Romance em Nova York
3 Quebrando Regras!
Notas iniciais
O caminho foi agradável, se assim posso dizer. E em poucos minutos já estávamos em frente ao prédio de Benjamim.
Isaac estacionou seu Ford Fiesta no meio fio, quando vi Benjamim parado do lado de fora me esperando. Usava uma calça jeans escura, uma camisa azul bebê e um sapatênis preto.
– De nada. – Isaac falou, então, só então fui perceber que estava encarando demais certo moreno.
– Ah... Obrigado Isaac. – Respondi com um verdadeiro sorriso.
Ele sorriu de volta e me beijou no rosto.
Desci do carro e rumei para onde Bem estava. Quando ele me viu, soltou um sorriso de alivio como se estivesse com medo de eu não aparecer.
– Olá senhorita. – Ele soltou enquanto caminhava até meu encontro.
– Senhorita? – Perguntei sorrindo de canto.
– Claro, a não ser que você tenha se casado nesse meio tempo do trabalho até aqui... – Benjamim respondeu fazendo gracinha.
– Acho que convite não será o problema. – Isaac falou atrás de mim.
Na hora virei para encará-lo. Ele não parecia tão contente, mas conseguia ver um pouco de sarcasmos no seu rosto.
Eles se olharam no fundo dos olhos. Um loiro a minha direita, e um moreno a minha esquerda. Ambos consideravam a hipótese de eu nem existir ali naquele momento.
Raspei a garganta tentando quebrar o gelo. Eles me olharam.
– Isaac, Benjamim. Benjamim, Isaac. – Os apresentei.
Eles se olharam de novo. Benjamim parecia mais amigável, por isso foi por sua parte o ato de esticar a mão em um gesto de cumprimento.
Isaac olhou alguns instantes antes de retribuir o ato.
– Ema já me contou sobre você. É um prazer. – Benjamim disse levantando as sobrancelhas, e dando um sorriso de canto.
O loiro pareceu surpreso e menos agressivo. Olhou para mim com certo “Que”. Sorri, e posso jurar que devo ter ficado meio corada.
– Aqui. Você deixou isso no carro. – Isaac disse depois de um tempo.
– Minha pasta. Obrigado! – Devolvi pegando a pasta de sua mão.
Ele deu um pequeno sorriso de canto e entendeu sua deixa. Ficamos parados em silêncio enquanto acompanhávamos Isaac fazer seu caminho até o carro. Depois de segundos, Benjamim falou:
– Fico feliz que tenha vindo. Amélia passou aqui mais cedo, e tive que insistir que ela dormisse em casa.
– Não me sinto a vontade com tudo isso... Amélia é minha amiga, mentir pra ela não é legal. – Afirmei abaixando a cabeça e encarando meus sapatos.
– Esses seriam um dos motivos que ela deveria levar em consideração. Ter ciúmes da sua própria amiga com o seu namorado? – Ele tentou me animar.
Alguma coisa na palavra namorado, fez um arrepio surgir na minha espinha.
Levantei a cabeça e sorri tentando mostrar afeito de animação em suas palavras.
– Vamos entrar!
Assenti e o segui prédio adentro.
O prédio era imenso. Devia ter uns trinta andares. Na frente tinha um jardim todo iluminado. Rosas, arbustos com formas de animais, mini margaridas, trepadeiras, e flores de cerejeiras eram predominantes naquele imenso espaço com entrada exclusiva para uma recepção toda iluminada. A recepção era toda branca, com um quadro na parede de Nova York 60 anos atrás. O chão era todo de mármore, o que dava um bom aspecto de que você estava andando em um castelo. No teto estava pendurado um enorme lustre de cristal. E no meio estava um balcão onde o porteiro estava olhando o movimento atentamente.
– Boa noite senhor Thomas! – Ele disse com um aceno de mão.
– Boa noite Fred! – Benjamim devolveu.
– Bela moça. – Fred falou me olhando com um sorriso no rosto.
Benjamim olhou para mim como se analisasse cada centímetro do meu rosto, depois passando por todo o resto do meu corpo.
– Com certeza cara amigo. – Ele por fim disse.
Sorri enquanto encarava meus sapatos. Não conseguia encarar ninguém, pois sabia ao certo que minhas bochechas estavam mais vermelhas do que qualquer coisa.
Andamos mais um pouco até chegarmos ao elevador. As portas de abriram e entramos. Olhei para Fred atrás do balcão. Vi que ele ainda nos olhava com sorriso no rosto, parecia contente com alguma coisa. Olhei para Benjamim ao meu lado e ele também olhava para Fred. Comunicação por olhares. Resolvi tentar não entender. Instantes depois as portas de fecharam.
– Parecem ser bons amigos. – Quebrei o silêncio constrangedor.
– Fred? – Ele perguntou como se estivesse com seus pensamentos longes.
Concordei.
– Ele é um bom homem... Posso dizer que é a segunda pessoa em que confio mais depois dos meus pais. – Ele respondeu.
– Seus pais moram aqui? – Perguntei. Apenas nesse momento que fui perceber que nunca tinha ouvido noticia nenhuma dos seus pais.
– Sim, mas é um lugar mais afastado da cidade, por isso os visito três vezes por semana.
– Que interessante... Seus pais devem ser fantásticos.
– Na verdade não. – Bem respondeu enquanto parecia pensar no assunto – Digo, eles não são pais normais... Quero dizer, pais como costumamos encontrar por aí. Não entendem muito bem as coisas.
Soltei uma gargalhada e ele me encarou enquanto sorria.
– O que foi? – Perguntei entre risos. – Desculpe, mas fico imagino seus pais e...
– Não é isso... Fico aqui te olhando... Você – Ele respondeu enquanto me olhava com um sorriso no rosto – Fico me perguntando como você tem esse poder sobre mim... De me deixar feliz.
– Acho que deve ser pelo simples fato de eu estar com você. – Soltei antes que pensasse duas vezes. Quando notei o que tinha dito, meu sorriso sumiu tão rapidamente quanto tinha aparecido.
Benjamim ficou me olhando, sorrindo de canto a canto, tentando captar cada palavra que tinha saído da minha boca, quem sabe querendo entender ou até ouvi-las novamente.
– Desculpe... Eu não quis dizer... – Comecei a me explicar, enquanto fazia gestos com as mãos. Estava nervosa.
– Ema... Não quero suas desculpas. – Benjamim disse sorrindo, enquanto colocava, delicadamente, uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. Olhei bem no fundo dos seus olhos azuis. Eles brilhavam, e posso jurar que conseguia os ver sorrindo também.
Sorri em agradecimento e as portas se abriram.
O segui por um corredor até chegar ao apartamento 818.
Quando ele abriu a porta e nós entramos, meu queixo caiu.
A sala era o dobro da minha, sem contar aquela vista maravilhosa que ele tinha todos os dias para a cidade.
(Imagem nas notas finais)
– Sua casa é linda! – Exclamei enquanto absorvia toda aquela informação de uma só vez.
– Obrigado... Tive uma grande ajuda de Amélia na hora de escolher os móveis.
– Ela com certeza tem um bom gosto. – Devolvi já conseguindo voltar ao meu estado normal.
Ele balançou a cabeça concordando.
– Então vamos começar não é?!
– Claro! – Respondi esperando ordens.
– Pode se sentar no sofá... Vou buscar uma coisa e já volto. – Benjamim disse andando em direção até aquilo que ele chamava de cozinha.
Andei até os sofás, deixei minhas coisas em cima da mesa de centro e fui ver sua prateleira de livros.
Livros filosóficos.
Ficção científica.
Livros de direito.
Terror.
Mas eu achei um que nunca imaginei fazer parte da sua coleção de livros.
“Como conquistar a pessoa amada”
Não estava acreditando que ele lia aquilo, ou que já havia lido isso.
Na capa mostrava um casal ao pôr-do-sol de mãos dadas. Pareciam felizes. Então eu me perguntei, Benjamim era feliz como o homem do livro?
Folheei o livro tentando captar alguma palavra, frase ou até mesmo parágrafo interessante que fizesse algum sentido, mas ao invés disso eu achei uma frase escrita na última folha em tinta preta, com uma caligrafia bem conhecida.
“Você sabe qual é o motivo do meu sorriso todos os dias? A primeira palavra dessa frase.” Para E.C.W.
Era o que Benjamim havia escrito.
(...)
– Olha o que eu trouxe pra gente! – Ele disse trazendo consigo uma garrafa de vinho italiano e duas taças.
– Eu só acho que essa combinação não vai dar muito certo. – Afirmei enquanto ia até ele ajudar com as taças.
Sim, eu já havia guardado o livro.
Sentamo-nos no chão em volta da mesa de centro. Benjamim abriu a garrafa de vinho e nos serviu.
– Espero que goste. – Ele disse me entregando uma taça.
Bem ficou de pé e então eu fiz o mesmo. Não sabia o que estava acontecendo, mas resolvi seguir seu modelo.
– Um brinde! – Ele disse erguendo sua taça.
– A nós! – Completei.
– A nossa amizade! – Ele acrescentou com grande satisfação.
Sorri e nossas taças se encontraram fazendo um uníssono.
Parecia idiota fazer isso em duas pessoas, mas confesso que gostei.
(...)
– Então, como a data da edição da revista vai cair no dia 14, podemos unir o útil ao agradável.
– Dia 14 é o dia dos namorados, Valentine’s Day... – Falei me lembrando da minha data mais esperada do ano de quando tinha 13 anos. Sempre esperava ganhar um cartão de algum admirador, mas isso nunca aconteceu até eu chegar no primeiro ano do colegial. Eu cheguei na escola e quando abri meu armário tinha um cartão todo vermelho com escritas em dourado. Minha felicidade foi enorme, até eu descobrir que tinham colocado a carta no armário errado. Enfim, eu nunca recebi nenhum cartão de Valentine’s Day.
– Por isso a edição da capa vai falar sobre isso, exatamente, nada mais. Eles não pediram nenhum tema especifico, a não ser a parte de diferenciação de todos os anos. Pelo o que eu me lembro, ninguém nunca fez edição de Valentine’s Day, por isso dá muito certo.
– E por pura coincidência, a data de publicação da revista vai caí nesse dia. – Afirmei me animando com a brilhante ideia.
Ele sorriu se sentindo um gênio, depois pegou uma folha e começou a fazer anotações. Benjamim parecia tão confiante com o que estava fazendo, seus olhos percorriam as linhas enquanto ele lia o que tinha escrito, seus bravos fortes pressionados contra o chão faziam seus músculos crescerem dando aspectos de maiores.
– ... alguma coisa? – Ele perguntou me encarando. Seus olhos pareciam maiores e mais azuis, me perguntava o motivo.
Pisquei e então olhei novamente para ele.
– Hum...
– Você não escutou o que eu perguntei, não é?
– Desculpe, não.
Benjamim se levantou, e se sentou ereto. Abriu a boca algumas vezes, como se pensasse bem no que ia dizer, então por fim ele soltou:
– Tem alguma coisa entre você e Isaac?
Acho que minha cara de espanto foi tanta que o assustei. Sua expressão mudou rapidamente de curiosidade, para arrependimento total. Ele parecia querer tirar aquelas palavras do ar, parecia querer não ter dito-as.
– Claro que não. Isaac é apenas um... Amigo muito querido. – Respondi tentando disfarçar que estava muito chocada para responder.
Benjamim deu um sorriso amarelo e passou a mão no cabelo, de modo que ele ficou todo bagunçado.
– Vamos fazer o seguinte... Você e Amélia são felizes juntos? – Perguntei me lembrando da capa do livro.
Ele soltou os ombros, permitindo que seu corpo ficasse mais curvado, e então suspirou. Pareceu ter se sentido melhor, afinal agora nós estávamos quites.
– Não... – Benjamim respondeu vagamente.
– Como não?
– As coisas não vão nada bem... Bom, nós fingimos que não tem nada atrapalhando a gente, mas na verdade tem. Amélia é muito ciumenta, e por causa disso a gente brigou feio, desde então as coisas ficaram... Estranhas.
– Eu sinto muito... – Devolvi.
Ele realmente parecia triste com aquela situação, sabia que tinha que fazer alguma coisa, pois vê-lo assim me matava.
– Pode contar comigo se precisar falar alguma coisa. Já que Amélia não me procura para desabafar, acho que posso ser seu diário pessoal... Ou melhor, sua amiga.
Ele sorriu e então segurou minhas mãos.
– Eu me sinto mal às vezes, penso que devo sentar e conversar com ela, mas toda vez que eu tento fazer isso, ela diz que tem outro compromisso, que não pode falar comigo... E então fico pensando se não a estou traindo...
– Traindo? Você tem outra pessoa?
– Não, não nesse sentido... É que eu não sei se a amo mais. – Bem respondeu me encarando e de certo modo esperando uma resposta.
– Às vezes não é isso. Pode ser saudade, ou também falta daquela Amélia, do tempo bom de vocês... Deveria tentar se acertar com ela. Eu tenho certeza que você a ama.
– Eu já não tenho tanta certeza assim... – Ele devolveu enquanto sorria e soltava minhas mãos.
– Você consegue dar um jeito nisso, pois é você quem vai me ajudar com o Valentine’s Day. Quer uma pessoa melhor pra falar de sentimentos? Um namorado? – Falei rindo da minha piada sem graça.
Ele riu minimamente e se levantou indo até a cozinha.
Alguns minutos depois ele voltou com um pote cheio de pipoca.
– Sei que estamos a trabalho, mas já que adiantamos grande parte, podemos ver um filme. – Ele disse me entregando o pote.
Ele voltou e colocou um filme, do qual não vi o nome até começar.
Maze Runner – Correr ou Morrer
Benjamim voltou e nos sentamos no sofá.
O filme começou, mas totalmente sem sentido.
– Como ele foi parar ai? – Perguntei sem tirar os olhos da tela.
– Eu acho que é isso que vai explicar no filme. – Ele respondeu cochichando.
Concordei com a cabeça e voltei minha atenção para a TV.
– O que tem no labirinto? – Perguntei depois de alguns minutos.
– Coisa boa que não é... – Bem disse depois de colocar uma pipoca na boca.
Olhei para o lado, ele parecia bem concentrado, e melhor, interessado em ver o que ia acontecer.
– Que nojo! Isso deve ser horrível! – Exclamei quando vi o menino aceitar uma bebida totalmente desconhecida.
– Com certeza. – Ele disse logo depois de um suspiro e uma risadinha.
– Meu Deus... Me desculpe, eu to atrapalhando o filme. Acho que não sei assistir sem fazer comentários.
Então Benjamim olhou para mim, mas não parecia nada incomodado comigo, pelo contrário, ele estava rindo, como naquela hora do elevador. Parecia fascinado comigo, e isso me deixou intrigada.
– Tudo bem, podemos admitir isso, você não sabe assistir um filme, mas é uma ótima amiga. Não se pode ser bom em tudo. – Ele afirmou dando de ombros.
– Bom isso é verdade, sempre fui muito boa em uma coisa, e muito ruim em outra.
Ele sorriu e seus olhos azuis me hipnotizaram, não conseguia parar de olhar. Quando percebi, estávamos a centímetros de distância, sentia sua respiração lenta, mas que foi se tornando acelerada, sentia seu perfume, e conseguia sentir o calor do seu corpo. Comecei a sentir borboletas no estômago, então sua mão veio parar no meu rosto, nossos lábios quase se tocando, e eu ainda olhava seus olhos. Uma parte de mim queria se afastar e ir embora, mas a outra queria ficar e ver até onde aquilo ia parar.
– Thomas! Thomas! – Alguém falou.
Benjamim tirou sua mão do meu rosto e nós dois nos afastamos envergonhados.
– Eu me lembrei! Meu nome é Thomas!
– O nome dele é Thomas... – Ele disse se recompondo.
– Pois é como seu sobrenome. – Continuei enquanto passava a mão no cabelo.
Percebi Benjamim me olhar de canto de olho.
– Não vá embora. – Ele disse antes que pudesse fazer qualquer coisa.
– Não vou embora, a não ser se quiser que eu vá. – Respondi o encarando.
Ele balançou a cabeça em negatividade.
Voltamos nossa atenção ao filme, por mais que minha cabeça estivesse longe. Não conseguia parar de pensar nele.
(...)
(...)
Abri os olhos me libertando da escuridão. Via uma luz entrando da enorme janela. Minha cabeça latejava e minha visão embasada não me permitiu ver onde estava. O Sol queimava meus olhos recém abertos, então os fechei novamente.
A campainha tocou.
Rapidamente me sentei e abri meus olhos novamente. Não acreditei quando vi.
Estava na casa de Bem, e o Sol havia nascido.
Olhei para o sofá onde tinha dormido. Ele estava lá, dormindo profundamente.
A campainha tocou de novo. Então Benjamim despertou. Levantou rapidamente e me viu acordada.
– Espero que tenha tido bons sonhos. – Ele falou sarcasticamente.
– Nós dormimos juntos?
– Se quer dizer aqui no sofá, sim, dormimos.
Soltei os ombros e me soltei no sofá macio.
– Ah, acho que tem alguém apertando a campainha. – Disse enquanto massageava minha cabeça.
Ele andou até a porta e olhou no olho mágico.
– Ema! – Ele exclamou.
– O que foi? – Perguntei o encarando. Ele estava branco e parecia realmente preocupado.
– É a Amélia, ela está lá fora.
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