Rixa

3 A PRIMEIRA REGRA É SER CONTRA REGRAS


O

- Oi, Leo – a garota loira me cumprimentou.

- Oi – passei reto. Não me lembrava dessa garota.

Eu estava sozinho, nem mesmo Gino havia me acompanhado dessa vez para fazer minha guarda. O que era muito bom, porque eu estava mais do que livre para fazer o que bem entendesse sem ter ninguém me dando ordens.

Olhei para a mesa no centro do refeitório. Cony, Matthew e Everyn Hothman estavam sentados lá. Na verdade Everyn estava de pé, Matthew estava dormindo e Cony estava sentado numa cadeira com os pés apoiados sobre a mesa. Havia uma garota de costas sentada em cima da mesa. Só podia ser July.

Isso seria bem divertido.

- Ei, amigos – me aproximei da mesa deles.

Everyn não se mexeu e Matthew abriu os olhos, piscou e depois se ajeitou na cadeira. A garota se virou. De fato ela era bem bonitinha.

- Afaste-se da minha irmã, Oliviero – Cony me olhou.

- Qual é, Hothman? Estamos numa trégua. Paz! – sorri para ele e depois olhei para a garota. – E aí, coisa linda?

Ela hesitou um pouco antes de perguntar:

- O que você quer?

- Saia daqui, Leonardo – Everyn me olhou ameaçadoramente.

- Relaxa, pirralho. Meu papo é com a gostosa aqui – ignorei a ameaça dele e me aproximei da garota. – Então você é a July... Prazer, Leonardo – estendi a mão pra ela.

A garota olhou para mim, em seguida para o irmão. Cony se levantou.

- Vá embora – ordenou entre dentes.

- O local é público – coloquei a mão no bolso e olhei ao redor. Várias testemunhas, o que era melhor ainda.

- Essa é a nossa área – Everyn deu um passo à frente.

Suspirei.

- Vocês não se garantem mesmo, não é? Se vocês sabem que tem uma irmã gostosa, porque a trazem até mim? Espera... Ou será que essa é para Lucca? – fiz-me de desentendido.

Everyn veio até mim.

- Quem você pensa que é?

- Opa, será que eu não me apresentei? Eu sou Leonardo – sorri pra ele.

Everyn olhou para Cony e depois para mim novamente. Ele estava vermelho de raiva.

- Eve – a garota chamou.

- AH! Já sei – exclamei. – Vocês devem estar com medo de que aconteça com ela o mesmo que aconteceu com a outra, não é?

Eles congelaram as expressões.

- Mas creio que July não seja tão idiota quanto Lindsay... Quer dizer, Lizzie. Ou era Lisa? Não sei, era tão insignificante que eu nem lembro – ri sozinho.

- Já chega! – Everyn se aproximou e levantou a mão em punho.

Eu me afastei dois passos para trás.

- Calma, amigo. Sem violência.

- Olha aqui, seu otário – ele começou, chegando cada vez mais perto.

A garota levantou da mesa parecendo assustada.

- Olha aqui você – interrompi-o. – Temos um acordo, não é? Olhe ao redor, idiota. Está cheio de gente aqui. Se perguntarem quem começou a briga sabe o que vão responder? Você! Porque até agora eu não movi um dedo contra sua família estúpida. Então você é quem iria se ferrar.

Cony se aproximou e pôs a mão no ombro de Everyn.

- Ele tem razão, Eve. Acho melhor parar.

- Ele está falando da minha irmã, Cony. Chamou-a de idiota, de insignificante. Se fosse com a sua você não iria gostar – ele olhou para Cony.

Este apenas meneou a cabeça em sinal negativo. Mordi os lábios.

- Na verdade, ela não era tão insignificante assim. Até que servia pra umas coisinhas... – comentei.

Ele se largou de Cony e avançou pra cima de mim, mas eu me esquivei.

- Everyn! – July gritou.

Eu ri alto, então me afastei da mesa deles.

- Cuidado, Hothman – ainda falei para Cony. – Sua irmã é uma gracinha.

~~~

H

- Tem ideia do diabinho que ele é? – Cony estava frustrado. – É assim que ele começa as confusões. E sempre, sempre, termina ileso! Eu odeio esse garoto! – ele bateu na mesa com força.

- Calma, Cony – tentei acalma-lo.

Mas ele tinha razão. Leonardo Oliviero não era de se brincar, porque ele era a própria brincadeira. Ele agia como se aquilo tudo fosse um jogo na qual ele sempre tinha que ganhar. E a propósito, sabia jogar muito bem.

- Mãe – chamei-a assim que cheguei à minha casa.

- Fala – ela estava lendo na cozinha.

- Eu sou bonita?

Ela me olhou de cima a baixo, estranhando.

- Claro que sim.

- Não. Eu digo assim... Tipo de verdade. Uma gracinha... Como as pessoas dizem.

- Você está se referindo a quem exatamente? – ela tirou os óculos de leitura.

- Se você fosse garoto você teria coragem de ficar comigo?

- Que tipo de pergunta é essa, July?

- Não dê opinião de mãe – insisti.

- Sim, você é bonita. Mas porque está me perguntando isso?

- Por nada, obrigada – virei-me para ir embora.

- July Sophia – ela chamou devagar.

Voltei-me para ela. Droga.

- Sim?

- Você não deu ouvidos ao que Leonardo Oliviero lhe falou. Ou será que deu?

- Claro que não, mãe – arregalei os olhos. – Foi só uma pergunta.

Em seguida comecei a rir.

- Tem muita gente bonita na escola. Bonita mesmo. Não beleza falsa como aquele garoto estúpido. – tornei-me séria novamente. — Eu seria incapaz de sequer falar com ele. Você sabe melhor do que eu que o único responsável pela morte da Lisa foi ele. Não me misturo com aquele tipo de gente.

Ela voltou a colocar os óculos.

- Muito bem – então pegou seu livro e voltou a ler.

Era verdade, eu não me misturaria com nenhum Oliviero, não estava nem um pouco interessada em Leonardo, muito menos estava ligando para as baboseiras que ele havia dito. Minha real preocupação era com o bem-estar da minha família, mas é claro, que eu já estava numa idade crítica e precisava ter ao menos um namorado de verdade. Nada de gente arranjada pelos meus pais, muito menos envolvida em outros núcleos mafiosos. Um garoto normal, e sim, na escola havia vários garotos bonitos e normais.

Mas isso não me impedia de achar o mais novo dos Oliviero bonito, ele tinha sim certo charme. Mas não fazia meu tipo. Dei de ombros e subi as escadas até o sótão.

Amava ficar ali à noite. Era incrível ver o céu tão escuro. Mas então eu percebi uma coisa. A sombra que ficava no telhado da casa dos Oliviero, a que eu costumava ver quase todas as noites deitada ou abaixada num canto do telhado. Que passava a noite ali. Era ele mesmo, o garoto idiota que se achava o máximo e havia menosprezado minha prima. Mas ele não pareceu me notar, continuou sentado em seu canto, e eu via apenas sua silhueta no escuro. Então uma pequena luz surgiu de repente. Uma chama para falar a verdade. Era mesmo verdade, não precisaríamos acabar com o “tesouro” de Hugh Oliviero. Ele se acabaria sozinho.

Lá estava de novo, usando drogas. Seria até um desperdício um garoto como ele ter um fim tão patético. Como Matthew. Mesmo Leonardo já sendo um idiota, ficaria totalmente sem juízo dali a alguns dias. Total desperdício, isso eu tinha que admitir. Eu não deveria ficar perto deles, muito menos manter amizade. Mas achar atraente não consta nas cláusulas do contrato.

A primeira regra é ser contra regras.

Notas finais
..?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.