Rivals
6 Acampamento escolar
O ônibus estacionou no meio do nada. Um nada caro. O tipo de nada onde os pinheiros pareciam ter plano de saúde e as flores silvestres vinham com curadoria botânica francesa. Uma placa de madeira com letras douradas dizia:
“Retiro Escolar Primavera Zen — Conecte-se com a Natureza, ou sofra.”
Hinata leu em voz alta, franzindo a testa.
— Isso é uma ameaça?
— Isso é um conceito — respondeu Sakura, já de óculos escuros, chapéu de aba larga e um leque da Gucci que ela jurava ser “vintage”.
Elas foram recebidas com suco de beterraba espumado com espuma de gengibre em copos de bambu individualizados com seus nomes. Em menos de 20 minutos, estavam na ala de massagem, envoltas em robes de linho e rodeadas por meninas da elite em clima de “retiro emocional”, o que na prática significava fofoca controlada e fotos para o Instagram, aguardando sua vez de serem massageadas.
Foi quando Naruto apareceu, com Sasuke ao lado, os dois parecendo ter saído de uma loja de esportes de aventura, completamente fora de sintonia com o clima spa minimalista.
— Hina-chan! — chamou Naruto, tropeçando num vaso de ervas medicinais. — Ei, posso falar contigo rapidinho?
Hinata ergueu uma sobrancelha, sem tirar a rodela de pepino do olho.
— Você está interrompendo minha desintoxicação dos chakras.
— Sakura, amor — começou Sasuke, já enfiando a mão no bolso como quem vai soltar uma bomba.
— Se você veio me pedir pra dormir em barraca, a resposta é não. Estou com 12 cristais enfiados nas costas e meu plano é ignorar todos os sons humanos até segunda-feira.
Naruto coçou a nuca.
— Então… é que a gente se inscreveu na Corrida da Caça à Bandeira.
Sasuke assentiu.
— E o prêmio é uma cabana VIP com camas, aquecedor, aromatizador, café da manhã servido por mordomos...
— E a punição é... — completou Naruto.
— Dormir enrolado num saco de dormir fino com cheiro de mofo e dividir banheiro químico com o time de handebol masculino.
Silêncio.
Sakura e Hinata se entreolharam. Um olhar frio, clínico. As duas entenderam de imediato que aquilo não era apenas uma burrada comum. Era um apelo desesperado. Um pedido de socorro camuflado em testosterona descontrolada.
— E vocês querem... — começou Hinata, tirando os pepinos e encarando Naruto com a calma de quem vai matar.
— Que a gente... — seguiu Sakura, apoiando o queixo na mão, olhos semi-cerrados para Sasuke.
— Participe com vocês? — completaram as duas, em uníssono.
Naruto suou.
— É isso ou a gente morre congelado, Sakura-chan.
— Eu não sobrevivo dois dias sem difusor de lavanda — disse Sasuke com uma honestidade que doeu.
As meninas suspiraram em uníssono.
Minutos depois, a cabine de massagem era silenciosa... até elas chegarem juntas. As duas abriram a porta ao mesmo tempo, usando o mesmo robe branco e a mesma expressão de desconfiança entediada.
— Você reservou esse horário? — perguntou Sakura, cruzando os braços.
— Eu reservo todos os horários importantes — respondeu Hinata, entrando como se o mundo fosse seu palco.
As duas deitaram nas macas lado a lado, as mãos para baixo, cobertas apenas por toalhas bordadas com flores de lótus. As massagistas eram irmãs gêmeas e aparentemente devotas ao conceito de “reorganizar a alma através da dor muscular”.
A tensão entre Sakura e Hinata era palpável.
— Odiei sua sandália. — murmurou Sakura.
— Está usando blush demais pro clima campestre — retrucou Hinata, sem nem virar o rosto.
— O Naruto está muito desesperado, né? — disse Sakura, enquanto uma das massagistas afundava o cotovelo entre suas escápulas.
— O Sasuke quase chorou — respondeu Hinata, com a voz abafada.
— Eu não vou correr por homem.
— Nem eu. Só se for por estética.
— Exato. Cabana VIP combina com a minha vibe atual.
— E eles não merecem a cabana sozinhos.
As duas ficaram em silêncio por um segundo.
— Vamos ganhar isso só pra esfregar na cara deles. — disse Sakura.
— E pra tirar foto no espelho da cabana com iluminação frontal. — completou Hinata.
— A gente trabalha melhor quando se odeia com classe.
— É nosso idioma natural.
E assim, as duas fizeram um pacto silencioso sob camadas de óleo de lavanda e ódio passivo-agressivo. A corrida começaria ao amanhecer. E elas... estariam prontas. Até eles ainda podiam dormir no dormitório dos competidores, cheio de mosquitos, mas não seriam convidados para os dormitórios chiques com elas.
Mesmo que tivessem que derrubar alunos do primeiro ano no barro com um salto plataforma de acrílico.
O sol mal tinha rompido no horizonte quando os alto-falantes do acampamento soaram com uma voz animada demais para aquele horário:
— Bom dia, participantes da Corrida da Caça à Bandeira! Preparem-se para suar, correr, rastejar e lutar pelo direito de dormir como gente!
A floresta despertava lentamente, mas a ala fashion já estava pronta há muito tempo.
Sakura saiu da cabana enrolada em tule por cima do uniforme oficial, uma camiseta bege e bermuda verde-musgo que ela tinha cortado, amarrado, redesenhado e transformado em um cropped de passarela. Botas de cano alto. Cabelo preso em um rabo de cavalo arquitetônico. Óculos escuros. Apresentável até para um desfile militar da Chanel.
Hinata apareceu segundos depois. Ela usava o uniforme como base, mas adicionou uma faixa preta na cintura, mangas cortadas com delicadeza, maquiagem soft glam em tons de lavanda e uma bandana bordada com pérolas que dizia “Win or Die Moisturized”. Seu rabo de cavalo estava tão firme que poderia ser usado como arma.
Quando se olharam, pela primeira vez em semanas... sorriram.
— Está horrível. — disse Sakura, analisando a bandana.
— A sua calça parece uma cortina de hotel caro. — respondeu Hinata.
— É isso que ela é. — respondeu Sakura, orgulhosa.
Naruto e Sasuke estavam já esperando na largada, ofegantes apenas de ver as duas andando em câmera lenta até eles.
— A gente vai ganhar isso. — disse Naruto, com um sorriso forçado.
— Se formarem dupla, lembrem-se que só duas pessoas vencem e cada uma pode escolher um acompanhante. — avisou o instrutor, apontando para o quadro de regras.
Sakura e Hinata se entreolharam. Aquilo era perfeito. As duas venceriam. E cada uma escolheria seu namorado. Harmonia restaurada. Vitória compartilhada. Poder absoluto.
— Vamos fingir que estamos competindo entre nós... — murmurou Sakura.
— E deixar todos acharem que estamos em guerra. — completou Hinata.
O sinal tocou. A corrida começou.
Foram mais de 40 minutos de busca intensa. A floresta era um labirinto de pistas falsas, marcas enigmáticas nas árvores, equipes se trombando, empurrando-se para fora de trilhas. Naruto tropeçou três vezes em pedras que claramente não estavam ali antes, segundo ele. Sasuke reclamou de suor no colarinho.
Hinata liderava o grupo, com Sakura logo atrás. Elas funcionavam como um GPS de luxo: eficientes, ágeis, e julgando silenciosamente a estética de cada pista.
— Não tem como essa bandeira estar nesse lado da floresta. Já olhamos tudo. — disse Sakura, olhando o mapa com raiva.
— A menos que… — Hinata estreitou os olhos.
Ao fundo, surgia um lago brilhante, perfeitamente redondo, com margens cercadas por cercas altas e muros de contenção naturais. Do outro lado, no topo de uma pedra, fincada com majestade... a bandeira vermelha.
— Ela está lá. — disse Hinata, com a intensidade de uma profecia.
— Claro que está. Porque adolescentes normais não teriam coragem de atravessar o lago. — respondeu Sakura.
Naruto arregalou os olhos.
— O quê? Mas o lago tá gelado! E tem peixes com cara de gente!
Sasuke já analisava os barquinhos atracados na margem.
— Só tem cinco canoas. — murmurou. — E parece que estamos sendo seguidos.
E estavam. Outras duplas, trios, equipes improvisadas, todos correndo em direção ao lago. O caos se armava.
— Rápido! — gritou Sakura, já pulando no barco mais estiloso (preto fosco com interior acolchoado). — Hinata, entra!
Hinata pulou atrás, enquanto Naruto e Sasuke corriam para pegar o barco ao lado.
Enquanto remavam freneticamente, outras canoas se juntavam à cena. Era uma batalha aquática épica — adolescentes com expressão assassina, meninas jogando água umas nas outras com as mãos, um menino tocando flauta de forma desnecessária num dos barcos.
Hinata avistou uma das concorrentes se aproximando. E não era qualquer uma. Era Mizuki. Mizuki Ueda. A garota que roubara seus sapatos no quinto ano e dissera que "pés muito brancos merecem chão frio."
— Sakura… é agora.
— Eu já vi essa expressão antes.
Hinata agarrou o remo com as duas mãos, fingiu que iria remar... e deu com ele direto na cabeça de Mizuki, que estava prestes a alcançar a ponta de seu barco.
— Ei! Sua louca! — gritou Mizuki, segurando o lugar onde o remo a atingira.
— Ah, desculpa — disse Hinata, com o tom mais falso possível. — Reflexo.
Sakura aproveitou a distração. Levantou discretamente o lado do barco de Mizuki e empurrou com o pé.
— Balança mais um pouquinho. Vai, tenta!
O barco de Mizuki virou com um estrondo, derrubando ela e o parceiro na água gelada.
— Sua maluca! Você vai pagar! — gritou ela, enquanto tentava nadar com dignidade, o que era impossível com o rímel escorrendo.
Sakura deu um sorriso angelical, deitada sobre o banco do barco.
— Isso foi por aqueles comentários sobre meu delineado no oitavo ano, Mizuki.
Hinata assentiu, limpando o remo como uma guerreira pós-batalha.
— Uma honra restaurada.
As duas finalmente chegaram à margem oposta, com os olhos vidrados na bandeira vermelha fincada gloriosamente no topo de uma pedra enorme, brilhando como o troféu de uma competição de moda e poder. Mas a glória foi interrompida assim que seus pés tocaram o solo.
Squish. Slop.
A terra cedeu como uma traição ancestral.
— Ai! — gritou Sakura, pulando para trás. — Isso aqui é lama. Lama mesmo. Grossa!
— Meu Deus. — Hinata tentou recuar, mas já era tarde. O pé afundou até o tornozelo e puxou o sapato junto.
As duas começaram a dar mini chiliques instantâneos, com os braços levantados, tentando não encostar as mãos em absolutamente nada.
— EU NÃO AUTORIZEI PISAR NUM PANTANAL. — berrou Sakura, se equilibrando com a ponta do pé esquerdo.
— MEU SAPATO. MINHA BANDANA! — gritou Hinata, que tentava manter a compostura, mas já sentia a lama subindo pela panturrilha.
Foi então que ouviram os sons inconfundíveis de outros remos cortando a água. Ao virarem, avistaram os outros barcos se aproximando, como navios de guerra em câmera lenta. E no primeiro barco: Naruto e Sasuke, remando em pânico.
— HINA-CHAN! SAKURA-CHAN! ESPERA A GENTE! — gritava Naruto, com os olhos arregalados. — A GENTE AJUDA VOCÊS!
— VOCÊS CONSEGUEM! — gritou Sasuke, já se preparando para pular do barco e correr até a bandeira com aquele andar dele de "estou acima de todos vocês".
As duas se entreolharam.
— Eles... acham que vão subir nessa pedra antes de nós. — murmurou Sakura, com o olhar assassino.
— Eles acham... que vamos dividir essa vitória fácil assim. — completou Hinata, com um sorriso que poderia matar.
— Eu já dividi meu lip balm com ele ontem. Não vai acontecer de novo. — disse Sakura.
— Eu deixei ele usar meu hidratante de ácido hialurônico. Isso já foi generosidade suficiente. — respondeu Hinata.
As duas deram as mãos, erguidas com classe, como duas debutantes tentando atravessar um campo minado, e começaram a caminhar em passinhos curtos e largos como ursos desequilibrados sobre a lama.
— Ai meu Deus, tá entrando lama no short. — sussurrou Sakura, com a voz trêmula.
— Tá no meu umbigo... como chegou no meu umbigo? — choramingou Hinata, ainda sem soltar a mão da outra.
Elas se aproximaram da pedra como duas sobreviventes da guerra civil dos salões de beleza. A superfície era escorregadia, cheia de musgo, e exigia... esforço físico. Esforço real.
— Eu vou te levantar. Pisa aqui. — disse Sakura, agachando-se com relutância.
— Você vai? Mesmo?
— Quero essa bandeira mais do que quero um gloss importado. Pisa logo.
Hinata pisou nos ombros de Sakura, se equilibrando como uma princesa ginasta de circo. Subiu devagar, os braços tremendo. Sakura rosnava abaixo dela.
— Pega a bendita bandeira, Hinata! — berrou ela, com o joelho afundando na lama e o orgulho virando pó.
Hinata, com uma última esticada dramática, agarrou a bandeira.
— Consegui!
Ela levantou os braços para o alto, triunfante, como se estivesse no topo do Monte Olimpo.
Mas esqueceu de um pequeno detalhe: Sakura.
Ao levantar os braços, perdeu o equilíbrio — e despencou do alto direto sobre a amiga. As duas rolaram montanha abaixo, gritando como herdeiras caindo da torre de marfim.
CHAPLAFF.
Afundaram na lama.
— Ah! — gritou Sakura, o rosto coberto de terra molhada.
— Eu tô toda nojenta! — berrou Hinata, batendo as mãos para tentar se limpar, espalhando mais lama ainda.
Os meninos chegaram logo em seguida e viram a cena: as duas cobertas de lama da cabeça aos pés, com expressões de horror e triunfo ao mesmo tempo. Naruto e Sasuke tentaram conter o riso (sem sucesso).
— Vocês estão... lindas. — disse Sasuke, engolindo uma risada.
— Shut up. — rosnou Sakura, cuspindo lama.
Naruto correu para ajudar Hinata a se levantar.
— Vocês ganharam. Ninguém nunca foi tão longe assim por uma bandeira de pano.
— E nunca mais irão. — respondeu Hinata, ainda com um fiapo de vitória nos olhos.
As duas foram levadas até a cabana chique com ajuda dos namorados, limpas com cuidado e servidas com chá quente e máscaras de argila.
Mesmo cobertas de lama, tinham vencido.
Com estilo.
A noite caiu no acampamento como um cobertor acolhedor de verão. A cabana chique era tudo que se podia esperar de um “spa selvagem para elite escolar”: lençóis limpos com cheirinho de lavanda, luzes suaves, aromaterapia, e até roupões macios pendurados nas portas do banheiro. Hinata e Sakura estavam impecáveis novamente — pele renovada, cabelos secos e alinhados, e uma expressão de triunfo no rosto.
Elas estavam sentadas nas almofadas maiores, enroladas em mantas elegantes, até que uma batida animada soou na porta.
Sakura se levantou com calma e foi até a entrada, seguida por Hinata que pegava uma panela de alumínio com uma mão e uma colher de pau com a outra, como se fosse uma cerimônia de iniciação. Quando a porta foi aberta, Naruto e Sasuke estavam ali, com sorrisos largos e olhos cheios de expectativa.
— Chegamos. Era uma cabana para dois ganhadores, né? — disse Naruto, coçando a nuca.
Sasuke apenas ergueu uma sobrancelha com um meio sorriso confiante, como se estivesse prestes a entrar no lugar ao qual acreditava pertencer por direito.
Mas as meninas não se moveram.
— Não. — disse Sakura, firme, cruzando os braços.
Hinata parou atrás dela, igualmente séria, com a panela pendendo em uma mão e a colher na outra.
— Hã? — Naruto olhou para os lados. — Como assim... não?
Sasuke franziu o cenho, confuso, tentando entender se era brincadeira ou algum tipo de provocação.
Sakura ergueu o queixo, apontando com o dedo para o chão, bem diante da soleira.
— De joelhos.
Os dois se entreolharam, completamente desnorteados.
— Vocês tão brincando, né? — perguntou Naruto, rindo sem graça.
— Isso é um teste? — murmurou Sasuke, dando um passo hesitante para trás.
Foi então que Hinata levantou a colher e, com precisão cirúrgica, bateu com força no fundo da panela de alumínio. O som ecoou alto na noite silenciosa do acampamento, como um chamado de guerra.
— Agora! — gritou.
Naruto deu um pulo, o sorriso sumindo. Os dois se abaixaram no mesmo instante, sem discutir, ajoelhando-se como dois filhotes molhados no portão de casa, com olhares suplicantes e murchos.
— Por favor. A gente ajudou. A gente remou até lá. Eu quase tive câimbra no braço — disse Naruto, com uma expressão dramática.
— Vocês são muito bondosas. Extremamente bondosas. Divinas — acrescentou Sasuke, com um tom que beirava o teatral.
As duas se entreolharam, avaliando a cena como rainhas diante de súditos arrependidos. Por alguns segundos, fingiram ponderar se seriam generosas ou implacáveis.
Então Sakura deu um passo para o lado, com um suspiro audível.
— Pode entrar.
Hinata seguiu o gesto, abrindo espaço com a panela agora repousando ao lado do quadril.
Os dois meninos não esperaram segunda chance. Se levantaram com agilidade e quase tropeçaram um no outro na pressa de cruzar a porta, elogiando as meninas sem parar.
— Vocês são incríveis, a gente nunca duvidou. Isso aqui é um palácio! — dizia Naruto, se jogando sobre uma almofada.
— Obrigado por perdoarem nossa existência — murmurou Sasuke, já se servindo de chá com a elegância de quem sabe que escapou por pouco.
Hinata e Sakura se acomodaram novamente em seus lugares, com um brilho satisfeito nos olhos. Tinham vencido. Tinham feito eles se ajoelharem. E agora, ainda de roupão, estavam em uma cabana com ar condicionado natural e aromatizador de eucalipto.
— Eu te odeio para caralho — disse Sakura olhando com desdém para Hinata.
— O sentimento é mútuo — retribuiu a outra.
O universo estava, finalmente, em equilíbrio.
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