Risk.
12 Capítulo X - Decepções.
Sala do Mestre – Santuário, Grécia. 8h30, Quinta-feira.
Era cedo quando o Cavaleiro de Áries simplesmente apareceu na Sala do Mestre. Como de costume, havia se teletransportado. Athena não estava lá, provavelmente estava dormindo, mas logo despertaria. Na contagem de Mu, faltavam apenas alguns minutos. Exatamente sete minutos, quando a deusa apareceu ainda de pijama, vestia uma longa camisola, bordada, de algum tecido fino branco, muito belo. Havia saído de seus aposentos, pois sentira o cosmo de um de seus cavaleiros. Poderia ser algo importante, então resolveu verificar. Sorriu ao ver o ariano, e este, ao vê-la, ajoelhou-se, fazendo uma reverência.
– Está cedo, Mu... – Disse Athena, entre um breve bocejo. – Aconteceu alguma coisa?
– Perdoe-me por despertá-la tão cedo, Athena. – Disse o cavaleiro, enquanto se levantava tranquilamente. – Algo aconteceu, sim.
Ela lhe lançou um olhar desconfiado, Mu era calmo demais. Para qualquer situação, sua expressão parecia estar sempre serena, mesmo que o mundo estivesse acabando, Athena jamais saberia se apenas olhasse para a face do cavaleiro. – O que houve?
– Ontem de madrugada, Shiryu bateu em minha porta, solicitando minha ajuda. – Começou a falar, sem muita pressa. – Era sobre um dos Cavaleiros de Bronze, Hyoga.
Antes de ouvir o nome do Cavaleiro de Cisne, Athena ficou aflita, já estava pensando em Seiya, não queria que nada de mal acontecesse a ele. Ao ouvir o nome de Hyoga, ficou um pouco aliviada, mas nem tanto, preocupava-se com o russo, claro. Imaginava o que poderia ter acontecido de madrugada, para que Mu tivesse de avisá-la essas horas da manhã. Afinal, qual relevância de Shiryu acordando-o de madrugada, mesmo?
O tibetano pigarreou antes de continuar. – A princípio, tentei localizar o Cavaleiro de Aquário. Afinal, Camus era o Mestre de Hyoga. – Olhou para o teto da sala, como se procurasse o francês. – Infelizmente, não consegui transmitir minha mensagem, então achei melhor falar diretamente com a senhorita...
Athena revirou os olhos, os Cavaleiros de Áries tinham uma mania chata de discursar, cordial e respeitosamente, sobre qualquer coisa. Só perdiam para o Dohko em chatice. – O que houve, afinal?
– Hyoga está consumindo drogas. – Respondeu, como se ser um viciado fosse a coisa mais normal do mundo.
Athena ficou pasma. Se aquele não fosse o Cavaleiro de Áries, com certeza, aquilo seria uma piada.
– Estava no hospital, porque desmaiou na rua. – A voz continuava incrivelmente calma. A deusa não sabia o que era mais impressionante, Hyoga usando drogas, ou a naturalidade em que Mu falava sobre isso. – Bem, o Shiryu o trouxe para o Santuário. Os dois estão na Casa de Libra, agora... – Encarou a deusa por alguns instantes, parecia não entender sua surpresa com tudo aquilo. – Athena, entenda que este não é um problema para o qual uma deusa deva dar sua atenção... Mas neste caso, como você foi adotada pelo dono da Fundação Graad, herdou as responsabilidades que ele tinha com esses órfãos.
Athena fechou os olhos, sabia muito bem das responsabilidades que tinha como herdeira da família Kido. Passou a mão no rosto, continuava não acreditando nas palavras de Mu, na verdade, recusava-se a acreditar que Hyoga faria algo desse tipo. Ele parecia um cavaleiro tão centrado, apesar da pouca idade. Jamais o imaginaria como um viciado. Sentou-se ali mesmo, no chão. Estava praticamente desnorteada. Mais alguns instantes pensando e analisando cada uma das palavras do ariano. Organizou as ideias em sua mente. Era sua vez de cuidar daqueles cavaleiros que tanto fizeram por ela. Com certeza, iria ajudar o Cavaleiro de Cisne a recuperar-se. Assumiria suas responsabilidades como Kido Saori, pelo menos por hora.
– Desculpe-me, Mu. – Disse, levantando-se e retomando a compostura. – Você me pegou de surpresa. – Tentou sorrir. – Eu cuidarei de tudo, obrigada por avisar-me... – Parou de falar, analisando o cavaleiro que permanecia em pé a sua frente; ele tinha mais a dizer. – Deseja mais alguma coisa?
– Peço permissão para retornar à Jamiel.
– Retornar à Jamiel?
– Sim. Eu praticamente morava lá. – Disse, como se seus motivos fossem muito óbvios. – Abandonei tudo, inclusive o treinamento do meu aprendiz.
– O Kiki? – Athena riu ao lembrar-se daquela criança, ele era muito divertido e dedicado. Com certeza, no futuro, ele se tornaria um grandioso Cavaleiro de Áries. – Tudo bem, Mu. Pode ir.
– Voltarei em breve. – Disse, fazendo mais uma reverência, desapareceu, então, utilizando do teletransporte.
~
Deveria ser umas nove horas da manhã quando Shun acordou. Estava em casa, algumas horas atrás, quando viu Hyoga, quando ouviu sua voz, reconhecendo o velho Cavaleiro de Cisne, lembrou-se do passado. Certamente não deveria ter saído correndo, mesmo que o russo parecesse melhor, Shun deveria ter ficado um pouco com ele. Se não estivesse desesperado, claro. Hyoga mexia muito com ele, confundia-o ao ponto de fazê-lo enlouquecer.
Então correu para casa. Ao chegar lá, não encontrou seu irmão. Então tomou um banho e foi deitar-se. Pretendia visitar Shiryu e Hyoga na Casa de Libra mais tarde e tentaria se portar melhor. Daria o devido apoio ao russo, afinal, não iria deixar um amigo de infância, um companheiro de batalhas, acabar-se daquele jeito.
Havia dormido pouco, mas tinha o costume de acordar cedo. Tomou café, vestiu-se e seguiu para o Santuário, como havia planejado, até porque, nem ao menos chegou a visitar o chinês, tomar um chá e colocar a conversa em dia. Era o que teria feito, antes de encontrar o russo desmaiado na rua. Ikki estava dormindo, e Shun preferiu não acordá-lo. Apenas deixou um bilhete em cima da mesa da sala, avisando onde estaria.
Pegou um táxi e mais ou menos meia-hora depois, chegou ao Santuário. Na Primeira Casa, não havia ninguém, não era nada estranho, afinal, Mu nunca ficava na Casa de Áries, estava sempre em Jamiel. Um pouco depois, avistou Aldebaran regando algumas flores no jardim da Casa de Touro, achou engraçado, um cara daquele tamanho, regando as pequenas e delicadas margaridas. Sorriu, entre um breve riso, cumprimentando o grande Cavaleiro de Touro. Seguiu o resto do caminho, sem encontrar mais ninguém conhecido, até a Sétima Casa.
Bateu algumas vezes na porta, mas ninguém o atendeu. Certo que era cedo, mas se estivessem dormindo, ouviriam as batidas. Reparou que a porta não estava trancada – devia ser algum costume, muito estranho por sinal, que os habitantes daquele lugar adotaram, quase ninguém trancava a porta de casa –, abriu-a lentamente. Preocupava-se, pois algo poderia ter acontecido, de repente haviam voltado ao hospital, ou coisa do tipo. Entrou sem muita delonga, procurando algum habitante daquela casa. Andou calmamente até o quarto, a porta estava entreaberta, o ambiente estava parcialmente escuro, apenas com umas frestas de luz vindas da cortina e da porta iluminando-o. Uma batida de seu coração falhou e sentiu seu estômago embrulhar.
Saiu rapidamente dali, ainda em silêncio, foi para o jardim que havia ao lado da casa e sentou-se na grama, encostando-se numa árvore. Não podia acreditar no que acabara de ver. Shiryu estava deitado, aparentemente seminu, com Hyoga em seus braços, ambos dormiam profundamente. As lágrimas já começavam a escorrer por sua face, mesmo que tentasse evitá-las com todas as suas forças.
Lembrou-se da festa de condecoração de alguns Cavaleiros de Bronze, na Mansão Kido. Todos estavam lá, comemorando a armadura que haviam adquirido depois de tantos anos de treinamento, e seus novos postos como Cavaleiros de Athena. No começo da festa, todos estavam se divertindo, comendo e bebendo juntos, não havia bebidas alcoólicas lá, apenas sucos e refrigerantes e o champagne para o brinde, claro.
Hyoga, mesmo parecendo um jovem muito sério e responsável, já tinha uma fama não muito boa, desde aquela época. Ele havia sumido, mas ninguém reparara sua ausência, além de Shun. O virginiano preferiu nem imaginar o que ele estaria aprontando, até reparar que Shiryu também havia sumido. Achou preocupante, perguntou para algumas pessoas se sabiam do paradeiro daqueles dois, sem respostas satisfatórias, resolveu procurá-los. Conhecia um dos esconderijos do russo, ele adorava ficar lá, por ser um lugar bem excluído e que ninguém costumava ir. Era um pequeno quarto, onde se guardavam algumas coisas praticamente inúteis, perto das dependências de empregados. Caminhou disfarçadamente até lá, e ouviu um barulho estranho vindo de dentro do ambiente. Abriu a porta lentamente, cuidando para não ser percebido, e viu uma cena que não lhe agradou muito.
Hyoga e Shiryu se agarravam como dois cães no cio, estavam tão entretidos que nem notaram a porta se fechando bruscamente. O Cavaleiro de Andrômeda correu para seu quarto, com uma sensação horrível dentro de si. Nunca, nem em sonhos, imaginou aqueles dois juntos. Não fazia o menor sentido!
O jovem virginiano foi para debaixo da cama. Um costume de criança; toda vez que se sentia mal, ou com medo, ficava debaixo da cama, como se ela fosse protegê-lo e excluí-lo do mundo. Agora ele tinha certeza de que não deveria mesmo revelar nada do que sentia a ninguém, muito menos para o russo encrenqueiro, que nestas horas, estava se divertindo muito com o chinês caladão, naquele quarto imundo. Estava decidido a esquecer aquele sentimento que nutria fazia algum tempo pelo aquariano.
Não podia acreditar, anos depois daquele acontecimento, encontrar os dois dormindo juntos novamente. Como que, depois de tanto tempo, os dois ainda podiam estar juntos? Definitivamente não tinha chances.
Lembrou-se do tempo em que se afastou do Cavaleiro de Cisne, chegava até a ser cômico. Aquela obsessão silenciosa, um amor guardado a sete chaves, trancado no lugar mais profundo de seu coração. Havia até frequentado psicólogos para tentar entender aquele sentimento, para tentar esquecê-lo. Mas nada adiantou. E agora estava ali, no jardim da Casa de Libra, escondido e chorando feito um condenado por uma pessoa que nunca havia nem ao menos olhado para si. Era deprimente.
Olhou no relógio que estava em seu pulso, estava há mais de uma hora ali, sentado naquele canto chorando e divagando sobre seus sentimentos por Hyoga. Decidiu engolir tudo, se recompor e tentar tocar de novo a porta, quem sabe dessa vez alguém o atendesse. Secou as lágrimas, levantou-se, ajeitando suas roupas. Andou lentamente até a grande porta de entrada, olhando seu reflexo numa janela e verificando se estava tudo em ordem antes de bater.
Dessa vez Shiryu o atendeu. – Shun! – Escancarou a porta, com um sorriso nos lábios, convidando o menor para entrar. – Que bom que veio, entre.
– Ah sim, obrigado. – Shun respondeu, retribuindo com um sorriso falso, adentrando o local.
– Já está quase na hora do almoço, vou cozinhar para nós! – O chinês falava animadamente. Fechou a porta e seguiu para a cozinha.
O virginiano o acompanhou, sentando-se numa das banquetas que ficavam perto do balcão. – E o Hyoga, como está? — Perguntou sem graça.
– Ah, ele está dormindo. – Shiryu pegava os ingredientes, na geladeira e armários. – Acho que ainda está confuso, provavelmente precisa descansar mais.
– Entendo... Espero que ele melhore rápido.
– Tenho certeza que em breve ele estará como antigamente! – Concluiu, empolgado.
A meu ver, vocês estão exatamente como antigamente. Muito bem, por sinal..., pensou o japonês. Ficou alguns minutos em silêncio, xingando os dois mentalmente. – E o Seiya? Tem tido notícias dele?
– Não. Desde que nós rompemos, eu nunca mais o vi. – Respondeu sem pesar. Não parecia triste com o fim de seu relacionamento com o sagitariano.
– Nossa! Não sabia que vocês tinham terminado...
– Ah, não estava dando muito certo, sabe? – Shiryu largou os ingredientes na bancada, e foi prender o cabelo, voltou para a cozinha, as longas mechas negras estavam amarradas em um rabo de cavalo. – Ele se importava com todos, menos comigo; foi desgastando, aí o Shura apareceu e... – Parou de falar, lavou as mãos. Mudou de assunto rapidamente, tentando disfarçar, pois já havia falado demais. – E os seus estudos, como vão?
Shun percebeu a mudança drástica no comportamento do outro cavaleiro, mas resolveu fingir que não havia ouvido sobre o Cavaleiro de Capricórnio. Quer dizer que além de ficar com o Hyoga, e provavelmente trair o Seiya com este, ele estava gostando do Shura? Que tipo de comportamento promíscuo era aquele? Não reconhecia mais o corretíssimo Cavaleiro de Dragão. Ou talvez nunca tivesse o conhecido de verdade. Suspirou decepcionado, disfarçando ao responder a pergunta do libriano.
– Normal. Estou estudando bastante, ainda não estou muito seguro, mas se eu continuar nesse ritmo, creio que conseguirei entrar para a faculdade que desejo! – Animou-se um pouco ao falar de seus planos, jogando para longe as divagações de sua mente.
Neste momento, Hyoga adentrou a cozinha. – Bom dia... – Disse sonolento, ainda de pijama, havia acabado de acordar.
– Boa tarde, né. – Corrigiu Shiryu, rindo depois.
– O-oi, Hyoga. – Shun havia estremecido com a chegada do russo, mas disfarçou, agindo como se não tivesse visto os dois dormindo juntos anteriormente. Assim como havia feito da primeira vez.
– Que bom que veio, Shun. – O russo sorriu, passando a mão nos cabelos do menor
– Eu estou fazendo o almoço, daqui a pouco fica pronto. – O libriano colocou a água no fogo, e começou a cortar a carne e os legumes, faria um yakisoba.
Os três ficaram conversando sobre amenidades, Shun tentava disfarçar o clima estranho que se instalava vez ou outra no ambiente. Almoçaram tranquilos, conversaram mais um pouco, até Shun constatar que já estava ficando tarde e deveria ir, queria chegar em casa antes que Ikki saísse. A visita terminou e mais uma vez, os sentimentos do virginiano foram pisoteados pelo fato de Hyoga continuar transando com Shiryu.
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