Ripples

1 Capítulo Único


Eu já esqueci você, tento crer.

Uma meia verdade, talvez verdade nenhuma.

Zoro, seu nome que eu sempre disse que era estúpido. Sua cara sempre fechada, que raramente se iluminava, mas eu acreditava que quase sempre que o fazia era por mim. Seu odor inconfundível que me seguia onde quer que eu fosse, em cada esquina, em cada bar, ainda impregnado na sua cama que você nunca se deu ao trabalho de arrumar.

Tento espelhar tudo em outros, olhando o reflexo do nosso passado e com a intenção de reproduzir fielmente, acabo por produzir uma mera sombra do que foi. A mesma peça com outros atores, dublês, comparsas nas minhas tentativas infrutíferas de te resgatar nem que seja só um pouco. Nunca funciona porque ninguém mais tem a nossa sincronia, ninguém consegue ter uma essência tão semelhante e incompatível com a minha ao mesmo tempo. Ninguém consegue me fazer enlouquecer de ódio muito menos de amor.

Eu vivo da lembrança. À essa altura o mais triste é que provavelmente é a lembrança da lembrança, os detalhes há muito perdidos, os diálogos recortados, a sequência embolada, as palavras distorcidas, os gestos inventados. Lembro de mim e de você. Mas nós nem somos mais nós. Eu já mudei, você também não é você.

Não mudamos de corpo, não mudamos de alma. A essência é a mesma, os corpos mais velhos, mais cansados, marcados e feridos, mas ainda os mesmos. Mas não encaixamos mais, talvez você tenha se afrouxado e eu me apertei. Talvez não nos pertençamos mais.

Talvez fique para a próxima vida, para a próxima era. Quando tudo se alinhar, quando a gente se encontrar de novo nos nossos melhores anos, enquanto você ainda gosta de mim e eu de você, e nada é tão complicado. Eu sou mais paciente e você é menos insensível, e a gente se completa sem se machucar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!