Rogue
2 Questões
Notas iniciais
Hanji Zoe estava em êxtase com a nova adição ao laboratório pertencente a Survey Corps, e tudo isso devia-se ao pacote de fúria que tinha sido obtido na última missão da Policia Militar. Se os resultados dos testes que tinham sido feitos no felino estavam corretos – e ela sabia que estavam, afinal foi ela quem supervisionou cada um deles -, o Rogue do outro lado do vidro na sala de observação esteve no mundo humano por no mínimo cinco anos sem um contratante. O máximo de tempo registrado de um Shifter sobreviver sem formar um contrato tinha sido de um ano e meio. O espécime em seu laboratório tinha ultrapassado em muito tal estimativa e sem apresentar o enfraquecimento mental e o desgaste físico que sempre acompanhavam a ausência de um contrato. Mas isso não era tudo, a criatura, L— a coleira em seu pescoço nomeava-o como L -, não tinha ido realmente feral. Seu comportamento era hostil, mas não selvagem, seus olhos brilhavam com óbvia inteligência e o tipo de cálculo que só um ser senciente poderia possuir. Tudo em tudo ele parecia um gato mal humorado e muito desconfiado – e com razão, considerando o local de onde ele veio. As possibilidades que a descoberta de L trazia para a ciência eram imensas, tantas que Hanji estava praticamente vibrando de entusiasmo.
“O que seus testes obtiveram?” – ah, sim, ela quase tinha esquecido que Erwin ainda estava ao seu lado, sem dúvidas planejando alguma coisa sob suas sobrancelhas espessas. Vagamente a pesquisadora se questionou se era possível reproduzir aquele monte de cabelos em laboratório e implantar em alguém; a parte de encontrar uma cobaia sem dúvidas seria a mais complicada.
“Sua forma animal é o equivalente ao nosso leopardo, embora ele seja um pouco menor do que o normal para essa espécie. Outras diferenças entre ele e o felino de nosso mundo estão no seu pelo, que é completamente negro semelhante aos gatos domésticos, e seus olhos que são prata-azulados. E, como eu suspeitava, mesmo sendo um Rogue ele não foi feral ainda.”
“Quanto tempo?” – indagou o comandante loiro, sem dúvidas a questão mais importante em se tratando de um Rogue.
Durante as mais de três décadas de pesquisa envolvendo os habitantes do Éter, o tempo máximo registrado de um Rogue sem ir feral era de cerca de treze meses, e só com o auxílio de medicamentos. Depois de sucumbir a seus instintos animais e perder sua mente senciente tornava-se apenas uma questão de tempo antes que a saúde do Shifter começasse a se deteriorar por fim levando-o a morte.
“Nossos testes chegaram a uma estimativa, L está aqui há cinco anos pelo menos.” — Isso definitivamente chamou a atenção do Comandante loiro, se o ampliar de seus olhos era qualquer coisa. — “Ele é um verdadeiro milagre Erwin! Cinco anos sem um contratante e ainda nenhum sinal de ir feral! Você consegue imaginar o que esses dados significam para nossas pesquisas? O quanto podemos aprender e-”
“E quanto aos ferimentos dele? Não parecem estar curando tão rápido como deveriam.” — Se Hanji fosse uma mulher menor ela provavelmente teria se sentido ofendida com a brusquidão com que seu comandante sempre a interrompia. Como era a morena simplesmente mudou sua linha de pensamento para acomodar a falta de interesse de Erwin nos pormenores de suas pesquisas.
“A maioria de seus ferimentos é bastante superficial, provavelmente adquirido no último confronto. O ferimento na pata traseira esquerda parece ter sido uma lesão mais profunda e seu corpo tem focado sua cura nela. É difícil estipular com precisão quanto tempo vai levar até uma cura completa, mas deve ocorrer em algum momento na próxima semana. Além disso, se eu tivesse que adivinhar o que provocou o ferimento diria que foi prata, considerando a quantidade de dano e o tempo que está tomando para regenerar.”
Era de conhecimento comum o quão prejudicial prata era para Shifters. Facilmente ferimentos causados pela substância poderiam ser letais, mesmo que os mesmos não fossem localizados em uma área vital. Desde que a morena juntou-se a Survey Corps, muitas foram as vezes que ela viu o que a falta de cuidado e um tratamento adequado poderiam fazer a um Shifter com uma lesão feita por prata. Pensar que havia pessoas que deliberadamente os machucariam com o metal fazia Hanji querer feri-los da mesma maneira.
“Também não ajuda que ele não nos permite tratar do ferimento e recusa medicamentos. As ataduras são de quando ele primeiro chegou aqui ainda sedado. Uma vez consciente ele rejeitou qualquer tentativa de intervenção.” – ela informou com um suspiro; era irritante e ainda estimulante a teimosia da pantera.
“Tentaram leva-lo a ingerir antibióticos de outra maneira, na comida talvez?”
“Descartamos essa possibilidade quando ele não aceitou qualquer alimento que o oferecemos. Ele só bebeu água depois de farejá-la e ainda em pequenas quantidades. Ficou óbvio que ele não confiava em nós. Como eu disse, ele é inteligente, acima da média eu também diria.” – Hanji não podia evitar a pitada de emoção que sentia a cada descoberta sobre seu novo hóspede, afinal a bola de pelos mal humorada já tinha conquistado seu carinho.
“E quanto a um contrato. Ele está apto a formar um?” – claro que esse seria o real interesse de Erwin. Se seu relatório fosse a única coisa que o homem loiro queria ele não teria deixado seu escritório e vindo até o laboratório, ele teria esperado que ela levasse ou enviasse por alguém.
“Definitivamente. Embora eu me pergunte como Mike vai reagir a presença de um Shifter felino.”
Ela não tinha dúvidas de que o próprio Comandante era quem pretendia formar o contrato, e isso seria uma experiência interessante para se observar, considerando que o loiro já estava ligado a um Shifter. Embora incomum, não era de todo raro que um mesmo indivíduo tivesse dois Familiares, a única exigência era a de que o humano tivesse muita força mental. Mas dois Familiares derivados de espécies diferentes era algo que ela ainda não tinha testemunhado. Pensando nisso, a morena já estava se arrependendo de enviar Moblit para supervisionar a pesquisa que ela estava coordenando antes da chegada do felino, porque agora Hanji não tinha a ajuda dele em registrar os novos acontecimentos. Uma pena mesmo, pois a formação de um contrato era sempre uma experiência incrível de se testemunhar.
Normalmente um contrato ocorria logo após a convocação do Shifter, um evento dividido em três etapas. Primeiro o humano interessado ofereceria algo de si mesmo, em geral era uma pequena mexa de seu cabelo, em retorno o Shifter revelaria seu nome de boa vontade. Em seguida o humano invocaria o nome revelado, o que permitiria seu Familiar trocar de forma. Por fim a marca do contrato surgiria em suas mãos – na direita no Contratante e na esquerda no Familiar. Eram raros os casos em que um Shifter rejeitasse o convocador, quando o mesmo ocorria significava que o humano por algum motivo não era adequado, mas que em algum lugar no mundo havia alguém compatível. Esses eram aqueles que se tornavam Rogues.
Havia, no entanto, uma única exceção registrada até o momento, um jovem cujas tentativas tanto de convocação e de formar um contrato não produziram nenhum tipo de resultado. Algo inédito em todos esses anos de pesquisas – muito semelhante ao caso da pantera do outro lado do vidro. E, claro, esses tipos de anomalias eram o que fazia a alegria de Hanji como pesquisadora – mistérios esperando ansiosamente que ela os desvendasse.
“Ainda não sabemos se ele irá aceitar um contrato, e Mike não vê problemas em ter outro companheiro.” – Erwin não se preocupou em negar o interesse que tinha em ligar-se a tal poderosa criatura, ele e Hanji se conheciam havia muitos anos para perder tempo com esse tipo de atitude.
“Apenas vá em frente. Você conhece o procedimento, mas lembre-se que os gatos não costumam ser tão amigáveis como os cães.” – ele levantou uma dessas sobrancelhas peludas para ela, mas de outra forma não disse nada, preferindo ao invés seguir com seus planos.
Do seu lado do vidro a mulher morena observou o loiro alto atravessar o pequeno corredor até a porta de entrada para a sala e abri-la com cuidado. Isso foi o mais longe que ele foi antes do felino soltar um ruído que soou bastante desgostoso. Oh! Mike poderia não se importar com um parceiro felino, mas o sentimento parecia não ser recíproco quanto ao dito gato. A visão trouxe uma gargalhada ruidosa para fora da garganta da pesquisadora. Hanji e esse Shifter estavam tão indo ser bons amigos! Ela mal podia esperar para ver sua forma humana e descobrir como sua personalidade se revelaria — a mulher apostava que ele teria uma língua afiada. Embora parecesse que ela teria de esperar um pouco mais antes disso acontecer, se o olhar sujo que a pantera estava dando ao seu Comandante significasse qualquer coisa, o Shifter não estaria aceitando um contratante tão cedo.
Definitivamente grandes amigos.
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Eren sentiu-se realmente relaxar pela primeira vez em dois dias. Ele tinha terminado sua missão com uma concussão bastante ruim, além de sua caixa torácica ter ficado cheia de hematomas doloridos – ele não quebrou nenhuma costela, mas tinha sido por pouco. Por conta do abalo que seu crânio tinha sofrido e de seu conseguinte desmaio, o jovem policial acabou ficando em observação no hospital por vinte e quatro horas. Como o moreno esperava, Mikasa não estava feliz e ele se viu preso sob sermões dela, além de uma rápida verificação de seu estado, e olhares preocupados e censuradores de Armin. Céus ele não era uma maldita criança, ele era um adulto de vinte e quatro anos! Sim, ele tinha tomado uma decisão questionável quando escolheu ir sozinho atrás do chefe dos bandidos, mas não era como se ele não tivesse consciência dos riscos. Ele só esperava que seus amigos e seus companheiros de time tivessem mais confiança nele e em suas habilidades.
Uma vez liberado do hospital Eren foi direto para sua pequena casa para um banho real, algum remédio para a dor de cabeça, algumas horas de sono e uma boa refeição — não necessariamente nessa ordem. A verdade é que ele comeu como um homem condenado em sua última refeição – comida de hospital sugava -, em seguida capotou em sua cama só acordando quando os remédios para dor desgastaram. Uma vez acordado ele banhou-se e decidiu que era hora de acabar com o drama e descobrir o que Nile, seu chefe irritante, faria com ele – por algum motivo o homem parecia odiá-lo. E foi assim que ele encontrou-se em algum momento no meio da tarde deixando o prédio da Polícia Militar, após saber que não, ele não seria expulso ou qualquer coisa tão drástica – como Mikasa e Armin estavam temendo. Se ele fosse mesmo demitido, Eren temia o que sua irmã faria. Aparentemente o fato de que sua decisão resultou em nenhuma perda para os dois lados salvo-o de um destino mais crítico. No entanto seus superiores decidiram afastá-lo pelo restante da semana até que fosse decidida uma punição adequada pela sua quebra de protocolo.
Provavelmente ele ganharia alguma observação negativa em seu arquivo, que o barraria de ser promovido por algum tempo, e seu salário sofreria bastante por alguns meses, nada que ele não pudesse enfrentar. Ele tinha sido muito mais preocupado com uma possível retaliação contra sua equipe por terem acatado sua ordem. Algo que felizmente não veio uma vez que ele assumiu toda a responsabilidade. Pequenas misericórdias ele supôs — ao longo da vida ele tinha aprendido a agarrar-se a elas. Por outro lado o tempo fora de serviço era bem-vindo, se não esperado. Eren sabia que parte do motivo de ele estar fora do trabalho devia-se a estar sob o efeito da medicação para a dor. Honestamente ele estava aliviado, o moreno duvidava que sua cabeça com uma concussão fosse suportar horas e horas de digitar e preencher relatórios em sua mesa. Novamente, pequenas misericórdias.
Havia, no entanto, algo que o jovem moreno não conseguiu tirar de sua mente, e não era a dor, era algo que ele tinha aprendido quando ele primeiro acordou no hospital. Naquela manhã Eren encontrou sua irmã adotiva ainda alerta, apesar de claramente não ter dormido nada durante a noite, e seu melhor amigo adormecido, ambos sentados em cadeiras desconfortáveis. Depois de garantir que sim, ele estava bem, nada estava doendo Mikasa e não, ele não faria nada tão arriscado novamente, ele questionou o que havia acontecido depois que ele apagou. Mais específico, o que aconteceu com o Rogue depois que ele perdeu a consciência.
“Foi estranho. Aquele Rogue não agia como deveria.”— Mikasa resumiu a situação de forma plana.
Não era preciso ser um gênio para perceber que não era um tema que ela queria abordar. Mikasa tinha perdido os pais para bandidos que tinham usado Familiares para impedi-los de escaparem. Desde então a jovem, que a família Jaeger tinha adotado, não via com bons olhos os habitantes do Éter. Crescendo esse tinha sido um ponto sensível entre o moreno e sua irmã. Eren culpava os humanos por tudo de ruim que aconteceu a família Ackerman e não os Shifters, mas a garota via os Familiares como igualmente culpados.
“O que Mikasa não quer dizer, e isso eu ouvi de Jean e Sasha também, é que quando eles encontraram você aquele Shifter tinha saltado em um dos criminosos que estava tentando esfaqueá-lo pelas costas.”— explicou Armin quando o moreno virou seu olhar para o loiro esperando mais detalhes.
“Está dizendo que ele me salvou?”— Eren deixou escapar o pensamento, mesmo que soasse surreal um Rogue salvando alguém.
“Tudo o que eu vi foi ele saltar e você rolar fora do caminho. Por tudo o que sabemos ele poderia estar mirando você e só acertou o criminoso por acaso.”— contestou Mikasa prontamente.
“Como você mesma disse, aquele Shifter estava agindo diferente do que se esperaria de um Rogue. Sasha confirmou que ele não parecia um feral. E todos nós sabemos que ela entende de criaturas selvagens, uma vez que ela cresceu em uma família de caçadores.”
“Ele quase matou aqueles homens.”— insistiu ela teimosamente.
“Mas ele não atacou nenhum dos agentes, nem aqueles que já estavam caídos. Uma prova clara de inteligência e raciocínio.”— argumentou o jovem loiro.
“Mesmo que ele não fosse um feral ainda, isso é apenas uma questão de tempo até acontecer.”
Eren tinha parado de prestar atenção no restante da conversa após o comentário de sua irmã, a mente borbulhando com pensamentos. Ele vagamente se lembrava de ter visto algo além de fúria e sede de sangue brilhar nos olhos do felino, algo que sua mente confusa e dolorida não tinha sido capaz de identificar corretamente. Poderia muito bem ter sido inteligência como Sasha tinha pensado e Armin acreditava, e se isso fosse verdade a possibilidade de que aquele Rogue o tinha salvo, mesmo que improvável como Mikasa insistia, despertou no moreno o desejo de devolver o favor. Afinal, seria extremamente deprimente se após tudo o que o Shifter tinha passado nas mãos daqueles malditos criminosos, o mesmo fosse feral e acabasse morrendo. O simples pensamento de aquela bela criatura deixando de existir o revoltava de uma forma que ele mesmo não conseguia explicar.
Considerando que ele não estaria de volta ao serviço até segunda feira, e ainda era quarta, Eren decidiu que uma passada pelo laboratório da Survey Corps soava tão bom de um plano como qualquer outro. Além disso, não era como se ele tivesse muito o que fazer com o tempo livre recém-adquirido. Sempre havia limpeza, que o moreno não estava muito animado em se envolver, tendo em conta que sua cabeça só não estava doendo no momento devido à medicação. A outra possibilidade seria ler ou assistir alguma coisa, mas ele não estava muito empolgado com o pensamento, e só havia tanto que uma pessoa pudesse dormir antes de todo o corpo começar a sentir-se como um grande machucado.
Sua mente feita, Eren tomou o caminho mais rápido para o prédio onde ele esperava ser capaz de obter outro olhar sobre o belo felino — talvez Hanji lhe permitisse ver o Rogue se ele expressasse seus pensamentos. A mulher de óculos poderia ser bastante hiperativa, mas era uma boa pessoa. Além disso, o jovem já estava relativamente acostumado com sua estranheza, ele tinha visitado o laboratório várias vezes no passado em uma tentativa de encontrar um Familiar. Ser um agente da Survey Corps era seu objetivo desde jovem, mas como nunca conseguiu uma convocação que funcionasse, e nenhum dos Shifters já no mundo humano aceitou formar um contrato com ele, Eren acabou resignando-se a Policia Militar.
Tinha sido bastante frustrante quando descobriu que não poderia seguir seu sonho. Mas o moreno tinha crescido aprendendo a lidar com a frustração e canaliza-la para coisas mais produtivas — como prender criminosos que achavam que poderiam escapar impunes de seus crimes. Eren tinha se tornado um inferno de um bom policial, e isso ninguém poderia negar — nem mesmo o cara de cavalo irritante.
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Como das outras vezes que visitou o lugar, foi Historia quem o recebeu assim que chegou ao laboratório. A pequena jovem loira havia se formado com Eren e o restante de sua equipe na academia, os cadetes da classe 104, e assim como o moreno ela tinha interesse em fazer parte da Survey Corps. Os dois fizeram suas convocações no mesmo dia e diferente dele, Historia formou um contrato com uma Shifter chamada Ymir. Ele nunca soube o que sua forma animal era, apenas que era algo muito fofo— palavras de sua contratante. Pessoalmente Eren era incapaz de ver a jovem de gênio ruim como qualquer coisa menos algo selvagem e com garras. Além disso, como logo todos os possíveis pretendentes da loira descobriram, seu Familiar era muito possessivo dela, não que Historia parecesse incomodada com a atenção da outra fêmea, as duas se entendiam muito bem.
Eren ainda estava trocando gentilezas com sua ex-colega de academia quando a pessoa que ele queria ver o encontrou.
“Eren, tão bom vê-lo!” – a voz animada de Hanji o cumprimentou – “Soube que você se feriu em sua última missão. Como você está?” – não importava que por vezes a pesquisadora se deixasse levar por sua paixão pelo Éter e seus habitantes, a mulher tinha um bom coração e Eren a respeitava ainda mais por isso.
“Olá, Hanji. Estou bem, foi só uma concussão, nada que alguns analgésicos e sono não resolvam.”
“Oh, isso é bom saber. Pelo que ouvi o dano poderia ter sido bem pior. Bela tomada de decisão.” – Eren sentiu-se levemente envergonhado e ao mesmo tempo grato com o elogio; desde que ele primeiro acordara tudo o que ouviu foram críticas. Era bom saber que pelo menos alguém estava do seu lado.
“Obrigado Hanji. Você é a primeira pessoa a não me criticar.”
“Não ligue para o que as pessoas dizem. A maioria não conhece o peso da responsabilidade de carregar a segurança dos outros sobre os ombros.” – tranquilizo-o dando-lhe um tapinha no ombro, que ele voltou com um sorriso – “Venha, vamos conversar. Estou ansiosa para saber tudo sobre o que aconteceu.”
Eles se instalaram no caos bagunçado que Hanji chamava de escritório, Eren bebendo chá e a mulher com uma xícara de café, que ele duvidava muito fosse a última que ela teria antes de seu turno acabar.
“Então, como vocês acabaram em uma confusão como aquela?” – Foi a pergunta da pesquisadora, a mesma que Eren tinha se feito várias vezes.
O moreno contou como uma denúncia anônima os tinha levado até um suposto anel de luta ilegal humano, de como eles encontraram e lutaram com Familiares mesmo que seu armamento não fosse adequado para submetê-los. Eren a informou que ele escolheu a segurança de seu time ao invés de seguir os procedimentos padrão para a situação em que se encontravam, sobre ter se deparado com um Rogue e lutar contra os criminosos. Ele mesmo lhe disse sobre seu afastamento e da punição ainda por vir. Diferente de falar com Mikasa e Armin que o julgavam, era estranhamente reconfortante conversar com a pesquisadora, ao menos a mulher não o estava julgando como todos os outros fizeram. Hanji era tão boa ouvinte quanto oradora, o que significava muito.
“Essa é uma situação bastante inusitada que vocês se envolveram. Não ajuda que o fato de ter Shifters envolvidos torna difícil para a Polícia Militar fazer qualquer tipo de investigação mais profunda, considerando que eles perderam sua jurisdição para nós. Mas conhecendo Erwin ele não vai descansar até ter todas as respostas. Ele definitivamente vai ter uma equipe analisando esse caso.” – comentou Hanji, após ouvir a história, soando pensativa e curiosa ao mesmo tempo.
Eren por sua vez estava começando a ficar cada vez mais frustrado, e como ele não poderia? Sua equipe tinha sido colocada, ao que parecia de propósito, em perigo porque houve uma óbvia negligencia de informações, seja por parte de quem fez a denúncia ou alguém de dentro da própria Central. Quanto mais ele pensava mais lhe parecia que alguém queria que aquela missão tivesse terminado em um banho de sangue. Já era ruim o suficiente saber que havia Shifters sendo forçados a lutar para que seus Contratantes lucrassem com seu sofrimento, mas a possibilidade de que tudo isso fosse algum tipo de plano fazia seu estômago se agitar. Para adicionar ainda mais combustível ao fogo, Eren não teria nenhuma chance de participar da investigação que ele e sua equipe tinham começado, e muito bem poderia ter lhes custado a vida.
“Ao menos algo de bom saiu de tudo isso. Aquele Rogue que vocês encontraram é uma verdadeira descoberta.” – A voz animada de Hanji o arrancou de seus pensamentos sombrios e lembro-o da razão original dele estar ali.
“Como ele está? Ele ainda não foi feral, certo?” – a questão escapou-lhe dos lábios antes que pudesse se conter, e isso só revelava o quanto o assunto o esteve importunando.
“Oh, ele é uma bola de mau humor, mas feral não. Longe disso na verdade. Ele é incrível!” – Declarou a mulher, excitamento vazando em suas palavras.
O imenso alívio que o inundou pegou o jovem moreno de surpresa, mas Eren não se importou. Era bom saber que apesar de todos os problemas envolvendo sua missão, como disse Hanji, algo de bom tinha saído disso.
“Ele está bem, apenas alguns machucados sem dúvida fruto de suas lutas, nada sério. Apenas a pata traseira esquerda representa algum problema. Acredito que ele foi ferido com prata.” – A forma como Hanji pronunciou o nome do metal era como se o mesmo a tivesse pessoalmente ofendido. – “Seu corpo focou a regeneração nesse ponto, por isso os pequenos arranhões ainda estão visíveis. Ele deve curar-se dentro de uma semana. Seria mais rápido com um tratamento adequado, mas ele não parece confiar em quem veste jaleco.”
Ouvir sobre isso fez o moreno definitivamente querer colocar suas mãos sobre quem estava por trás desses crimes e fazê-lo pagar por tudo que tinha feito. Ele já considerava uma afronta ringues de luta com humanos gladiando-se, por vezes até a morte, fazê-lo com seres que eram basicamente visitantes em seu mundo e poderiam ser forçados a lutar contra sua vontade, era ainda pior. Eren lutou contra a onda de pensamentos escuros que queria dominá-lo, não havia nada que o jovem pudesse fazer sobre esse assunto agora. Mas, ao invés disso, o moreno forçou-se em focar no que ele podia fazer no momento.
“Eu poderia vê-lo? Se estiver tudo bem, é claro.” – Ele nem se deu ao trabalho de tentar disfarçar a esperança em sua voz, afinal esse tinha sido seu objetivo desde o começo.
“Eu não vejo por que não. Talvez seja bom para ele ver um rosto conhecido. Afinal foi você quem o salvou.” – Respondeu a pesquisadora já se colocando de pé, um de seus sorrisos loucos em seu rosto.
“Na verdade é mais como ele me salvou, pelo que eu soube no hospital.”
Eren mal pronunciou tais palavras e encontrou um rosto muito próximo do seu com um par de olhos muito brilhantes olhando diretamente para ele. Internamente o moreno estremeceu, ele tinha esquecido que Hanji era uma loucura quando se tratava de seus objetos de pesquisa.
“Eren! Como você pode ocultar um fato tão importante de mim?! Conte-me! Conte-me tudo!” – Se possível, a mulher parecia ainda mais vibrante do que o seu eu habitual, o que era um tanto intimidante se o moreno fosse ser honesto.
“Bem, pessoalmente eu não lembro de nada, eu perdi a consciência quando isso aconteceu. Mas os outros da minha equipe que estavam lá disseram que havia um dos bandidos tentando me esfaquear pelas costas e que o Rogue saltou nele antes que ele pudesse me ferir.” — Eren apressou-se a explicar, sendo surpreendido pelo grito animado que a mulher emitiu, antes de agarra-lo por um dos pulsos e arrasta-lo corredor a fora o tempo todo oscilando entre enche-lo de perguntas, para as quais ele dificilmente tinha respostas, e murmurar observações científicas que ele não entendia.
“L é ainda mais interessante do que eu imaginava!” – Exclamou ela em um ponto, enquanto se aproximavam do que Eren reconheceu como o local onde ficavam os Shifters em observação.
“L?” – questionou sem ter certeza de que estava acompanhando a conversa corretamente.
“Ah, sim. Ele tinha uma coleira com a letra L ao redor do pescoço. O que também é estranho, porque não se nomeia um Shifter, eles já possuem nomes, e só um que aceitou um contrato revela seu nome. Mas como tudo parece ser ao redor deste Shifter, esse é mais um mistério.” – Explicou Hanji, ela estava praticamente vibrando de emoção.
Eren estava ciente desse aspecto da formação de um contrato. Era algo que se aprendia ainda na Academia.
“Então ele tem ou teve um Contrato?” – o moreno estava inseguro sobre tal possibilidade, ele nunca tinha ouvido sobre um Shifter que já teve um Contratante se tornar um Rogue.
“Oh, não. Ele é totalmente um Rogue. Nenhum dos testes que fizemos registrou qualquer traço de um Contrato ou de transformação em sua forma humana. Além disso, ele não seria um Rogue se tivesse um Contratante em algum ponto de sua presença no nosso mundo. Como eu disse ele é um mistério.” – esclareceu ela.
Depois da resposta animada da mulher ambos mergulharam em um curto silêncio, que durou até que ambos alcançaram uma parede cuja metade era feita de vidro, onde finalmente pararam. A primeira vez que Eren tinha visto a beleza negra de um felino tinha sido em meio a adrenalina de uma missão que tinha tudo para tornar-se um fracasso sangrento. Ele viu uma fera encurralada por vários inimigos e ainda determinada a lutar com tudo que tinha até seu último fôlego. A próxima vez que ele esteve face a face com o Rogue, sua mente estava cheia de dor e sua visão não era a mais confiável e tudo que ele pode registrar foram os mais belos olhos tempestuosos que já viu. Olhos que brilhavam com ira e sede de sangue. Agora de pé diante daquele vidro ele podia reconhecer que a criatura, aninhada sobre uma pequena pilha de cobertores na sala a sua frente, tinha inteligência brilhando em seus orbes prata-azulados, olhos que pareciam perfurar os seus.
Eren sentiu seu pulso acelerar ao encontrar-se preso sob tal intenso olhar, sem pensar ele se aproximou do vidro e estendeu uma mão. Era como se ele estivesse hipnotizado. Honestamente, tudo o que Eren queria era uma chance de agradecer o felino por ter salvado-o de um ferimento muito pior do que a concussão que sofreu. E, se possível, retribuir o favor de alguma maneira. Foi quando Hanji surgiu com uma questão que ainda não havia lhe passado pela mente.
“Gostaria de entrar lá e tentar um contrato?”
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