Roderick e seus doze irmãos
14 Dores e tudo
Notas iniciais
1585
Roderick acordou com uma dor pungente nas costas. Francisca chegaria em poucos dias. Não podia estar em más condições para recebê-la. Decidiu que era hora de visitar Alister.
O apotecário da cidadela era um pequeno prédio escondido entre todos os outros, facilmente ignorado, identificado apenas pela guirlanda na porta. Roderick bateu três vezes na porta, e lá de dentro ouviu o som de vidros se quebrando.
— Está tudo bem aí? – Roderick perguntou.
— Só um pouco!— Alister respondeu.
Mais alguns barulhos de móveis sendo arrastados, e a porta se abriu, com um Alister muito descabelado por trás dela.
— Ei, Rod! – ele cumprimentou – Entre, entre.
— Oi, Roderick! – a voz de Kenna acrescentou.
O interior da loja era escuro. Kenna estava sentada numa cadeira, com papéis ocupando parte da mesa de trabalho do irmão, e uma vela para que pudesse ler. Todas as prateleiras e bancadas que se espalhavam pelo pequeno cômodo estavam cobertas por potes com plantas, líquidos estranhos e outras bugigangas.
— O que estás a fazer aqui, Ken? – perguntou Roderick.
— Comprando coisas para o teu casamento – ela explicou, mostrando a folha onde tinha uma lista – Ingredientes para o banquete, flores para boa sorte…
— E nós já não temos tudo isso?
— Nem tudo dá para plantar em casa – Kenna respondeu, distraída – E é mais barato comprar do nosso irmão. Se bem que, se ele fosse um irmão de verdade, nos dava de graça.
— É preciso saber gerenciar os negócios, irmãzinha – Alister respondeu, voltando para trás do balcão.
— Irmãzinha— bufou ela – Eu sou mais velha. E mais alta.
Roderick se pôs atrás dela e inspecionou suas listas. Sabia que Fionna a tinha encarregado de cuidar dos preparativos e dos convidados – afinal, se a casa dos bastardos tinha se mantido em pé tinha sido porque Kenna era feroz nas contabilidades.
— Olha, ainda bem que apareceste por aqui. Queria te perguntar uma coisa, Rod – ela disse — A Marion… a Marion vai estar em Gayern na altura do casamento?
— Hm, acho que sim. Não ouvimos dizer nada sobre ela em Breator nesta altura — respondeu o lorde – Por quê?
— Oh, por nada. Eu só gostaria de vê-la por lá…
Kenna não desviara os olhos de suas listas intermináveis, mas Roderick notara que ela havia parado de ler e tomar notas durante a conversa. Ele e Alister trocaram um olhar, e o rapaz assentiu. Era tudo que Roderick tinha que saber. Kenna e Marion… ele nunca imaginaria.
— Então, Roderick, o que precisas de mim? – perguntou Alister.
— Algo que me alivie as dores.
— As tuas costas andam a atacar de novo?
— É, a mesma maldita dor.
Alister lhe ofereceu um sorrisinho de compaixão, e voltou a percorrer suas paredes de tralhas com os dedos. Logo encontrou um vidro que lhe chamou a atenção, contendo uma pasta amarelada.
— Aqui tens, pasta de arnica. Passe na região onde te dói, ao acordar e antes de dormir – Alister explicou – Se acabar, é só encontrar mais flores de arnica e esmagar com um unguento comum.
— Não vou ter larvas a subir nas minhas costas, pois não? – Roderick perguntou, de sobrancelha erguida.
— Não se fores limpo.
Ele assentiu, e botou duas moedas de ouro no balcão. Alister não fez pretensão de recusar o pagamento, e prontamente o guardou em sua bolsa.
— Queres algo também para acalmar os nervos? – perguntou o bastardo, apontando para outro pote atrás de si – As noivas compram bastante aqueles.
— Minha noiva ainda não está aqui.
— Eu sei, estava a oferecer para ti.
— Se o mar colaborar, ela estará aqui em seis dias – Kenna comentou, distraidamente – Já mandei os criados limparem um dos quartos desocupados para ela.
— Estás mesmo a gostar de ter poder sobre o castelo, não estás? – Roderick brincou.
— Devias estar a agradecer-me pela minha mania de arrumação. Vais ter um casamento de rei.
— Espero que não seja tão extravagante assim, sabes que não devemos ser imodestos…
— Eu sei, eu sei, é modo de dizer – Kenna respondeu – Seu chato. O Sul tirou-te todo o senso de humor?
— Talvez esteja mesmo ansioso para o casamento – Roderick admitiu.
— Posso fazer dois calmantes pelo preço de um só, um para ti e outro para a dairense! – Alister disse, já com os dois frascos na mão.
— Não é preciso, Alister. Mas já agora, me dê mais ervas de fumo. E obrigado, Kenna.
Alister sumiu por mais alguns segundos, buscando as plantas no jardim. Um novo cliente entrou, e cumprimentou o trio com muitas cortesias. Kenna cuidadosamente guardou e escondeu seus planos. Depois do homem ter sido atendido, ela reiniciou sua conversa. Alister continuou procurando algo nas prateleiras que ficavam por baixo de seu balcão.
— Olha, devo dizer que fiquei surpresa quando a Fionna disse que ias te casar com uma princesa – Kenna disse — Quer dizer, sabia que foste muito galante na tua época, mas achei que tinham se passado os tempos em que encantavas moças estrangeiras.
— Minha época. Como se tivesse sido há muito tempo.
— E foi.
— Bom, de certeza vocês já ficaram a saber do motivo do meu casamento com Francisca – Roderick respondeu, se referindo à mentira que tinham feito circular para esconder a rebelião – Eu ouso dizer que ainda tenho meus charmes.
Alister ergueu a cabeça para cima do balcão, reaparecendo.
— Por falar nisto, tenho aqui uns afrodisíacos. Queres?
— Alister, estás a tentar me extorquir de alguma forma?
— De jeito nenhum. Só estou preocupado com o futuro de Saye, obviamente – ele brincou – Agora que sou um Donne, quero que tenhamos muitos descendentes!
— Claro, claro, e vocês dois estão a contribuir bem para isto. Tu és basicamente um ermitão, e a Kenna não gosta de homens.
— Não é verdade, eu gosto de homens. Vocês dois são grande companhia – interferiu Kenna.
— Kenna gosta de homens, mas ela gosta mais das suas irmãs. E primas. E esposas – acrescentou Alister – Conall estaria orgulhoso.
— Esposas? Porra, Kenna. Nem eu fui tão longe…
— Ah, por favor! – ela protestou – Não enganas ninguém, Roderick. Nunca estiveste com uma dama casada?
— Estou a dizer a mais pura verdade.
— Bem, vou ter que confirmar esta informação com Logan Clery então.
— É claro, porque Logan Clery é uma pessoa muito honesta – riu Roderick.
— Ei, não mudem de assunto – Alister interrompeu, brincando com seus frascos – O ponto é que Kenna anda a causar confusão.
— Em minha defesa, foi só uma vez, e eu não sabia que ela era casada.
— Sei – Roderick disse, e aproveitou o assunto para bisbilhotar mais sobre a vida da irmã – Dentre nossas convidadas para o casamento encontrarei algumas mulheres do teu…clube de moças?
— Os teus eufemismos são cada vez mais criativos – Kenna respondeu – E sim, algumas delas estão.
— Lady Olive vai estar?
Alister riu.
— Esta daí não quer ver a Kenna nem pintada de ouro.
— Bem, é… nós não nos separamos nos melhores termos – concordou a irmã – Mas a Lady Elise Furbanks irá, conheces ela, não? Foi amiga de Blair.
— A Elise é das tuas? – Roderick repetiu, cruzando os braços – Então é por isso que ela nunca me deu atenção…
— Ou talvez porque tu eras um pirralho naquela época.
— Talvez. A Marion é das tuas também, Kenna?
A bastarda desviou o olhar e corou.
— É assim tão óbvio? – ela suspirou.
— Bom, agora é. Mas a Marion é boa pessoa, Fionna e eu gostamos muito da família dela – Roderick garantiu.
— Sim, mas ela passa tanto tempo em Breator, fazendo sabe-se lá o quê, tenho pouco tempo para conversar e conhecê-la como gostaria… — Kenna respondeu, os olhos mais tristes.
Roderick sentiu uma pontada de culpa naquele momento. Kenna e Alister não deviam fazer a menor ideia de qual seria o propósito real das visitas de Marion a Breator. Abigail era a única entre eles que estava mais ciente do que se passava de verdade no castelo. A rebelião de Fionna levara os bastardos a guardarem segredos uns dos outros.
— Espero que tu e a Marion tenham uma chance de se conhecer melhor – Roderick desejou, pondo uma mão no ombro da irmã – Acho que é melhor eu voltar para o castelo, tenho ainda muito a fazer. Obrigado pelos serviços, Alister.
— Antes de ires, Roderick, estive a pensar – o rapaz respondeu – Não reparaste que as tuas costas doem sempre quando estás nervoso com alguma coisa?
Roderick mudou de posição, e fez cara feia.
— Isto é estúpido, Alister. Minha cabeça é minha cabeça, e minhas costas são as minhas costas. O que uma coisa tem a ver com a outra?
O bastardo deu de ombros.
— Foi só uma teoria. Podes sempre contar comigo para os calmantes.
— Obrigado de novo. Adeus, Kenna, adeus, Alister.
Com um aceno, se despediram. Roderick mal deu dois passos para fora do boticário quando as suas costas voltaram a protestar. Ele resmungou consigo mesmo e se recostou contra a parede até que a dor melhorasse.
Mas que bela merda, pensou consigo mesmo, que grande marido eu serei, com dores que me atacam quando estou nervoso.
Ele se lembrou de quando conversara com o rei José pela primeira vez sobre a possibilidade de juntar as forças de seus dois reinos.
“Casar a minha irmã consigo me parece óbvio” dissera o rei “É uma pena que teus irmãos mais novos sejam bastardos”
Roderick não sabia dizer se ele tinha dito aquilo com más intenções. Ele achava que o rei José até gostava bastante de si, mas ele pensava sempre no que era melhor para Francisca, é claro. Roderick estava mais próximo do suposto trono de Saye, mas era mais velho… Alister tinha a idade da princesa, mas era um bastardo.
Será que Francisca seria mais feliz com um de seus irmãos? Conall era basicamente a versão mais jovem de Roderick, e agora já era um Donne legítimo. Alister era um rapaz estudado, inteligente, certamente teria muito a conversar com a princesa… e Roderick era um velho marinheiro cheio de dores e amarguras.
Não, não posso pensar assim, ele se lembrou.
Não sabia dizer se Francisca o amava, mas ela o mantivera em sua companhia por quase dois anos por escolha. Mesmo antes da aliança política, ela o quisera.
Ela o quisera. Dores e tudo.
Quanto mais se aproximavam do casamento, maior seu medo ficava. Quase tinha vontade de mandar Francisca voltar para Daire e esquecer de tudo. Tê-la ao seu lado, como esposa, era tudo que Roderick queria, mas se ela fosse infeliz, ele nunca conseguiria se perdoar.
Só queria que ela chegasse logo…
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