Road To Nowhere

12 Parque Nacional Monte Léon


XII — PARQUE NACIONAL MONTE LÉON, Santa Cruz

O Parque Nacional Monte León possui 61.700 hectares. Nele é possível encontrar a biodiversidade da patagônia argentina e a maré intermitente que assola as partes costeiras. Nas duas últimas horas de percurso até o parque, Asami havia escutado com atenção o monólogo quase ininterrupto de Korra a respeito do lugar: acerca de seu valor arqueológico e ecológico, as espécies de flora e fauna que eram naturais dali, e sobre o modo como o espaço havia se convertido em uma reserva governamental. Asami se comovia com o entusiasmo de Korra ao ponto de só a interromper para fazer pequenas concordâncias ou alguma pergunta curiosa que lhe surgia em mente – como a existência ou não de um camping.

Às margens da rua 3 estacionaram na entrada do parque que conforme apontamentos de Korra, era a quarta maior colônia de Pinguins de Magalhães da Argentina. Diante do fato, não foi surpresa para nenhuma das duas que junto à placa de madeira de “bem-vindos” tivesse talhado também um desenho da costa com um pequeno pinguim preto-e-branco. Havia um camping privado, que comportava no máximo quinze pessoas. Para a sorte delas – e provável azar deles – só havia outro par de viajantes no lugar. Dois mochileiros que pareciam ter parado por ali há pouco mais de dois dias.

Segundo Korra, o camping era importante por dois fatores: o primeiro, era acesso à energia elétrica (mesmo que esta fosse produzida por um gerador movido à gasolina), água quente e pizzas, e a segunda era que o ambiente era seguro em relação às pumas que circulavam o parque, que por ser um lugar abundante de pequenos animais marinhos, sempre atraía felinos do topo da cadeia alimentar. Pagaram uma diária e encontraram um espaço reservado para motorhomes, onde estacionaram antes de verificarem as duchas e as demais instalações. Perto de nove horas da manhã, Korra calçou seu tênis e convidou Asami para a trilha de dois quilômetros e meio até a costa onde ficavam os pinguins.

Grande parte da trilha era constituída de uma extensa ponte-sob-terra de madeira batida. A vegetação era baixa, mas permitia que quaisquer viajantes não se perdessem se desatentos. Em determinada altura, a seguinte placa de aviso: se avistar um puma, não corra, mantenha contato visual, mantenha as crianças próximas, agite os braços, agite sua jaqueta, grite alto. Não caminhe só. Korra se divertia com a ideia, mas Asami não parecia tão feliz quanto, olhando rapidamente ao redor e sentindo levemente vigiada. Quando alcançaram a parte alta dos roqueríos e visualizaram de longe a restinga que se descobriram com o bajamar, a enorme população de pinguins feito flocos-de-neve nervosos e o horizonte além-mar, Korra pareceu ficar muda.

Ainda era cedo. O sol leitoso brilhava de maneira opaca no céu, escondido por trás de uma camada cinza de nuvens e neblina. A temperatura havia baixado muito, e ali do alto, à beira do mar, o vento era rigoroso. Asami vestia um grosso casaco vermelho para se proteger, mas Korra não usava nada além de uma regata azul e calças esportivas. Seu cabelo curto e castanho insistia em lhe açoitar o rosto, mas a mulher não parecia se incomodar. Então Asami se permitiu, dedicou um razoável tempo para gravar aquela imagem, aquela paisagem que constituía sua companheira de viagem, parada a alguns metros de distância. Korra observava o mar que se revolvia em ondas alguns metros abaixo delas, enquanto Asami observava a paz que a mulher parecia ter encontrado.

Korra tinha costas bonitas, Asami registrou num sorriso. Sabia que devia estar interessada nos pinguins ou nos lobos-marinhos, ou nas altas rochas e textura do vento. Da mesma forma, porém, que Korra parecia ter encontrado paz no litoral, Asami tinha encontrado no ato de analisar sua silhueta por alguns minutos. Fazia relativo tempo desde a última vez que havia se atraído por alguém dessa forma. Fazia mais tempo ainda que não se sentia tão atraída pelo corpo de alguém. Era como se, espontaneamente, o corpo da mulher fosse um grande imã de atração. Um grande pólo positivo, o estado norte da matéria que atraía seu total oposto, que era Asami.

Riu internamente: pólos iguais se repelem. Talvez por isso nunca tivesse e nunca encontraria um romance na área dos negócios empresariais e automobilísticos. Havia decidido que, como logo se separariam, aproveitaria o sentimento sem as reservas que normalmente teria. Talvez por esse trato interno, o ar gélido, as costas de Anori e a paisagem idílica – ou uma intensa combinação de todas as opções, Asami respirou fundo e se sentiu quieta. Constatar o sentimento acionou dentro de uma si outra sensação, que provavelmente estava abandonada num cantinho de afeto do coração: aquela alegria genuína de estar viva e agradecer o que dá pra fazer com isso.

— Então é por isso que as pessoas viajam – brincou, dando dois passos em direção a mulher – não sente frio?

— Não, eu gosto do frio – Korra abriu um sorriso bonito, despido de ironias ou provocação, encolhendo os ombros – e sim, acho que é por isso que as pessoas viajam.

— Nós fizemos isso uma vez, sabia? – Asami murmurou, enfiando as mãos nos bolsos quentes do casaco – uma viagem em família. Tenho tentado lembrar o ano, mas não consigo ter certeza. Minha mãe estava viva e, considerando agora, acho que meu pai tentava salvar o casamento, ou algo assim – Korra desviou o olhar da praia, olhando Asami pelo canto dos olhos, num claro sinal de que acompanhava a narrativa da mulher – me lembro da sensação de dormir no banco traseiro do carro, e me lembro também de um walkman amarelo que meu pai havia trago para mim depois de uma viagem ao exterior. Do modo como me senti quando minha mãe sorria para mim pelo retrovisor interno em alguma altura da estrada.

— E como você se sentiu?

— Como me sinto agora – a mulher riu, ciente que isso era uma resposta parcial. Korra não insistiu e Asami foi grata por isso, sabendo que poderia passar muitas horas ali, em pé, com a companhia e presença de Korra.

— Talvez seja parecido com o que senti na viagem de mudança a Buenos Aires – Korra sorriu diante da memória – meus pais ficaram assustados com o fato de ser uma cidade grande. Consideraram muito antes de permitirem que eu vivesse com meus padrinhos, e quando eu finalmente fui de vez, apenas... – suspirou, manejando a cabeça.

— Soube que você estava onde devia estar?

— Acho que é isso. Mas é estranho, porque acho que não se trata do lugar em si, mas algo mais como... uma sensação interna de segurança, de certeza.

— Que preenche tudo por um instante.

— Sim – Korra enfim virou o corpo, estendendo a mão para Asami – obrigada por ter me oferecido a carona, Sami. De verdade.

Aquilo originou um beijo e um abraço quase doloroso, segundo as intenções de Asami.

Durante a conversa, o céu foi escurecendo gradualmente, mas Korra não pareceu se intimidar. Ao contrário, seguiu descendo os rochedos em direção à praia, como quem não se importasse de encontrar uma puma esfomeada por carne que não fosse de pinguim ou de pegar chuva ou molhar os pés no mar ou de se deparar com um ninho de pequenos e frágeis ovos de Magalhães. Desceu a colina como quem tivesse nascido para aquilo – e talvez tivesse mesmo.

Asami era um pouco (gentilmente dizendo) menos aventureira. Seguiu atrás de Korra, pisando exatamente nas mesmas extremidades que a mulher. Caminharam grande parte da praia em silêncio. Em alguns pontos se atrevendo entre os pinguins que não estranham a presença das duas humanas. Em determinada altura, perto de meio-dia, Korra comentou que pensava em mergulhar. Aquilo soou insanidade aos ouvidos de Asami, que buscou o celular para averiguar o clima local e a temperatura da água. Não encontrou resposta exata, além de que não era recomendado. Simplesmente não era.

— Preocupada comigo, Sami? – Korra riu, levantando as sobrancelhas.

— É claro, eu não quero ter que cuidar de ninguém com febre a noite.

— Sei que é só isso mesmo – provocou, diminuindo o passo para contornar a cintura dela com o braço firme – ou que você quer outras coisas na madrugada. Qual dos dois?

— Os dois – Asami respondeu, revirando os olhos – olha, vamos voltar. Quero almoçar, e tenho certeza que os pumas também. Caminhamos tanto que agora deve ser uns seis quilômetros até o camping. Vou nem pesquisar que é para eu não me estressar.

— Que isso, Sami, olha essa paisagem. Garanto que é melhor seis quilômetros aqui que seis quilômetros de trânsito no centro de Buenos Aires. Ou da estrada daqui até Río Gallegos.

Elas não queriam lembrar disso. Como uma criança que não quer lembrar que férias ocasionalmente terminam em determinada altura do verão. O sorriso de Asami morreu, mas o de Korra não. A mulher só engoliu determinada quantia de saliva parada na boca antes de suspirar e concordar que deveriam voltar. Perguntou para Asami se queria dividir o espaço da cozinha comunitária ou se comprariam uma pizza requentada da venda.

Sato não se decidiu até alcançarem o camping novamente, então Korra decidiu pelas duas.

A cozinha comunitária estava vazia e silenciosa, igual ao lado de fora.

Quando chegaram, os dois mochileiros tinham deixado o camping e os dois proprietários pareciam introvertidos dentro de suas casas, por respeito ao frio à fina chuva que havia começado. Ambas passaram por uma rápida ducha separadamente e combinaram de se encontrar na cozinha. Asami agora com um moletom que Korra sabia ter esquecido no banco traseiro e Korra com uma camisa de algodão branca e folgada. Asami usava meias.

O camping não fornecia comida e mantimentos aos visitantes, mas tinha uma geladeira partilhada. Quem por ali passasse podia deixar mantimentos para os próximos viajantes utilizarem e assim por diante. Daquela forma, a cozinha tinha uma autogestão. Encontraram um pacote de sorrentinos de presunto e queijo congelados e um extrato de tomate dentro do prazo de validade. O resto não parecia seguro de consumir. Asami se sentou junto à mesa enquanto Korra lavava uma das panelas da cozinha para cozer a massa congelada.

— Curte cozinhar? – Anori perguntou como quem não esperava resposta enquanto lutava para acender o fogareiro de duas bocas. Apesar da personalidade eufórica de Korra, ela não parecia ser muito adepta (na verdade, ela realmente não sabia acender) de manusear um isqueiro próximo ao gás. Asami acendeu o fogão e voltou para sua posição original.

— Não. Sempre tive cozinheiros em casa, exceto quando morei no Japão, e ainda assim lá sempre saía para comprar comida ou pedia uma entrega. Nunca gostei muito.

— Nunca se aventurou?

— Não.

— Nenhuma vez? – Korra fez uma careta ao voltar o olhar para Asami. A água demoraria um pouco para alcançar a temperatura desejada e enquanto isso ela usava alguns temperos e ervas estranhas dentro do extrato de tomate. Jogou um pouco de água e óleo.

— Isso é tão surpreendente assim? – Asami perguntou, observando o entalhe clichê de duas letras na madeira da mesa – quer dizer, a maioria dos meus amigos não cozinham.

— Isso só quer dizer que você tá cercada de gente errada, você sabe – a mulher levantou uma sobrancelha, colocando uma pitada de molho na palma da mão para experimentar – quer? – mas a pergunta era retórica. Antes da resposta, levou uma rasa porção do molho de tomate até Asami, oferecendo a colher com um olhar rígido – me diga se precisa de mais ervas.

— E como você acha que eu posso saber se precisa ou não?

— Ora, Asami, você não cozinha, você só come, e sabe o que é comida boa. Uma coisa não depende de outra, sabe. Só prove e diga se está bom. Logo os sorrentinos estarão prontos e eu preciso regar com o molho para servir. Odeio comer massa fria.

Asami encarou os olhos azuis de Korra antes de aceitar a prova.

— Está ótimo. E quente – ela riu, sentindo os olhos lacrimejarem. Korra riu provocante.

— Perdão.

Almoçaram sentadas à mesa que Korra tinha limpado sistematicamente. Riram das iniciais talhadas da superfície, dizendo o quão clichê e década de oitenta aquilo parecia. Falaram do clima e de qualquer pássaro que havia dado um rasante nas águas geladas; também de um desenho animado da infância, da diferença de idades, e da quantidade certa de água para a quantidade certa de macarrão, de atores e das músicas do Robbie Williams. Falaram de tudo, menos de Río Gallegos e do desconforto que eram despedidas.

Ninguém tinha considerado a firme acampar até a noite anterior, logo, ninguém havia trago uma barraca. O carro, felizmente, serviria. Elas deitaram ambos os bancos para frente e também reclinaram ao máximo em direção ao porta-malas os bancos traseiros do carro. Se fosse possível crer ou não, havia espaço suficiente para as duas. A chuva seguia persistente e o frio também. Asami reclamou do fato de Korra optar por deixar uma pequena fresta do vidro do carro aberto.

— Você realmente, realmente não se importa com o frio, não é? – Asami revirou os olhos, encostando as costas na porta traseira do carro.

— Realmente, realmente? Pouco, mas acho que é porque tenho sangue quente.

— Todo mundo tem sangue quente, Korra.

— É, mas eu tenho algo mais... vem checar de perto – ela sorriu.

Asami sorriu também, tratando do quase delírio que era a circunstância e a pele da mulher à sua frente. Ela tinha sorriso provocante, mas igualmente cativante. Um quase delírio, pensou novamente. Alerta de onde sua vênus deveria residir e morrer.