Rolling Girl
9 Capítulo IX - É você?
Notas iniciais

Sabe aquela sensação de pena misturada com terror? Era isso que IA sentia agora. Ela olhava para a amiga, processando as palavras que esta disse. A rosada sabia que Miku nunca havia falado muito com o loiro, muito menos antes daquele show de talentos do ano retrasado, mas não acreditava que a garota teal nutrisse sentimentos por ele naquela época. Mas era de se esperar, uma vez que a grande maioria das meninas se deixasse cair perante a beleza do garoto, sem esperar nada da sua personalidade egocêntrica. Deveria ter sido muito doloroso toda aquela reviravolta e, no momento, não conseguiria descrever como Miku se sentira na época.
A garota de cabelos azuis petróleo agora estava com o olhar fixo em um ponto vazio do quarto, sem conseguir olhar IA nos olhos. O que esta diria? Ela sempre fora muito sentimental, talvez diria alguma coisa boa, ou ruim... no pior dos casos.
— Miku... você ainda gosta dele? — ela perguntou inicialmente.
A garota olhou embasbacada para a amiga, com as pupilas contraídas em espanto.
— N-não, claro que não! — disse. — Como eu poderia gostar dele depois daquilo? — sussurrou a última parte.
— Por quanto tempo você trancou esses sentimentos? — a pergunta atraiu o olhar de Miku novamente.
— E-eu não tranquei nada. Está tudo bem IA, eu estou ótima, não precisa se preocupar, não sinto mais nada pelo Kagamine, ele é só meu professor de química agora, tudo bem?
A rosada enfrentou o olhar azulado da amiga, tentando, inutilmente, ler o que se passava pela mente da mesma. Infelizmente ela ainda não era uma telepata, mas, se existisse algum, ela o invejava. Por fim soltou um suspiro.
— Muito bem, acho que está ficando tarde, melhor eu ir para casa.
Miku soltou algo em concordância e foi até a sala de entrada com IA para abrir a porta para a mesma. Após se despedirem, Miku subiu correndo para o quarto e despencou na cama, abraçando uma almofada turquesa.
— Se Len for o Mine, o que eu faço? — choramingou em algo semelhante a um sussurro quase inaudível.
Ela olhou para o notebook que descansava em sua cômoda, esperando para ser usado, mas ela sabia que “ele” não iria responde-la. Por fim ela desistiu e foi tomar banho.
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Quinta-feira. Dia de aula de química.
— Yeey... — comemorou com emoção falsa, arrancando um sorriso da rosada ao seu lado.
— Miku, não é tão ruim assim, bem que você estava precisando de uma ajuda na matéria, então pare de reclamar. — IA insistiu, sem muito sucesso.
— Não é só pela química. Hoje eu ainda tenho que perguntar aquilo pra ele, eu estou meio nervosa. — disse ao morder o lábio inferior. A amiga ao seu lado sorriu em conforto.
— Aquilo o que? — uma terceira voz se fez presente, lançando um arrepio na espinha de ambas as meninas, instigando-as a girar nos calcanhares e dar de frente com a nova pessoa.
— Rei! — Miku chamou. — Você sempre aparece do nada assim ou eu que estou sempre no lugar errado e na hora errado?
A garota teal sorriu para o recém-chegado, que apenas as olhavam com curiosidade. Miku fitou os olhos dourados do rapaz e entendeu porque IA ficara tão sem graça naquela hora. Cabelos tão negros quanto o céu durante a madrugada mais escura, olhos que cintilavam em um dourado quase que psicótico, ele era realmente bonito, mas bonito do tipo “eu sei que sou lindo, mas, peço com muita educação, não chegue perto de mim”, ao contrário do Kagamine que era mais para “sou bonito, arraso, incrível, sou melhor que você e ninguém é bom o suficiente para a minha pessoa”. Idiota.
IA se moveu desconfortável e desviou o olhar para o lugar mais interessante que achou: seus pés! Miku conteve uma risada, mas deixou soltar um resquício da mesma. Rei piscou curioso, sem entender muito do que se passava. Garotas eram estranhas.
— Bom, vamos para a sala, sim? Hoje vai ser um dia extremamente longo e eu, definitivamente, quero que ele acabe o mais rápido possível. — Miku tomou a frente.
IA a seguiu de perto e Rei soltou um suspiro e, vendo que sua pergunta não seria respondida, decidiu seguir as duas.
— Hey, quando começam as aulas extracurriculares? — a rosada perguntou.
— Verdade! Acho que eu ouvi qualquer coisa da Prima-sensei que as aulas de teatro iriam começar na semana que vem. — Miku lembrou. — Acho que tem todas as terças depois da aula. E você Rei, foi para qual?
— Pintura.
A rosada olhou-o admirada.
— Vo-você sabe pintar? Tipo, bem? — IA foi a primeira a perguntar. O garoto piscou e confirmou positivamente com a cabeça soltando um baixo “eu acho”. — Incrível. Você também vai ter aulas com a Aoki-senpai.
— Você só fala isso porque não sabe nem segurar o pincel direito, não é IA “-chan”. — Miku comentou, rindo do próprio sufixo.
— C-Cruel... — IA disse em tom choroso.
— Porque isso? — o moreno perguntou sem entender o que estava acontecendo, fazendo Miku rir mais ainda e IA parecer mais envergonhada.
— Numa das primeiras aulas de artes do ano passado, Aoki-senpai pediu para nós pintarmos algo que tivesse significado, então a IA tentou pintar, mas... — Miku se interrompeu com outro ataque de risos. — [...] até hoje eu não sei o que era pra ser aquilo, IA.
A rosada corou ligeiramente.
— E-eu não tenho dotes artísticos, não posso fazer nada. — forçou um sorriso.
— Pintar é muito mais que um dote, Lya, existe vários tipos de maneira de se pintar um quadro. — Rei disse em seu tom indiferente.
— O estilo da IA deve ser abstrato. — Miku riu. — Daqueles bem loucos.
— Miku!
— Tá bom, parei, desculpa. — desculpou-se. — Hm, como devem ser as aulas de teatro?
— É a primeira vez que eu faço também, estou tão curiosa. — o olhar de IA brilhou ligeiramente. Na sua visão, as aulas de teatro eram como nos filmes, você entra, atua e pode virar a estrela da peça. Miku a olhou de soslaio e sorriu de leve.
— Deve ser legal, mas eu ainda preferiria o clube de música. Ruko-sensei dizia que eu toco guitarra muito bem e que eu deveria tentar de novo no show de talentos. — a voz de Miku foi diminuindo até que morreu quando esta terminou a frase.
IA a fitou, novamente desejando poder ler mentes, o que sabia que era impossível. Entreabriu a boca, pronta para falar algo...
— Acho que você deveria. — Rei disse, atraindo o olhar pasmo da teal.
A rosada sorriu, agradecida.
— Ele tem razão Miku, você não devia desistir de tudo só por causa de uma experiência ruim.
A garota teal encolheu os ombros ligeiramente e deixou-se aprofundar seus pensamentos naquilo que a falaram. Depois de sua primeira experiência, a simples menção de subir em um palco deixava-a aterrorizada, não saberia nem como começar a primeira estrofe na frente de uma plateia. Mas a voz de sua professora de música voltou a sua mente junto com seu olhar heterocromático. Lembrou-se então da tarde em que Ruko havia lhe falado aquilo. Era o começo do novo ano, quando Miku estava tão mal e ferida que não conseguia se lembrar do passado sem que as lágrimas enchessem seus olhos.
As palavras de sua professora foram sábias, incentivando-a a não desistir. Miku queria continuar, queria tentar inúmeras vezes até conseguir, mas era tão difícil. Por fim deixou-se sorrir para seus amigos.
— É... talvez seja a hora de eu tentar mais uma vez.
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As aulas mais uma vez cessaram e o loiro não havia direcionado uma palavra a ela. Miku podia ouvir a voz dele quando o mesmo conversava com quem estava a sua volta, mas mais um dia sem olhares de ódio e xingamentos ou conversas confortáveis, mas provocativas. Não que sentisse saudades disso, porém ela tinha o direito de estranhar.
Maldita seja a semente da dúvida que IA conseguiu plantar no interior de sua mente naquela tarde. Agora Len ser o cara com quem conversava toda noite fazia mais sentido do que gostaria de admitir a si mesma. Se fosse verdade, queria ela acreditar? Ou preferiria mentir para si mesma até que a mentira se voltasse contra ela?
A sala começou a se esvaziar quando Miku começara a guardar seus materiais dentro de sua pasta. Ela olhou de soslaio e viu que Len parecia inquieto em seu assento. Ela viu como ele jogou sua franja para fora de sua visão. Ela viu como seu cabelo claro contrastava seus olhos azuis intensos. Ela viu os familiares fones de ouvido pretos da beats em seu pescoço.
“Ah não...” Ela pensou consigo mesma ao notar que estava vendo um monte de coisas.
Miku voltou-se bruscamente para o quadro, já apagado, fazendo com que seu cabelo ricocheteasse o ar de leve, puxando a atenção do rapaz as suas costas. Este suspirou.
— Acho melhor nós irmos agora. — ele disse em quanto se levantava da cadeira, pegando sua pasta.
Miku concordou silenciosamente e levantou-se, seguindo-o para fora do prédio. O tempo parece ficar mais lento em quanto ela anda atrás dele, mantendo certa distância. Em sua mente, lembrava-se do que passara no sábado quando fora visitar o shopping. Não iria cobrar a ele que se lembrasse ou que fosse mais legal com ela a partir daquilo, na verdade ela não queria se importar. Mas querer não bastava, pois ela sabia que, lá no fundo, gostaria sim quando ele era menos venenoso.
Chegaram na casa dos Kagamine e, mais uma vez, estava completamente vazia. Antes de estudarem, Len decidiu comer algo, já que dizia estar com fome.
— Me esqueci do meu bentô hoje. — disse quando voltou da cozinha com um pote de vidro com um conteúdo colorido dentro. — Espero que não se importe de comer algo antes de irmos estudar.
— Não, não me importo. — admitiu. — Sei muito bem o que é esquecer a comida em casa. — ela o olhou abrindo o pote e tirando um biscoito roxo de dentro, foi quando Miku descobriu que era um macaron.
Ela amava macarons.
Len notou o olhar nocivo da menina em direção ao pote que tinha em mãos e decidiu ser educado pela primeira vez naquele dia.
— Quer um?
— Ahn... claro!
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Agora eles entravam nos conteúdos mais complicados do ano passado. Ao lado de Miku estava um ponte de vidro inteiramente vazio, de vez em quando ela olhava esperançosa para ver se não tinha sobrado alguma coisa.
Len achou engraçada a paixão da garota pelo doce francês. Preferiu não contar que quem fez o doce fora sua irmã, talvez mais tarde, quando estivesse com maior vontade de irritá-la. O problema era que ultimamente ele não tinha a mesma vontade de infortuna-la tanto quanto teria a uma semana atrás, muito menos agora que descobriu que ela era a garota com a qual conversava tão amigavelmente durante todas as noites.
Estranhou o fato de tal garota também estar sentada na frente dele, pedindo-lhe dicas sobre como resolver a questão, mas que ao mesmo tempo parecia mais distante que o normal. Não que eles fossem próximos, muito longe disso, mas ela estava... estranha.
— Você está cometendo erros idiotas. — ele disse. — Tente se concentrar na questão.
— Eu estou.
— Não está não. Você está pensando em outras coisas que não tem nada haver com o assunto e isso atrapalha na hora de resolver a questão, a qual eu sei que você já sabe.
— Como você sabe se eu sei ou não?
— Eu sei. — e com isso ele calou-a.
— Você não entende... — o murmuro fora tão baixo que Len teve que parar para repetir as palavras mentalmente e ver o que poderia significar.
— Porque eu não entenderia?
O silêncio se seguiu. Miku girou a cadeira e ficou de frente para o loiro que arqueou uma sobrancelha.
— Len...
— O que foi? Porque parou de fazer o exer...
— Você é mesmo o Mine-Kun?
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