Hae, eu queria te dizer que não quero me afastar de você. Nem pelo beijo, e nem pelo fim do ano, nem por nada. Por que não fazemos a mesma faculdade e continuamos amigos? Nós podemos ir para a faculdade estadual, estudar juntos, ou ao menos no mesmo campus. Gosto da sua companhia, de dançar e de tudo isso, nós combinamos, me sinto bem com você.”
Alguém puxe o coro de Aleluia.
Eu estava ali, porre com o ponche, e meu Frankenstein estava me dizendo que queria fazer uma faculdade inteira de amor comigo. Como eu não era obrigado a ficar ali com cara de foca paralítica, aproveitei o pseudo-porre pra jogar meus braços em volta do pescoço dele e o beijar como nunca, certificando-me de ele não correria daquela vez. E foi entre beijos esporádicos e extremos que seguimos a festa, dançando juntos e mandando tudo para o raio que o parta. E quando tudo acabou, nos restaram alguns anos de faculdade pela frente.
HyukJae ainda quis assumir o posto de “meu melhor amigo” na faculdade, mas não deu muito certo. O importante pra mim, contudo, era tê-lo comigo. Ele ainda hesitaria por muito tempo em dizer que era meu namorado, mas eu sequer ligava, eram apenas rótulos e eles viriam com o tempo. O coração de Hyuk era meu, e isso ninguém me tiraria. Nunca.
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Mais uma risada. Eu estava de novo no sofá, me perguntando por que havia repassado nossa história toda até aqui mais uma vez. Bom, talvez por que não me arrependesse efetivamente de ter que acabar aqui a cada vez que viajava através de todos esses anos de memórias. Eu estava feliz, muito feliz. Aquele retardado trancafiado no quarto do segundo andar talvez fosse a pessoa com quem eu passaria o resto da minha vida. Com ele, suas manias, seu sorriso e sua cachorra vesga.
Choco estava me encarando com cara de desprezo. Na verdade, não sei se ela está me encarando, afinal, ela é vesga. Mas ela está lá, paradinha, me vendo remoer um pouco mais minha aflição por ter arrumado confusão mais uma vez com seu appa. Eu no fundo odiava essa cachorra, mas ela era até simpática, e parecia tentar me dizer algo com o olhar. Algo que eu traduzi como “Seu retardado, vai atrás do meu pai!”.
— Choco, me perdoe, mas eu não vou. – Estava mesmo travando um diálogo com o animal. – Seu pai é um idiota. Eu não sei quanto tempo isso vai durar, eu o amo muito, mas não vou pedir desculpas. Por que sabe, Choco, às vezes nós temos que dar valor ao nosso próprio orgulho, e seu pai parece achar que só existe o orgulho dele no mundo, você entende? Não estou mentindo, não! Ele é o homem da minha vida, e talvez algum dia a gente case numa montanha congelada e transe em frente a uma lareira na lua de mel. Mas por hora, Choco, somos só você e eu aqui nessa sala.
— Eu não acredito que você está fazendo a cabeça da Choco contra mim, DongHae! – Ele estava no extremo da escada, empoleirado, lindo e loiro como eu gostava. Com o meu sorriso preferido nos lábios. – Choco, não acredite em nada do que ele disser! Ele é mais egoísta e orgulhoso que eu.
Lá estávamos nós brigamos pela preferência de uma cachorra. Ela foi mais inteligente que nós e correu para a cozinha, nos deixando sozinhos.
— DongHae.
— Hyukjae.
— O que é?
— O que é nada. Não tá cansado? Vai dormir, o quarto é seu, eu vou dormir aqui.
— Não vai não, DongHae. Deixa de ser manhoso, por favor?
— Agora eu sou o manhoso! E você não é um ridículo individualista, claro que não.
— Fica quieto, shh.
— Não faz ‘ssshhh’ pra mim!
Eu estava bem estressado, pronto para levantar e correr atrás da companhia da Choco que era muda e vesga e não me perturbaria um terço do que este homem insuportável está fazendo. Quando ousei levantar, ele me segurou pelo pulso, me puxando para seu colo. Caí em suas pernas, e minhas costas foram parar encostadas em seu abdômen.
— Casa comigo numa montanha congelada, DongHae?
— Ora, HyukJae... O quê?
— Montanha. Congelada. Casamento. Você e eu, que tal?
Olhei pra ele por dois instantes, e logo nós dois estávamos gargalhando como duas hienas histéricas. Coloquei as mãos na frente do rosto, constrangido demais com a situação e me encostando ainda mais em seu colo. HyukJae me abraçou, beijando meu cabelo.
— Não vamos mais brigar...
— Você sabe que isso é uma utopia, não é?
Ele riu, estreitando seu abraço e roçando o nariz em meu pescoço, beijando num local onde eu poderia jurar que era minha marquinha simpática de nascença, que ele adorava. O beijo de HyukJae era como um choque leve e delicioso, que se agitava pelo meu corpo deixando a adrenalina correr por ele numa onda calma que parecia capaz de devastar tudo.
— Vou amar você pra sempre, e isso não é uma utopia.
— Você não é romântico nesse nível... Quer subir pro quarto e transar, não é?
— Você é incrível, Hae-ah. – Dei-lhe um tapa na coxa, fingindo indignação. – Estou brincando! É só uma opção válida!
Antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, saí de seu colo e subi as escadas apressado, e ele não se demorou em vir em meu encalço. Não fui rápido o suficiente – e nem queria – e HyukJae acabou me enlaçando a cintura enquanto entrávamos no quarto e fechávamos a porta atrás de nós.
Mordeu meu pescoço, em seguida me virando para encará-lo. Beijou-me a boca com pressa, mas suas mãos destoavam de toda aquela urgência, me acariciando com cuidado enquanto eu lhe respondia com suaves arranhões em suas costas rígidas. Nossos passos eram dados às cegas até a cama coberta por um bonito lençol branco que tinha o cheiro de nós dois.
Foi ali que HyukJae me deitou, enquanto deslizava o rosto por meu corpo inteiro, no caminho se livrando de botões e fecho éclairs. Meus dedos se confundiam por entre os fios loiros do cabelo dele e lhe acariciavam a face com suavidade. Ele me livrava das roupas, passeando com seus beijos suaves por cada músculo que me definia, e eu decidi por deixar que ele aproveitasse tanto quanto pudesse, eu jamais reclamaria de seu carinho.
— DongHae... – Ele deslizou até meu rosto, deitando-se por cima de mim, que já não ostentava mais que uma boxer azul celeste e uma camisa com todos os botões abertos. – Você se lembra da nossa primeira vez?
— Claro que lembro, Hyukie. Você era um caco na cama, desculpa! Eu não sei se era por que você tava naquela depressão, mas foi bem complicado.
— Pelo menos eu não broxei.
— Olha, não fala da minha broxada desse jeito! Eu me distraí olhando pra você, foi só isso. É que você tava bonitinho se esforçando daquele jeito.
Ele riu mais uma vez, me dando um beijo na ponta do nariz. Ele adorava fazer isso de vez em quando.
— Vamos pra baixo do edredom? Está ficando frio. – Ele me ergueu do colchão com facilidade, puxando as cobertas mais densas para nos cobrir em seguida, enquanto se ajeitava ao meu lado. Deitou minha cabeça em seu peito, e recomeçou a falar, dessa vez como um sussurro preguiçoso: – Eu me lembro de cada uma das vezes que transamos, de todos os lugares também. E da cor da sua boxer. Eram geralmente brancas, e vermelhas quando você queria fazer algo por mim.
— Deixa de ser tão viado, Hyukie. O que aconteceu com o meu Frankenstein?
— Ele está aqui, está sempre aqui, ele só é apaixonado demais pelo seu Romeu. Romeu insolente.
Deslizei os dedos pelo rosto dele, sentindo a aspereza leve da barba por fazer que não afetava tanto sua pele naturalmente macia. Encarei-o enquanto alcançava seu cabelo loiro, envolvendo-o com força entre os dedos e puxando-o pra mim. Então percebi como fui um adolescente imbecil quando julguei que gostava mesmo dele. Que idiotice. Eu o amava, de uma forma que talvez nunca me fosse possível descrever precisamente, e nem sei se isso algum dia seria mesmo necessário.
O amor, talvez, não tenha explicação. E não vou ser eu, Lee DongHae, que vou ficar procurando meios para dizer ao meu Hyukie o porquê de o amar. Não existe porquê. Nem pra quê. Romeus se apaixonam por Frankensteins e ninguém nunca resolverá esse mistério, por que ele não está marcado com um x em vermelho num velho mapa de sentimentos, ele só existe. Quem quiser, que conviva com ele.
Beijei-o como se fosse a última vez, e quando nossos lábios se desconectaram e meus olhos se abriram para encontrar os seus, percebi que era só o começo do nosso “para sempre”. Aquelas duas ônix brilhantes me desejavam com carinho, e não mudaram um só momento enquanto as mãos de Hyukie acabavam de se livrar de minhas roupas, e logo tiravam com cuidado as suas próprias.
Parei aquele momento, com uma vontade de fazer tudo em câmera lenta, minhas mãos encontraram as suas, que abriam os botões da camisa negra de um jeito desajeitado. Ele passou a fazer tudo lentamente, ao meu ritmo, sem abandonar meus olhos. Deslizei as mãos por seus ombros esculpidos perfeitamente na pele translúcida, deixando o tecido escapar por eles até deixar seu corpo e ser abandonado no chão. HyukJae estava de joelhos na cama, comigo entre suas pernas, deitado, podendo observar cada parte de seu tronco esguio e delineado. Ele era lindo como nada mais e, de novo, eu não era capaz de sentir inveja daquele corpo à prova de qualquer defeito. HyukJae não era bom em ter defeitos.
Eu gosto do modo como ele me olha quando fazemos amor. Ele sempre pisca lento e seus olhos se derramam em mim como calda de chocolate. É sempre assim. Não importa se estamos na cama como um casal ou na pia da cozinha treinando o kama sutra, ele sempre me olha como quem diz “Eu te amo”, e isso é o melhor em Hyukie.
Ele deixou que meus dígitos corressem por seu abdômen e soltou um suspiro ofegado, suas mãos foram em direção às minhas, entrelaçando-as no ar tão suave e carinhoso que por um instante achei que tudo parou para nós dois.
— Só existe você no meu mundo, Lee DongHae.
Então eu sorri, sincero e feliz, só sorri. Puxei-o para mim, beijando-o com fervor enquanto sentia a textura de seus fios loiros na ponta dos meus dedos. Ele desenhou leves linhas vermelhas em minhas coxas quando se encaixou entre elas, deixando o rastro de seus beijos por onde quer que alcançasse. Apertava-me com força, me tomando para ele, e eu podia me sentir arrepiar inteiro como se uma onda de choque me atingisse.
Mordisquei seu queixo e delineei com a língua a linha de seu maxilar. Os olhos que se mantinham ora fechados, ora abertos não podiam acompanhar a intensidade ou a rapidez de nossas ações carregadas de desejo e paixão, e acho que no meio de tudo acabei me perdendo nele como quem se perde em um labirinto numa noite escura e especialmente brilhante, e por algum motivo tudo é tão bonito que acabo desejando me perder mais e mais.
Ele adentrou em mim mais lentamente do que costumava fazer, mas meu arfar foi o mesmo, e o gemido que atravessou as paredes também. Num desejo incontido de sentir o cheiro dele, aspirei suavemente o aroma de seu pescoço, roçando meu nariz ao longo de sua pele alva. Então me lembrei: Se há algo que se precisa saber sobre HyukJae é que seu pescoço é uma zona muito perigosa cercada de um mistério muito peculiar; às vezes apenas provocava-o e lhe causava arrepios prazerosos, outras vezes só o fazia ter uma crise de riso intensa.
Como a sorte não está sempre comigo, Hyukie começou a rir, assim, no meio da transa mesmo.
De um ponto de vista é um pouco deprimente quando alguém começa a rir no meio da coisa toda, mas, dessa vez, pareceu simpático demais para não rir também. A risada de HyukJae é um som muito cômico, quase contagiante, e quando demos por nós já éramos dois ridículos apaixonados nus embaixo de um edredom incapazes de parar de rir.
— DongHae, você é tão idiota! Sabe que tenho cócegas no pescoço!
— Você é ridículo com essas suas cócegas. Muito broxante.
— Vem cá que eu te digo quem é broxante.
Na verdade ele não disse nada. E eu juro que tentei fazê-lo rir de novo, mas dessa vez só consegui provocá-lo e, bom, a noite foi um tanto curta para nós dois.
Notas finais
(...e eles provavelmente viveram felizes para sempre ♥)
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