Ritualística.
1 Trácida
Miguel, um rapaz de 15 anos se sente entediado dentro do carro antigo do seu pai.
— Quando a gente vai chegar na cidade?
Seu pai, Ivan, olha para seu filho pelo celular que está apoiado no para-brisa do carro com o aplicativo câmera aberto, mas desligado por enquanto.
— Estamos quase chegando, quando estiver perto de 15 minutos para chegarmos eu ligo a câmera para fazermos o vídeo do nosso canal.
Depois de ouvir isso, Luna, a irmã do Miguel, grita de felicidade. Ele no entanto, se sente bem "foda-se" com isso.
— Por que você não está feliz? 'Nóis' 'vai' gravar vídeos conhecendo a cidade onde o papai cresceu.
— Nossa... Que legal...
De repente, Ivan liga a câmera do celular.
— Três.. Dois... Um... Olá meus queridos seguidores do canal Família GG. Como foi dito no nosso último vídeo de reação em família, nós estamos indo para a cidade da minha infância. Trácida. A cidade onde eu passei a maior parte da minha infância. Quem vai pedir o like hoje?
Fingindo gostar de fazer os vídeos, Miguel puxa sua irmã para ela ficar visível para a câmera.
— A minha irmã!
— Eba! Se você 'qué' 'apoiá' esse vídeo, deixa seu like aqui em baixo.
— Não se esqueça de compartilhar com os seus amigos.
— Isso mesmo, sigam o que meus filhos dizem. E se você quiser ajudar ainda mais o nosso canal, é só usar o botão do "Seja membro" aqui no canal.
Depois disso, Ivan desliga a câmera do celular.
— Vocês foram bem.
Miguel olha para a janela e fala.
— Grande coisa.
Luna acha estranho o comportamento do seu irmão, mas ignora.
Depois de 15 minutos, eles chegam na cidade Trácida, de São Paulo. De carro, eles vão até um sobrado, quando o carro para na frente do sobrado, uma mulher sai dali de dentro. Miguel sai do carro e corre até sua mãe, com um abraço, os dois se apertam como se não tivessem se visto a muito tempo.
— Olha só pessoal, essa será a nossa casa durante a nossa visita nessa cidade.
Ouvir seu ex marido falando isso fez a Cíntia sentir que sua família não é bem tratada por ele. Ela vai até a cozinha do sobrado com seu filho.
— Filho, quer que eu faça alguma coisa para você comer?
— Que tal um omelete?
— Pode deixar, eu vou fazer. Seu pai cuida bem de vocês?
— Nos vídeos sim. Agora, na vida real ele quase nem fala comigo pelo menos.
Entrando na casa, Ivan grava as reações de sua filha com cada um dos cômodos da casa. Depois de alguns minutos, o omelete estava pronto e uma panela de arroz também, Cíntia chamou os dois para comer também. Ao invés de parar de gravar para poder comer, Ivan também quis gravar sua família comendo.
— Ei, Miguel, o que você achou dessa casa?
— Desliga a câmera e eu te respondo.
Ele vira o celular para Luana.
— Você ouviu a piada dele?
— Ele é muito sem graça.
A Cíntia fica irritada com o comportamento de seu ex, então ela pega o celular da mão dele e desliga a câmera.
— Por que você fez isso? O meu dinheiro depende disso!
— Está na hora de comer agora. Eu não vou te devolver enquanto não terminar a comida.
— Eu sou uma criança para você?
Miguel não consegue se segurar e ri de seu pai agindo como uma criança de fato.
Depois de terminar o almoço, ele decide ir para o parque no centro da cidade para relaxar dos vídeos que seu pai o obriga a participar. No meio do parque era um lugar bem calmo, muitas crianças corriam de um lado ao outro. Mas algo chamou a atenção de Miguel, do outro lado da rua tinha uma casa com uma única porta de metal na entrada, de repente, duas pessoas que pelo comportamento ansioso pareciam não querer serem vistas, essas duas pessoas vêem ao redor e depois batem na porta, uma fresta se abre, passam alguns segundos e eles entram, a porta se fecha.
"O que será que tem ali dentro?"
Curioso, Miguel foi até aquela porta um pouco depois das duas pessoas entrarem. Ele bate na porta e uma fresta se abre segundos depois. Havia um homem enorme e musculoso impedindo que qualquer coisa seja vista pela fresta.
— O que você sabe?
Sem entender a pergunta o Miguel vira para o lado oposto deles por um segundo.
— Então...
— Você é novo no oculto?
Ele não entende o assunto mas continua mentindo para não ser pego e se dar mal por isso.
— Uh... Sim...
— Só um segundo.
A porta se fecha, passa um tempo e a porta abre o suficiente para o garoto entrar.
Sem saber onde está entrando, Miguel entra dando passos lentos. Quando ele entra um homem velho de barba e cabelos brancos começa a falar com ele enquanto o homem forte de antes fecha a porta.
— Olá filho, você é novo então deve não saber quase nada sobre o oculto. Antes de mais nada, me chame de Pai, é só assim que as pessoas do oculto me chamam.
— Pai?
— É uma regra seguida para esconder da sociedade os nomes que nós temos. Depois falamos sobre isso.
Enquanto eles falam eles andam por um corredor extenso que era tudo que tinha atrás da porta.
Por estarem falando do tal "oculto" e de "esconderem algo da sociedade", Miguel foi ficando empolgado com o que podia acontecer.
— Então, Pai, o que tem de tão especial no oculto?
— Foi descoberto na época de 3 a.C, que nossa evolução dependeu de 5 deuses, cada deus tinha como seu nome, um elemento. Morte, Sangue, Conhecimento, Energia e Vida. Mas isso não foi tudo, de todos os deuses, qualquer pessoa pode ter conexão com os 4 primeiros que eu falei.
— Morte, Sangue, Conhecimento e Energia?
— Sim. Acabou que quem tinha conexão com um elemento ficava habilidoso, forte ou evoluía a mente mais rápido do que as outras pessoas. Quando as pessoas notavam isso elas chamavam essa pessoas de herdeiros de Satã. Por isso éramos caçados até a morte, o que nos levou a ter o hábito de nos escondermos da sociedade.
— Uau.
Quando terminaram esse diálogo, chegaram no fim do corredor, que tinha um salão à esquerda com várias pessoas. Chegava a parecer uma festa pois tinha até uma mesa cheia de salgados. O que esse lugar tinha de diferente de um salão comum de festa é que todos eram separados em 4 áreas, 1 em cada ponta, enquanto as comidas ficavam no centro.
— Veja, estão todos juntos de pessoas do mesmo elemento, se você pedir para um grupo, eles podem te dar conexão com o elemento deles.
Seguindo o que o Pai falou, Miguel vai até a mesa de comida, onde também tinham outras pessoas.
"Será que eu peço para participar desse pessoal? Seria legal ter poder como ele falou. Mas e se eles só estiverem usando alguma droga? Eu vou fingir essa tal conexão e depois vou embora."
Ele foi até um grupo.
— Qual o elemento de vocês?
A pessoa que estava sentada no chão assim como as outras, mas que estava na frente do resto, responde ele.
— Somos de sangue. Por quê? Você também é?
— Não, mas eu quero me conectar com esse elemento.
Ouvindo isso, os olhos de todos ali pareciam estar brilhando.
— Okay garoto, entra nesse símbolo.
Diz uma mulher enquanto todo mundo se levanta para revelar o símbolo que estavam falando, o qual estava marcado e desenhado no chão. Eles colocam o Miguel no centro do símbolo e começam a fazer um ritual que o faz perder os sentidos e desmaiar.
Acordando no meio da noite, Miguel sente uma dor de cabeça muito forte que o faz quase não raciocinar sobre o que ele pode fazer agora, de repente ele escuta passos pesados indo em sua direção. Miguel levanta do banco da praça.
— Como eu vim parar aqui? — Ele olha ao redor e percebe que não tem nenhum movimento. — Sinto cheiro de pastel. Naquela casa. — Olhando para a casa de onde vem o cheiro de pastel, ele vê que é visível o movimento de 5 pessoas ali.
Passam alguns minutos e seus pais aparecem procurando por ele.
— Filho! Onde você estava!?
Disse a sua mãe. Seu pai como sempre, estava aproveitando do que tinha acontecido para fazer uma gravação. Mas mesmo assim, ele estava (ou parecia) preocupado.
— Nunca mais desapareça dessa forma! Você não sabe o que passou pela nossa cabeça com você sumindo desse jeito.
Enquanto tem toda essa treta com seus pais, Miguel ouve passos atrás dele, era o Pai que estava lá.
— Com licença. O que está acontecendo aqui?
A mãe do Miguel começa a se sentir desconfortável.
— Ivan, vamos embora daqui.
Mas o Ivan fica irritado com o Pai acreditando não ser uma pessoa confiável e ignora a Cíntia.
— Quem você pensa que é pra me fazer essa pergunta? Você não tem nada a ver com a minha família! Xispa, saco de vacilo.
Pai coloca a mão no ombro do Miguel com o objetivo de dar a entender que já o conhece.
— Miguel, qual a nota de 0 a 10 que você dá para esse homem?
— Aí, fica longe do meu filho!
Cíntia segura o Miguel na mão e leva para a casa, Pai levanta as mão e anda para trás até sumir do campo de visão de todos ali.
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