Robert&Lucy
1 Robert&Lucy
Robert, de uns dezessete anos, magro e dono de belos olhos verdes, era um exímio artista: seus desenhos eram lindíssimos, e ele conseguia aprender qualquer estilo de desenho com facilidade. Ele era um jovem que, em meio à variedade cultural de seu amado século XXI, interessou-se plenamente pela arte. Começou com os quadrinhos, onde desenvolveu seu traçado mais caricato, e logo passou para outros estilos, como o desenho realista. Porém, o que Robert amava, de fato, era a forma humana. Sim, ele amava a figura humana. Era o que lhe proporcionava o real prazer da arte. Ele mesmo dizia:
-O ser humano sou eu. O ser humano somos nós. O mundo é regido pelo ser humano. Tudo é o ser humano. E o mais incrível de representar o ser humano artisticamente, é poder dar-lhe novas características. Se o ser humano é tudo, e nós mexermos no ser humano, consequentemente estaremos mexendo em tudo. Portanto, qualquer tudo pode ser Deus.
Nosso protagonista tinha um hábito bastante interessante: desenhava toda existência humana que lhe interessasse não apenas em forma, mas em conteúdo. Isto é: se fazia um novo amigo, sentia-se obrigado a representar-lhe com seus virtuosos traçados para oficializar sua relação. Não interagia com intimidade até que conseguisse seu desenho.
Porém, em sua longa jornada pelo virtuoso caminho da arte, Robert encontrou um inimigo inesperado: o amor. Como o ser humano é tudo, e pode ser até Deus, por que não dizer que o amor tinha um nome? Lucy. Esse era seu nome. Uma linda donzela de cabelos avermelhados, lisos e longos, de olhos verdes e um corpo magro, delicado e lindo, que roubou o coração de artista que batia no peito daquele garoto.
-Lucy, tenho algo a dizer. Seus olhos são as joias mais lindas já surgidas neste mundo, perco-me em teus dançantes fios de cabelo rubros, perco-me em tudo que vos diz respeito. Sabes porquê? Amo-te, Lucy. Amo-te como jamais esperei amar a alguém.
E sim, Robert fazia parte de uma geração de pirralhos que cresceu lendo sobre grandes histórias de amor, claro, todas elas descritas nas palavras de velhos fracassados no ramo. Foi justamente com essas antiquadas palavras, que não necessariamente compunham os mesmos tempos verbais, que, desajeitado, se declarou para sua amada. Lucy também o amava. Porém, ainda havia algo a ser feito antes de qualquer outra intimidade, como bem lembrou Robert, segundos antes de um beijo que poderia arruinar seus estranhos métodos. Ainda havia de fazer o retrato perfeito de sua amada.
Correu para casa, rabiscou, rabiscou, rabiscou, mas nada conseguia. Poderia retratar qualquer outra das mais lindas mulheres da história, mas não àquela que tirou seu coração. Não conseguia. Realmente não conseguia. Após inúmeras tentativas, suas mãos tremiam. Pensou que talvez, por estar num momento de muita excitação, devesse tentar no dia seguinte. Apesar de querer estar com sua amada o quanto antes, apenas o faria se finalmente conseguisse o desenho perfeito. Deitou-se, e na noite do dia seguinte continuou.
Dias se foram, ele não conseguia. Ficara desesperado, nada parecia bom o suficiente. Talvez Lucy não pudesse ser representada, talvez sua beleza não fosse mesmo desse mundo. Mas continuou tentando. Sempre conseguira: todos os humanos pertencentes a seu ciclo social tinham seu próprio retrato assinado por Robert, por que justamente Lucy ficaria sem?
Passaram-se dias, semanas, e nada. Robert estava louco, desesperado. Não conseguia pensar em mais nada. Passava dias inteiros desenhando, tentando expressar seu amor nos traços delicados que compunham o mais belo rosto de todos, mas, para ele, nem chegara perto do resultado esperado. Já há algum tempo não comia e sequer saía de seu quarto. Todos estavam preocupados.
Eis que, um dia, saiu de seus aposentos. Expôs-se ao mundo, alimentou-se como qualquer outro ser humano e parecia ter voltado à rotina. Talvez tivesse conseguido, afinal?
Retornara ao seu quarto. Porém, desta vez suas mãos não desenhavam, mas sim, escreviam. Um bilhete. Bilhete este que avisava a todos que Lucy não era desse mundo, era perfeita demais para ser. Nem o melhor dos artistas conseguiria representar sua sutileza e seus traços perfeitos. Após longos dias de tentativas frustradas, Robert ficou insano. Não acreditava mais que Lucy era um ser humano. Não mais defendia a tese de que o ser humano era tudo, porque Lucy era seu tudo, e não era humana. A beleza daquela moça nunca poderia ser representada, portanto, decidiu esperar nos domínios divinos. Se nada pudesse fazer por lá, gostaria de ir ao inferno, onde seria punido por não conseguir ser bom o suficiente. Mas todos sabiam: ele era, sim, bom o suficiente para Lucy. Mas não para ele. Robert não buscava apenas retratar a perfeição de sua amada. Talvez, inconscientemente, ele estivesse apenas em uma eterna busca pela sua própria perfeição, por uma afirmação de que sim, ele poderia amar sem medo.
Algumas horas depois, seu corpo foi encontrado, oco, sem vida, perdido no mar de atelofobia de seu quarto.
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