Rolling Girl
13 Capítulo XIII - Clube do teatro
Notas iniciais

Miku encarava seus próprios pés, derrotada. Já havia feito um mês a partir daquele episódio fatídico na casa dos gêmeos e, desde então, ela fazia milagres para não precisar encarar o loiro novamente. Já chegara a faltar duas das suas aulas, dando desculpas levemente esfarrapadas sobre “Haku precisava de ajuda”. Na última aula, de tão apavorada que chegara a ficar, mentiu dizendo que teria que ir à casa de uma amiga de Haku, junto da mesma, pois era seu aniversário e, para não retomar as aulas perdidas, dizia que estava tudo bem e saía de perto do loiro. Mas o que realmente o deixara desconfiado foi a ausência completa da garota no site Yuronoro, ou, pelo menos, só para ele que nunca mais fora respondido desde então.
Nos corredores, Miku fazia de tudo para não ter de se quer encontrar o loiro ou algum de seus amigos. Muito menos a irmã gêmea e SeeU. Uma vez, Luka chegou para tentar uma iniciativa de diálogo, porém a Hatsune, quando a viu se aproximar, fingiu não ter notado e deu a volta, fugindo da vista da rosada mais velha.
Não havia o que dizer, Miku simplesmente não sabia mais como agir. Em sua mente, esse afastamento podia fazer com que ela se acalmasse e, talvez, fazer a “outra Miku” não retornar das cinzas. Não sabia mais como ela mesma se sentia. Sua mente e coração estavam tão bagunçados que, se pudesse dizer, até mesmo um psicólogo se perderia. Não queria ser derrotada mais uma vez e estava decidida a aumentar o ódio que sentira por Len, nem que tivesse que ser a garota mais detestável da escola para que ele voltasse a ser quem era.
Além de todos esses problemas que ela não sabia lidar, os clubes haviam se iniciado e, olhando para seu reflexo no espelho do banheiro vazio da escola, as lembranças daquele dia retornaram a sua mente. Também lembrando que foi na turma do teatro que ela conheceu... A pessoa. Mais. Estranha. Do. Mundo.
[ Flashback On ]
Lá estava a garota acompanhada de sua fiel amiga cujo olhar brilhava mais que nunca, indicando sua intensa felicidade ao sair em direção a sala em que a professora de curtos cabelos negros e ondulados esperava.
Miku já havia visto Prima passeando pelos corredores um par de vezes, mas nunca falou com a professora, pois nunca fora realmente necessário. Sua curiosidade agora estava em como era aquela pessoa. Se pudesse chutar, diria que ela era um tanto... chique? Pois sempre trajava um longo vestido bordô com detalhes em branco rosado. Seu pescoço era fino e decorado com um colar prata, encrustado de pedras brilhantes e, no meio de seus cabelos escuros feito ébano, estava uma faixa de mesma cor do vestido, porém com uma linda e delicada flor que lembrava uma rosa branca que ia tornando-se amarela quanto mais próxima de seu centro.
Aos olhos de IA, aquilo era um estilo lindo, refinado e elegante.
Aos olhos de Miku: frufru.
Chegaram a um corredor iluminado e um pouco vazio até se depararem com a respectiva sala da classe de teatro. Mal abriram a porta e já ouviram os murmúrios e falações de seus futuros colegas.
Miku abriu a porta e IA pulou para dentro. Quando se deram conta estavam em uma sala que, obviamente, estava cheia de alunos. Miku passeou seu olhar pelas pessoas presentes que haviam simplesmente ignorado a chegada das duas meninas. Até que se deparou com um par de olhos azuis da cor do céu que a fizeram querer sair correndo.
Luka.
IA, percebendo o desconforto da amiga, pois esta já havia lhe contado o que passara na casa dos Kagamine, passou sua mão pelo ombro da mesma e tentou acalmá-la da melhor maneira possível.
Agora era hora de analisa a situação.
Ela reconhecera muitas pessoas. Uma delas, obviamente, era Luka. Outras também se destacavam, como Neru, Piko e Gumi, que já conhecia. O restante, Miku não tinha certeza o nome e nem ao menos quem eram.
— Hey, Miku, está vendo aquela menina ali? — IA chamou-a, apontando para uma menina baixinha com cabelos loiros e ondulados que escorriam pelas suas costas até chegar-lhe na região das cochas. Seus olhos eram em um amarelo intenso, quase lembrando o dourado de Rei, mas ainda não poderia competir com os olhos do estrangeiro. No topo de suas madeixas, estava um chapeuzinho preto de babados, decorado com um lacinho vermelho e algo que lembrava um CD cujo centro era amarelado. — Ela é Mayu, ouvi dizer que é a sobrinha da professora Prima.
— E aquela garota do lado dela? — a curiosidade bateu rápido quando os olhos de Miku chocaram-se com os rubis de uma garota alta com longos cabelos prateados. Seu rosto era fino, porém parecia esconder algo a mais que Miku não soubera dizer o que.
— Ela é Sukone Tei. Acho que é uma das melhores amigas de Mayu, mas... ouvi dizer que ela não é, digamos...
A fala de IA foi cortada pela porta sendo aberta com ferocidade, dando visão de uma mulher levemente irritada. Esta era Prima que, ao olhar para os alunos, respirou fundo e pareceu marchar para o centro da sala.
— Bom dia alunos! Perdoem-me pelo atraso, tive algumas complicações com Akaito-sensei. — ela deu uma pausa antes de continuar. — Bom... Espero que o começo de ano letivo de vocês tenha sido muito agradável, pois o ano está a recém começando. — disse a professora, com a cabeça levantada e as costas retas, quase como se tentando parecer mais alta. — Eu consigo ver alguns rostos novos esse ano, então vou explicar como funcionam as coisas por aqui. — disse.
Um silêncio foi ouvido, antes de a professora pigarrear e recomeçar a falar.
— Como vocês já devem saber, eu sou Prima e serei eu quem lesionará na aula de teatro para vocês. O teatro não é nada mais que uma arte de mais alto escalão. Ele tem o poder de despertar sentimentos no público, assim como a pintura, a escultura ou a música. Minha meta para esse ano é tornar vocês aptos para poderem lidar com grandes palcos, fazer o ator interior de vocês aflorar. Não posso dizer que todos vão ser grandes, um são melhores, outros... nem tanto, mas nós estamos aqui para melhorar e, acima de tudo, para aprender. — os olhos de Miku brilharam por um segundo, talvez aquilo fosse realmente bom, já que estava pensando em fazer parte do show desse ano, acabar com o medo de palco poderia vir a calhar. Prima continuou. — Como primeira atividade, já que temos pessoas novas aqui, vocês terão que se apresentar para a turma, dizer seu nome, a turma e o porquê de estarem aqui.
O coração de Miku afundou um pouco com as palavras da professora. Ela definitivamente não queria encarar seus colegas logo na primeira aula. Já tivera que suportar os colegas das aulas normais e agora teria que saber o que a esperava no clube de teatro.
Aos poucos o tempo fora se passando e as pessoas iam se apresentar. O que Miku diria? Porque estava ali? Simplesmente pelo castigo que recebera? E porque era o único clube que sobrara? Não, não teria coragem de falar isso.
A vez da garota chamada Mayu chegou.
— Meu nome é Ishida Mayu, tenho 15 anos e estou na classe H-7 do primeiro ano do Ensino Superior. Estou aqui porque eu quero me tornar uma das melhores atrizes, não, melhor que todos. — a pequena garota disse. Sua voz não condizia muito com a aparência, pois quem a visse, imaginaria uma voz fina e infantil, o que era totalmente o contrário. Os outros alunos presentes não pareceram surpresos com a atitude ambiciosa da colega.
— Isso mesmo alunos, tenham a ambição em suas mentes, pois isso os levará longe. — disse a professora orgulhosa em quanto estava sentada em sua mesa. — Pode se sentar, Mayu.
Assim que a mesma se retirou, Sukone Tei fora chamada.
— Meu nome é Sukone Tei, fiz 17 anos no mês passado e estou na classe E-4, segundo ano do Ensino Superior, e estou aqui porque achei que seria interessante. — ela disse simplesmente e saiu. Novamente as pessoas apenas se remexeram nos assentos, esperando a próxima, a qual fora IA, que fora andando em pequenos passos até a frente, provavelmente mais nervosa do que os outros.
— Ahn... meu nome é Akasaka Lya, porém todos me chamam de IA. Tenho 16 anos e estou na classe G-6 do Ensino Superior. Decidi fazer teatro porque desde pequena tenho visto muitas coisas relacionadas ao tema e eu quis tentar algo novo, então aqui estou eu. — disse a garota rosada, recebendo um sorriso da professora e uma permissão para se sentar.
A próxima pessoa que fora chamada foi Miku, que já deveria saber, pois havia se inscrito logo depois de IA e a um tempo que percebera que aquela lista seria a chamada da professora. Passou-se um segundo antes que Miku tomasse frente de onde estava e parasse na frente de toda sala. Sendo observados por todos com o mesmo olhar de tédio que usavam com os outros.
— M-meu nome é Hatsune Miku, sou colega da IA na classe G-6 e, assim como ela, também tenho 16 anos. Entrei no clube de teatro por que... — a voz de Miku morreu.
— Por quê? — Prima interrogou, notando a falta de resposta da garota de cabelos turquesa.
“Pense Miku, porque você decidiu entrar? O que te fez aceitar estar no clube depois do discurso de boas vindas da professora? Se você não tem mais um motivo, crie um novo” a mente de Miku ressoava essas palavras. Era tão simples criar um novo motivo? O qual valesse a pena tentar? Um feixe de luz brilhou no interior de sua mente.
— Porque eu tive medo. — dissera em um tom baixo, quase que para si mesma. Os alunos inclinaram-se mais perto para ver se conseguiram ouvir os sussurros da garota nova.
— Repita mais alto, garota, se você quiser atuar, terá que deixar a timidez. — a professora disse.
— Porque eu tive medo! — Miku repetira logo depois, mais forte de si, fazendo a professora arquear as sobrancelhas, sinalizando com a mão para que continuasse. — No começo eu não tinha muito do “porque entrar” no clube de teatro, eu me vi sem opção e entrei, mas agora eu tenho um novo motivo de continuar aqui. — disse a garota de olhos cerceta, com a voz tornando-se um pouco mais baixa ao notar os olhares curiosos, porém continuou mesmo assim. — Constantemente eu tive medo das pessoas. Inclusive, estou sentindo muito medo neste instante, e é por isso que estou aqui agora. Não quero continuar a ficar desse jeito para sempre, então... Se a sua classe puder me ajudar, eu aceitarei, Prima-sensei!
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