Rolling Girl
12 Capítulo XII - Odiar
Notas iniciais

Miku pode ouvir a língua da morena mais velha estalando após a frase da loira a sua frente. O coração da Hatsune já estava tão acelerado que podia jurar que se durasse mais algum tempo as chances de ter um ataque cardíaco seriam graves. Além disso, a garota teal quase podia sentir o sangue deixar seu rosto, tornando-a mais pálida do que já era.
— Você também Kagamine Girl, fique quieta! — a morena, que ainda segurava Miku pelos ombros depois de empurrá-la casa adentro, disse com severidade para a loira que se encolheu ligeiramente com o tom de Meiko. — O que deu em vocês com essa má educação toda?
Alguns começaram a rir da cara de Rin e outros ainda olhavam quietos em direção aos novos integrantes. Len chegou por trás das duas garotas e Kaito até que o loiro, Usee, finalmente dera o ar de sua graça.
— Foi você quem convidou ela?
Len disparou ao seu amigo um olhar mortal indicando para o mesmo fechar a boca.
— Não. Nós só nos confundimos com as datas. Eu acabei me esquecendo de que eu tinha que dar aula pra ela hoje. Mas a Miku já estava indo embora quando alguém preferiu fazê-la ficar. — o garoto loiro dera ênfase no “alguém”.
Todos olharam para Meiko que ainda estava na mesmo posição e Miku olhava o nada com uma expressão de semimorta. Caso aquilo fosse um mangá, a garota podia apostar que poderia ver sua alma saindo pela boca naquele momento.
— Bom, mas isso não importa. Sejam bem-vindos, Kaito, Meiko e Miku. — Luka, que também estava lá, disse finalmente, chamando-os para se sentar perto dela.
Miku ainda sentia vários pares de olho cravados em suas costas quando a morena forçou-a a se sentar perto dela. Já estava suando frio e tudo piorou quando seu olhar se cruzou com o de SeeU.
Tudo o que passava em sua mente naquele momento era...
“Alguém me salve”.
De tanto estar perdida em seus próprios pensamentos, nem notara que a rosada mais velha a sua frente tentava chamar sua atenção. Talvez a mente de Miku não estivesse mais cooperando, tudo o que queria era sair dali antes que um homicídio em plena luz do dia acontecesse. Aos poucos ela podia tanto ver quanto sentir que os olhares de antes já estavam se distraindo com outras coisas, seja as outras pessoas presentes, a música exageradamente alta ou qualquer outro motivo que achavam mais interessante que Miku.
— Hey, Miku-san? — a voz de Luka se pronunciou suave e matura e um tanto melodiosa, se Miku pudesse dizer. O tom usado também não indicava nenhum perigo, mas ainda não se sentia confiante e, talvez, nunca se sentiria. — Você parece meio pálida, precisa de alguma coisa? — perguntou com uma pontada de preocupação verdadeira em sua voz.
Essa pontada fez com que Miku levantasse seu olhar e fitasse em choque os olhos azuis celeste da mais velha. Estava tentando procurar a falsidade ao tentar ler seu olhar. Luka parecia muito ciente do que a garota de cabelos cor turquesa estava tentando fazer e preferiu não dizer nada. Já era de se esperar que Miku estivesse optando tanto pela defensiva e Luka sabia que, se estivesse no lugar da mais nova, não agiria diferente.
— Araaaa, Luka-chan é sempre tão amistosa! — Meiko cantarolou, se enganchando no pescoço da rosada ao seu lado, fazendo-a contrair o rosto em desgosto e tentar afastá-la sem sucesso. Ao lado direito de Luka, o rapaz de intensos cabelos azuis ria.
— Kaito! Não me diga que a Meiko bebeu antes de vir pra cá? — perguntou a rosada, agarrando os braços da morena e tentando desenganchá-los de seu pescoço, arrancando mais risos do azulado.
— Ela me ligou hoje de madrugada dizendo pra ir busca-la num bar e ela dormiu até as duas da tarde, quando acordou eu me descuidei e ela assaltou o bar do meu pai. — ele disse, brincando com o cachecol azul que usava em seu pescoço.
— Seu imprestável... — Luka murmurou, finalmente se desvencilhando do abraço de Meiko e retomando a compostura em quanto a outra soltava alguns risos atrapalhados. — Sinto muito por ter que ver isso.
— Ah, tudo bem. — Miku disse com um olhar semelhante ao de Luka. Então sentiu um peso extra em seu ombro e, quando finalmente pode ver o que era, viu que Meiko se apoiava em si, fazendo seu semblante ficar em branco, sem saber o que fazer.
— Nyah, como que a Rin não vai com a sua cara, Chiquinha-chan, olhe para você, tão fofaaa...
“Onde estava aquela mulher assustadora de antes?” Miku pensou.
— Meiko! — o tom de voz de Luka aumentara. — É melhor parar agora de assustar a garota, se não, na sua próxima ressaca, eu te deixo de baixo do sol ardente sem uma gota d’água.
Tal comentário fez a morena soltar rapidamente a Hatsune que piscou chocada. Quando menos esperava, pequenos risos deixavam seus lábios, atraindo a atenção tanto de Luka quanto Kaito e Meiko.
— Ara, você sabe rir, Chiquinha-chan. — Meiko disse, embaralhando levemente as palavras devido a sua leve embriaguez.
Miku parou de rir quando se dera conta que estava sendo observada, sussurrando um “desculpe”, pediu para ir ao banheiro e se retirou quase que imediatamente. Tentando ser o mais silenciosa possível ela escapou da sala de estar e, dobrando pelo caminho errado, se viu na cozinha.
Deixando-se apoiar em uma das bancadas de granito, ela soltou um suspiro e abaixou a cabeça, pensando em um modo para escapar daquela situação.
— Adiantaria sair pela janela? — perguntou-se em voz alta, mordiscando o lábio inferior. — Talvez eu poderia dizer que me esqueci de algo importante em casa. Ou eu poderia dizer que recebi uma mensagem da Haku dizendo pra eu ir para casa...
— Você está tão apavorada assim? — uma segunda voz foi ouvida, fazendo Miku pular em susto e levantar a cabeça para se deparar com o Kagamine, que se apoiava na lateral da porta com um dos ombros e a olhava com os braços cruzados. — Há dois minutos você estava rindo, se não me engano.
Miku grunhiu baixo.
— Você não entende. — disse apenas, fazendo o loiro arquear uma sobrancelha e chegar mais perto, dessa vez se apoiando em uma das “ilhas” que estavam no meio da cozinha, de frente para a garota teal.
— Faça-me entender então. — opinou quase como uma ordem, fazendo Miku morder seu lábio mais forte antes de falar.
— Como eu poderia? — retrucou. — Não foi você que, constantemente, era o alvo de um grupo de pessoas que é realmente influenciável na sua escola e fez todos tornarem você algo como... uma piada? E, além disso, está agora no meio de toda essa gente que foi, sei lá, o motivo de tanta frustração que você tem guardado por mais de um ano? — ela bufou. — Boa sorte pra entender, playboy.
Assumindo uma expressão confusa, o loiro passou as mãos pelos seus cabelos dourados até pousar em sua nuca, como se esperasse que uma resposta caísse do céu, o que não iria acontecer.
— Foi mal te meter nessa. — pediu, um pouco acanhado com a situação.
— Eu não vou dizer que está tudo bem, porque é obvio que não está, então... só espero que não acabe em morte.
— Sinceramente, eu estou preocupado com isso, tu tinha que ter visto a cara da minha irmã e da SeeU depois que você foi lá com a Luka e a Meiko. Eu e o Usee ficamos rindo delas praticamente o tempo todo. — o loiro disse em meio a risadas em quanto ia em direção a geladeira, apanhando duas latas de refrigerante Cola e atirando uma para a garota que pegou o objeto ainda no ar. Deliciou-se ao ouvir o som gasoso quando abriu o lacre e, depois, ao sentir o sabor refrescante e gasificado descendo pela garganta.
— Sua irmã e SeeU me odeiam. — Miku disse quando terminou o gole, atraindo o olhar cerúleo para si.
— Nah, elas só são frescas. — disse ele abrindo a sua lata, notando que a garota o olhava de soslaio e, foi quando ele levou o líquido aos lábios, que ela resolver se pronunciar.
— Há uma semana você não pensaria isso. — sua voz foi baixa, quase que inaudível quando terminou a frase. O Kagamine abaixou a pequena lata e, estranhamente, achou o buraco em seu topo o ponto mais interessante para se olhar.
O que Miku falara... ele não podia contestar, era pura verdade. Se fosse o seu eu de uma semana, talvez menos que isso, ele já teria feito-a sair correndo de sua casa a minutos atrás, depois de uma série de palavras escolhidas por ele com o intuito de machucá-la de várias maneiras possíveis. Pensando agora, porque ele fazia aquilo? O que ele ganhava com aquilo? Diversão? Nem ele sabia mais dizer. Passava tanto tempo na frente da TV ouvindo sobre estudantes que sofriam escárnios de seus colegas e, todo esse tempo, ele mesmo fazia aquilo com outras pessoas.
“O ser humano sempre fora assim?” a frase correu por sua mente, mas logo um feixe de verdade apagou-a e corrigiu-a.
“Eu sempre fui assim?”
— Acho melhor nós voltarmos, vão sentir falta da gente. — o loiro preferiu mudar de assunto. — Não quer que boatos comecem a se espalhar, não é?
— Melhor não. — ela respondera, ainda fitando o chão.
Silenciosamente, tanto a garota quanto o rapaz saíram da cozinha e foram em direção da sala barulhenta. Ao chegarem, ambos foram alvos de alguns poucos olhares sugestivos, mas nenhum ganhava de SeeU, Miku sentiu todos os pelos de seu corpo se eriçarem com aqueles olhos felinos que pareciam examiná-la com intenso desgosto.
Quando a garota cerceta iria passar para ir em direção ao grupo que antes estava, com Luka, Kaito e Meiko, seu caminho fora obstruído pela loira que há segundos atrás estava a encarando mortalmente, fazendo Miku recuar um passo. Tal cena atraíram outros olhares que já previam complicações.
— Francamente, pare de ficar se achando mais especial só porque está aqui. — a garota disse. — Não me interessa se você está se vestindo feito uma vadia ou uma colegial, você continua sendo a garota que sempre foi. A garota sem potencial que a gente vivia vendo se remoer nos cantos da escola. Que fica se achando melhor que todos nós por motivo nenhum e que tem que conviver com uma órfã deslocada, pois é sua única alternativa de amizade. A garota que ficou famosa pelo sua “incrível” apresentação no show de talentos. Faça-me o favor e não venha se achar aqui, muito menos na minha frente.
SeeU desabava tudo, cada palavra parecendo um tapa de realidade na cara de Miku, que sentiu várias coisas, desde raiva, por insultarem tanto a ela quanto IA, inveja, porque sabia que SeeU era o contrário de tudo aquilo e tristeza por saber que grande parte era verdade.
Os olhos da loira fitavam-na com mistos sentimentos inteiramente negativos. Ao seu lado, Rin olhava a tudo como um filme no cinema e a esverdeada, Gumi, descansava seu rosto na palma da mão, como se tudo aquilo fosse algo totalmente desnecessário. O coração de Miku batia dolorosamente em seu peito e sentiu sua boca ficar como um deserto de tão seca, mesmo tendo feito poucos minutos que tomara alguma coisa. Dessa vez, ela não tinha respostas.
Foi quando outra pessoa tomou a sua frente, ficando entre si e SeeU.
— Estragar o sábado das pessoas não é o melhor hobbie para adotar, okay? — disse Len, fitando especialmente a loira a sua direita.
— Mas, Len, eu não estou estragando nada, não me venha dizer que está defendendo a Miku. — disse com o olhar revelando uma tristeza levemente falsificada.
— E se eu estiver? — perguntou ironicamente. — Não me lembro de ser algo seu, para ser obrigado a te defender. — disse, fazendo com que seu olhar, que há uns minutos atrás eram tão compreensíveis, tornarem-se gélidos e ferinos.
Miku pode ver Meiko chegando por trás de SeeU e segurando-a pelos ombros, impedindo-a de retrucar com outro comentário e a fazendo levar um pequeno susto.
— Hey, Gatinha-chan, porque não guarda as suas garras e para de miar? — a morena disse, enrolando a língua de leve com o apelido.
SeeU usou os braços para desvencilhar-se de Meiko e olhou pidona para Len, que apenas jogou um olhar irritado para que ela parasse com a encenação, o que a tornou com mais raiva.
— Acho melhor eu ir embora. — Miku se virou rapidamente, pegando suas coisas em um flash e deixando todos para trás. Ouviu Meiko lhe chamar pelo apelido que lhe dera, mas não teria coragem de olhar para ninguém novamente por um bom tempo. Saiu da casa a passos largos, só faltando correr pela rua.
O que era aquilo?
Seu coração batia rápido, tanto que chegava a ser doloroso e sentia as bochechas queimarem. As imagens do loiro voltaram a sua mente. O que era aquilo afinal? Kagamine Len a havia defendido de SeeU! De um modo que não entendia, sentiu uma grande felicidade e uma vontade louca de pular pela calçada, mas se conteve por causa de apenas um fato...
“Eu odeio o Kagamine”
Disse no interior de sua mente. Repetiu aquela frase incontáveis vezes na sua cabeça e até chegou a sussurra-las. Esse era o fato, ela não podia “não desgostar” do loiro. Já havia tido um tipo de sentimento positivo por ele e aquilo só a arruinou mais do que seria caso nunca tivesse sentido aquilo.
Tomou uma respiração funda para tentar acalmar os pensamentos, o que foi em vão. Ela sabia que em uma parte bem profunda de seu ser, a Miku de alguns anos atrás pulava e gritava para tentar ter a atenção que merecia. Tentava dizer que, não importava quantas coisas dolorosas o loiro fazia ou dizia, bastava aquele simples ato modesto e sem sentido para fazer o coração de Miku bater da mesma forma que naquela época. Fazia sua inocência ser renovada e a deixava semelhante aquelas garotinhas de animes de comédia romântica que ela tanto gostava de assistir no domingo de manhã.
Mas independente do quanto “a outra Miku” tentasse estar certa, ela não estaria. A verdadeira Miku nunca deixaria e, de repente, um pânico avassalador tomou conta de todo o seu ser. Só de pensar em uma reprise de tudo aquilo, seu corpo se agitava e os olhos ardiam. Por mais que não quisesse admitir, Miku sabia que essa era “ela”, uma garota fujona e, obviamente, incrivelmente chorona. Uma existência feita para cair e rolar.
Quando chegara a sua casa, subiu de imediato para o quarto, sem encarar Haku, que estranhara e fora atrás da menina. Quando abriu a porta não totalmente fechada do quarto de Miku, se deparou com a mesma deitada cama, abraçada a uma almofada e derramando lágrimas em silêncio.
— Miku, o que aconteceu lá? — perguntou a albina, correndo para consolar a mais nova, que aceitou o gesto de conforto.
— Haku-san... eu não quero que aconteça de novo. — pediu com a voz sofrida, não recebendo uma resposta da mais velha.
“Não poderia” As palavras ecoaram em sua mente.
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