Rolling Girl
22 Capítulo XXII - Planos
Notas iniciais

A cabeça de Miku estava empilhada de várias coisas e a mesma estava entrando em delírio, entretanto, pela primeira vez em muito tempo, os motivos do seu atual estado não se fixava somente em um loiro em particular e sim, mais especificamente, em todas aquelas pilhas de provas uma atrás das outras.
Todo dia a garota tinha que estudar, ainda dividindo seu tempo entre escola, clube e, em alguns certos momentos, Len se aproximava para uma iniciativa de carícia. Não estavam realmente namorando, pelo menos não que Miku soubesse, porém boatos voavam pelos corredores da escola e a garota quase conseguia sentir os olhares que recebia pelas costas enquanto passava pelos corredores.
Determinada a não ir mal nas provas, decidiu seguir o conselho de IA e ignorar todo o resto. Com a chegada dos exames até mesmo Len decidiu se afastar para se concentrar em seus próprios estudos, sabe-se lá se o rapaz realmente estudava.
Naquela tarde de terça-feira, Miku chegara tarde em casa, logo sendo recebida por uma casa extremamente bagunçada e uma albina desarrumada, como se houvesse trabalhado o dia inteiro sem chance de intervalo.
— Haku-san? — Miku chamou, observando a mais velha revirando uma caixa que retirara de uma estante da sala. — O que está fazendo?
Finalmente notando a presença da garota, Haku, que estava ajoelhada, voltou-se para a mais nova, um pouco confusa.
— Miku? Chegou atrasada. — seus olhos pareiam ponderar.
— Eu tive que fazer umas coisas no clube de teatro, foi mal não avisar previamente, mas... o que você está fazendo?
Haku desviou rapidamente seu olhar para o conteúdo na caixa, antes de voltar a olhar a garota em seus olhos.
— Eu estava procurando algumas coisas para levar na viagem. Lembra? Eu saio semana que vem. Quarta de manhã terei de estar no aeroporto de Tóquio, então sairei de casa na terça.
O semblante de Miku pareceu murchar consideravelmente, fazendo com que sua guardiã sentisse o peso da culpa novamente. Esta levantou de onde estava, pondo-se de frente à garota.
— Não fique assim, tenho uma notícia que vai te deixar muito feliz. — disse, mostrando-lhe um sorriso materno e chamando sua atenção.
— É melhor ser muito boa...
— Seu irmão ligou dizendo que vai passar as férias de verão com você. — cantarolou. — Isso não é fantástico? Aposto que ele está com muitas saudades de você e vice-versa, certo?
Haku sorriu mais ainda ao ver o rosto de Miku se iluminar com suas palavras. Sim, a albina não conseguia a ver somente como uma garota da qual obtivera a tarefa de cuidar, ambas ficaram tão próximas que já se viam como mãe e filha, uma apoiando a outra.
— Ah, e parece que sua mãe ligou, dizendo que ela e seu pai vão dar uma passada aqui também, nas férias. Família toda reunida, heim? Queria estar aqui, hunf.
— Uau! Um mês com o Mikuo-nii? E a mamãe e o papai também vão vir? Isso é maravilhoso, Haku-san.
— Sim, é sim. Mesmo que eu não esteja aqui, você não vai estar sozinha, Miku. — a mulher completou sua frase acariciando a lateral do rosto da mais nova, puxando-a para um abraço apertado.
No fim, Miku percebeu que não saberia como dizer “até logo” para ela.
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“Finalmente, último dia de provas.”
IA pensava.
A rosada andava lado a lado com Miku, que tagarelava sem parar devido ao nervosismo pré prova. Contudo, não poderia culpar a amiga, porque até mesmo ela estava com um frio na barriga só de pensar que, logo depois desta prova, viriam as férias.
— Imagina se eu ou você pegar recuperação e tiver que ter aulas de reforço durante as férias. — choramingava. — Iaaa. — resmungou o nome da amiga, que apenas olhou de soslaio com uma expressão aflita.
— Miku, agradeceria se você não colocasse essa ideia na minha cabeça. Já basta ter tido esse tempo todo de aula, não sei o que faria se tivesse de arcar com a recuperação.
— Mas hoje é prova de físico-química. Química! E se... e se eu ir mal? Só de pensar que terei de enfrentar aqueles cálculos novamente me faz entrar em pânico!
IA revirou os olhos e conteve o riso do pavor de Miku, que apenas piorava com cada comentário da mesma.
— Se não em engano você estudou com o Len durante esse tempo. Se vocês não fizeram outras coisas além de estudar,... — disse, dando ênfase nas últimas palavras, deixando a amiga ruborizada. — [...] você vai ir bem. — completou.
— Talvez você tenha mesmo razão, mas mesmo assim...
IA não a deixou terminar de falar, cortando-a.
— Vá indo pra sala, vou ir ao banheiro. É rapidinho.
— Certeza que não quer que eu vá com você? — perguntou.
— Não precisa, volto rápido. — sorriu, antes de girar nos calcanhares e partir em um passo rápido em direção aos sanitários.
A rosada pensou em o quão incrível uma simples ida ao banheiro podia preceder a uma longa linha de pensamentos. Sua mente traçou uma lista de todos os acontecimentos que aconteceram desde que as aulas haviam começado naquele trimestre.
O resultado a impressionou, quem diria que tantas coisas podiam mudar em alguns simples meses. Sua memória começou então, a focar em um momento da semana anterior, em que ela e um certo moreno, proprietário de um par de olhos de intenso dourado, estavam ambos em uma certa cafeteria.
“Algum dia você realmente gostaria de conhecer seus pais biológicos?”
Aquela pergunta a havia pegado desprevenida, então não conseguira dar uma resposta clara na hora, deixando a dúvida pairar na mesa. Nem ela sabia se realmente queria conhecer a verdade por trás de sua linhagem, estava feliz com o casal que a adotara. Em sua mente, seria indelicado da parte dela buscar seus pais biológicos, porque, por mais idiota que parecesse para os outros, temia que pudesse feri-los.
Sim, ela estava em um dilema. E a garota conseguia complicar mais do que realmente aparentava ser.
“Algumas coisas são melhores de não saber”
Ela pensou enquanto saía do banheiro.
Foi quando se deu conta da pessoa que a esperava do lado de fora, recebendo, daqueles mesmos olhos dourados, um convite de aproximação e, sem realmente querer, pegou-se indo em sua direção.
— Ãhn... como sabia que eu estava aqui? — decidiu tentar uma iniciativa de diálogo, mas o silêncio da outra parte lhe fez perceber que não julgara ser uma pergunta importante, sendo prontamente ignorada.
Alguns segundos de silêncio entre eles se passaram, porém, de forma inesperada, Rei quebrou o momento de quietude e, antes mesmo de ele começar a frase, IA já sabia o que o rapaz iria falar.
— Você não chegou a responder aquela minha pergunta, na semana passada. — sua voz saiu um pouco mais baixa que de costume, quase como se esperasse com cautela as ações da garota ao seu lado.
— Eu não tenho certeza... — o olhar que recebeu a fez encolher ligeiramente seus ombros. — Quero dizer, eu posso deixar meus pais chateados se eu for procurar esse tipo de informação.
IA não soube o que aconteceu, mas percebeu que Rei parou no lugar em que se encontrava, olhando para ela de um modo que não soube descrever o que o outro podia estar pensando direito. Talvez um misto de descrença, dúvida e precaução com as palavras que deveria usar naquele momento.
Com toda certeza, ela nunca viu pessoa mais cautelosa que o moreno.
— Olha, IA, eu não sei que tipo de... Relação você e seus pais têm. Entretanto, eu pensei que você gostaria de saber uma coisa dessas. Seus pais adotivos devem ser pessoas maravilhosas, não acho que eles se chateariam com isso. Talvez fiquem um pouco apreensivos, mas creio que você não iria deixa-los só por ter conhecido seus pais de sangue.
— Eu nunca faria isso. — teimou, desviando o olhar para o lado oposto.
— Eu sei que você não faria. — disse, com suavidade em sua voz. — Então eu pensei... Caso você queira, eu posso te ajudar.
Agora foi a vez dela o olhar com incredulidade.
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As provas haviam finalmente acabado e Miku não poderia se sentir mais livre, leve e solta. Então, a primeira coisa que ela fez após sair da sala, foi ir em direção ao clube de música, que nesse meio tempo estaria vazio.
Não havia melhor lugar que Miku conhecesse para se compor uma música. Simplesmente pisar naquela sala lhe dava algumas ideias para colocar no papel. Sabe-se lá o porquê disso.
Só de pensar em todos os anos que ficara lá, tocando com o clube de música e a professora Ruko, a faziam arfar de nostalgia, mesmo que tudo aquilo fosse a pouco tempo. Talvez o clube de teatro estivesse drenando toda aquela comodidade que sempre sentira e construíra naquele lugar em especial.
Sentou-se no banco e puxou o caderno de letras. Talvez a parte de ter que rimar fosse a pior de todas, isso limitava em muito o que gostaria de colocar em uma frase. Ruko a ensinou que cada estrofe podia-se levar de horas a dias para ser montada e que o conteúdo presente na letra dependeria da dedicação do compositor. Por isso, cada palavra, cada rima e cada estrofe, Miku demorava cada vez mais, de tamanha era seu desejo por criar uma música perfeita. Em uma folha aleatória do caderno, a música “Shinkai Shoujo”, permanecia ainda incompleta.
Enquanto um dicionário inteiro de possíveis rimas apareciam em sua mente, sem perceber ela cantarolava uma melodia agitada, provavelmente aquilo seria a melodia “matriz” da música.
Ela ouviu a porta deslizando-se, indicando que alguém estaria entrando. Um alarme soou no fundo da cabeça da garota, fazendo-a fechar o caderno na velocidade da luz e voltar-se para o recém-chegado.
Este se mostrou ser o rapaz com as madeixas douradas.
— Len? — piscou, levemente pasma, sem saber como ele a havia achado.
— Você não deveria estar aqui depois da aula, e se a escola fechasse? Você ficaria presa aqui dentro. — resmungou e, ao aproximar-se dela, puxou outro banco para se sentar a sua frente.
— Nem está tão tarde assim. — disse, olhando pela janela e vendo alguns alunos ainda na frente do colégio. — Eu falei com Ruko-sensei e pedi para ficar um pouco por aqui. Ela iria vir aqui me avisar previamente o momento em que era para eu ir embora.
— Certo, certo... Mas o que estava fazendo? E que caderno é esse? — perguntou, vendo o objeto de capa azulada nas mãos da garota.
Miku apertou o caderno em suas mãos, quase temendo que ele o tomasse dela.
— Não é nada de mais. — murmurava, olhando para seus próprios pés.
Len observava-a, vendo sua expressão desanimar um pouco.
— Eu sei que não é “nada”, pode falar, não é como se eu fosse rir ou algo do tipo. — insistiu mais um pouco, abaixando-se um pouco com a intensão de chamar a atenção do olhar feminino.
— Eu estava escrevendo uma... Música. Lembra? Acho que eu... Te falei qualquer coisa. — soltou.
— Posso ver? — perguntou, esticando a mão para tocar no caderno, que fora abruptamente afastado pela outra.
— NÃO! — bradou, logo tomando uma tonalidade vermelha em suas bochechas. — Quero dizer... Ainda não está pronta...
Len a olhou em confusão, mas deixou suspirar, levantando do banco e indicando para que fossem embora. Ela o fez.
— Então... Quando estiver pronta, eu posso dar uma olhada? Ou melhor, te ouvir cantar? — pediu, abrindo um sorriso que a fez derreter instintivamente.
— Talvez... — disse desviando o olhar, sem saber ao certo se iria cumprir com a promessa.
Devido a falta de atenção no ser a sua frente, não vira sua aproximação. Tudo o que notou antes do beijo foi sua chegada repentina.
Eles faziam coisas como aquelas. Ele a surpreendia em todos os aspectos quando se podia, sendo exageradamente voluptuoso quando queria. Não demorou para que ele adentrasse em sua boca, sentindo ambas as línguas entrelaçadas. Sentiu sua cintura sendo enlaçada pelos braços do outro, cada vez mais prensada entre ele e o abraço. E, para completar, o rapaz ainda brincava com a barra da camisa de Miku, ora ou outra tocando sua pele.
Separaram-se, deixando um fino rastro de saliva que se desfez com a distância. O loiro teve de segurar o riso ao ver as bochechas de Miku tão enrubescidas por causa de um simples beijo. Okay... talvez nem tão simples assim.
— Então... você tem algum plano pras férias? — perguntou, como se não querendo nada.
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