Rolling Girl
17 Capítulo XVII - O rapaz do Parque
Notas iniciais

Miku passeava o olhar nervosamente pela classe, ignorando completamente as palavras que eram proferidas pelo professor, que se baseava em aritmética, entretanto, a garota não se importava o suficiente com isso. Não, sua mente estava muito longe de qualquer coisa que não envolvesse a tarde de ontem. Atrás de si, em sua diagonal, situava-se o loiro que impregnou-se em seus pensamentos e, provavelmente, não os deixaria tão cedo. Já ele, se encontrava em uma situação não muito diferente. Seus olhos safiras corriam pela sala e, ora ou outra, repousava sob a garota que já teve a coragem de odiar.
Ambos estavam igualmente confusos. Afinal... O que diabos eles estavam fazendo? Se quer haviam se aceitado como amigos e quem diria que já estavam fazendo uma sessão de amassos no sofá. Nem Len poderia aceitar aquilo, mesmo com a personalidade tão calma que aparentava ter, principalmente quando o assunto fosse diversão com o sexo oposto, seja uma garota a sua volta, como SeeU, ou uma outra alheia, mas teria Miku o mesmo rótulo que estas? Nem ele sabia mais o que pensar, muito menos ter consciência dos próprios atos.
Para for da janela, o clima de primavera aparentava se passar mais do que rapidamente, parecia até mesmo abrir palco para o quente cenário de verão que teriam naquele ano. Quase já podia ouvir o som das cigarras cantando, porém a temperatura ainda teria que subir muito mais para chegar a esse ponto.
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Era terça-feira e tudo que os dois chegaram a compartilhar fora olhares rápidos e gestos de “bom dia”, ainda havia hesitação de mais para travarem um diálogo verdadeiro, no entanto, como agiriam quando chegasse a hora de ficarem sozinhos novamente, como faziam pelo menos uma vez por semana. A garota de turquesa estremecia quando pensava nesse ponto e seus lábios formigavam com a memória do que fora cometido na tarde de Quinta-Feira passada.
Miku caminhava pelos corredores da escola, tentando fugir do olhar alheio, uma vez que Rei sumira e IA, aparentemente, havia faltado aula devido a um problema em casa. Mais tarde Miku teria de se certificar se estava indo tudo bem. Por mais que ela e a rosada fossem chegadas, sua amizade ainda era muito limitada, restringindo-se apenas no local escolar e, raramente, na casa de Miku, esta nem se quer chegando perto da casa de IA, por motivos que ela desconhecia.
Entretanto, por mais limitada que fosse essa amizade, a garota turquesa não reclamaria. IA era sua melhor amiga, mesmo nunca tendo chegado a pisar em sua propriedade.
Miku, dessa vez, apertou o passo pelos corredores afim de chegar na sala de música. Já na frente da porta, abriu-a devagar, preparando-se para dar de frente com uma sala inteiramente vazia, porém um par de olhos heterocromáticos a fitou de soslaio, mostrando uma ponta de surpresa.
— Ruko-sensei! — Miku exclamou, um pouco abalada com a presença fora de hora da professora.
Ruko era o tipo de professora que aparentava ser imponente. Seus cabelos negros de comprimento mediano eram presos em duas caudas gêmeas, tendo em sua lateral uma mecha azul, tudo isso parecia realçar seus orbes de cores diferenciadas. Sendo um de tom avermelhado e o outro azul do céu noturno. Seu estilo contrastava seu corpo esbelto, sendo ele um casaco negro longo, batendo-lhe nos joelhos, calça social negra, uma camiseta acinzentada e gravata azul-marinho.
— Miku? — a professora piscou diante da própria pergunta, parecendo indagar o que a aluna fazia ali. Porém antes da mesma poder responder ela soltou um leve sorriso. — Faz tempo que te vejo, o clube de música não parece o mesmo sem você.
— Hehe... Eu também sinto falta...
— Soube que está no clube de teatro agora... unf, parece que Prima anda roubando alguns dos meus alunos. — a professora deixou-se soltar uma risada com o próprio comentário. — Como está indo lá?
— Ah, eu tenho que fazer algumas encenações solo e curtas para treinar de vez em quando, mas ainda preferiria estar aqui com a senhora no clube de música.
Ruko riu um pouco, sorrindo para a aluna.
— Eu também gostaria de te ver por aqui, mas sabe, esse ano terá o show de talentos de novo, vai decidir tentar mais uma vez?
Um silêncio um tanto quanto constrangedor se instalou no recinto, fazendo o olhar bicolor de Ruko parecer perfurar a garota que permanecia calada a sua frente.
Ruko sorriu, de forma mais suave e reconfortante.
— Sabe Miku, é normal que tenha medo depois de tudo o que aconteceu e ainda anda acontecendo. Mas sabe, quando eu era da sua idade eu também tinha medo de me apresentar para um público muito grande.
Os olhos de Miku se agitaram, surpresos, com o comentário da mais velha.
— O que? Você? Mas Ruko, você toca tão bem... E ainda tem um emprego secundário tocando em um bar durante a noite. — Miku insistiu de maneira infantil, com o olhar ainda pintado em descrença com o que fora dito anteriormente.
— E mesmo assim eu já tive que começar de maneira pequena. Ninguém começa grande Miku, se quer sendo adorado por alguém, isso depende do que você decide tentar e fazer para ser reconhecida. Ninguém virá te dando contratos, se você quiser isso, terá de fazer por conta própria.
Miku engoliu em seco com as palavras da morena. Podia até mesmo sentir sua pulsação acelerar consideravelmente.
— Mas do que adianta? Não acho que eles iriam mudar mesmo que eu cantasse certo qualquer música hit do ano.
Ruko apoiou seu queixo entre o dedo indicador e o dedão como se estivesse a pensar.
— Porque não canta sua própria música?
...
— O que? — a mais nova perguntou, não crendo nas palavras da professora.
— Sim, isso mesmo! Crie uma música, você é boa nisso, já até li algumas de suas letras e partituras. Faça uma música e mostre a eles, não, jogue nas caras deles o que você sentiu e o que eles lhe fizeram por tanto tempo.
— Mas como eu posso fazer isso? Quero dizer... Já tentei escrever uma música e, na verdade, ainda estou tentando, mas nunca cheguei a termina-la. — a garota baixou seu olhar para os pés, que pareciam um ponto mais atrativo do que o rosto da professora.
— Miku, cante seus sentimentos. Você é a única que poderá canta-los, pois a única pessoa que pode senti-los e entende-los por inteiro é você mesma. Ora ou outra você pode entrar em dúvida com o que realmente está se passando consigo, mas, com o tempo, você vai conseguir entender. Se achar melhor, mostre sua dúvida na música, ou mostre alegria, tristeza, qualquer coisa que você acha que gostaria de transpassar para os ouvintes. — a morena piscou um de seus olhos para Miku, fazendo algo parecido com um “L” com o indicador e o polegar, mostrando um sorriso.
Em seguida, Ruko fora em direção a uma mesa, em que havia várias coisas espalhadas desorganizadamente, provavelmente sua própria mesa, e voltou em direção a aluna que ainda fitava tudo com curiosidade. Foi então que Miku notara que a sensei carregava alguma coisa em suas mãos, que se mostrou uma folha e um lápis, devidamente apontado, com uma borracha na ponta.
— Segure isso daqui — disse ao estender os objetos. — Pode começar escrevendo a letra e, se quiser, posso te ajudar a encontrar um ritmo, mas seria interessante se você tivesse uma ideia de que tipo de melodia você usaria. Lembra-se o que eu te ensinei sobre como encontrar a canção perfeita, certo?
Miku segurou o lápis e o papel.
— Escrever a letra através dos sentimentos e experiências. A melodia será usada para passar às pessoas o que você quer que elas sintam, seja tristeza, alegria, angustia e todo o tipo de sentimento que se pode colocar em uma partitura. — a menor respondeu com certa nostalgia.
— Isso mesmo, como eu esperava de uma das minhas melhores alunas. E lembre-se do mais importante. — Ruko desviara seu olhar para cruzar com o de Miku, apenas para ter certeza que esta estava a prestar atenção em suas palavras. — Você consegue.
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“Uma música”
Essas palavras apoderaram-se da mente de Miku em quanto a mesma permanecia sentada em baixo de uma das árvores do parque central após o término da aula. Estava com esperanças de que a paisagem naturalista incentivasse sua vontade de escrever, mas até agora nenhuma luz surgiu, continuava apenas com o lápis na mão direita e o papel em branco em cima do caderno que usava para apoio entre suas pernas.
— I-isso é impossível! — choramingou, deixando sua testa bater de leve com os joelhos, fechando-se em uma posição semelhante a uma bola. Sua madeixas caiam feito uma cascata de azul-petróleo sob seus ombros até as pontas alcançarem a grama esverdeada.
— Uma garota como você não devia dizer esse tipo de coisa. — uma voz intrusa soou em seus ouvidos, fazendo-lhe levantar quase que imediatamente a cabeça para mirar o estranho.
Este se revelou como um garoto alto, talvez um ou dois anos mais velho que ela, seu cabelo era de um loiro extremamente claro, provavelmente fora platinado, ela pensou. Em ambos os lados de sua cabeça, caiam duas mechas um pouco mais longas que o resto do corte do cabelo. Seus olhos recebiam o tom de um vermelho leve e cintilante, ao contrário do sanguinário e vibrante de Tei, não, o olhar do estranho era mais reconfortante do que aquilo. Seus ombros eram largos, o que dava jus a sua altura, já que ele era, no mínimo, uma cabeça mais alta que a garota.
— Ahn... Oi? — fora tudo o que Miku conseguira dizer, não era acostumada a conversar com estranhos, principalmente estranhos bonitos.
Uma risada suave fora solta dos lábios finos do rapaz.
— Acho que eu estou te atrapalhando, não é?
— O que? Ah! Não, não, não... Eu estava tentando escrever uma música, bom... pelo menos a letra.
— Você escreve músicas? Isso parece tão legal. Penso que deve ser difícil. — o estranho soltou, ainda com o sorriso posto nos lábios.
— N-não, eu não escrevo toda hora, na verdade, nunca cheguei a terminar as que eu começo. Eu só estou tentando escrever uma porque eu acho que vou participar de uma competição que vai acontecer na minha escola ao final do ano.
O loiro sorriu mais abertamente, dessa vez mostrando quase todos os dentes.
— Isso parece tão legal! Acho que a escola em que eu me transferi agora não tem dessas coisas...
— Você é novo por aqui? — ela decidiu perguntar, afinal, o rapaz já estava fazendo perguntas também.
— Sim, meu pai foi viajar e decidiu me deixar vivendo com meus tios aqui na cidade, estou em uma escola do lado norte da cidade, estou no segundo ano do ensino superior, e você?
— Ah, eu estou em uma do lado leste, primeiro ano do superior. Que pena, acho que vamos estudar em escolas diferentes.
O loiro fez um pequeno muxoxo, era até engraçado ver um rapaz daquela idade agir de uma maneira feito aquela, porém tinha certa fofura aos olhos de Miku.
— A propósito, meu nome é o Yohio.
— Miku.
Os dois continuaram a conversar sobre coisas aleatórias, apenas ouvindo o farfalhar do vento e os pássaros na copa das árvores. Miku descobrira que Yohio viera de uma cidade do interior e que ele realmente não sabia muito sobre a cidade grande, não que aquela fosse chegar perto de uma Kyoto ou de uma Tokyo, mas parecia que mesmo assim esta era maior do que o rapaz estava acostumado.
Miku contou um pouco de sua situação na escola, já que acabaram chegando no assunto. Yohio não pareceu gostar muito de saber que ela era alvo de seus colegas e até pareceu ficar meio revoltado. A timidez de antes se fora com o passar do tempo.
— Bom, acho que já tomei seu tempo de mais, e eu também tenho que fazer algumas coisas em casa. — ele retirou um pedaço de papel qualquer do bolço e pegou o lápis das mãos de Miku, pareceu anotar algumas coisas antes de devolver o papel e o lápis nas mãos da garota. — Esse é o meu número de telefone, sabe, é chato ser novo na cidade e, pelo menos, vou tentar conhecer alguém. Você se importaria de passar o seu? — Yohio se levantou, apalpado as calças para retirar as folhas que caíram nelas.
— Óbvio que não. — ela sorriu, tirando um pedaço da folha em branco e não demorando pra entregar-lhe o número.
— Até mais, Miku! Me chame se precisar. — ao final ele apenas levantou uma mão em sinal de adeus e se retirou.
— Até...
Ao longe, um par de olhos cerúleos observava a cena, com um brilho perigoso cintilando em sua íris.
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