Romance em Pemberley

2 Primeiras Impressões


_ O dia está tão bonito hoje — comenta Jane.

_ Quem te vê falando assim, não imagina o tamanho da crise que estamos passando.

Jane era uma otimista crônica. Nunca vi alguém igual. Mesmo em meio a uma situação complicada, ela sempre consegue encontrar coisas boas para pensar.

_ Deixa de ser pessimista, Lizzie. — Jane aponta a biblioteca pública de Derbyshire para mim. Confesso que estava tranquila antes de chegar ali, mas só de ver o tamanho da fila que se encontrava na entrada do prédio, desanimei um pouco. Hoje mais cedo, acabei revelando à Jane sobre a vaga. Ela me deu a maior força, já que trabalhar com livros fazia completamente meu estilo.

_ Será que estão todos ali por causa da vaga? — murmuro baixinho. Jane dá de ombros.

_ Com licença — diz ela a uma moça um pouco mais nova que a gente. — Essa fila é pela vaga de bibliotecária?

A moça faz que sim. É uma das primeiras da fila. Dá dois passos à frente, quase esbarrando na outra mulher, tudo por medo de roubarmos seu lugar. Não consigo deixar de rir baixinho. Jane me dá uma cotovelada e morde o lábio inferior para impedir que um riso lhe escape.

_ Te vejo depois, então — diz ela ao chegarmos no final da fila. — Vou ver se encontro algo por aí.

A fila custa a andar, mas sigo ali, paciente. Afinal, é por um propósito maior. Ouço algumas pessoas comentarem sobre Netherfield e torço o nariz.

_ Ouvi dizer que o Bingley está chegando hoje à cidade. Pelo que ouvi falar, vai ficar na mansão Pemberley enquanto o hotel ainda não inaugurar. Depois vai se mudar para lá.

_ Na mansão Pemberley? — uma jovem reage, surpresa. — Não vai me dizer que ele é o dono daquele castelo?

_ Ele não — uma mulher mais velha se intromete no assunto. — O amigo dele. Acho que se chama Fitzwilliam. Ele e Bingley estudaram juntos na universidade, pelo menos é o que está na boca do povo.

_ É verdade — Charlotte Lucas se junta a elas. Tento me esconder para que não me veja. Ela era uma das minhas melhores amigas, mas eu não podia correr o risco de meus pais ficarem sabendo que eu estava ali. Se ela contasse para a mãe dela, já era. Só bastava uma ligação para minha mãe cortar minhas asinhas.

_ Conte-nos o que sabe, Charlotte.

_ Meu pai trabalha no jornal, como vocês bem sabem — começa ela. — Ele foi junto com o fotógrafo para fazer a matéria do jornal. Ele conversou com o gerente, e ele disse isso.

_ O que mais? — uma loira exibida a olhava esperançosa. Reviro os olhos. Aquele traidor do Sr. Lucas, quem mandou ele ficar de conversinha com esse povo?!

Charlotte ri.

_ Só sei que o herdeiro de Pemberley é um dos investidores mais importantes de Netherfield. Por isso também virá para cá.

_ Então por isso que o tal do Bingley ficará na mansão até o hotel abrir as portas?

Charlotte faz que sim.

_ Pelo que meu pai me contou, sim, e pelo que entendi, sem esse amigo, o hotel não abriria tão cedo. Bingley tem dinheiro, mas não é nada se comparado com o que seu amigo tem.

_ Quem me dera um amigo desses — brinca a loira, animada, tirando risadas de todos na rodinha que se formou ao redor de Charlotte. Bando de fofoqueiros.

_ Não é para menos — diz uma senhora ruiva que ouvia atentamente o relato de minha amiga. — Há anos herdou a mansão e nunca nem deu as caras. Pra esnobar uma casa daquelas, no mínimo deve morar em um castelo em Londres.

A fila anda um pouco mais, dispersando a rodinha de fofoqueiras. Quando Charlotte passa ao meu lado, viro o rosto para que não me reconheça. Ela não me vê, graças a Deus. Acaba se distraindo com um carro barulhento que passa na rua.

Já tem mais um na minha lista pra eu odiar, o tal amigo investidor. Se ele é o principal motivo para a ruína da minha família, já é meu inimigo mortal.

Fiquei mais de duas horas na fila e, quando entrei, fiquei menos de cinco minutos na sala. Um homem com os óculos na ponta do nariz mal me lança um olhar, só me enche de perguntas genéricas e faz anotações em um papel.

_ Não sei se te informaram, mas a vaga é para o período noturno.

Eu não sabia, mas não me importava com horários. Eu só precisava de um emprego urgente. Seria até bom que fosse à noite, pois durante o dia conseguiria ajudar na pousada.

_ Sem problemas. — E, pela primeira vez, ele olha para mim.

_ Pode se retirar, por favor. — Ele aponta para a saída. Que homem estranho.

_ Como fico sabendo se vou conseguir a vaga? — pergunto antes de me levantar.

_ Deixou seu número de telefone na ficha que preencheu, não deixou?

_ Sim, mas...

_ Até mais, Srta. Bennet.

Fico calada. Como eu poderia explicar que ele não podia ligar para minha casa porque ninguém poderia saber que eu estava ali?

_ Quando ligar — começo a falar, e ele me lança um olhar irritado. Engulo em seco. — Claro, se for ligar, pode não dizer do que se trata a ligação para outra pessoa que não seja eu?

Ele solta um suspiro impaciente e novamente aponta a saída.

Saio de lá ansiosa. Ao mesmo tempo que queria muito receber essa ligação, tinha medo de que minha mãe ou meu pai atendessem. Eles nunca me deixariam trabalhar, principalmente para tentar salvar Longbourn.

Jane me encontra algumas horas depois. Estou sentada no banco da praça, observando as crianças brincarem de bola.

_ Como foi? — Ela ajeita seu vestido e se senta ao meu lado.

_ Não sei dizer. — Olho para ela. — Vão ligar caso eu fique com a vaga.

_ Teremos que fazer plantão ao lado do telefone, então — brinca, e eu dou um soquinho em seu ombro.

_ E você?

Jane empalidece.

_ Lizzie, promete guardar segredo?

Faço que sim, ansiosa. Faço sinal com as mãos para que ela desembuche logo.

_ Eu estava passando em frente a Netherfield. Iria entrar na farmácia ao lado, ver se arrumava alguma coisa, mas vi que o portão estava aberto e fiquei curiosa, sabe... — Jane seca as mãos suadas no tecido de sua roupa. — Conheci o dono de Netherfield.

_ O quê?

_ Ele estava saindo de lá com um amigo e nós nos esbarramos. Eu estava tão focada tentando ver lá dentro do hotel que não vi quando o amigo dele surgiu na minha frente. Tentei desviar rapidamente, mas acabei esbarrando em Bingley. Foi a maior vergonha. Se ele não me segura, eu quase caio de bunda no chão.

Em outras ocasiões, eu teria rido. Mas não se tratando daqueles imbecis.

_ Ele foi super simpático — continua ela. Nunca vi Jane falar tão rápido. — O amigo dele é mais calado, mas perguntou se eu estava bem. Quando eu disse sim, simplesmente continuou andando e entrou no hotel. Mas Bingley ficou ali e sorriu pra mim. E, Lizzie...

_ Fala logo, Jane!

_ Foi o sorriso mais bonito que já vi na vida.

Jane só podia estar brincando com minha cara.

_ Tá falando sério? — digo, enfurecida.

_ Eu tive que inventar uma desculpa por ter sido pega tentando espiar o hotel e acabei soltando que estava procurando emprego e que estava olhando pra ver se tinha alguma placa ali.

Isso não pode ir para o caminho que acho que está indo.

_ Ele me ofereceu uma vaga.