Um homem de undercut masculino, cabelos pretos e cuidadosamente ajeitados, olhos azuis, com um rosto não exatamente feio, mas que a barba escondia as imperfeições transformavam-no em alguém mais bonito que realmente era. Caminhava pela rua com seu celular em mãos respondendo algum grupo aleatório de WhatsApp. Fones estavam no ouvido e música não muito alta.

Como não era exatamente feio, estava em forma e tinha olhos claros, chamava a atenção de maneira positiva de qualquer pessoa, sendo para pensar “nossa, que gostoso” ou “eita, que cara bonitão”.

Parou em uma das floriculturas da sua vila. Onde um idoso, beirando seus 90 anos estava sentado em uma cadeira acolchoada ouvindo seu rádio no volume máximo, podia ser a falta de noção da velhice ou realmente a surdez que o tivesse pegando, nunca teremos uma resposta. Olhou pro jovem cerrando um pouco os olhos do jeito que somente velhos, muito velhos conseguem fazer.

— Entra menino! Não precisa ter vergonha. Flor pra sua namorada, pra sua mãe? – Disse enquanto levantava da cadeira com dificuldade – Falando na sua mãe, como tá sua mãe? Ela não passa mais aqui. Ela tá morando lá em Hortolândia, né?

— É, ela tá. – O jovem respondeu, não queria ser grosseiro com o velho, forçando-se a dar um sorriso amarelo.

— Nessa época do ano, meu querido, as flores são sempre pra uma menina.

— Pois é, né. – Disse enquanto retirava um dos lados do fone – Eu quero um buquê bem bonito pra eu entregar pra alguém especial…. – Uma das mãos ia para a carteira, já pegando o cartão de crédito.

— Sempre tem alguém especial mesmo. – O velho respondeu por educação – Mas me diz, menino.

Pra alguém especial ou pra sua mãe? – O velho olhava para um grupo de açafrão enquanto falava da mãe e para camélias brancas enquanto falava de alguém especial. – Açafrão é pra sabedoria, e as camélias são de beleza, pra dar pra alguém que cê acha bonito.

— Eu acho que é melhor outra, nenhuma das duas é o que eu to querendo... – O jovem disse tentando novamente, não ser grosso com o velho, mas foi prontamente interrompido.

— Olha, temos um menino namorador aqui. – O velho ria sozinho, como todos os velhos fazem. – é pra namorada né? Quando eu namorava dei pra minha véia que morreu de câncer umas açafrão também. A sua vai gostar. – O velho já saiu pegando as flores sem consultar a opinião do jovem.

— Obrigado, eu acho. – O jovem olhou pras flores, não era o que queria, mas não eram exatamente
feias.

Independente do quão maluco e inconveniente o velho fosse, não ia discutir. O velho já tava velho demais, naquele estado que não adianta contrariar (mesmo pagando). E as vezes saia melhor ficar quieto.

Pagou o quanto devia e saiu um pouco incomodado fazendo que sim com a cabeça quando o velho falou “manda lembranças pra sua mãe”. De qualquer forma, as flores estavam num buquê bonito e voluptuoso. Saiu com o buquê em mãos, com cuidado para não danificá-lo.

Alguns casais jovens passavam em frente a ele e se cutucavam e riam baixinho, em outros podia-se ver alguém virando os olhos. Os idosos olhavam para ele com aquela saudade da juventude, boa parte dos idosos, na verdade dava aquele sorriso de satisfação e nostalgia. Um buquê na rua chama a atenção, e o jovem de cabelos negros devia ter se tocado disso.

Não se importava com os casais ou com os idosos, mas repassava na sua mente o quanto amava Robert. O amou desde a primeira vez que o viu levantando a mão em uma aula de Redação para Rádio, no primeiro semestre de jornalismo. Amava quando Robert se levantava e coçava a cabeça com alguma caneta ou simplesmente quando perguntava “quando é a prova?” no grupo da sala.

Lembrou-se também do quão irritado ficava quando davam média somente para Robert passar de semestre. Como alguém ousada tratar como mediano aquela pessoa que tanto amava? Como podia aquela sirigaita da professora falar que o trabalho de Robert era “genérico e insosso, mas dá pra passar.”

Lembrava-se também com raiva quando via Robert no barzinho, conversando aqueles 3 amigos e tomando algum litrão. Como podia Robert traí-lo daquela maneira? O amor dos dois era destinado, ele sabia disso.

Depois de toda essa raiva suspirou aliviado. Em sua memória, teve a melhor sensação, daquelas que somente boas lembranças eram capazes de trazer. Robert oferecendo ajuda em um dos trabalhos e de como aquela ajuda, mais tarde, na sua casa, se transformou num beijo. Nunca se esqueceu dos lábios de Robert nos seus.

Nada impediria esse amor de acontecer, ninguém impediria que os dois fossem felizes juntos.

Parou a frente de uma banca de jornal para carregar seu cartão de transporte e enquanto o fazia, passou os olhos pelas manchetes. Um título com letras garrafais e em negrito dizia: “Sequestro de universitário”. Não deu atenção aquilo, afinal, era comum esse tipo de coisa em cidades como São Paulo. O jovem pegou o cartão transporte, agradeceu a moça que fazia a recarga e o colocou na carteira, voltando a caminhar e a pensar sobre seu amor.

Chegou em casa, pegou suas chaves, abriu a porta e finalmente entrou. Quando estava do lado de dentro, a trancou novamente.

— Robert! I’m home! Tenho uma surpresa pra você e dessa vez não é meu pau numa caixa! – Disse de maneira jocosa e alegre, mesmo que fosse uma péssima piada.

O jovem então tirou o sapato e as meias, deixando-as no sapateiro que tinham colocado bem na entrada da casa pra não sujar o chão.

Retirou sua camisa e sua calça, andando de samba canção pela casa com o buquê em mãos.

Caminhou até um dos 3 quartos, e abriu a porta lentamente. Sorrindo de orelha a orelha, porquê finalmente entregaria as flores à seu amado.

Aproximou-se da cadeira onde Robert estava nu, olhando para o monitor parado na área de trabalho. Suas mãos não se moviam, principalmente porquê não tinha como. O pulso de Robert estava amarrado aos braços da cadeira, as voltas da corda chegavam até seus cotovelos, onde nós firmes terminavam o serviço. Na cintura havia também cordas grossas e resistentes que prendiam Robert no encosto. Os nós da cintura se localizavam nas costas da cadeira e se mantinham firmes, tais quais os dos pulsos.

Robert também gritaria durante o dia clamando por ajuda, se não tivesse com um pedaço de pano retorcido amarrado em volta de sua boca. A parte de trás do nó desse pano também era forte.

Além de abafar qualquer som, o pano não permitia com que Robert mordesse a própria língua para acabar com aquela tortura.

O jovem de cabelos negros colocou as flores sobre o colo desnudo de Robert e a mão deu uma passada generosa sobre o membro de seu amado, que como esperado, se mantinha sem nenhuma ereção. As mãos subiram e desatavam o nó do pano que cobria a boca.

— Se você gritar ou falar algo que eu não goste, já sabe o que acontece, meu amor. – Disse com um sorriso no rosto.

— Me deixa sair, por favor. A gente só ficou uma vez, eu tenho namorada. Me deixa sair, por favor. – Robert não gritava, sabia que gritar pioria a situação. Já havia gritado antes e o resultado não foi bonito.

— Namorada, meu bem? Eu sou seu namorado. Você está confundindo as coisas. Não viu que eu te trouxe um buquê lindo? O que a gente faz quando recebe um presente? – disse num tom bondoso.

— Me deixa sair, pelo amor de deus. Eu não falo pra ninguém, eu juro. Só me deixa sair. – Robert disse, com os olhos cheios de lágrimas, em um tom de voz que beirava o início de uma crise de choro.

Algo estalou na mente do jovem de cabelos negros. Os olhos dele se arregalavam, como se tivesse ouvido algo que não gostou. O jovem de cabelos negros empurrou a cadeira pro chão.

Robert começava a chorar, sabia que tinha dito algo que não devia, mas havia algo a mais do que da última vez que havia cometido esse erro. Não seria só abusado sexualmente, algo estava pior naquela situação. Como se algo realmente tivesse tirado seu captor do sério, não rezaria porquê não acreditava em deus, mas que torcia pra polícia aparecer magicamente, torcia.

O jovem de cabelos negros havia saído totalmente do tom da realidade. Pegou a cabeça de Robert e bateu contra o chão várias vezes. O choro e grito de dor de Robert parecia não existir, dado o nível de descontrole e animalidade que estava. Bateu a cabeça, incontáveis vezes. Vezes o suficiente para fazer com que uma pequena poça de sangue surgisse, obviamente, Robert perdeu a vida.

O jovem vivo, então levantou a cadeira em que Robert estava, o filete grosso de sangue sujava a cadeira e percorria lentamente a mesma. A falta de vida em seu amado parecia não importar. Deu um beijo calmo e suave no rosto de Robert. Passava a mão suavemente sobre o queixo do cadáver.

Os olhos enchiam-se brilho novamente, como uma adolescente apaixonada.

Falou algumas palavras com ternura, olhando nos olhos de seu falecido amado.

— Agora estaremos juntos para sempre. Não precisamos nos preocupar com mais ninguém.

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