Rivalidade

2 Que se inicie a treta


Acordei com meu celular tocando loucamente e com uma puta ressaca moral martelando minha mente, aquela maldita aposta tinha tudo para dar errado. Me arrumei as pressas e saí pra escola rezando para que a Carla não tivesse ficado na minha turma.

Ao chegar na escola vou direto ao banheiro para arrumar meu cabelo e lavar o rosto. Quando levanto o rosto dou de cara com a Carla que estava sentada na pia acendendo um cigarro.

–Bom dia Rayane. Pensei que você fosse fugir. — Diz me olhando

– Você devia saber que eu não fujo dos meus compromissos Carla. — Digo olhando meu reflexo no espelho

Aquilo me preocupava muito, não só pela proximidade com ela, mas principalmente pelo fato de o banheiro estar completamente vazio. Abaixei novamente e joguei agua no rosto para não ter que encara-la. Senti suas mão em minha cintura e levantei o rosto rapidamente.

–Me solta Carla... Já não basta tudo o que você já me fez, todas as vezes que você tentava me agarrar nos vestiarios da academia antigamente, agora também quer me agarrar aqui? — Digo empurrando ela e indo em direção a saida

–Você fala como se não gostasse né. — Diz me empurrando contra a parede com seu corpo colado ao meu — Eles podem não saber, mas eu me lembro muito bem de quando você me provocava durante os treinos e do quanto você adorava quando eu te agarrava no vestiario da academia naquela época.

–Já chega Carla! pode chegar alguém e ver. Essa sua brincadeira já foi longe demais. — Digo tentando inutilmente resistir aos seus encantos.

– Se você quer assim tudo bem. Mas quero te ver hoje a tarde. A gente precisa conversar Ray – dizia ela ao tentar beijar meu pescoço

–Tudo bem mas me solta sua louca, temos aula e eu já estou mais do que atrazada, não quero ter que dar explicações sobre isso. — Digo a empurrando

Não dei tempo dela me puxar novamente, peguei minha mochila e sai daquele banheiro num ultimo suspiro de sanidade que me restava naquela manhã. Subi rapidamente pra sala antes que ela me alcançasse. Entrei na sala do 3º ano e fui direto pro fundo, onde os meninos já haviam guardado um lugar pra mim.

Minha cabeça rodava com tantos pensamentos "porque ela teima em ficar me assediando? Agora eu tô mais do que ferrada, perdi a maldita da aposta e não dá nem pra fugir dela... Mais uma dessas e eu não sei se irei conseguir me segurar” não sei dizer se foi porque eu dormi, se foi a ressaca ou se as primeiras aulas realmente passaram muito rapido, só sei que estava tão concentrada na música que tocava em meus fones que foi preciso tomar um chute na canela para notar um bilhete em minha mesa.

"Hoje depois do almoço, na minha casa. Você não pode fugir, você é minha agora!"

Me viro para a mesa ao lado torçendo para que aquele bilhete não fosse da Carla, mas aquela letra era inconfundivel. Ela estava me observando e esperando uma resposta. Concordei com aquela loucura com um aceno de cabeça, eu não tinha outra opção a não ser honrar minha palavra.

Fora o incidente do inicio da aula o dia passou sem grandes acontecimentos, além de todos os alunos do ensino médio estarem comentando sobre o acontecido no bar na noite anterior é claro. Só durante o intervalo que foi bastante embaraçoso para mim ter que acompanhar a Carla o tempo inteiro, mas ela não me humilhou nem nada do tipo perante os alunos, pelo contrario, ela foi extremamente gentil comigo e com os novatos que me procuravam para saber coisas relacionadas aos times da escola. Os ultimos horários passaram tão rapido quanto os primeiros, o único fato relevante foi a noticia de que teriamos um novo professor de Educação Física e o conheceriamos no próximo dia.

Ao final da aula me levantei já com a mochila nas costas, dei sinal para a Carla ficar em sala e esperei os outros alunos saírem. Quando a sala finalmente esvaziou e só restava nós duas la dentro, fechei a porta discretamente e esperei ela chegar perto.

–Que foi? Porque você pediu pra te esperar? Pensei que você tivesse com medo de ficar sozinha comigo, saiu tão rapido do banheiro hoje cedo e sempre dava um jeito de não ficar sozinha comigo no intervalo — Disse com um sorriso sacana que eu devia admitir, era lindo

–Eu não posso ir depois do almoço, meus pais vão estar em casa á tarde e se eu for pra lá eles não irão me deixar sair de novo — digo abaixando a cabeça com um certo receio

Ela não brigou nem deu piti, simplesmente chegou mais perto e levantou meu rosto com carinho. Aquilo estava estranhamente bom, nunca pensei que ela poderia ser tão carinhosa com alguém, principalmente se o alguém em qustão fosse eu.

–Então liga pra sua casa e diga que vai almoçar fora porque tem que ajudar uma aluna nova em algumas coisas da escola, invente algo. — Diz enquanto acariciava meu rosto, mas subitamente seu semblante mudou e ela se afastou um pouco, seu olhar demonstrava certa magoa — Você sempre foi boa em inventar desculpas mesmo, e afinal você tem que me obedecer, então, te espero la na porta enquanto você resolve isso. Você almoça comigo hoje.

Ela saiu da sala sem dizer mais nada. Por um momento cheguei a gostar do modo que ela tinha me tratado, sendo ela mesma, exatamente do jeito que ela era quando nos conhecemos na academia e eu me apaixonei perdidamente por ela... Antes dela entrar na equipe do Boa Vista. Suas ultimas palavras estavam me intrigando, não sabia o que ela quis dizer com aquilo. Ao sair da sala trombei com meu irmão.

–Não olha por onde anda não garota?- disse ele sem olhar mas pediu desculpas assim que viu que era eu.

–Art, avise a mãe que não vou poder almoçar em casa hoje. Tenho um assunto pra resolver com a Carla e pode durar a tarde toda — digo passando a mão no cabelo — mas não conte isso, invente uma desculpa qualquer, você é mestre nisso.

–Ray, eu não quero você de rolo com essa garota. Não me importo com o fato de você ser lésbica e nunca me meti na sua vida, mas não posso aceitar que você fique com ela só porque ela é gostosa. Ela é nossa inimiga!

–Relaxa Art, eu sei me cuidar e agradeceria se você continuasse sem se meter na minha vida. Eu tenho uma aposta a pagar e ela exigiu isso, não vou faltar com minha palavra!

– Ok, então se cuida

Me deu um beijo e saiu correndo para pegar uma carona com os amigos. Apesar de ser meu irmão gêmeo, o Arthur era bem diferente de mim. Ele sempre foi mais baixo e mais calmo do que eu, mas os cabelos extremamente pretos e lisos em contraste com a pele pálida era nossa maior semelhança e "marca registrada". Ele tinha os olhos castanho mel e eu olhos azuis, mas a maior difrença ficava no corpo, ele era de estatura mediana e um tanto quanto magrelo para um lutador enquanto eu era alta e com o corpo mais definido por causa dos esportes e meu vicio em academia.

Fui para o estacionamento pegar o carro, pouco tempo depois já estava na porta da escola abrindo a porta para Carla entrar.

–Você demorou. — Disse ela jogando a mochila no banco traseiro e colocando o cinto.

–Tive que pedir pro Art enrolar meus pais. — digo ligando o radio — Você ainda mora no mesmo lugar? — acelerei tomando um caminho mais discreto

–Não, saí da casa dos meus pais, mas ainda moro na mesma rua. — Disse ela tirando a camisa da escola e ficando de top

Não pude deixar de reparar no corpo dela, a pele bronzeada em contraste com o cabelo castanho claro que caia sobre os ombros em cachos perfeitos, o corpo definido. Aquela imagem nunca vai sair da minha cabeça com certeza.

–Hmm... Se bem te conheço, aposto que você esta vivendo a base de miojo e lasanha congelada né Cah. — Digo deixando transparecer a pouca intimidade que ainda tinhamos e tentando voltar meu foco pra direção do carro

–Pior é que realmente é assim que estou vivendo nas ultimas semanas — Diz rindo divertida enquanto vestia uma camiseta do Pink Floyd velha

Continuamos rindo da situação até que ela deixou escapar algo

–Senti falta de ficar assim contigo Ray — diz olhando pela janela

Não consegui responder nada e o silêncio se instaurou no carro e tudo o que se ouvia era a música ao fundo. Começou a tocar Faz parte do meu show, ela cantava baixinho e naquele momento senti vontade de cantar com ela como fazia na academia antes de brigarmos, mas tive medo de acabar com aquele momento. Era tão bom ouvi-la cantar de novo. Acelerei e só voltei a falar algo quando estavamos chegando.

–Onde você está morando agora Carla? — Ela me olhou e vi um brilho de tristeza no seu olhar

–Na casa da esquina, no portão preto. — Disse virando o rosto

Parei o carro em frente a casa dela e o desliguei. Olhei para ela e vi que ela ainda olhava para baixo.

–O que foi Cah? — Disse colocando a mão em sua perna

–Nada Rayane...- disse tirando minha mão de sua perna com brutalidade — Vamos logo, estou com fome.

Ela simplesmente pegou a mochila e saiu batendo a porta do carro. Saí do carro com a mochila e o tranquei, Logo já estava entrando na casa dela.

–Não repara a bagunça, ainda estou arrumando as coisas, não tenho tido muito tempo para arrumar as coisas por aqui.

Realmente a casa estava um verdadeiro caos. Não que meu quarto fosse o lugar mais organizado do mundo, mas com certeza a bagunça dele não era nada se comparada à bangunça que estava a casa dela. Na sala tinham caixas para todos os lados, as únicas coisas que estavam devidamente no lugar eram o sofa, com milhares de roupas jogadas em cima dele, uma tv e o videogame dela.

–Olha, não sei se já deram o nome de Carla pra algum furacão, mas com certeza se os caras vissem sua casa eles dariam seu nome pro primeiro furacão que passase… — disse rindo jogando a mochila no sofá

–Ha ha ha! Que engraçadona você hein Ray… — disse jogando a mochila em mim

Peguei a mochila dela e comecei a rir da cara de irritada que ela fez. A filha da puta já era consideravelmente bonita naturalmente, quando fingia estar irritada conseguia ficar mais linda ainda. Era quase como uma criança emburrada fazendo cena.

–Oh que tal vc me emprestar uma camiseta ao invés de ficar aí toda putinha? Odeio ficar de uniforme for a da escola.

–O quarto é no final do corredor, pode ir lá e pegar uma camiseta pra você. Só não garanto que vai ser fácil achar alguma coisa lá – disse rindo da minha cara – enquanto você troca de roupa eu faço o almoço pra gente.

–E qual vai ser o prato principal desse almoço tão chique? – digo indo em direção ao quarto enquanto ela ia pra cozinha preparer o almoço

–Você prefere miojo de galinha ou lasanha ao sugo?

–Lasanha sempre, por favor.