Riverdale: Sangue Lodge

1 O Filho do Escândalo


Notas iniciais
Esse capítulo marca o primeiro contato do Victor com Riverdale. Quando pensei em como interpretar esse momento, imaginei alguém que cresceu em Manhattan e, de repente, é jogado em uma cidade pequena onde todo mundo parece conhecer todo mundo. Para ele, Riverdale parece silenciosa demais… e isso o deixa desconfortável. Também existe algo pessoal para mim nesse começo. Já fazia alguns anos que eu não escrevia, e esse capítulo acabou sendo o estalo que me fez voltar. Com as facilidades de pesquisa que temos hoje, consegui revisitar a série original com mais cuidado, observar detalhes da atmosfera, dos personagens e da dinâmica da cidade. Isso me ajudou a deixar a história mais coesa e, ao mesmo tempo, trazer algumas referências que conectam essa narrativa ao universo original de Riverdale.

A placa apareceu alguns metros à frente, iluminada pela luz amarelada dos postes da estrada: Welcome to Riverdale. O carro preto cruzou a pequena ponte que levava ao centro da cidade, deslizando silenciosamente pelo asfalto úmido da noite. Dentro dele, Victor Lodge observava o mundo pela janela com uma expressão difícil de decifrar, algo entre tédio, irritação e uma curiosidade que ele próprio se recusava a admitir. Riverdale parecia… pequena. Pequena demais para alguém que havia crescido cercado por arranha-céus e avenidas intermináveis de Manhattan. As casas eram baixas, organizadas em fileiras quase perfeitas, cada uma com seu pequeno jardim bem cuidado e uma varanda que parecia feita para tardes preguiçosas de verão. As ruas estavam quase vazias, exceto por alguns adolescentes caminhando em grupos ou andando de bicicleta como se não houvesse absolutamente nada no mundo com que se preocupar.

Victor apoiou a testa no vidro frio. Em Manhattan, uma noite como aquela estaria cheia de buzinas, sirenes e pessoas correndo para algum lugar importante. Ali, porém, havia apenas silêncio. Silêncio demais.

— Isso é sério? — ele murmurou.

No banco da frente, Hermione Lodge virou levemente o rosto.

— O quê?

Victor fez um gesto vago para a janela.

— Essa cidade. — Ele soltou um pequeno suspiro, como se estivesse analisando uma obra de arte particularmente decepcionante. — Parece um cenário de filme antigo.

Hermione voltou a olhar para a estrada.

— É tranquila.

Victor deixou escapar uma risada baixa.

— Você quer dizer… esquecível.

O carro passou pela rua principal da cidade. Um cinema antigo exibia um filme em letras luminosas, algumas lojas permaneciam abertas e alguns metros adiante um letreiro neon brilhava na escuridão.

Pop's Chock'lit Shoppe.

Victor observou o lugar por alguns segundos. Um grupo de adolescentes ria dentro da lanchonete, reunido em uma mesa próxima à janela. Eles pareciam… normais. Aquilo o incomodou de uma forma que ele não saberia explicar. Ele se recostou no banco.

— Então esse é o exílio.

Hermione não respondeu. E talvez fosse exatamente isso que tornava tudo mais real. Riverdale não era apenas uma cidade nova. Era o lugar para onde as pessoas iam quando caíam em desgraça.

Mas a verdade era que Victor Lodge não era a única notícia pairando sobre aquela cidade. Nos últimos dias, Riverdale também havia sido dominada por outra história, muito mais sombria. O corpo de Jason Blossom havia sido encontrado nas margens do Sweetwater River e, desde então, a cidade inteira parecia viver em um estado estranho de choque silencioso.

O carro finalmente parou diante da nova casa dos Lodge. Victor saiu primeiro. O ar da noite era frio e carregava um leve cheiro de terra molhada, algo que ele raramente sentia na cidade grande. O moreno ergueu o olhar para a casa à sua frente, dois andares, fachada branca, janelas grandes. Era bonita, disso não havia dúvida, mas não era casa, não como o apartamento em Manhattan, com seus pisos de mármore, janelas que se abriam para o horizonte infinito de arranha-céus e um elevador particular que levava diretamente à sala de estar. Aquilo era… provinciano. O Lodge colocou as mãos nos bolsos do casaco e observou a rua, levando menos de cinco segundos para perceber.

— Eles estão olhando.

Hermione, que tirava algumas caixas do porta-malas, suspirou.

— Victor—

— Não, sério.

Ele inclinou levemente a cabeça na direção da casa em frente. Um casal fingia cuidar do jardim enquanto lançava olhares discretos para os recém-chegados. Victor encarou os dois diretamente. Eles desviaram o olhar quase imediatamente.

Ele sorriu.

— Eles sabem.

Hermione fechou o porta-malas com mais força do que o necessário.

— Claro que sabem.

Victor deixou escapar uma pequena risada.

— Ótimo.

Ele caminhou alguns passos pela calçada, olhando as casas perfeitamente alinhadas, as luzes acesas nas janelas e as sombras que se moviam atrás das cortinas. Riverdale parecia o tipo de lugar onde todos sabiam tudo sobre todos.

Ele virou para Hermione.

— Adoro começar uma vida nova em uma cidade que me odeia antes mesmo de me conhecer.

Hermione o observou por um momento, com aquela expressão calma que ela sempre usava quando precisava esconder alguma preocupação maior.

— Ninguém te odeia.

Victor ergueu uma sobrancelha. Ele tirou o celular do bolso e abriu um dos muitos artigos que continuavam aparecendo desde que deixaram Nova York.

EMPRESÁRIO HIRAM LODGE INVESTIGADO EM ESCÂNDALO FINANCEIRO.

Ele mostrou a tela por um segundo antes de bloqueá-la novamente.

— Meu pai virou manchete nacional.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Victor colocou o celular de volta no bolso.

— Eu não sou exatamente o tipo de vizinho que inspira confiança.

Hermione cruzou os braços.

— Nós estamos recomeçando.

Victor olhou novamente para a casa. Para a rua. Para a cidade inteira.

— Riverdale… — Ele deixou a palavra pairar no ar por um momento. Então sorriu de lado. — Não parece um lugar onde segredos sobrevivem muito tempo.

Hermione respondeu sem hesitar.

— Você ficaria surpreso.

Algumas horas depois, Victor caminhava pela rua principal da cidade com as mãos nos bolsos. A noite havia caído completamente e Riverdale parecia ainda mais silenciosa sob a luz dos postes. Algumas lojas estavam fechadas, mas o letreiro de neon azul e vermelho do Pop's ainda brilhava como um farol no meio da escuridão. Victor entrou e um pequeno sino tilintou acima da porta.

O interior do restaurante parecia ter parado no tempo. Bancos vermelhos, mesas redondas de metal, uma jukebox antiga encostada na parede e o cheiro doce de açúcar e café pairando no ar. Victor caminhou até o balcão e se sentou. Um homem mais velho, de expressão gentil, aproximou-se.

— O que vai querer?

Victor pegou o cardápio e franziu levemente a testa.

— Vocês têm café decente?

O homem sorriu.

— Aqui a especialidade é milkshake.

Victor suspirou.

— Claro que é. — Ele fechou o cardápio. — Então me traz um. Chocolate.

Enquanto o milkshake era preparado, Victor deixou o olhar vagar pelo restaurante. Foi então que o moreno percebeu o grupo na mesa ao fundo, quatro adolescentes que conversavam e riam alto demais para um lugar tão tranquilo. Um deles, um garoto ruivo de ombros largos, notou o olhar do Lodge, e os dois se encararam por um instante. O ruivo então se levantou, caminhou até o balcão e se sentou no banco ao lado.

— Você é novo.

Victor não virou o rosto imediatamente.

— Isso foi tão óbvio assim?

O garoto deu de ombros.

— Riverdale não recebe muita gente nova.

Victor finalmente olhou para ele.

— Imagino.

O milkshake chegou e Victor deu o primeiro gole. Surpreendentemente… não era ruim. O garoto ruivo observava cada detalhe: as roupas caras, o relógio no pulso, a postura confiante.

— Você é o Lodge, né?

Victor apoiou o copo no balcão.

— Já estou famoso?

O garoto respondeu sem rodeios.

— Seu pai está.

O silêncio tomou conta do momento. Victor estudou o rosto dele por alguns segundos. Depois sorriu, mas não era exatamente um sorriso amigável.

— Então você é do tipo direto.

— Aqui a gente costuma ser.

Victor voltou a beber o milkshake.

— Bom saber.

Ele olhou pela janela para a rua quase vazia. Depois voltou a falar, casualmente.

— Então me diz uma coisa.

O ruivo esperou.

Victor inclinou a cabeça.

— Riverdale sempre foi tão… quieta assim?

O garoto pensou por um instante.

— Ultimamente?

Ele olhou para a rua.

— Nem tanto.

Victor percebeu algo na maneira como ele disse aquilo. Algo que não estava sendo dito.

— Interessante.

O garoto se levantou.

Antes de voltar para a mesa, ele disse:

— Se você está procurando drama… — Ele apontou discretamente para a cidade além da janela. — …você veio para o lugar certo.

Victor observou o grupo enquanto o garoto voltava para os amigos. Só depois de alguns segundos o moreno percebeu que nem sequer havia perguntado o nome dele, mas tinha certeza de uma coisa: Riverdale podia parecer tranquila, porém agora duas histórias pairavam sobre aquela cidade, a morte de Jason Blossom e a chegada de Victor Lodge, e de alguma forma o rapaz tinha a sensação de que as duas ainda iriam se cruzar.

Notas finais
Esse capítulo funciona como uma porta de entrada para a história. A intenção foi apresentar Riverdale pelos olhos do Victor: alguém que vem de um ambiente completamente diferente e que, logo de início, estranha o silêncio, a organização quase perfeita da cidade e a sensação constante de estar sendo observado. Também era importante estabelecer dois elementos que movem a narrativa. O primeiro é a reputação da família Lodge, que chega à cidade já carregando o peso do escândalo envolvendo Hiram. O segundo é o clima estranho que paira sobre Riverdale após a morte de Jason Blossom. Mesmo sem conhecer ninguém ainda, Victor já percebe que existe algo acontecendo por baixo da superfície tranquila da cidade. A cena no Pop's serve justamente para isso: mostrar o primeiro contato dele com os adolescentes de Riverdale e sugerir que, apesar da aparência pacata da cidade, o drama está longe de acabar. Este é apenas o começo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.