Helena – O cantor boboca.

4 Anos depois:

Hoje estamos todos animados, pois é o dia da Meia Maratona do Rio. E mesmo não participando da maratona como uma corredora, estou ajudando na organização do evento dando instruções de segurança aos corredores, e os animando para manterem seu próprio ritmo de corrida, pois todos aqueles que ultrapassarem a linha de chegada irão ganhar uma medalha. Enquanto passo as instruções para um grupo de corredores, um bando de garotas loucas seguindo uma van preta passam por mim correndo e gritando.

— O que essas malucas pensam que estão fazendo? – perguntei pra mim mesma, balançando a cabeça em reprovação aquela atitude.

Não perdendo tempo, levo todos os corredores a linha de chegada e quando todos estão a postos, ouço o tiro que indica que foi dada a largada e os vários corredores começam a se mover cada um no seu ritmo, uns rapidamente, outros um pouco mais lentos, e eu apenas corro fora da pista os observando para que nada saia errado.

Em determinado momento da corrida, um participante passou mal e eu parei para ajuda-lo. Me aproximei dele que já estava deitado na maca e sendo colocado na ambulância e depois de respirar fundo, falei:

— Deus do céu! O que é tão importante nessa medalha para você correr tanto a ponto de ficar assim?

— Eu prometi ao meu filho que iria levar a medalha para ele. – me respondeu ele já dentro da ambulância.

— Por favor, cuidem bem dele! – falei para um dos paramédicos que fechou a porta da ambulância.

Enquanto via a ambulância se afastar, percebi uma movimentação estranha acontecer bem a minha frente. Um homem vestindo roupas de corrida extravagantes, entra em uma van preta e outro homem vestindo a mesma roupa sai dela seguido de outro homem com cara de bocó que borrifa um pouco de água nele. E em seguida o extravagante entra na corrida como se nada tivesse acontecido.

— Eu não acredito no que meus olhos estão vendo! Com certeza isso não vai ficar assim, ou eu não me chamo Maria Helena! Mas por agora, tenho que receber os corredores que chegarem ao fim da corrida. – Falei para mim mesma, caminhando em direção a linha de chegada.

Próximo a linha de chegada vi o corredor que passou mal sentado embaixo da sombra de uma árvore com um olhar triste. Meu coração não aguenta esse tipo de cena então fui até lá tentar consola-lo. Ao ver que eu me aproximava, ele baixou a cabeça.

— Céus! – suspirei – É por isso que eu falei para manterem o ritmo. Você deveria ter me ouvido. Por que exagerou?

— Eu queria dar uma medalha ao meu filho! – respondeu ele quase chorando.

— E agora? – falei fazendo bico. Eu tenho esse dom de me compadecer de historias tristes.

Antes que eu pudesse pensar em uma solução para ajudar aquele corredor desiludido, a multidão que estava esperando os corredores na linha de chegada, começou a gritar loucamente me fazendo olhar quem estava se aproximando da chegada para ter um alvoroço tão repentino. Então vi aquele poste ambulante, vestido de roupas extravagantes cruzar a linha de chegada com os braços erguidos em sinal de que havia superado uma barreira. As adolescentes seguravam cartazes e choravam loucamente tentando se aproximar dele, porém os guardas costas presentes as impediram de fazer isso. Em seguida, vários repórteres o cercaram fazendo perguntas do tipo:

— Jonathan Ribeiro, qual a sensação de completar a maratona?

— Para ser sincero, eu quis desistir muitas vezes. Mas... o fato de minhas fãs estarem aqui, me deu forças para que eu completasse a maratona. – respondeu aquele descarado.

Me segurei para não ir lá acabar com a exibição daquele farsante, tomar a medalha que ele havia ganhado e expor que ele era uma farsa. Mas pra não me envolver em problemas eu tive outra ideia para deixar claro para aquele famosinho de merda, que eu tinha visto tudo, e que ele não merecia aquela medalha. Corri até o estacionamento e fiquei a espera do momento perfeito para me aproximar da van preta. Pra minha sorte, não demorou muito e o momento chegou quando o homem que borrifou água se afastou, deixando o farsante sozinho no carro. Fui até a van que estava com os vidros fechados, e então bati na janela do carro.

Jonathan – A encrenqueira da Medalha

— Não eu não quero! Prefiro morrer! – reclamei.

— Por que você não pode fazer isso? Por causa de que você não pode? – perguntou o Thiago meu agente que tinha um sonho secreto de ser cantor um dia.

— Eu sou um artista. Um artista deve se expressar através da música. Aparecer em programas de tv fazendo música e outras coisas, não são aqueles tipos de pessoas que não tem confiança na música, que fazem? – Refleti ao perguntar.

— Sim. Você tem razão. Mas não é um desperdício somente. As pessoas irão conhecer sua imagem de macho! – Disse ele.

— Imagem de Macho? – perguntei ponderando a ideia.

— Sim. Isso mesmo. Eu pensei nisso. Quando as meninas te virem correr, elas vão morrer! – explicava ele enquanto dirigia em direção a tal maratona.

— Ah! – suspirei – O clima é tão quente. Eu realmente odeio correr! – Falei enquanto tirava a jaqueta que vestia e entregava a uma das três garotas que eram estagiarias na minha agência.

— Goma! – disse meu agente estirando a mão para que eu cuspisse o chiclete. – Ei Jonathan, relaxe os músculos do rosto. Smile, Smile! – Disse ele pra mim me forçando um sorriso.

Os seguranças abriram a porta da van, e os gritos das fãs estéricas inundaram meus ouvidos. Não pensei que essa maratona ridícula iria atrair tantas fãs. Desci do carro sorrindo e acenando para elas. Isso faz parte da vida de um artista famoso como eu sou. Fui até a largada e quando o tiro de inicio foi dado, corri alguns bons metros junto com os maratonistas. Em certo trecho da corrida, quando não havia muitas pessoas ao redor, eu entrei na van e um cara que contratamos estava esperando vestido nas mesmas roupas que eu. Seria ele que correria por mim boa parte do trajeto da maratona.

Estávamos nos aproximando da linha de chegada e eu já tinha tirado um bom cochilo na van e podia assumir a corrida daquele ponto. Então a troca foi feita, antes que eu continuasse a corrida, meu agente teve a ideia ridicula de borrifar água em mim, para que parecesse suor e todos pensassem que eu me esforcei muito.

Finalmente eu conseguia ver a linha de chegada e minhas fiéis fãs e repórteres esperando minha chegada. O plano foi executado com sucesso e eu ganhei uma medalha mixuruca por ter completado a maratona. Depois de dar algumas entrevistas, voltei para a van e esperei o Thiago voltar. A música que passava no evento era horrível e antiga, igual aquela medalha horrorosa. Então coloquei meus fones de ouvidos para ouvir minhas próprias músicas. Mas antes que eu pudesse aprecia-la, ouço algumas batidas na janela do carro e presumo ser o Thiago, então abro ao abrir o vidro falo:

— Você voltou rápido. – Depois que o vidro desceu por completo eu reparo uma garota de rosto e corpo estranhos, de estatura baixa e cabelos pretos parada olhando pra mim. Com certeza não seria alguém com quem eu namoraria nunca. Ela vestia roupas da organização da corrida, então presumi que era aquelas fãs psicopatas disfarçada. – Olá, me dê sua caneta! – falei forçando um sorriso, mas ela continuou me encarando sem dizer nada. Então peguei a caneta que tinha no painel do carro – Hum! Você também não tem papel? – Então desci do carro – Eu vou te dar meu autografo com minha própria caneta ok? Onde eu devo assinar? – segurei em seus ombros e a virei de costas procurando um bom lugar na blusa dela que eu poderia assinar, porém ela se esquivou me deixando surpreso. – O que? Você não é minha fã? O que você é então?

— Por favor devolva a medalha. A medalha que você recebeu por terminar a maratona. – disse ela estirando a mão pra mim. – Eu vi tudo, como você saiu do carro. E como você trocou com alguém que estava com a mesma roupa exata que você.

— Não é isso... – tentei ganhar tempo enquanto pensava em algo para me safar – A corrida já acabou, então não há necessidade disso. – Ela continuava a me encarar com aqueles olhar estranho – Bem... O que eu quero dizer é que eu não entendo nenhuma palavra que você está dizendo agora, mas... Mesmo assim, no final, você está fazendo isso por causa de uma medalha de conclusão?

— Eu não acho justo que receba uma medalha quando você nem sequer correu. Por isso você precisa entregar para mim, eu vou devolve-la. – ela tinha um tom de ironia.

— Pare, pare ai. – apontei o dedo em direção a boca dela pra que ela calasse a boca. – Você parece ter entendido mal algumas coisas. É apenas uma medalha de conclusão. Não é uma medalha de ouro, nem ao menos uma medalha de bronze, então... Até logo. – dei um tapinha no ombro dela e uma piscadinha, e então me direcionei ao carro.

— É por isso, por favor, devolva a medalha que não é de ouro nem de bronze – falou ela em um tom mais rude e então resmungou baixo porém me fazendo ouvir – Francamente, ele está me fazendo repetir a mesma coisa de novo... Dê ela pra mim, agora! – Ela estirou a mão novamente. – Me dê enquanto estou pedindo calmamente, e saia.

— Ah! Você é muito engraçada. É apenas um pedaço de metal. Tudo bem, eu vou te devolver. – falei entrando no carro e passando pra o banco do motorista, peguei a medalha e mostrei pra ela. – É está aqui certo? – coloquei ela no banco do passageiro e liguei o carro, percebendo o olhar confuso da garota. Pisei no acelerador e o carro começou a se mover, deixando para trás aquela encrenqueira da medalha. Baixei o vidro do carro e olhei para o retrovisor com a intenção de ver a cara de decepção dela, porém o que vi foi um olhar furioso correndo atrás do carro. – Quê? Ela é uma louca por acaso? O que diabos ela está fazendo? – me perguntei.

O estacionamento estava cheio e a única coisa que eu poderia fazer era dar voltas com o carro, tentando me distanciar dela o máximo possível. Vi o Thiago correndo atrás da van, mas eu não podia parar ou a encrenqueira iria me alcançar. Eu estava confiante ela não conseguiria me pegar nunca, eu nem a via mais pelo retrovisor. Então quando olhei para frente, aquela maluca pula de vez em frente ao carro me fazendo frear bruscamente.

— Ela realmente é louca! – falei pegando a medalha. – Okay! Aqui, pegue-a. Eu iria joga-la fora de qualquer maneira porque é muito brega pra mim. – Antes que pudesse pegar, eu deixei que caísse no chão.

— Ei! – Ela parecia brava – Você pensa que uma maratona é uma piada? Você ao menos sabe o que significa terminar uma maratona? Terminar uma maratona é superar o “ponto morto”. O ponto morto significa que você está vencendo a morte. Somente as pessoas que sofreram as dores torturantes da morte podem pendurar a medalha de conclusão em torno do seu pescoço. Mas o quê? Você diz que é uma medalha de maratona de baixa qualidade? – parecia que ela ia chorar a qualquer momento.

Ela não parava de falar e a única coisa que eu pensava era: “ Do que ela está falando?”. Então finalmente o Thiago chegou, cansado e ofegante de tentar acompanhar o carro.

— Ei... – disse ele – Se você sai assim sem mim, então o que eu deveria fazer?

— Eu vi tudo. Enquanto eu ajudava um dos membros da corrida entrar na ambulância, esse cara desceu do carro com um boné. Ele até borrifou água no rosto para fingir que estava suando... Ah, é mesmo, você quem borrifou a água, não é mesmo? – disse a encrenqueira para o Thiago.

— Droga! – suspirei alto – Eu te disse pra não borrifar água!

— Bem... – começou o Thiago fazendo sinal para que eu fechasse o vidro e então se virou pra garota. Mas antes que o vidro se fechasse por completo, eu troquei um olhar mortal com aquela encrenqueira. – Eu sei muito bem o que você está dizendo. Mas o evento de hoje tem um boa intenção certo? Lamentamos. É 100% nossa culpa. Você pode ignorar isso pelo menos essa vez? Não é por nós, e sim pelo evento, pelas crianças e famílias sem pais. – Ela suspirou – Aqui está o meu cartão de visita.

Com isso aquela encrenqueira apanhou a medalha e nos deixou em paz. Aquela maratona tinha sido uma péssima ideia, pelo menos agora eu estava tranquilo por que nunca mais iria ver aquela maluca que eu batizei de A garota encrenqueira da medalha.

Notas finais
Em breve saíra o segundo episodio ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.