Roma XXVI

14 Festa sanguinária


Notas iniciais
Oi pessoal, faz um tempo que não posto nada (tá bom, muuuuuuuito tempo). Não vou dizer que retomei a história, nem que abandonei-a de vez. Mas terminei um capítulo e resolvi postá-lo. Aqui está:

Mesmo com todo o corpo dolorido, e com sangue escorrendo por cada parte da minha pele, dispenso a ajuda dos urubus e sigo tropeçando para o túnel que deverá me levar para o último andar. O túnel é revestido de mármore branco, e na primeira porta está estampada uma cruz vermelha. É claro, a enfermaria.

Os urubus passam por mim, carregando o corpo sem vida de Hércules, que se achava ser o favorito. E era mesmo. Como pude fazer isso, meu Deus? Eu não podia! Mas eu tive! Será que isso serve de argumento? Eu temo que não. Os urubus entram por uma porta no fundo, onde está desenhado um símbolo estranho. Uma letra T maiúscula, e, ao lado três estrelas. Mas não vou ocupar minha cabeça com isso, com certeza é onde o corpo será incinerado, ou enterrado... Entro na enfermaria, onde três enfermeiras estão de prontidão.

— Senhorita Ferron, por favor, deixe-me que a medique. — Diz uma mulher ligeiramente gorda, de feição simpática.

— Tudo bem.

Permito que ela me guie até uma cama, e tire minha armadura.

— Sinceramente, acho uma maldade enorme fazerem isso com vocês. Quando meu irmão... Esqueça.

— Espera aí, o que você disse? Seu irmão... Seu irmão é Morfeu?

— Oh! — Ela parece se assustar um pouco. — Não o chamo de irmão há décadas. Ele já deixou de ser.

— Mas você acabou de dizer: meu irmão. — Protesto.

— Estou velha querida, não vamos discutir. — Ela se vira e arruma uma injeção.

Sendo que ela é a primeira pessoa que me trata bem além de Helena, acho correto obedecê-la.

— Me dê seu braço. — Pede ela.

Coloco meu braço no seu colo, e ela aplica a injeção de cor esverdeada.

— Esta é nova. Quando você acordar, vai estar curada e limpa. Você vai dormir um pouco, querida. Quando acordar, me chame. Vou estar pronta para servi-la. — Minha vista começa a escurecer, e a dor começa a desaparecer. — Meu nome é Joana.

E então acontece, mas não é tão tranquilo quanto eu imaginei que seria. Um sonho estranho começa. No meu sonho, estou de um lado da arena, armada até os dentes com as mais diferentes armas. Do outro lado, está alguém que não consigo identificar. A arena parece muito maior.

Meu oponente corre até mim, e eu também. Desta vez a arena é uma floresta repleta de pinheiros, de aroma doce. Escondo-me atrás das árvores, mas ele me acha. Ou melhor, ela. À minha frente, brandindo uma espada, está Helena.

— Não, não, não... — Digo. — Helena! Por favor!

— Desculpe. Somos amigas, mas tenho que ser prática e direta. Só uma de nós vai sair viva daqui. E vai ser eu.

Sua espada faz um arco no ar, e atinge o topo da minha cabeça, me partindo ao meio. Enquanto minha visão se divide em duas, vejo o sorriso de Helena. Alguém começa a sussurrar no meu ouvido. Ela é capaz disso, não duvide. Você se mostrou uma forte concorrente hoje, todos querem eliminá-la.

Ouço essas palavras repetidas vezes, e acordo com lágrimas por todo o rosto, deitada em uma cama limpa e macia, gritando o nome de Joana, que já está ao meu lado secando as minhas lágrimas.

— Desculpe, me desculpe. Eles colocaram a substância do pesadelo no soro cicatrizante, eu não tive escolha.

— Você fez isso?

— Não! Eu precisava te medicar, e o único soro que podemos usar causa alucinações. Morfeu que quis assim, ele persuadiu o imperador! Mas olhe, está curada, limpa...

Olho todo o meu corpo. As feridas deixaram marcas vermelhas. O rompimento da pele na minha perna está costurado e não apresenta mais dor. Não sinto nenhuma dor. Me sinto enérgica e viva.

— Você tem que ir. Já se passaram quatro horas.

— Como você me curou em quatro horas?

— É o soro. Agora entende a importância? — Assinto. — Você precisa trocar roupas de gala, para a festa no terraço. É uma ordem de Morfeu.

— Está bem.

Joana me ajuda a colocar os sapatos de salto e o vestido longo preto, e faz um coque no meu cabelo, e depois me coloca uma máscara de plástico.

— É maquiagem. Tire, e vai estar pronta.

Retiro a máscara, e me olho no espelho no fim da enfermaria. Meus olhos castanhos estão muito maiores, e minha boca vermelha, e minha pele mais morena. Pareço saudável, como se nunca houvesse lutado. Não hoje, ao menos. O relógio marca uma hora da tarde. Não como há muito tempo, mas não sinto fome. O soro... Só pode ser! Tanta coisa ocorreu desde que acordei hoje de manhã... Parecem dias. O livro... Depois preciso pegá-lo, senão a curiosidade me mata.

— Não está de todo ruim. — Murmuro.

— Está belíssima, querida. — Diz Joana, envolvendo um punho com a outra mão aberta. — Não podemos perder tempo. — Ela abaixa o olhar para seus próprios dedos de unhas malfeitas e um pouco calejados, tristemente. — Venha comigo, por favor.

Ela segura minha mão com uma leveza surpreendente, e me conduz por uma sala onde vários outros competidores estão. Entre eles, está Rômulo, seminu, sentado em uma maca com um dos olhos inchado e roxo. Sinto um prazer sádico ao vê-lo assim, e faço questão de erguer a cabeça e dar-lhe um sorriso ao passar por ele, com o barulho dos meus sapatos como música de fundo.

Ele vira o rosto e me olha de cima abaixo com o olho bom. Murmura um xingamento inaudível, provavelmente espantado e frustrado a me ver saudável, feliz e bonita.

Joana continua a andar, me levando para um corredor comprido que da em um elevador estreito. As paredes de cor vermelho-sangue parecem estar prestes a prensar-me. A enfermeira me empurra para dentro do elevador e se permite um leve sorriso.

— Seria demais pedir para se divertir. — Diz ela, com pena. — Mas ao menos tente parecer forte. Você é pequena, sim, mas depois desta luta seus oponentes a olharão com outros olhos.

E sem que antes eu pudesse apertar qualquer tecla, o elevador emitiu um bip e fechou a porta de repente, e começou a subir em uma velocidade perceptivelmente alta. Deixei uma Joana de olhar terno e maternal lá embaixo.

Me olhei no espelho e joguei os ombros para trás, fechei os olhos por um instante e quando tornei a abri-los, estava de frente para uma festa de gala. Pessoas andavam de um lado para outro com taças na mão, abocanhavam pequenas porções de comidas estranhas e gargalhavam como se não tivessem acabado de sair de um matadouro. Vivas, sim, mas ainda um matadouro.

Procuro Helena por todos os cantos, enquanto olhares passavam por mim indisfarçadamente. Murmúrios percorreram o recinto. Já estava no centro dos assuntos da festa. Encontrei Helena sentada em um canto com um copo de bebida na mão. Corri e abracei-a.

— Não aguento mais, Helena. Não posso mais ficar aqui.

— Você tem que ser forte. Você conseguiu. Se acalme.

— Só queria que isso acabasse. Quando isso vai terminar?

Uma risada demoníaca quebra a homogeneidade de murmúrios baixos. Uma voz se eleva.

— Minha querida, não vai terminar.

Notas finais
E lembrando que, se você gosta desta história, não se esqueça de deixar um review. É muito motivador, e a cada comentário que você deixa de fazer, você impede o crescimento pessoal de um autor, e priva o mundo de uma futura obra. Por isso não se esqueça, não dói, e é grátis. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.