Risk.

9 Capítulo VII – Coincidências


Sala do Mestre – Santuário, Grécia. 15h20, Quarta-feira.

Era uma tarde tranquila de quarta-feira, Athena aguardava a vinda do Cavaleiro de Sagitário, andava de um lado para o outro, estava inquieta. A verdade, é que após o fim da guerra, o Santuário se tornou um lugar pacato, tedioso. E também, estava muito acostumada com os agitados Cavaleiros de Bronze. Os Cavaleiros de Ouro eram mais sóbrios e tranquilos – pelo menos na frente da deusa –, e dentre eles, o que mais gostava de conversar era Aioros. Fato é que, o sagitariano era um homem muito sensato. Um cavaleiro muito digno.

Aioros adentrou a sala do mestre, vestia sua armadura e usava uma capa branca. Ajoelhou-se perante a deusa. – Athena, em que posso ser útil? – Perguntou o cavaleiro, retirando o elmo para que ela pudesse vê-lo.

Ela sorriu. – Aguarde um pouco, Aioros. Kanon está vindo. – Disse bastante animada.

O sagitariano se levantou indo para o lado de Athena, permanecendo em pé então. Kanon entrou na Sala do Mestre, suas vestes não eram as mais adequadas, afinal, um cavaleiro deve vestir sua armadura quando estiver perante um deus. Mesmo assim, ele humildemente se ajoelhou, fazendo as longas mechas azuis tocarem o chão.

– Levante-se, Kanon. – Disse Athena. – Desejo ver seu rosto.

Ele se levantou, erguendo o rosto para fitar a deusa. – Athena, eu-

– Fico feliz que esteja bem. – Interrompeu-o com um sorriso nos lábios. – Espero que me perdoe pela demora, por ter lhe deixado esses longos meses no Inferno... Mas, nem mesmo eu pude evitar.

O geminiano voltou a ajoelhar-se. – Você é uma deusa, não deve pedir perdão a um homem como eu. – Sua voz conseguia ser tão forte e destemida quanto a de Saga, porém, Kanon, diferente de seu irmão gêmeo, não lhe transmitia tristeza alguma. Seus sentimentos eram completamente ocultos. – Eu não saberia como lhe agradecer por isto...

– Não agradeça só a mim. – Athena segurou no braço do Cavaleiro de Sagitário, puxando-o para mais perto. – Diga a ele Aioros, o que me disse a três meses atrás.

O sagitariano sorriu, estava um pouco constrangido, mas deveria obedecer a ordem da deusa. – Eu apenas disse que você é um cavaleiro, como todos nós somos, e que merecia uma nova vida tanto quanto nós...

– E que lhe considera um companheiro. – Completou Athena. A deusa estava praticamente radiante de alegria.

– E que te considero um companheiro.

Kanon estava visivelmente surpreso. – Aioros...?

– Você lutou bravamente ao nosso lado, é natural que seja querido por todos nós.

Kanon emudeceu, não esperava tamanha receptividade dos demais cavaleiros, muito menos de Aioros. Apenas ficou encarando-o, com os lábios entreabertos e olhos arregalados.

– Não precisa ficar desse jeito, só faça as coisas direito dessa vez. – Aioros colocou a mão no ombro do outro cavaleiro, encarou-o com firmeza, mas de um modo gentil e receptivo. – Agradeça a Athena por isso.

O geminiano concordou com a cabeça, agradecendo novamente a deusa. Então levantou-se. – A-Athena, eu gostaria de lhe perguntar uma coisa.

– Você quer saber o porquê, não é? Vejo em seus olhos que não acredita que estes sejam os reais motivos. – Ela fez uma pausa, analisando a reação do cavaleiro, ele novamente lhe pareceu surpreso. – Não posso lhe contar o real motivo, mas creio que na hora certa você saberá.

Kanon achou melhor não perguntar sobre quem lhe revelaria o tal motivo, porque certamente não seria a deusa. Também não queria perguntar, mas achava que havia acontecido algo há três meses. Já havia contestado demais Athena, estava sendo inconveniente e mal-educado, ao praticamente não acreditar nos motivos dela. As perguntas cessaram, ele agradeceu novamente, retirando-se, juntamente de Aioros.

Erm, obrigado... – Kanon voltou a falar, já estavam fora da Sala do Mestre.

– Não precisa me agradecer. – Disse o outro cavaleiro. – Você está na Casa de Gêmeos?

– Não. – O geminiano coçou a cabeça, soaria um pouco estranho dizer que estava morando com Milo, mas não queria mais mentir. – Estou na Casa de Escorpião... Meu irmão não está aqui, achei melhor não invadir a casa dele.

– Ah, então somos vizinhos. – Riu-se. – Pelo menos temos companhia para descer as longas escadarias...

Kanon também riu. Continuou conversando sobre coisas aleatórias com o sagitariano, Aioros era mais divertido do que esperava. Passaram pela Casa de Peixes e pela de Aquário, chegando em Capricórnio, era possível ver o respectivo cavaleiro saindo de casa, ele parecia estar trancando a porta. Então Aioros parou, há três meses não via Shura. Não falara com ele nenhuma vez desde que havia voltado à vida, todas as suas tentativas de vê-lo foram frustrantes e vãs. O capricorniano parecia estar fugindo.

– Shura! – O sagitariano gritou seu nome, mas o outro cavaleiro ignorou entrando em casa novamente. – Mas que diabos...

– Que coisa estranha. – Comentou o geminiano. – Vocês brigaram?

– Eu não consigo falar com ele. – Aioros parecia bastante irritado.

A conversa cessou entre os dois cavaleiros, que seguiram para suas casas, voltando a falar apenas para uma despedida. Aioros estava visivelmente nervoso, bateu a porta ao entrar em casa, atitude seguida por um soco na parede. Os atos de Shura estavam acabando com sua paciência. Obviamente, não deveria ficar tão nervoso com aquela atitude infantil do outro cavaleiro, mas o espanhol não precisava evitá-lo e ignorá-lo daquele jeito. Além do mais, ele gostava muito de Shura, e a recusa dele frustrava demais o sagitariano. Queria estar perto do capricorniano, mas agora, sentia mais raiva do que qualquer outra coisa.


~


Hyoga estava caminhando em direção à casa de Seiya, precisava falar com ele. Apesar de tudo, estava preocupado. E por mais que não fosse tão próximo do Cavaleiro de Pégaso, ainda eram amigos, e odiaria que algo acontecesse a ele. Estava próximo de seu apartamento, mas ouviu o toque do celular, então parou, encostou-se numa parede e atendeu o telefone.

Alô, Hyoga? – A voz familiar, com certeza era a de Shiryu.

– Fala, Shiryu. – Disse rápido, estava com pressa.

Queria saber como você está... – Shiryu parecia preocupado. – Tudo bem?

– Tranquilo. E você, está bem?

Um suspiro aliviado do outro lado da linha. – Ah, estou sim, obrigado. Aliás... Desculpe-me por aquele dia. E-eu...

– Tudo bem. – O loiro acendeu um cigarro, ao seu ver, o chinês parecia adorar falar no telefone. E ainda sobre coisas desnecessárias. – Não tem com o que se preocupar, o que importa é que você está bem!

Mesmo assim, desculpe.

– Ok, ok. – Deu uma tragada no cigarro. – Escute, eu tenho que resolver umas coisas aqui, depois a gente se fala, pode ser?

Certo... Até mais, Hyoga!

– Beijo, até.

Desligou o telefone, enfiando o aparelho no bolso, voltou a andar. Após alguns minutos de caminhada, finalmente chegou ao prédio que o outro jovem morava. Hyoga subiu tranquilamente, as pessoas de lá já o conheciam. Parou em frente a uma porta branca, estava toda lascada, o corredor era apertado e mal cuidado. Tocou a campainha diversas vezes, mas ninguém o atendeu. Bateu na porta então. Mas ainda sim, nada.

Resolveu mexer na maçaneta, e reparou que a casa estava aberta. Ora, por que diabos o Seiya largaria a porta de casa aberta?, pensou Hyoga. Sabia que isso poderia ser encarado como invasão de propriedade particular, mas ele precisava saber o que tinha acontecido com o amigo. Entrou devagar, sem fazer barulho. Revistou todos os cômodos, a casa estava vazia. Tentou procurar algo que o ajudasse a descobrir o paradeiro dele. Abriu uma gaveta que tinha numa cômoda, encontrando um envelope pardo escrito com a letra do Cavaleiro de Pégaso: Para Hyoga.

Estranhou aquilo, mas por curiosidade resolveu abrir. Havia uma carta.

Hey, Hyoga! Esse é o novo produto que o Mestre Cristal criou. Ele deixou sob minha responsabilidade, mas eu vou te mandar um pouco, com certeza você vai gostar! Se chama Pedra de Cristal, é uma mistura de Pó de Diamante com algum outro produto que ele não quis revelar, é bem forte, cuidado. Até breve. Seiya.

Após ler, Hyoga encontrou o produto que Seiya estava se referindo dentro do envelope. Fitou-o por algum tempo, e então resolveu experimentar. A curiosidade era mais forte.


~


Era uma casa pequena num bairro tranquilo de Atenas. O tom da entrada era amarelo claro, e possuía um belo jardim com vários tipos de flores na frente. Um lugar aconchegante e bem cuidado, apesar de modesto. A vizinhança era discreta, e não sabiam muito sobre os moradores daquela casa, nem o que faziam. Eram apenas dois irmãos, o mais velho se chamava Ikki e o mais novo, Shun. Eram discretos, pareciam calmos, não falavam muito, não faziam bagunça, nem saíam ou levavam alguém lá.

Na sala estava Ikki, assistia a algum programa sem sentido na televisão, enquanto tomava um copo de refrigerante. No quarto, Shun tentava estudar, falhando miseravelmente.

Ultimamente, pensara em seus amigos além do habitual. Tinha um pressentimento ruim, seu coração estava disparado, e tinha certa dificuldade para manter a respiração. Fazia algum tempo que não via ninguém além de seu irmão, isso desde que as batalhas acabaram.

Cada um havia voltado para seu canto, seu refúgio, ou cidade natal, e Shun resolveu terminar seus estudos e fazer alguma faculdade. Ciências Sociais talvez, ou Belas Artes. Algo tranquilo e que lhe interessasse. Possuía alguns planos para seu futuro, queria fazer o bem. Não queria mais lutar, estava farto de matar pessoas, sentia um peso enorme em suas costas por conta disso, e gostaria de esquecer todo seu passado. Mas nem por isso tinha que se separar de seus amigos, estava com saudades, porém estava com receio de procurá-los. Mas uma hora precisaria vê-los, e sentia que essa era a hora.

Shun guardou seus livros e ajeitou suas coisas. Foi para a cozinha comer algo, e começou a conversar com seu irmão, a cozinha dava direto para a sala.

– Ikki. – Chamou pelo irmão, como de costume.

– Diga.

– Você sabe o que aconteceu com todo mundo depois que viemos para cá? – Passou um pouco de geleia num pedaço de pão e foi para a sala, sentando-se perto do irmão. – Sinto falta deles...

– Hm, ouvi dizer que o Shiryu está no Santuário, do Seiya não sei nada. – Ikki parecia bastante indiferente em relação aos outros.

– E do Hyoga?

– Ouvi falar dele... – O mais velho arqueou as sobrancelhas, o Cavaleiro de Cisne parecia incomodá-lo. – Mas não quero você andando com ele, ouviu? O Hyoga está mal falado por aí.

– Nossa. E o que estão falando sobre ele? – Shun estava visivelmente surpreso, a voz até soava angustiada. – Aposto que são boatos, Hyoga é muito correto.

– Tenho lá minhas dúvidas. – O leonino revirou os olhos. – Ouvi um cara dizendo que ele estava metido com drogas. São apenas boatos, mas mesmo assim, não quero que você fique mal falado também.

– Com certeza são apenas boatos! – O virginiano se levantou, pegando suas coisas. – Acho que vou visitar o Shiryu. Vem comigo?

– Não, tenho coisas para fazer hoje. Cuide-se.

– Certo, até mais.

O virginiano não terminou o lanche, havia perdido a fome depois de ouvir aquelas coisas ruins sobre Hyoga, tinha certeza de que ele estava bem, e não estava metido com nada ruim. Pelo menos era o que esperava. Saiu de casa, resolvendo ir a pé. Apesar de não andar devagar, o Santuário ficava longe, e rapidamente, caminhou por mais de uma hora e meia. Resolveu parar num café para beber algo, começara a anoitecer e esfriar, depois pegaria um táxi, afinal teria de subir as longas escadarias do Santuário e precisaria de algum tempo.

Não muito longe dali, Hyoga estava sentado num beco, parecia perdido. Perambulou por lugares aleatórios e acabou ali sentado, não conseguia ficar parado, mas também não conseguia manter-se em pé. Havia andado demais, porém não estava exausto, muito pelo contrário. Estava elétrico, muito mais elétrico do que jamais havia ficado. Mesmo assim, quando encontrou aquele beco, sentou-se, resolvendo usar tudo o que lhe restara no pacote.

Shun estava tomando um cappuccino. O dia já havia cedido seu lugar a noite, então precisava chegar ao Santuário antes que fosse tarde demais e Shiryu não quisesse recebê-lo pelo horário. Pagou a conta e saiu em busca de um táxi. Perguntou para um homem que passava na rua onde ficava o ponto mais próximo, descobrindo então que se localizava a umas quatro quadras dali.

Após andar três quadras, viu um burburinho por onde passava. Por curiosidade, resolveu ver o que estava acontecendo.

– Ah, esses drogadinhos de merda! Esse país está ficando cada dia pior. – Um homem gritou, afastando-se do local. – Tem que deixá-los apodrecer no inferno!

Shun se assustou com a fala do senhor, mas resolveu ir olhar mesmo assim. Estava com um péssimo pressentimento. Aproximou-se, vendo um rapaz loiro jogado no chão, não saberia descrever seu estado. Parecia um mendigo, e estava desmaiado. Fitou o rosto do rapaz por alguns instantes, reconhecendo-o então.

HYOGA! – O Cavaleiro de Andrômeda disse num grito, empurrando todos que estavam ali. – Hyoga, você está bem? Fale comigo! – Colocou a cabeça do russo em seu colo, dando leves tapas em seu rosto enquanto gritava. Estava desesperado.

– Não vai adiantar, ele está desmaiado, garoto. – Uma senhora disse, colocando a mão no ombro direito de Shun. – Já chamamos uma ambulância, acalme-se.

– O-obrigado. – O japonês já estava derramando lágrimas.

Mais alguns minutos e a ambulância chegou. Os paramédicos desceram do veículo, carregando uma maca, então recolheram o corpo. O garoto de cabelos esverdeados entrou na ambulância, sentando-se ao lado do cavaleiro desacordado, segurava em sua mão e derramava lágrimas incessantemente.

– Você sabe o que aconteceu com ele? – Perguntou um dos paramédicos.

– N-não... – Tentou engolir o choro, estava complicado para falar. – Q-quando o encontrei, ele já estava assim.

– Ah, ele é algum parente seu?

– N-não. – Passou a manga da camiseta nos olhos. – E-ele é um amigo de infância.

– Ele é maior de idade? Você é?

Para que tantas perguntas? – N-não, eu tenho quinze, e ele dezesseis. – Ele respirou fundo, então perguntou. – Ele vai ficar bem?

– Espero que sim. – O homem respondeu, tentando tranquilizar o garoto. – Quando chegarmos ao hospital, vamos ter que entrar em contato com o responsável legal dele, senão vocês vão ter problemas.

Mas nós somos órfãos..., pensou Shun. Deveriam ligar para a Fundação Graad ou algo do gênero. Será que eles castigariam o Hyoga? Talvez o mandassem para um lugar distante... Pouco tempo depois, chegaram ao hospital. O russo foi internado, permanecendo na UTI durante toda a noite, os médicos estavam fazendo os exames, enquanto isso, Shun estava na sala de espera, pensando no que deveria fazer.

Foi até a recepção do hospital, pegando uma ficha para preencher os dados de Hyoga, pediu para usar o telefone. Ligou para Shiryu, no Santuário, provavelmente o chinês estava na Casa de Libra, onde seu Mestre morava. Por sorte, Shun acertou o número, o chinês realmente estava lá.

Alô? – A voz de Shiryu era tão calma, que chegou a tranquilizar o outro cavaleiro.

– S-shiryu? – O Cavaleiro de Andrômeda continuava chorando. – S-sou eu, o Shun...

Shun? – Imediatamente, o tom de voz do chinês mudou para algo menos calmo, bastante preocupado. – Você está chorando? Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – Despejou um monte de perguntas, parecia mais desesperado que o próprio Shun.

– O-o Hyoga, Shiryu... – Respirou fundo, limpando mais uma vez as lágrimas com a manga. – Estou no hospital, aconteceu algo muito ruim com ele e não sei para quem ligar, não sei o que fazer. Ajude-me, por favor!

Acalme-se, Shun. – O libriano rapidamente associou aquilo ao que Hyoga andava fazendo, a bebida e aquele Pó de Diamante. Drogas. O russo era um viciado, e Shiryu um tapado por não ter notado isso antes. – Eu vou falar com alguém aqui no Santuário, já estou indo para aí.

Shun informou o nome do hospital, dizendo que esperaria o Cavaleiro de Dragão chegar e que não sairia do lado do aquariano. Sentou-se novamente em uma das poltronas da sala de espera e começou a preencher a ficha de Hyoga.

Shiryu desligou o telefone. Estava atônito, rezava para que o loiro estivesse bem. Disse que iria falar com alguém, mas quem? Dohko não estava lá para lhe dar conselhos. Camus era o mestre de Hyoga, mas também não estava no Santuário. Então para quem deveria pedir ajuda?

– Mu...

Sabia que o tibetano poderia lhe ajudar, afinal, ele lhe socorreu depois daquela noitada que teve com o russo. Mu sabia de tudo, ele era a pessoa ideal.

O chinês vestiu um casaco e saiu em disparada em direção a Casa de Áries. Alguns minutos depois, esbaforido, tocou a campainha e aguardou que o cavaleiro lhe atendesse. Sem muita demora, Mu atendeu a porta, com a típica expressão serena. Analisou o libriano por alguns instantes, logo chegando a uma conclusão.

– O que aconteceu, Shiryu? Precisa da minha ajuda?