Asami estacionou o carro e acertou o batom no retrovisor antes de admirar a fazenda que constituía seu destino final: um bonito casarão rústico de madeira escura e vidro ladeado, envolto num espaço verde sob um rigoroso trabalho de paisagismo e esquema de decoração. Sorriu divertida porque tudo naquele ambiente lhe lembrava o gosto estético de sua terapeuta, Suyin Beifong, de modo que Sato teria deduzido que aquele imóvel pertencia à família da noiva mesmo que Korra não tivesse lhe dito.

O local reservado para o estacionamento particular já estava cheio, mesmo às vistas de Asami, que tinha se criado num espaço para acompanhar e ser (além de tudo) uma excelente anfitriã de muitos jantares, reuniões e festas. Mesmo para ela, aquele número de automóveis e também de vozes – simples conta matemática, observando a quantidade de carros presentes multiplicados por média de três caronas – vindas do outro lado do casarão, parecia excessivo. Ela suspirou antes de abrir a porta e se certificar que não esquecia nada. Há algum tempo vinha evitando multidões generalizadas – isto é, desde que havia assumido controle sobre suas próprias escolhas de fato.

Por outro lado, se tranquilizava diante do fato de ser conhecida de pouquíssima gente presente. Isso a permitia ficar num canto e acenar vez ou outra, quando Suyin ou Korra a apresentasse alguém – aliás, Korra. Aquela de quem não havia desgrudado nas últimas semanas. A palavra pode soar exagerada agora, mas não há vocábulo melhor para descrevê-las: desde o retorno de Ushuaia, haviam oficializado o namoro, o que lhes fornecia uma desculpa ideal para passarem o dia trocando mensagens por celular, e sempre se encontrarem no fim do expediente de Asami. Por vezes, quando a mulher chegava, Korra estava na residência dos Sato conversando amigavelmente ou aprendendo qualquer atividade prática com Nicolas e Florencia. Isso lhe aquecia o coração – tanto quanto beijá-la.

Cruzou o gramado até a entrada do casarão. Havia um segurança alto, mas simpático na porta, que autorizou sua entrada. Seu nome constava na lista dos convidados que ficariam nas mesas mais próximas do centro, por ser acompanhante de uma das madrinhas. Isso fez Asami rir. Korra havia se negado a mostrar detalhes do vestido que tinha sido obrigada a vestir junto das outras madrinhas, por ser, em suas próprias palavras, vergonhoso demais. Isso só havia tornado Asami um poço de curiosidade múltipla, já que até então não conseguia imaginar sua namorada dentro de um vestido festivo.

Quando a localizou, dentro do salão, Korra parecia literalmente estar derretendo de tédio, se desfazendo em matéria. Seu semblante não exibia nada além de dor e Asami, do outro lado, não pôde deixar de segurar o sorriso. Apesar da expressão descontente, Sato a admirou à distância: o vestido que a mulher usava era azul, longo e reto, com alças finas e, apesar da tonalidade suave e primaveril, combinava com o tom de pele dela. Além disso, Asami assumiu que gostaria de cumprimentar a pessoa contratada como maquiadora, quem quer que fosse: apesar do ódio que Korra provavelmente tinha emanado durante todo o processo, ela havia feito um trabalho excelente.

Aos olhos de Asami Sato, Korra Anori era a pessoa mais bonita naquele salão de recepção.

E foi porque estava encarando a namorada que conseguiu observar o momento exato em que Korra notou sua presença. Asami sentiu o coração aquecer à medida que a expressão de Korra suavizava e seus lábios cediam em um sorriso. Ela abandonou o assento pomposo que estava sentada e se dirigiu até Asami como se não a tivesse visto por um longo período de tempo, selando os lábios nos dela sem se importar muito com os batons.

— Também senti sua falta – Asami sorriu, deslizando os dedos pelo braço de Korra, num carinho singelo, mas presente. Admirava como a expressão corporal de Korra dizia muito sobre seu estado de espírito.

— Me lembre de nunca, nunca, nunca mais aceitar convite para ser madrinha de casamento – suplicou, olhando furtivamente para os lados, verificando se não havia ninguém por perto – isso aqui é um sanatório, Sami – sussurrou. A cerimônia estava marcada para ali duas horas, mas Asami sabia que Korra estava presente desde o dia anterior, auxiliando Bolin com os preparativos – se você me ama, me ajude a fugir.

— Eu não sei se posso fazer isso – Asami levantou os olhos para a decoração local, e depois os baixou novamente, secando a namorada de cima para baixo sem pudor ou disfarce. Aquele era o tipo de olhar que fazia Korra desfalecer por dentro – mas se você puder gentilmente me apontar o banheiro mais próximo, é possível que eu tenha uma ideia ou duas sobre como te distrair pelo tempo que falta. Claro, se Bolin não der falta em você.

E embora Asami tenha feito a sugestão como uma provocação displicente, ou um elogio pontual – com intenções menos bárbaras que as que passaram pela cabeça de Korra –,

a mulher fez questão de torná-la real. Mostrou para Asami onde ficava, não o banheiro mais próximo, mas o do andar superior, que estava fechado para visitantes. No fim das contas, o trabalho elogiável da maquiadora em Korra – e na própria Sato – precisou ser refeito pela mulher mais velha. Os olhos mais atentos captariam a sutil mudança no tom de batom que Korra tinha passado a usar quando voltou para o pavilhão principal, uma vez que este era diferente do que todas as outras madrinhas usavam.

Quando a cerimônia começou, Asami assistiu a namorada andar pelo longo tapete vermelho, acompanhada de outras madrinhas e padrinhos. Sentia um calor manso, um conforto em seu espírito que pouco saberia verbalizar.

Era dia 26 de junho, e no dia anterior havia completado um mês desde a partida da cidade de Buenos Aires rumo à Terra do Fogo. Desde então muito havia acontecido, mas definitivamente a preferida de Asami sempre seria a simples existência daquela mulher. Korra e sua personalidade destoante, Korra e seus súbitos acessos de demonstração afetiva, Korra e a disponibilidade de quem encarava a vida de frente, Korra e seus sorrisos, Korra em todas as versões. Manhã, tarde e noite, independente do lugar.

Sabia também que o relacionamento ainda era fresco, feito tarde de abril, e que todos os elementos do auge da paixão ainda operavam a todo vapor na química do seu cérebro. Sabia que a tendência era que as coisas se acalmassem, que estabilizasse com o tempo. Ainda assim, podia apostar que independente do tempo, fosse um mês, um ano ou uma década, fitar o mar que eram os olhos de Korra sempre tocaria naquele lugar intraduzível de dentro: o espaço estrelado onde nascem sonhos e desejo.

Era o suficiente para ela e parecia ser assim também para Korra.

O mestre de cerimônias e também juiz de paz terminou as oficializações expressando que o amor era, antes e acima de tudo, um ato de esperança. Asami não podia negar ter achado a fala piegas e clichê, mas também a achou verídica. Observou os noivos saírem de mãos dadas e desejou de verdade que eles fossem felizes.

Quando finalmente destituída de seu posto de madrinha, Korra pôde respirar aliviada. Se sentou à mesa reservada ao lado de Asami, Tenzin, Pema e Mako.

Sato já havia conhecido, ainda que brevemente, os padrinhos e o amigo de Korra, de modo que que não era de todo desconfortável dividir a mesa com eles. Pema e Tenzin a tratavam com tanta gentileza que Asami mal conseguia retribuir da maneira adequada. E Mako que a princípio a olhara com desconfiança, agora parecia convencido de que esse era o relacionamento que faria Korra tomar juízo. Anori revirava os olhos para ele, mas no fundo, gostava do amigo e Asami não tinha nenhuma ressalva em relação a isso, embora preferisse mil vezes Bolin e sua espontaneidade alegre e ingênua.

Quando o rapaz e Opal concluíram a sessão de fotos, saíram para cumprimentar os convidados nas mesas. Asami sorriu para o modo como Bolin abraçava cada um deles como se fosse a primeira vez em anos que os encontrava novamente. Após isso, a noite deslizou com suavidade, e então já era hora da primeira dança dos noivos.

Asami acompanhou Korra de mãos dadas até a área do salão reservada. A banda contratada começou uma versão suave de Love me tender do Elvis. Não tardou para que os padrinhos e demais acompanhantes convidados se juntassem à dança.

É nítido a essa altura o que esperar de um lugar com baixa iluminação, música lenta, luzes e flores que pendiam a cada pequeno canto do salão de dança. Quando Asami e Korra se movimentaram para seguir o protocolo tradicional, Korra já não usava mais sapatos de salto-alto. Estava descalça, o que voltava a ressaltar a diferença entre a altura de ambas. E era engraçado, quase espirituoso, como aquela piada não parecia cansar nunca. Um fato mínimo que parecia agradar ambas. Asami sorriu com o comentário pronto na ponta da língua, mas este se perdeu quando pousou as mãos na cintura da namorada. Constatar o quanto Korra era bonita a deixava muda com mais frequência do que ela gostaria.

— Isso é patético, sabe – Korra resmungou – me sinto num filme, daqueles romance água com açúcar dos anos noventa.

— Você adora romance água com açúcar dos anos noventa, Korra – sorriu.

— Para rir – se defendeu, ao passo que corava e fugia dos olhos da namorada.

— Claro – Sato concordou, embalando-a de um lado para outro de maneira suave. Fez questão ainda de fazer graça, rodando a mulher entre seus braços – e se fosse um filme, a que altura da trama estaríamos? No fim, ou na sequência?

— Talvez na parte onde tudo é feito pra dar certo, mas então eu descubro que você é casada e que sai comigo escondida. Ou que está noiva. E agora está mais dividida que nunca, e me abandonará aqui de coração partido antes do fim da cerimônia.

— Aham, é exatamente isso. Se olhar minha bolsa, achará o anel de noivado.

— E então, daqui três dias – Korra sorriu, colando os corpos numa provocação física e encostando a boca na orelha da mulher – você volta me implorando, dizendo que me ama.

— Após abandonar meu noivo no altar?

— Exatamente – se soltaram, voltando ao ritmo – então chegaríamos ao fim. Que não é fim sem uma declaração brega, você sabe. Precisamos cativar o público.

— Você parece mesmo uma especialista em romances água com açúcar.

— Estudei muitos anos – Korra sorriu – todos acabam assim.

— Nesse caso, me deixe fazer as honras – Asami sorriu, assumindo uma postura de ternura, que era pra ser mais performática que realmente foi. Korra tentou não demonstrar (tanta) surpresa, o que falhou gradualmente. Ela também não era boa atriz – eu amo você.

— O que? – Korra gaguejou. Não era, necessariamente, uma surpresa. Muito que Asami vinha fazendo por si, seus gestos genuínos e afetuosos, e o próprio namoro, deveriam culminar naquela frase, uma hora ou outra. Independentemente disso, era inevitável sentir o coração contra a garganta. Queria sorrir, mas só diante da certeza de não ter ouvido errado. Era tão cedo e não queria pressionar Asami por nada no mundo.

— Eu amo você – Asami repetiu com calma e sem dúvidas, medo ou preocupação. Korra a fitou por um breve período, sem resposta, mas Asami não se importou. Sabia da resposta de Korra. Seus olhos não diziam nada de diferente.

— E eu amo muito você, Red – ela sussurrou quando abraçou o pescoço de Asami e encostou o nariz contra a pele quente – não que seja uma competição, mas amo muito mesmo. Espero que saiba disso.

Asami sorriu. Sabia sim.

— E agora é o fim?

— Não, agora há o corte do diretor – Korra respondeu firme, reforçando o gesto contra o corpo de Asami e beijando-a no canto dos lábios – e inúmeras sequências.

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