Rodopios
1 Capítulo único
Even if I know it’s wrong
Hope the DJ plays our song
So you can find me
And dance behind me
Aquilo soava meio ridículo, na verdade.
Subir com seus sapatos na mão, saltitando os degraus da torre de astronomia bem no meio do baile de inverno não soava (nem de longe) uma boa ideia. Ainda mais por causa do longo vestido violeta tomara-que-caia, que insistia em escorregar e atrapalhar o movimento de suas pernas. O que lhe fazia ficar quase em choque, pois sabia que não podia rasgar aquela porcaria. Havia custado os olhos da cara e era sua obrigação fazê-lo durar.
Mas esse era o único jeito.
Suas mãos escorregaram pela parede enquanto ela subia com o coração acelerado, quase escapando pelos lábios. Os olhos grandes e castanhos brilhavam, emocionados, cheios de uma expectativa que tornava aquela cena um pouco menos esquisita. Sabia que já era tarde e que teria problemas se alguém lhe visse ali, mas não se importava muito com isso. Parecia um problema tão remoto, tão distante...
Antes de chegar ao último degrau, seus olhos começaram a correr pela sacada, vislumbrando o brilho estonteante da lua, que parecia maior aquela noite. Talvez fosse só seu cérebro tornando tudo um pouco mais bonito, como costumava fazer de uns tempos para cá.
E, compondo aquele cenário perfeito do céu estrelado, a lua gigante e o som abafado da música do baile, estava ele. De pé, naquele terno preto impecável, com os olhos colados nela como se estivesse observando-a por todo o caminho. Não pôde evitar e sorriu de maneira infantil ao perceber que seu pequeno plano infalível estava, de fato, funcionando.
— Essa escada nunca foi tão atraente.
Seu sorriso aumentou. Embora tenha soado galanteador, o garoto não se moveu. Apenas inclinou o rosto, lhe observando de uma forma sutilmente tentadora para ela. Ao terminar de subir, jogou os sapatos vermelhos no chão e os calçou, aumentando alguns centímetros e se aproximando da forma mais contida que pôde.
— Você também não está nada mal.
Foi então que ele se moveu lentamente e estendeu a mão, como se a convidasse para dançar. Os olhos cinzentos continuavam presos a ela, como se fosse um imã. Seu coração batia pesado, fazendo seu peito sentir cada palpitação de maneira ansiosa e oscilante, naquele misto de paixão e temor que já estava se acostumando a sentir. O pensamento a fez ruborizar.
— Você dança?
— Eventualmente, eu diria.
Quando enroscou seus dedos aos dele, sentiu-se subitamente puxada na direção do loiro, que lhe abraçou a cintura e começou a lhe embalar no ritmo da música que vinha do interior do castelo. Ele apoiou o rosto em seu ombro e pareceu respirar em meio a seus cabelos, fazendo sua nuca se arrepiar um pouquinho. Ainda tinha aquele cheiro gostoso de perfume (certamente caro) que o Malfoy sempre usava e já parecia até impregnado nele.
O baile de inverno tinha tudo para ser um fiasco para Draco e Gina. Já havia cerca de seis meses que se encontravam escondido, fosse debaixo das escadas, atrás dos muros, na floresta, enfim, qualquer esconderijo que a gigantesca Hogwarts pudesse permitir. E não parecia muito interessante ter de ir ao baile com um par de aparência, como as circunstâncias impunham que ocorresse. Obviamente teriam de ir, para não levantar nenhuma suspeita, mas acabaram pensando que nada os obrigava a ficar lá até o final.
Então decidiram fazer o próprio baile, como devia ser.
Nenhum dos dois era exatamente excelente no quesito dança, mas mesmo aquele sutil balançar e os suaves rodopios pareciam ser suficientes para lhes acalmar um pouco a afobação. Gina deslizou os dedos até os cabelos loiros do Malfoy e suspirou, sentindo-se acolhida em seu peito durante aquele embalo. Mesmo que, na verdade, nenhum dos dois estivesse exatamente em segurança...
Não soube dizer ao certo quanto tempo se passou até começarem a se beijar dentro do balanço, mas não foi muito. E se havia algo para dizer sobre Draco Malfoy era: Que beijo! Ele não era bom com palavras, gestos ou demonstrações de afeto, mas Merlin, como beijava bem aquele maldito.
Sempre com seus toques firmes, puxando-a para perto, meio afobado no começo, sem conseguir disfarçar mais a ansiedade por estar com ela. Os dedos atrevidos, escapuliam quase sempre para seus seios ou bumbum, apertando, trazendo para ele, com uma intimidade facilmente conquistada. Foi uma baita discussão que tiveram quando isso ocorreu na primeira vez, mas agora? Gina já até ficava esperando.
Quando ele apertou os dedos em sua cintura e a empurrou suavemente, inclinando-a para trás de modo a quase deitá-la em seu braço, desgrudaram, por fim, os lábios. O Malfoy começou a traçar um caminho de beijos suaves por seu colo exposto, devido ao vestido tomara-que-caia, indo até a altura dos seios, aventurando-se por ali de uma maneira irresistível e que a fez soltar um suspiro. Segurou-se nos ombros dele, mesmo sabendo que não iria deixa-la cair.
Se alguém lhe contasse isso há sete meses, certamente teria dado risada (ou se sentido ultrajada, dependendo de que parte ficasse sabendo). Agora, tê-lo ali perto, sentindo sua respiração e aquele cheiro, parecia apenas correto.
Muito correto para ser tão errado quanto era.
Viu-se tão envolta na situação que sentiu seus dedos trabalhando sozinhos, puxando-lhe a gravata e fazendo-o rir ao vê-la se atrapalhar com o processo, prendendo o tecido por trás das orelhas. Ás vezes, nos melhores dias, eles costumavam se divertir daquela forma, sem a necessidade de trocar muitas palavras. Até por que não era muito agradável quando começavam a pensar e ponderar sobre todas as dificuldades e impossibilidades daquele romance.
Era como se houvesse um combinado subliminar entre eles, de não trazer à tona este tipo de assunto a menos que fosse muito necessário. Especialmente por não saberem ao certo o que é que estava acontecendo entre eles. Quer dizer, estava acontecendo alguma coisa, obviamente, mas o que? Não havia rótulo, não havia combinado nenhum sobre isso e, por mais que os assombrasse, eventualmente, isso certamente não era assunto para aquela situação e muito menos para o dia do baile.
Falando em baile, dava para ouvir muito bem a música que tocava dentro do castelo, e Gina seria capaz de cantá-la do começo ao fim, pois amava aquela banda! Marina e o Bezoar era certamente a melhor banda de pop que existia e nada seria capaz de convencê-la do contrário. Isso lhe deixou até um pouco mais animada, sentindo aqueles toques e carinhos durante uma de suas canções favoritas: “sonhos”.
Eu vejo cores em seus olhos,
Elas me distraem do que somos.
Eu te quis em um sonho,
E te transformei em imagem e som...
Sentiu suas costas irem delicadamente de encontro ao chão e entreabriu os olhos, vendo-o fita-la de cima. Quando o Malfoy se encaixou entre suas pernas e se pressionou sobre seu quadril com aquele olhar indecifrável, Gina simplesmente soube onde aquilo iria parar.
Não houve dúvida em seu íntimo. Apenas engoliu seco, ansiosa, e sorriu, travessa, indicando com um gesto das mãos que o fecho do vestido ficava nas costas.
•
Para uma pessoa que cresceu rodeada de irmãos e amigos, Gina andava sentindo-se meio antissocial ultimamente.
Completava-se exatamente um mês após o término da batalha de Hogwarts. O mundo bruxo ainda estava em êxtase, alucinado com a nova fase de paz e calmaria, como se nada no mundo pudesse aplacar tamanha felicidade. E era realmente um alívio muito grande o de ter certeza de que não encontraria nunca mais com Voldemort ou um de seus seguidores fanáticos ao dobrar uma esquina.
No entanto, andava se sentindo meio sufocada.
Eram tantas festas e eventos que mal tinha tempo de descansar de toda aquela correria. Só queria ter um tempo para curtir com Harry, que finalmente parecia corajoso o suficiente para manter um relacionamento com ela (por mais que não dispusessem de muitos momentos à sós).
No entanto, ali estava Gina, parada ao lado da mesa de bebidas, escolhendo alguma que pudesse inebria-la mesmo que só um pouco, a ponto de aguentar à solidão daquela noite (que parecia já durar uma eternidade). Todos rodeando e conversando com o garoto que sobreviveu (duas vezes, agora) e para a Weasley, o álcool.
Detestava aquele povo hipócrita e fingido do ministério. Não passavam de um bando de covardes oportunistas, como ratos que pensam que são gatos, mas ainda se alimentam de sobras para sobreviver. Patético. Tinha tanto ódio que não conseguia apreciar nem a arquitetura daquela porcaria. Voldemort deveria ter reduzido aquilo tudo à pó, quando teve a oportunidade.
Enquanto concluía seu drink, Gina pensou que, ao menos, as músicas eram boas. Lembrava-se de tê-las ouvido ao menos meia dúzia de vezes entre os bailes da escola e as festinhas de aniversário de suas amigas. Foi quando começou a tocar Marina e o Bezoar, “sonhos”, fazendo seus olhos se arregalarem sutilmente e suas sobrancelhas se arquearem.
A lembrança da noite do baile de inverno lhe invadiu como um raio, acendendo seu olhar e fazendo-a despertar. Foi como se tivesse acordado de uma espécie de coma, seus sentidos todos ficaram alertas e ela subitamente virou o rosto em uma direção que a atraiu magneticamente.
Os olhos cinzentos de Draco Malfoy pareciam lhe despir. Parado e escorado à parede, às margens das celebrações, como o rejeitado que se tornara naquele ambiente social, ele parecia contemplar da própria companhia. A forma de lhe observar era como se ele soubesse – e, de fato, sabia – como ela ficava sem aquele vestido de alcinha. E um sorrisinho cínico brotou nos lábios dele, antes que erguesse a taça de sua bebida, como se a oferecesse um brinde.
Por um instante, foi como se tivesse quinze anos novamente.
Lembrava-se de ter vivido tanta coisa ao lado dele. E ninguém, em todo o mundo mágico, jamais poderia imaginar tudo que passaram juntos durante os dois anos que estiveram juntos. Era como se fossem parceiros no crime, envolvidos até os fios dos cabelos com algo que nenhuma alma sequer sonharia em cogitar.
Lembrava-se dos beijos nos corredores, de quando mataram aula para jogar quadribol, das noites escondidos procurando a lula gigante na beira do lago, mas, naquele instante, seu baile de inverno cobria todas as outras memórias. Era urgente, era impossível de conter e, Merlin, ele sabia. Dava para ver na cara do Malfoy, o jeito como lhe observava e sorria, com cem por cento de certeza de que Gina recordava-se perfeitamente daquela noite, na torre de Astronomia, quando ouviram essa música.
Havia sido sua primeira vez.
E ele sabia.
Você me diz para ser sutil,
Mas, amor, não há como esconder.
Tudo entre a gente é hostil,
Só queria te ver me surpreender.
Gina sorriu e ergueu sua taça, retribuindo ao brinde.
Independente de tudo, haviam rompido. Foi uma decisão mútua, consentida e estavam bem com isso, certo? Ela agora estava namorando Harry, o herói do mundo bruxo, e Draco Malfoy seria, para sempre, apenas uma derrapada, uma curva errada no caminho, algo que não poderia mais afetá-la ao simplesmente aparecer, assim, no meio de uma festa.
Certo?
•
Não devia ter dado ouvidos à Luna.
Na verdade, bem fizera Hermione, que inventara uma desculpa esfarrapadíssima para não ir ao aniversário da Lovegood. Estava um frio dos infernos, como era típico de fevereiro, e tudo que Gina queria era sua cama e suas cobertas, ainda mais agora, que fazia apenas um mês que rompera com Harry.
A sociedade respaldava seu direito de ficar enfurnada em casa, remoendo seu romance malsucedido enquanto se entupia de chocolate e o que ela fazia? Exatamente, colocava a porcaria de um vestido e ia congelar a bunda num bar, especificamente numa festa cheia de gente que ela mal conhecia. Tudo isso por que Luna disse que seria divertido. Hum, pois sim. Muito divertido.
Como se não fosse o suficiente, ainda havia uma porção de ex-alunos de Hogwarts, especificamente da sonserina, que estavam servindo de guarda-costas de Blaise Zabini, a nova conquista amorosa de Luna. E Gina mal podia evitar o olhar de reprovação ao ver a amiga olhando fascinada para aquele imbecil. Quer dizer, tudo bem que era costumeiro da Lovegood ver algo de bom em todo mundo, mas até mesmo naquele ali?
Enquanto tomava um gole de sua bebida, Gina tentou se lembrar de como foi que aquele romance começou. Tinha certeza que Luna havia lhe contado, é óbvio, mas não sabia se estava certa sobre os detalhes. Apertou as sobrancelhas enquanto buscava na memória uma explicação plausível para a cena que testemunhava e o álcool não parecia colaborar muito.
Foi quando Gina o viu.
Era meio difícil que aquela cabeleira loira, quase branca, passasse desapercebida em algum lugar, mas o Malfoy tinha um certo talento em se camuflar. Assim como ela, parecia desinteressado da festa e certamente devia estar ali somente por alguma chantagem do Zabini. Os olhos cinzentos fitavam o casal com a mesma expressão de reprovação que Gina mantinha e ela quase achou engraçado vê-lo ali, julgando-os. Conhecendo-o como conhecia, já até imaginava o tipo de comentários que transitavam por aquela mente maldosa.
Foi quando ele pareceu notar seu olhar e virou-se em sua direção.
Por um momento, apenas se olharam. Já devia haver, pelo menos, uns dois anos que não se viam, mas o Malfoy ainda parecia apenas o mesmo de sempre. Talvez um pouco mais magro, mas não tinha certeza sobre isso. Um sorrisinho brotou nos lábios dele, que inclinou o rosto enquanto a observava. Foi quando Gina percebeu que, não interessava quanto tempo se passasse, havia um lugar dentro dela que sempre entraria em polvorosa ao vê-lo.
Colocou uma mecha do cabelo para trás da orelha num gesto involuntário, o que pareceu incentivá-lo a caminhar em sua direção. Conforme se aproximava, a diferença de altura entre eles ficava mais evidente. E, tinha de admitir, ele continuava cheiroso e muito bem-apessoado, tendo a dignidade de usar um casaco para não congelar o rabo numa festa.
— O que você acha disso?
Ele perguntou indicando Blaise e Luna com um movimento do queixo pontudo. Gina suspirou e sacudiu a cabeça negativamente, observando os dois dançando ao som de uma música pop qualquer.
— Eu acho que não estou bêbada o suficiente.
O Malfoy foi se sentando em um dos bancos em volta do balcão do bar e indicou que ela se sentasse também. Gina assentiu e tomou seu lugar ao lado dele, apoiando seu colo sobre o mármore e girando os olhos em sua direção.
— Meu pai sempre disse para que eu escolhesse muito bem minhas amizades. Você pode notar que eu fracassei.
Gina sorriu de lado.
— Você nunca ligou muito para os conselhos do seu pai.
— Aí é que você se engana.
Os olhos castanhos rodaram até o Malfoy e ele suspirou, parecendo um pouco cansado de pensar sobre esse assunto.
— Eu ligava. Até...
E a encarou com aquele semblante de travessura que fez Gina rir.
— Isso foi há muito tempo.
— Você fala como uma velha, sabia?
E o Malfoy acenou para o barman, sinalizando que gostaria de uma bebida. Gina torceu o nariz e colocou as mãos na cintura.
— Eu não falo não!
— Claro que fala. Faz parecer que Hogwarts foi dez anos atrás. Quando, na verdade, fazem o que? Três anos?
Gina rodou os olhos nas órbitas. Por mais que fosse um pouco verdade, estava determinada a não admitir. Tanta coisa aconteceu após a guerra que, realmente, parecia uma década. E, se fosse levar em consideração quando rompeu com o Malfoy, podia incluir mais um ano nessa contabilidade.
Mas era engraçado como, em menos de um minuto, sentia-se como se nunca houvesse perdido o contato com o Malfoy.
— Parece que foi em outra vida, não parece?
Ela perguntou observando-o. O loiro pareceu pensar durante alguns segundos, como se deixasse as lembranças lhe dominarem os pensamentos. Um meio sorriso se instalou em seu rosto e o fez ficar subitamente de pé. Virou-se na direção de Gina e estendeu sua mão, de uma forma ironicamente cortês.
— Você dança?
Suas bochechas ruborizaram, mas ela aceitou o convite ao tocar a palma da mão dele com a ponta de seus dedos.
— Eventualmente.
Da mesma maneira atrevida e firme que se lembrava, Draco Malfoy envolveu sua cintura e a puxou para perto, envolvendo-a num embalo que acompanhava a música alta que tocava no bar. Se fosse em outras circunstâncias, em outra época, talvez fosse se preocupar com aquela proximidade, aquele cheiro delicioso e quem quer que pudesse vê-los. Mas, agora? Depois de enfrentar Voldemort, virar motivo de fofoca não parecia absolutamente nada relevante.
Além do mais, não era como se fosse exatamente uma novidade.
Já conhecia tudo aquilo. Aquele calor, aquele jeito de conduzi-la, o humor ácido e basicamente tudo que havia para saber sobre o Malfoy. E, por mais que soubesse que as coisas entre eles não houvessem dado certo, não podia evitar de se sentir acolhida naquele embalo, como se nunca desse sair dali.
Parecia tão correto.
Seu coração tamborilou no peito, seu estômago ardeu e Gina sentiu as pernas amolecerem, como se pudesse cair se não fossem os braços do Malfoy em volta de sua cintura. Era como se houvesse voltado para casa após muito, muito tempo viajando. E se permitiu apertar os dedos nas bordas do casaco dele, suspirando baixinho enquanto tentava não se entregar totalmente àquela sensação.
Sentiu o queixo dele apoiando-se em sua cabeça, bagunçando um pouquinho seu cabelo, como o Malfoy dizia que gostava de fazer. As lembranças começaram a preencher seus pensamentos, invadindo completamente seus sentimentos e a fizeram se aninhar nele, desejando que aquele momento não se acabasse nunca.
Gina temeu abrir os olhos. Temeu que fossem se afastar, que aquele momento pudesse acabar e que tivesse de voltar a pensar, erguendo barreiras invisíveis entre eles. Não queria isso, não queria motivos óbvios e lógicos para desgrudar daquele peito, daquele calor, daquele cheiro... nada nunca havia sido como aquilo, nem sequer se comparava àquele delicioso misto de paixão e temor que fazia seu coração sambar dentro do peito.
Talvez estivesse mesmo, meio bêbada.
Quando ele a fez rodopiar suavemente, girando-a e trazendo-a de volta para o meio de seus braços, Gina não conseguiu se conter. Ergueu o rosto e pressionou seus dedos na nuca do Malfoy, puxando-o um pouco para baixo, possibilitando-a de roubar-lhe um beijo.
Sentiu os braços dele se apertarem em seu redor e suspirou entre os lábios do Malfoy, que tomou espaço em sua boca e a beijou daquela forma que sentira tanta falta. A mesma afobação de sempre, mas agora ele parecia mais preocupado em mantê-la ali, junto de si, do que explorar seu corpo, como costumava ser.
Não havia, naquele momento, para Gina, uma única razão no mundo para que não se entregasse àquele beijo. E, na realidade, sempre fora assim. Palavras nunca foram o ponto alto de seu relacionamento, eram aquelas coisas. Aqueles pequenos carinhos, sorrisos e instantes que partilhavam envoltos em alguma coisa que os fizesse não pensar muito no que estavam fazendo.
Quando pararam por um momento, em busca de ar, seus olhares se cruzaram.
Durante aquele breve instante, apenas se olharam com a mesma cumplicidade criminosa que costumava haver entre eles. Gina não pôde evitar um sorriso de canto e as palavras saíram por sua boca antes que pudesse pensar sobre elas.
— Eu senti sua falta.
Antes que o Malfoy pudesse responder de alguma forma, a voz de Luna num grito de empolgação rompeu pelo bar e ela chamou o nome de Gina.
A ruiva automaticamente olhou na direção de Luna, que sorria de forma débil e acenava, apoiada no ombro de um envergonhado Blaise Zabini, cheio de marcas de batom na bochecha e no colarinho.
— Gina, essa é para você!
Então “Sonhos”, de Marina e o Bezoar, começou a tocar alto. Luna voltou a dançar, desta vez seguindo o ritmo da música (mas de uma forma meio esquisita, que fez Blaise rir e segurá-la pela cintura, com medo de que caísse de cara no chão).
— Ela é realmente muito esquisita.
O Malfoy comentou sem desgrudar os olhos de Luna e Blaise, que rodopiavam pelo salão de forma descoordenada, provavelmente pela bebida. Gina sorriu ainda meio constrangida pela amiga, mas logo em seguida voltou sua atenção para o loiro, começando a se arrepender do beijo e de ter lhe dito que sentira sua falta.
Quer dizer, ela lhe roubava um beijo, dizia que estava com saudades e o que ouvia em retorno? Absolutamente nada. Isso era meio constrangedor...
— Escute, eu acho que me precipitei aqui. Eu já bebi um pouco, acho melhor nós...
Foi quando ele lhe interrompeu, roubando um beijo quase da mesma forma que Gina fizera segundos antes. Aquilo a fez se acalmar novamente, como se o ar fluísse confortavelmente em seus pulmões. Seus dedos tocaram-lhe a bochecha delicadamente, até que o Malfoy se separasse dela novamente.
— Toda vez que escuto essa maldita música eu lembro daquele dia, mas, sobretudo, me lembro de você. E de como formávamos um “nós”.
Ele parecia convicto no que dizia, com as mãos segurando-lhe o rosto, tentando fazê-la prestar atenção à cada palavra. Gina assentiu suavemente, tentando demonstrar que se sentia da mesma forma.
— Por que nós nos separamos, Weasley? Por que não insistimos? Eu não faço ideia!
Gina apertou os lábios e ergueu os ombros.
— Nós pensávamos que não daria certo, nós tivemos medo das nossas famílias, nós... não queríamos desapontar ninguém... eu acho...
Então ele balançou a cabeça negativamente e colou a testa na de Gina, fechando os olhos em seguida e suspirando de forma audível.
Olhando para o passado, todos os motivos que os levaram a romper pareciam tão bobos e irrelevantes que fizeram Gina se sentir um pouquinho daquela forma também, como se houvessem desperdiçado uma grande parte de tempo que poderiam estar juntos. No entanto, ainda assim, ela sorriu e tocou-lhe a bochecha, fazendo-o abrir os olhos cinzentos novamente.
— Você quer sair daqui?
E o Malfoy sorriu diante de sua proposta.
— Quero.
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