Romance em Pemberley

5 A Biblioteca de Pemberley


DERBYSHIRE, 11 de abril de 1960


CONTRATO DE TRABALHO — BIBLIOTECA DE PEMBERLEY

Entre Fitzwilliam Darcy, proprietário de Pemberley, EMPREGADOR, e Elizabeth Bennet, FUNCIONÁRIA, fica estabelecido o seguinte:

1. A FUNCIONÁRIA deverá cumprir jornada de segunda a sábado, das 8h às 16h, sem atrasos ou saídas antecipadas sem autorização.

2. A FUNCIONÁRIA será responsável pela organização, limpeza, catalogação e conservação dos livros e objetos pertencentes à biblioteca de Pemberley.

3. A FUNCIONÁRIA deverá permanecer exclusivamente na biblioteca durante o expediente, não sendo permitido circular por outros cômodos da propriedade sem autorização prévia. Exceto em caso de emergência.

4. Nenhum livro, documento ou objeto poderá ser retirado da biblioteca, emprestado, alterado ou levado para outro cômodo sem autorização expressa do EMPREGADOR.

5. A FUNCIONÁRIA não deverá permitir a entrada de pessoas na biblioteca sem autorização.

6. É expressamente proibido divulgar informações sobre Pemberley, seus moradores, funcionários, documentos ou assuntos particulares aos quais tenha acesso durante o trabalho.

7. Espera-se da FUNCIONÁRIA discrição, respeito e cumprimento das orientações dadas pelo EMPREGADOR ou por seus representantes.

8. O descumprimento de qualquer uma das regras acima poderá resultar em advertência ou encerramento imediato do contrato.

9. Pelo cumprimento das funções estabelecidas, a FUNCIONÁRIA receberá dez libras por semana, pagas ao final de cada semana de trabalho.

10. O presente contrato terá início na data de sua assinatura e permanecerá válido por tempo indeterminado.

Assinaturas

Fitzwilliam Darcy

Proprietário de Pemberley _________________________________

Elizabeth Bennet

Funcionária x___________________________________________

Sinto os olhos dele sobre mim enquanto leio cláusula por cláusula, mais de uma vez. Me sinto um pouco pressionada, mas não dou o gostinho de parecer nervosa na frente dele. Preciso do trabalho, sim, mas também não quero me humilhar.

— E se eu precisar usar o banheiro? Posso considerar isso uma emergência, certo?

— Como? — O Sr. Darcy se aproxima um pouco para ver onde estou apontando no contrato.

— Cláusula 3. Só posso sair da biblioteca com autorização. — Ergo as sobrancelhas e o fito por sobre meu ombro. — Se vou estar sozinha, pra quem peço permissão?

— Tem um banheiro na biblioteca.

Tento encontrar alguma outra brecha para implicar com ele, mas o contrato está bem simples, não acho nada.

É claro que assino. Ele também.

— Mais alguma pergunta? — Darcy recolhe o documento de minhas mãos e o coloca em uma pasta.

— Por que me contratar? — Coloco as mãos na cintura ao me levantar para encará-lo. — Você disse que estava disposto a me dar a vaga. Por quê? Sabe que não tenho experiência.

Ele fecha sua gaveta bruscamente. Acho que não vai me responder. Espero mesmo assim.

— Tenho meus motivos. Vamos.

Ele segue em passos rápidos até a porta e gesticula para que eu o acompanhe.

— Pra onde vamos?

— A biblioteca, é claro.

— Vou começar hoje?

Ele para e me olha de cima a baixo. Cruzo os braços na frente do corpo e empino o nariz. Se ele pensa que me intimida, está muito enganado.

— Começa amanhã. — Ele volta a andar, tenho que apressar o passo para conseguir acompanhá-lo. — Quero delegar suas tarefas ainda hoje, amanhã não estarei aqui para isso.

Passamos pelo corredor pelo qual entramos e depois dobramos à direita. Mais um corredor repleto de portas fechadas. Subimos uma escada em caracol e damos de cara com uma porta de madeira com bordas e fechadura douradas. Me sinto em um filme de época.

— Chegamos. — Ele tira um molho de chaves de seu bolso, retira uma e me entrega. — Sua cópia.

Sinto o gelado das chaves em minha mão e a aperto com força. Quem diria que um dia eu teria a chave da Biblioteca de Pemberley em minhas mãos?

— Faça as honras.

Hesito antes de colocar a chave na fechadura. Minhas mãos tremem um pouco, o olhar de Darcy queima em minha nuca. Meu coração só falta sair pela boca.

Quando enfim consigo abrir a porta, fico deslumbrada com o que vejo.

Assim que entramos, vejo que, no canto direito, tem uma mesa de madeira com uma poltrona de couro logo atrás. Pilhas de livros e papéis sobre ela, uma máquina de escrever empoeirada também. Sinto vontade de tocá-la.

Passo os olhos por tudo: estantes que vão até o teto, escada de correr em cada uma delas, são corredores e mais corredores de prateleiras cheias de livros.

— Posso… — Faço um sinal com as mãos, incapaz de formar uma frase completa. Ele faz que sim, entro cautelosa, sinto cheiro de livros e poeira, solto uma tosse curta. — Uau.

— Como pode ver. — Darcy se põe ao meu lado. — Tem muito trabalho pela frente.

Olho ao meu redor e vejo livros espalhados sobre algumas mesas e sofás que ficam de frente para as janelas. Deve ter no mínimo umas dez janelas nessa sala.

— Tessa começou a tirar o pó dos livros, mas é muito trabalho para uma pessoa só. — Ele fala, e meus olhos encontram os dele. Franze o cenho. Ele me ignora, se afasta de mim e continua. — Você terá ajuda nessa parte. Contratei uma equipe de limpeza de confiança que estará aqui amanhã às 8. Não se atrase, você vai recebê-los.

Ele vai até a mesa e me entrega uma agenda.

— Essa é a lista de nomes. Confira todos antes de deixá-los entrar. Seu trabalho amanhã é supervisionar cada passo deles e não deixá-los danificar nenhum dos livros ou estragar os móveis.

Engulo em seco. Se algo acontecesse sob minha supervisão, estava ferrada.

Darcy faz um pequeno tour das estantes e me mostra onde fica o banheiro. Sinto um leve tom de deboche vindo dele, mas estou tão encantada por estar cercada de livros que resolvo nem retrucar.

— Lembre-se. — Ele fala, sério. — Nenhum livro sai desse lugar sem minha permissão. E, como não planejo permitir empréstimos para ninguém, não me aborreça com tais pedidos. É só dizer não.

— Tudo bem.

— Isso inclui você.

Abro a boca em choque. Que idiota. Nem passou pela minha cabeça pedir algo emprestado a ele. Fico tão indignada que não consigo nem responder, só dou uma risada irônica.

— O que é engraçado, Srta. Bennet?

— Fique tranquilo, não tem nada engraçado. — Encaro. Ele não sustenta e desvia o olhar antes de mim. — Se estou rindo, é justamente pela falta de humor.

— Tessa vai te acompanhar amanhã e pode tirar todas as suas dúvidas com ela. Temo que essa tarefa levará alguns dias. Quando finalizar, conversamos novamente. — Ele se apressa até a porta. Vou logo atrás. — Depois de amanhã, estará sozinha. Faça um bom trabalho.

Esse homem consegue me irritar mesmo falando coisas normais. É claro que farei o meu melhor. Pelo menos ele não estaria ali amanhã pra me aborrecer logo no primeiro dia.

Tranco a porta atrás de nós assim que saímos e coloco a chave da biblioteca em meu decote, me arrependo logo em seguida. Vejo-o baixar os olhos para onde minhas mãos estão e ele se vira rapidamente para o lado.

— At… Até mais, Srta. Bennet. — Diz e se apressa para longe, me deixando sozinha. Desço as escadas segurando o riso. Homens!

Assim que chego no final da escada, fico na dúvida sobre o caminho. O imbecil andou tão rápido que me deixou ali plantada sem nem me ajudar a achar o caminho de volta. Se eu entrasse no corredor errado, seria descumprir aquela cláusula idiota de não poder perambular pela casa?

Ouço passos se aproximarem e, graças a Deus, é Tessa.

— Perdida, senhorita? — Ela ri, me junto a ela e nos encaminhamos para o lado certo.

— Obrigada. — Digo quando chegamos do lado de fora da mansão. — Até amanhã!

Dou um tchauzinho e começo a seguir até o portão.

— Seja bem-vinda a Pemberley. — Ouço Tessa dizer, e meus lábios se curvam involuntariamente.

Eu realmente tinha acabado de conseguir um emprego em Pemberley!


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.