Risk.

1 Prólogo do Inferno.


Lembrava-se bem de como tudo começara. O lado maligno do Mestre do Santuário finalmente fizera-se conhecer; Athena morrendo; e a missão de passar pelas Doze Casas para salvá-la. Todos os cinco, juntos, batalharam contra os doze mais poderosos cavaleiros do Santuário. Hyoga, Shun, Ikki e Seiya... Shiryu manteve, durante um bom tempo, um relacionamento com o jovem e enérgico sagitariano. E gostava muito dele, afinal, estavam sempre juntos. E talvez ainda estivessem se aquela batalha não tivesse ocorrido. Mas de um modo, ou de outro, era o que deveria acontecer. Era seu destino, como Cavaleiro de Dragão, como um Cavaleiro de Athena, enfrentar o mais leal dos cavaleiros.

Era a sua decisão; ficar e enfrentar o guardião da Casa de Capricórnio.

Tecnicamente, era apenas mais uma luta entre dois cavaleiros. Mais uma batalha comum. Mas quando ela chegou ao seu fim, Shura salvou-lhe a vida – lhe tratou de um modo diferente de todos os demais. Se Seiya que, por mais que amasse o chinês, colocava Athena sempre em primeiro lugar, por que aquele que era conhecido como o cavaleiro mais leal a deusa, por um único momento, deu maior importância ao chinês? O Cavaleiro de Pégaso era sempre tão impulsivo, e tão fissurado pelo bem-estar da deusa. E mesmo sendo o namorado do Cavaleiro de Dragão, jamais havia arriscado a própria vida por Shiryu. Pelo contrário. Normalmente os outros lhe davam a vida, e Seiya sempre pedia pelo cosmo de todos para poder vencer, queria tudo para si, sempre. Chegava a ser enjoado.

E se pensasse bem, não sabia dizer como havia conseguido passar tanto tempo com o Cavaleiro de Pégaso. Amava-o, mas o que sentiu pelo capricorniano após aquela batalha era... Indescritível. Era completamente diferente.

Ficara muito mal, e, ao mesmo tempo, muito confuso após a morte de Shura. Shiryu esteve com ele em seus últimos momentos de vida, aliás, era sua culpa tais momentos terem sido os últimos. Como poderia apaixonar-se por um homem à beira da morte, sendo que era responsável por seu trágico fim? Não fazia o menor sentido.

Então, obteve a honra de herdar a Excalibur. Segurou o capricorniano em seus braços quando ele lhe deixou sua espada, e a missão de prossegui protegendo Athena. Segurou-o em seus braços até a vida dele desfazer-se pela segunda vez. E guardou a alma daquele valente cavaleiro em seu braço direito.

Mas era forte, sempre fora forte, conseguia suportar toda a dor. Só não suportava mais seu relacionamento com Seiya. A arrogância daquele garoto estava começando a irritá-lo, não era mais adorável e animado como antes, estava chato, egoísta, imbecil, irritante. Não aguentava mais sua ladainha sobre a Saori. Se desejava tanto estar com ela, que fosse ao seu encontro. Por tais motivos, logo após a batalha contra Poseidon, decidiu-se por terminar seu relacionamento com o sagitariano. Seiya não pareceu triste ou decepcionado, perguntou várias vezes se era isso mesmo que o libriano queria, mas não chorou e nem demonstrou qualquer reação negativa referente ao término. Não na frente de Shiryu.

Quando estavam no Inferno, Seiya nem chegou perto de Shiryu, foi Hyoga quem lhe acompanhou em quase todas as batalhas. O jovem aquariano sempre fora um grande homem e, ao esquecer e superar as desavenças ocorridas no passado, ele pôde se tornar um grande amigo do libriano.

Estavam perto de chegar aos Elíseos, e seu mestre lhe falou sobre Shura. A situação já era extremamente delicada, e, quando Shiryu ouviu sobre o capricorniano, não pôde aguentar, acabou por derramar as lágrimas – que há tanto tempo guardara – por seu amado. E a emoção que se apossou de seu coração quando todos os Cavaleiros de Ouro retornaram para destruir o Muro das Lamentações. Lá estava Shura, ali, em sua frente, vivo, exatamente como era quando se conheceram, tão forte. Tão belo. Foi terrível vê-lo morrer pela terceira vez.

E finalmente a certeza; estava perdidamente apaixonado por um cara triplamente morto.