Rolling Girl
7 Capítulo VII - Paz... por enquanto
Notas iniciais

Miku havia simplesmente congelado no lugar em que estava. Os olhos cerúleos a fitavam com certo espanto, porém com curiosidade. A praça de alimentação estava semivazia, o que a deixava um pouco silenciosa, mas aquilo ainda era um shopping em um sábado a tarde e era impossível de ficar silencioso.
Por sua vez, Len fitava a garota a sua frente, estranhando o fato dela estar tão assustada. Notou as roupas que ela estava trajando, totalmente diferentes daquelas que ela usava na escola. A saia era mais curta — não mais curta que a da sua irmã ou de suas amigas, é claro — as meias altas cobriam parcialmente suas pernas e os braços estavam cobertos por um fino casaco. É, ela estava bonita, mas nunca admitiria, nem mesmo a ele próprio.
Miku virou-se subitamente e tomou o mesmo passo de antes para sair do olhar crítico do loiro. Este, como o bom atormentador que era, perseguiu-a até estar um passo atrás da garota, acompanhando o passo da mesma.
— Você parece pálida... — comentou com o sorriso de seu caráter irônico.
— Para de me seguir! — esbravejou-a.
— Não estou te seguindo, você que está indo para o mesmo lugar que eu. — o garoto disse com ironia disfarçada de inocência.
De repente Miku havia estaqueado de novo e olhou atônita para uma dupla de estudantes que estava vindo. Gakupo e Piko, novamente. Len olhou dela para os dois até que a garota teal correu para um beco próximo de onde estavam que, provavelmente, levava aos armários de limpeza. O loiro apenas observou-a se esconder nas sombras com uma sobrancelha arqueada e o semblante confuso.
Seus colegas passaram e o cumprimentaram antes de voltarem a seguir o caminho que estavam. Len ao ver os mesmos a uma certa distância decidiu entrar no pequeno beco e olhar para os lados até encontrar Miku sentada ao lado de um armário de metal. A garota estava recostada na parede e abraçava os joelhos, apoiando o queixo sobre os mesmos.
O loiro suspirou e, por algum motivo que ele não entendeu direito, sentou a alguns palmos de distância da menina que se encontrava fitando o chão.
— Entãããão... — disse, fazendo a garota estremecer. — [...] devo perguntar o que houve ali?
— Não é como se você realmente se importasse. — Miku disse sem desviar o olhar do chão de linóleo, fazendo o rapaz olhá-la de soslaio em quanto descansava seu braço no joelho.
— Isso é verdade, mas, qual é, eu estou de dando aulas de graça, o mínimo que você precisa fazer é me fazer alguns favorzinhos bem pequenininhos. — o loiro virou-se para fitar a menina. Esperou alguns segundos, vendo que ela não estava falando nada decidiu voltar a se recostar na parede. O local ficou silencioso por um momento, tirando o fato dos barulhos do shopping, é claro.
— É que... — A voz de Miku morreu por um momento, amaldiçoando-se por estar falando coisas que não deveria ao Kagamine.
— É que? — Len encorajou. Ele viu Miku morder o lábio inferior, notando que aquilo era uma mania da garota.
— Eu não queria ter vindo aqui.
O loiro arqueou uma sobrancelha, pela quinquagésima vez naquele dia.
— Por...?
— E-Eu não gosto. Eu sabia que eu ia encontrar vocês aqui... e eu odeio isso. — Miku escondeu seu rosto entre os braços, juntando mais as pernas ao seu corpo, instigando o loiro a olhar a saia que estava subindo cada vez mais. O loiro tentou chutar os pensamentos pervertidos para longe.
— Certo, certo. Se você não queria ter vindo aqui, porque veio em primeiro lugar?
— A Haku disse que era bom eu sair de vez em quando.
— Haku é sua mãe? — ele perguntou, vendo a garota balançar a cabeça negativamente, vendo sua expressão confusa ela continuou a falar.
— Haku é a mulher que cuida de mim. Meus pais vivem viajando, nunca estão na cidade e meu irmão estuda lá no outro lado do país, por isso que pediram para ela cuidar de mim. — o rapaz ouviu a menina que ainda se escondia entre os braços, pensando que a mesma estava sozinha fazia algum tempo, provavelmente.
— Mas porque você disse que não queria sair porque iria encontrar “vocês”? Esses “vocês” seria eu e o pessoal da escola?
A menina assentiu e soltou um baixo “aham” antes de abrir um vão entre os braços e capturar o olhar azul do loiro. Ela parecia descobrir as perguntas que ele faria apenas olhando em seus olhos.
— Não queria que vocês me vissem desse jeito, com essa roupa e sozinha. Vocês já falam muito de mim, se me vissem em um sábado de tarde, num shopping e sem ninguém eu teria medo de pensar o que fariam... ou diriam.
Len engoliu em seco após a fala da garota ao seu lado. Desviando o olhar para o lado oposto da mesma, porém voltou-se novamente para ela e soltou um suspiro.
— Hey, antes de você esbarrar em mim, eu também estava sozinho. — dito isso ele contraiu seus lábios em um pequeno sorriso e seu olhar se tornou mais confortável.
Miku fitou-o nos olhos, com as bochechas quentes e o olhar surpreso.
— É... acho que sim... — disse por sua vez.
— Já que você não é acostumada a vir aqui, porque não damos uma volta? — Len se levantou, olhando para Miku, que ainda estava na mesma posição de quando chegara.
A garota teal se levantou do chão e seguiu o loiro para fora do corredor, encontrando as luzes fortes do shopping e, vendo que Len continuou a andar, ela o seguiu. Passaram para o terceiro andar, sendo que ainda estavam no quarto e o loiro decidiu parar em uma loja voltada para eletrônicos, onde começou a paparicar um fone de ouvidos beats pretos com alguns detalhes em amarelo, ao Miku se aproximar viu o preço do mesmo e sentiu-se mais pálida, dando aproximadamente ¥ 81.2471 (R$ 1.759).
— Vo-você não vai...
— Não vou o que? — perguntou Len, sem desviar seu olhar do eletrônico em mãos.
— Você não acha isso meio caro? — insistiu.
— Mas vale totalmente apena, é confortável e ele diminui totalmente o barulho externo, é dobrável e é da beats! — a garota jurou ver os olhos do loiro brilharem ao falar tanto daquilo. — Hey, vendedor, eu compro!
— O QUE?! — Miku já estava pirando.
— Ei, se acalme, já comprei coisas mais caras. — ele deu de ombros. — Fique aqui que eu vou ir lá pagar.
Ela o viu se afastando e foi dar uma olhada nos outros aparelhos. Pelo visto Len era um riquinho, mesmo não querendo admitir. Pelo menos não era do tipo riquinho esnobe... não tanto.
Ao andar algumas prateleiras chegou a uma parte onde havia alguns instrumentos musicais e deixou-se demorar lá. Olhando os variáveis designs de guitarras, baixos, teclados, entre outros. Não tocou em nada é claro, tudo aquilo era caro de mais e, sendo desastrada do jeito que era, preferia dar certa distância.
Andou por entre as fileiras e continuou olhando qualquer coisa que chamasse sua atenção. Gostava de demorar nessa parte musical da loja. Abaixou-se para olhar a prateleira inferior e olhar alguns estéreos pequenos. Lembrava-se de quando ela veio aqui com Haku para escolher sua guitarra. Deliciando-se com as memórias não notou quem se aproximava.
— Hatsune? — a garota tomou um susto e correu seu olhar para a esquerda até encontrar o olhar cerúleo que já conhecia.
— Rin? — Outra voz, dessa vez masculina, Miku virou-se e encontrou Len a sua direita, com uma das mãos dentro do bolso do casaco que usava e a outra carregando uma pequena sacola de plástico branco.
Miku se levantou e ficou entre os dois e Rin se aproximou dela, com um sorriso presunçoso.
“Hoje será divertido”, pensou a loira.
— Miku! Não sabia que você sabia sair de casa num sábado. Não me lembro de te ver por aqui antes... se perdeu?
— Não é da sua conta o que eu faço aqui...
— Hora, você está aqui para comprar alguma coisa pro próximo show de talentos? — riu-se.
— Rin, acho que já chega. — Len pediu à irmã, que o olhou chateada. Ela se aproximou do irmão e virou-se para Miku, que continuara de costas, voltada para o outro lado.
— Mas Len, só estamos conversando, não é mesmo Miku? — riu novamente do silêncio da garota. — Nee, Miku, onde está aquela sua amiga? — Rin olhou para os lados. — Não me diga que você veio aqui sem ela? Bom, vai ver ela já se cansou de você, não me admira que ela não queira vir com você. Vai ver ela só tenha ficado com você no colégio por pena.
Len viu o modo que Miku apertou suas mãos em punho e colou-as na lateral do próprio corpo. Viu o modo com que os punhos tremiam e sabia que se continuasse daquele jeito as coisas só iriam piorar.
Então ele fez algo que, se o seu eu de uma semana atrás ouvisse, não acreditaria em tal feito. Tomou um passo a frente e, fazendo Rin se calar, pegou o pulso esquerdo de Miku e arrastou-a para fora da loja. Ela não havia lutado contra, o que era um mau sinal, mas ele desceu as escadas até o térreo e passaram-se alguns bons cinco minutos até eles saírem do shopping e ficarem de frente para um banco que estava a alguns metros da entrada/saída.
Ele soltou o pulso da garota e este pendeu para o lado do corpo da mesma, a cabeça abaixada fazia sua franja cobrir-lhe os olhos, deixando somente seus lábios comprimidos a mostra.
— Miku? — o loiro a chamou, fazendo-a levantar a cabeça e fitar o rapaz que engoliu em seco ao ver as lágrimas presas nos cantos dos olhos azul-petróleo. Nesse instante soube que Rin havia tocado em um assunto realmente muito delicado.
A garota sentou-se no banco e começou a secar as lágrimas que estavam se formando, tendo cuidado para que nenhuma caísse. O Kagamine ficou de frente para ela, observando sua reação sem dizer uma única palavra. Miku fechou os olhos e respirou fundo.
— Está se sentindo um pouco melhor? — perguntou.
A garota assentiu de leve e abriu os olhos tão azuis quanto seus cabelos. Len sentou-se ao lado dela, ficando a uns três palmos de distância da mesma.
— Eu não entendo. — ela quebrou o silêncio.
— O que?
— Por que vocês fazem isso comigo? — ela perguntou, atraindo o olhar aturdido de Len para si. — O que eu fiz para vocês? — ela murmurou, novamente com a voz chorosa.
Len, pela primeira vez em dias, não teve uma resposta para isso. Por que faziam aquilo? Por diversão, talvez? Ele não sabia mais. Só ficou a observar a menina de cabelos teal a fitar o chão desolada, esperando por uma resposta que talvez nunca viria.
=/=
Miku finalmente havia voltado para casa e já se encontrava com o computador em mãos, conversando com a mesma pessoa que ela conversava a uma semana.
Rolling Girl: Sabe, hoje eu encontrei uma pessoa que eu achei que eu não iria querer encontrar, mas ela se saiu melhor do que eu acreditaria.
Mine-Kun: Assim fico com ciúmes, hahaha, mas porque você diz isso? Essa pessoa te tratava mal ou algo assim?
Rolling Girl: É, pode-se dizer que sim. E a irmã dele vive me incomodando também.
Mine-Kun: Conte-me mais sobre ele.
Rolling Girl: Bom, ele tem a minha idade, tem uma irmã gêmea que me odeia e, pelo o que eu vi hoje, ele tem um espírito consumista, porque chegou a gastar um horror pra comprar um fone de ouvido da beats.
Mine-Kun: ... Qual é o nome dele?
Rolling Girl: Len. Por quê? Você conhece?
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Mine-Kun está off-line
— Eh? — Miku perguntou para o computador, como se ele fosse responder.
=/=
Numa casa não muito longe dali um garoto loiro de olhos azuis cerúleos olhava para o plano de fundo do seu notebook. O dia havia sido muito corrido, acontecendo coisas que ele nunca, jamais, acharia que iriam acontecer.
Ele suspirou, deixando-se cair sobre a cadeira, fazendo-a reclinar ligeiramente.
— Eu já deveria ter desconfiado. — disse fitando o teto, ainda sem acreditar na última conversa do site “Yuronoro”.
A porta de seu quarto se abriu, revelando uma mulher alta e bonita, chamada de Ann.
— Len, querido, o jantar está pronto.
— Já vou indo mãe...
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