Risco biológico
1 Guadalupe
Notas iniciais
Sem essa de olá, meu nome é fulano-de-tal. Não tenho tempo pra isso, eles estão batendo á minha porta exatamente agora, e minha prioridade é escrever isso antes que eles me eliminem. O mundo precisa saber disso, mas pra convencer alguém, preciso contar toda a história.
No primeiro dia de dezembro de 2013 recebi um telefonema um tanto suspeito. Não atendi, estava passeando com minha irmã Guadalupe pelo parque mãe Bonifácia. O lugar é aconchegante, arvores, parques e locais para fazerpiqueniques. Ela parecia apreensiva e precisava me dizer algo importante, mas toda vez que ela tentava tocar no assunto o telefone tocava. Não atendi as 8 primeiras ligações. Mas a insistência foi tanta que cedi pedi licença e atendi:
– Alô? — respondi receoso.
– Não a escute. Não queira saber o que ela tem a dizer. Eles matam todos que sabem demais.
– Que Merda você tá falando? — digo e ouço sons de tiros, a voz se cala antes de me responder — Alô? — continuo tentando mesmo sabendo que é tarde demais.
Desligo o celular e volto para Guardalupe:
– Votei... — hesito em perguntar lembrando do aviso do homem — onde paramos?
Ela junta as mãos e diz:
– Sabe, você me ajuda bastante, me ajudou bastante desde que... você sabe, saí daquela vida. — Eu sabia muito bem, ela passou 5 anos em dependência de drogas e 4 deles morando na rua recusando qualquer tipo de ajuda, nosúltimos3 ela havia ficado em uma casa de recuperação e no último mês morava comigo.
– Sim, sei — abaixo o olhar — mas já faz anos... não ligue se tiver uma recaída... — ela me interrompe:
– Não é sobre recaídas, é sobre um emprego... — tento interrompê-la, ms ela pede silêncio e continua — Eles não gostam de empregar pessoas como eu e seu salário derepórterinvestigativo me ajuda bastante, mas gosto de terindependência. Recebi um proposta — tento intervir, mas ela não me deixa opção anãoser escutar quieto. — Vou trabalhar como ajudante de um hospício. Me ofereceram um valor que não posso recusar. Mas em troca terei que mudar pra lá durante uns meses.
– Você sabe que...
– ...não preciso fazer isso. Preciso sim, preciso sair da asa do irmão mais velho. — ela me abraça. Tomo coragem e falo do telefonema
– Sabe aquela ligação? Um cara sabia que estávamos conversando sobre isso... ele me falou que não era pra eu ouvir o que tinha pra me falar.
– Ah droga — ela faz cara de preocupação — Me falaram pra não contar a ninguém. Esse é um hospício diferente, ele é particular feito para pacientes milionários. São famosos, e ricos que enlouquecem, mas a família não quer tornar isso público então os mandam pra lá. Não me preocupei em te contar sei que não vai contar para ninguém.
Ela me abraça novamente e deixa um papel pequeno no bolso do meu paletó. Alguma coisa ai não se encaixava. Alguém nos espionando, de cara eu soube que toda essa história de hospício é mentira, tiros no telefone e agora o bilhete no bolso. Sabia também que perguntar pra ela agora não resolveria muito, teria que descobrir tudo isso da minha maneira.
Num ultimo abraço ela se afastou, e mal sabia eu que aquela seria ultima vez que veria minha irmã viva novamente.
Escuto a porta se arrebentando... não dá pra escrever mais, eles me alcançaram... Volto assim que puder, não posso desistir dos relatos agora.
**************
Consegui esconder o caderno, antes que voltem para me dar mais uma injeção continuarei:
Desde o dia em que me despedi de Guadalupe no parque não vi mais. Desde aquele dia também direcionei todos os meus esforços á pesquisar sobre uma palavra 'YALK' somente isso estava escrita no bilhete de Guadalupe. Não descobri muito desde então, mas comecei a ser seguido desde o dia primeiro. Eles acham que não percebo, mas um carro preto com caras de terno dentro é odisfarcemais fajuto que existe.
O segredo é não deixar eles perceberem que você percebeu, assim sempre estará um passo á frente. No dia 25 de dezembro tento contato com ela, era natal poxa. Nem nesse dia ela ganharia um descanso? Tentei contato com ela e nada. Se havia alguma maneira de contatá-la, eraatravésdaquelapalavra... YALK.
Faço o primeiro telefonema em dias e é claro, usando uma linha segura:
– Serviços Surfando bem, em que posso lhe ajudar?
– Preciso de surfar numa parte do mar que é restrita á pessoas normais. Poderia me ajudar? — ele reconheceu minha voz e eu a dele. Aos desprovidos de linguagem codificada 'Surfar' é Navegar e 'Mar' é Internet. Se havia alguém que poderia me ajudar, esse alguém seria aquele cara. Amigo antigo serviço sempre me fazia um favor aqui ou ali.
– Esquina´s bar daqui 15 min? — ele disse e eu quase pude ver seu sorriso do outro lado.
– O.K. — desliguei.
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Duas horas dentro do Esquina´s bar e nada descobrimos sobre YALK. Estávamos quase desistindo, mas Carlos não gostava de desistir.
– Estamos perto, o que temos até agora? — ele me pergunta.
– Sabemos que essa palavra existe, e sabemos que eles gastaram um puta dinheiro pra esconder isso de todo mundo. Parece que tanto dinheiro assim só pode ter vindo de uma empresa.
– Isso é coisa grande — ele continua — Os cara são tão fodas que têm a própria internet deles. Sabe a internet usada pelo mundo todo? então, eles não usam essa. Deve ser um sonho todo o material desse pessoal...
– Pare de vangloriá-los e faça o serviço — insisto
– Cara, é impossível... — ele mal terminou de falar e o computador chiou com um barulho de estática. Um vídeo começou:
'' Uma mulher totalmente descabelada aparece sendo jogada dentro do quarto. O doutor a olha com uma prancheta na mão e anota algumas coisas. Ela se joga contra uma parede, se joga contra a outra... Grita e agride o doutor. Os dois guardas que o acompanhava atacam a pobre moça com cassetetes. O doutor se afasta e diz:
– Paciente 071, codinome "A Benção", apresenta efeitos adversos. Indico o extermínio imediato.
Os guardas que somente aguardava essa ordem sacam cada um uma metralhadora branca que atiram sem pudor. O corpo fica desfigurado e mesmo depois de morto os guardas descarregam o pente nela. O fogo cessa.
– Paciente 071, Codinome 'A Benção', nome Guadalupe Moraes, morta dia 25 de dezembro de 2013. Solicito imediatamente um novo paciente.''
As imagens caíram em cima de mim como concreto. As palavras finais me deixaram com ânsia de vômito. Guadalupe... nãoera possível... não podia ser ela... minha irmã
– Cara, que porra foi essa? — Carlos pergunta
– Eu não... — sangue voa por todo meu corpo. Carlos cai inerte no chão. Olho em volta a tempo de ver as outras 5 pessoas do bar caírem com furos gigantes na cabeça. Só eu estava vivo no recinto. Feixes de luz vermelha apontam para meu corpo, sete para ser mais exato. Eu não me mecho, o vídeo recomeça:
'' Agora um homem de terno em frente á uma mesa olha para acâmera, ele diz meu nome e fala que estouconversandocomele ao vivo
– Sete dos melhores snipers do mundo estão apontando para você. Não tente nenhuma gracinha. Primeiramente, desculpe pelo susto, mas precisava da sua atenção. A mulher do vídeo não era Guadalupe, a paciente 071 se chamava Tainá Almeida Carvalho e fora escolhida exatamente por ter o mesmo portefísicode Guadalupe. Precisávamos de atrair sua atenção... Guadalupe está viva, mas para que ela continue assim precisamos de você. A mulher de fato era a paciente 071 e você será o 072. Dois homens vão entrar, quero que os siga e venha até sua irmã. Decida-se rápido, acredito que com setefeixesde luz apontados para você não tenha muitas escolhas''
Dois homens entram, aprendi na minha profissão que não devo demonstrar minhas reações ao inimigo. Somente sigo com eles... agora vou a fundo com isso
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