– Rei-chan! – Uma cabeça loira e sorridente surgiu à sua frente. – Você vai vir para o encontro hoje?

Ryugazaki Rei se assustou com a aparição súbita de Hazuki Nagisa. Era o último dia do período letivo em Iwatobi antes que as férias de inverno começassem e os rapazes haviam marcado de saírem juntos. O mais alto ajeitou os óculos, enquanto pegava a mochila para sair da sala. Ele olhou para Nagisa.

– Claro que vou. Nós todos marcamos de ir, eu seria um estraga-prazeres se furasse.

O loiro suspirou.

– É uma pena a Gou não ir...

– Ahn? Ela não vai? Por quê?

– Acho que ela disse que ia sair com umas amigas... – Nagisa disse, pensativo, com o dedo em frente ao rosto. – Ah, sim! – Ele olhou para Rei. – Ela também disse que não tem interesse em nos encontrar em um ambiente em que não podemos exibir nossos músculos!

Ele piscou para Rei, que não sabia como reagir àquilo. Ele suspirou e ajeitou os óculos. Gou era sempre Gou... O loiro o puxou para a saída assim que possível, não querendo perder tempo. Ele correu até a estação de metrô, fazendo Rei ter que correr para alcançá-lo também, o que não foi uma tarefa tão difícil assim. Chegaram à estação rindo e logo entraram no transporte correspondente.

– Os outros vão nos encontrar lá? – O mais alto perguntou.

Nagisa fez que sim com a cabeça.

– Acho que Haru-chan tinha que pegar alguma coisa em casa e Mako-chan foi com ele. Rin-chan disse que nos encontraria lá também...

– Rin também vai? – Rei perguntou, um pouco enciumado. – Pensei que a Samezuka não tivesse terminado as aulas ainda.

– E não terminou. Mas ele conseguiu uma dispensa no treino para hoje. De qualquer forma, é final de ano. Por causa das provas, os treinos são optativos, eu acho.

Rei bufou.

– Ele deveria se concentrar mais nos estudos. E ele não fez uma performance excepcional como esperado no campeonato regional, então não deveria relaxar tanto...

– Pare de ser tão chatooo... – Nagisa brincou, puxando um canto da boca do outro para formar um sorriso. Rei empurrou sua mão e lhe dirigiu um sorriso irônico.

– Eu não sou chato. Sou inteligente e divertido. Por isso que você me adora.

– Tem razão!

Nagisa riu e recostou a cabeça no ombro do amigo. Rei ruborizou um pouco ao perceber a distância curta a que se encontravam. O loiro voltou a falar, meio para si mesmo:

– Sabe, tudo tem estado ótimo desde o torneio regional... Foi bom finalmente nadar de novo um revezamento com meus amigos...

No autofalante interno, foi anunciada a estação em que eles desceriam. Nagisa colocou a mochila sobre os ombros e se levantou.

– Ei! – Rei perguntou, irritado, segurando o ombro do menor. – E quanto a mim?

– O que tem você?

As portas se abriram e eles saíram do vagão.

– Eu não estava lá.... E.... Você disse que nadou com seus amigos... Eu também nadei com vocês um revezamento, por que fala da vez em que eu não estava presente? Está me deixando de fora, depois de todo esse ano?

Nagisa virou-se para ele e abriu um sorriso.

– Eu nunca te deixo de fora.

– Mas, se não você não me considera seu amigo, o que eu sou?

– Fácil! – Nagisa inclinou o corpo para perto de Rei. – Você é meu namorado!

Rei sentiu o rosto corar instantaneamente.

– O-o que quer dizer com isso?

O loiro o olhou confuso.

– Ué. Algum problema?

– B-b-bem.... N-não! – Ele desviou o olhar, morto de vergonha. – Mas você não pode simplesmente chegar anunciando algo assim!

Nagisa então suspirou e disse:

– Francamente... Eu pensei que já tivesse percebido...

Ele olhou para Rei e continuou:

– Bem, já que você não fala nada, eu falo. Quer ser meu namorado, Rei-chan?

O mais alto observou os olhos rosados do amigo, procurando algum sinal de que aquilo era apenas uma brincadeira tola para constrangê-lo, mas ele parecia estar falando sério. Apesar das brincadeiras de sempre, nunca pensara que Nagisa se sentia de verdade daquela forma. Ele mesmo nunca tinha parado para pensar no que sentia pelo garoto. Rei sentia o coração disparado no peito. Ele respirou fundo e, apesar de se sentir prestes a explodir de vergonha, murmurou:

– S-sim...

– E... Rei-chan...

– Ahn, o que?

Ignorando todas as pessoas ao redor, Nagisa ficou na ponta dos pés e colou os lábios aos de Rei. Este ficou paralisado. Ele sabia que todos ao redor deveriam estar comentando sobre “esses jovens de hoje em dia”, com olhares discriminatórios nos dois. E... Bem... Ele nunca nem beijara ninguém antes... Mas não fez nada para impedir Nagisa.

O loiro se afastou e falou, sempre sorridente:

– Te amo!

Rei virou o rosto, tentando manter a calma.

– É-é melhor irmos andando... Os outros devem estar esperando...

– Sim, sim! – E o seguiu, enquanto caminhavam.

Ele fez menção de segurar a mão de Rei, mas este o impediu.

– N-nem pense nisso!

Nagisa primeiro pareceu chateado, então percebeu o vermelho nas bochechas do outro.

– Rei-chan está com vergonha!

– É claro que estou! – Respondeu, na defensiva, ainda não retornando o olhar.

Nagisa fez um muxoxo.

– Mas você disse que aceitava...

Rei cometeu o erro de olhar para Nagisa e, ele sabia, sua expressão o incriminou.

– Há! Você gosta de mim mesmo! – O loiro comemorou.

– E-eu não disse isso!

Mas Nagisa ignorou o protesto e apenas soltou um risinho, continuando a caminhar. Apesar de Rei não notar, as bochechas do menor também estavam coradas e, no restante do percurso, ele exibia um tolo sorrisinho apaixonado.

***

Matsuoka Rin parou em frente ao karaokê onde combinara de se encontrar com o time do colégio Iwatobi. Ele suspirou. Por que havia aceitado ir até lá? Ele nem podia ainda comemorar o início das férias de inverno.... No entanto, estava animado em, depois de anos, sair com os amigos. Ele verificou a mensagem de Nagisa indicando a sala em que estavam, subiu as escadas da entrada e seguiu por um dos corredores até chegar à porta certa. Ele bateu, sendo atendido rapidamente por Makoto.

– Ah, Rin! Só faltava você.

Em frente à tela com as letras, Nagisa cantava uma música de uma cantora loira americana que ele não lembrava o nome. Rei ria da “performance” do garoto, sentado perto de onde ele estava. Em um canto, Haru bebia alguma coisa, não parecendo prestar atenção na música. Ele levantou os olhos para Rin quando este entrou na sala.

Rin sentou ao lado dele, enquanto Makoto anunciava que seria o próximo. O ruivo olhou para o rapaz ao seu lado.

– E você, já cantou alguma coisa? – Perguntou, brincando.

– Ainda não...

– Imaginei que não. – Ele olhou para Haruka. – Então, finalmente férias, né?

– É.

Rin revirou os olhos. Esse jeito sempre sério e fechado de Haru o irritava. Mas logo ele ouviu o garoto comentar:

– Que bom que você pode vir.

– Eu não tive muita escolha. Nagisa seria capaz de ir até a Samezuka e me sequestrar se eu dissesse que não.

Haru riu discretamente. Rin o olhou surpreso. O amigo não costumava demonstrar muito suas emoções... O dia do torneio regional foi provavelmente a primeira vez que viu ele expressar tantos sentimentos...

– De qualquer forma – Haru voltou a falar – o encontro não poderia estar completo sem você aqui. Eu acho que... Todos sentimos sua falta.

– Do que está falando? – Disse, com um sorriso irônico. – Nos vimos há poucos dias.

Haru colocou o copo em cima de uma mesinha a seu lado.

– Não foi o que quis dizer. É verdade que nos vimos várias vezes ao longo do ano, mas foram poucas as vezes em que estávamos... Bem.

Rin franziu o cenho.

– Olha, eu já falei que sinto muito sobre aquele lance de te derrotar e de que não iríamos mais nadar juntos. Eu... Tinha muita coisa na cabeça.

– Você sempre tem muita coisa na cabeça, Rin. E não parece prestar atenção direito a isso. Acho que não fala muito do que sente porque nunca sabe direito o que é.

– Não precisa generalizar tanto assim! Está querendo começar outra briga logo agora? – Rin perguntou, já se exaltando.

– Ei. Calma. Foi exatamente isso o que quis dizer. – Ele pôs a mão no ombro do ruivo. – Pare de achar que estamos todos contra você. Eu não estou. E sei de outros que também não estão. – Haru apontou para uma das orelhas. – Preste mais atenção no que está pensando.

Isso era surpreendente! Nanase Haruka havia falado umas cinco frases seguidas e nenhuma delas era sobre água! Rin olhava fixo para os olhos azuis do garoto. Se ele estava falando tanto assim, isso provavelmente queria dizer que era bem importante. Se fosse outra pessoa, provavelmente Rin não teria ligado, mas Haru tinha um magnetismo com ele que o ruivo não conseguia entender, apenas se deixava ser preso.

Makoto terminou a canção e então Haruka se levantou. Quatro pares de olhos o encararam, mas ele não pareceu se importar.

– Ahn... Vai cantar? – Rin perguntou. – Pensei que não quisesse.

– É... – Os olhos azuis dele se encontraram com os rubros do outro e ele deu um meio sorriso. – Acho que a inspiração veio...

Makoto, ainda segurando o microfone, o olhou, não fazendo a menor ideia do que o rapaz quisera dizer. Era só um maldito karaokê. Ele entregou o microfone e o controle para a escolha da música. Haru passou rápido pelo menu e escolheu uma das músicas.

A introdução instrumental indicava que era uma canção de amor. Haruka começou a cantar e os rapazes ficaram surpresos ao constatar que ele na verdade cantava muito bem. Diferente da forma como ele falava normalmente, enquanto cantava, todos podiam sentir a emoção em sua voz, como se ele realmente estivesse cantando para a pessoa amada.

Makoto viu com o canto do olho que Nagisa se apoiou no ombro de Rei e este passou o braço por sobre seus ombros. Todos pareciam estar prestando atenção na bela letra da música, além de totalmente envoltos pela voz que a cantava. Então Mako viu que Rin tinha o olhar preso em Haru, parecendo ter esquecido de todo o restante do ambiente.

Haru desviou o olhar da tela um momento e viu o rapaz ruivo o observando. Ele continuou a cantar, afinal já conhecia a música, não conseguindo desviar o olhar do rosto de Matsuoka Rin. Os olhos vermelhos tinham um brilho que ele só lembrava de ter visto quando, anos atrás, ele pedira que nadassem juntos pois ficara encantado com sua forma de nadar. O pensamento o fez sorrir. Rin tinha um lado muito meigo. Curioso como isso se mesclava com sua personalidade forte. Ele tinha uma chama na alma que o fazia não desistir por nada depois que decidia alguma coisa, por mais difícil que fosse.

Em determinado ponto, ele voltou a olhar para a tela para lembrar da letra. Estava se distraindo demais com Rin... Ele completou a canção olhando para a tela.

Rin estava estático. Não esperava que Haru tivesse uma voz tão bonita. Não era como se fosse um profissional, mas ainda assim estava muito bom... Mas era mais que isso. De alguma forma, naquele momento, se sentia conectado a ele. Ele lembrou de quando Haru fora procura-lo, no dia do campeonato regional, para nadarem o revezamento juntos. Ele sabia que havia agido como um idiota, com a cabeça quente e os olhos prestes a permitirem as lágrimas de sair. E lembrou da conversa que tiveram depois... Haru se preocupara com ele, não permitindo que ele desistisse do que amava. Lembrou do que Rei lhe contara, que Haru havia largado a natação por causa dele... Haru se importava com ele bem mais do que ele se dera conta... E ele faria parte de seu futuro.

Quando os olhos do amigo se focaram nos dele... Ele nem sabia como dizer o que aconteceu. Foi como se o despisse de toda a pose de durão, atingindo-o bem no centro de sua alma. E ele não precisava de mais nada naquele momento. Sabia que Haru não o deixaria cair mais, sabia que ele o ajudaria a alcançar seus sonhos, e a não chorar mais.

A música chegou ao fim e todos sentiam a aura que ela havia deixado na sala. Rin sentia o coração apertado, desejando que aquela conexão que sentira se formar não fosse embora tão rápido. Ele viu Haruka vindo em sua direção e lhe entregando o microfone.

– Sua vez. – Falou apenas.

Rin sabia que seu próprio rosto estava corado, mas no momento não se importava com isso. Ele pegou o microfone e falou, apenas para Haru:

– Eu não sabia que você sabia cantar.

O moreno deu de ombros.

– Não conheço tantas músicas boas... – Sua voz voltara ao “normal”.

– Ainda assim, foi muito bom. – Elogiou.

Haru levantou um pouco uma das sobrancelhas.

– Não me diga que te intimidei.

Rin abriu um sorriso.

– Você não me intimida. – Ele olhou para os outros. – E agora, eu vou mostrar o que é saber cantar.

Ele escolheu uma música e ficou de costas para a tela, mostrando que sabia a letra de cor. Ele passou uma mão pelos cabeços avermelhados, deixando-os charmosamente bagunçados. Então a música começou.

Rin definitivamente cantava bem. A canção também era romântica, mas tinha uma cor bem diferente da de Haru, era bem mais animada. Era evidente que ele estava se divertindo exibindo a voz grave e afinada.

Ele fixou o olhar em Haru. Ele queria provocá-lo, dar o troco por ele o ter deixado tão sentimental. Então ele transmitiria a ele a sua própria emoção. Não se importava de fato com o significado real da letra, no momento, ela parecia perfeita. Uma ideia lhe surgiu na cabeça e ele andou até seu lugar no banco, ao lado de Haruka. Sentado ao lado dele, ele continuou a cantar, até que passou o microfone para Haru novamente, transformando a música num dueto.

O moreno tentou recusar, mas não teve jeito. Ele segurou o microfone e acompanhou a letra que aparecia na tela, com medo por não a conhecer direito. Rin se levantou e pegou outro microfone, ao lado da televisão. Em seguida, voltou até Haru e o fez levantar-se.

Haruka não sabia o que Rin pretendia com aquilo além de envergonhá-lo. Provavelmente nem ele mesmo deveria saber, pensou. Mas acabou por aceitar a situação. A melodia era simples, o que o permitiu não errar muito, além do mais Rin ainda roubava a cena, mesmo em um dueto. Quando o ruivo tomou sua mão para que se levantasse, ele sentiu... Algo diferente. Uma espécie de calor. Uma emoção boa. Ele sorriu, um sorriso pleno, enquanto acompanhava Rin. Ele se sentia feliz com ele. O fogo do amigo completava sua própria calma, ao mesmo tempo em que sentia que também havia muito em comum entre os dois...

Rin o olhava nos olhos, parecendo mais feliz do que nunca. Ele sabia que aquela sensação também podia ser sentida pelo amigo. Seus olhos percorreram vários detalhes. Os lábios rubros, mais próximos do que costumavam ficar, o formato bem feito de seu rosto, o cabelo bagunçado... E ainda podia sentir aquele calor de quando suas mãos se tocaram.

Apesar de ter parecido uma pequena eternidade, a música logo chegou ao fim. Rin riu e passou um braço por seus ombros.

– Eu te disse que você não me intimidava!

Haru não respondeu, apenas encarou uma última vez aqueles olhos travessos, antes que ouvisse outra voz:

– Ei, não vale vocês monopolizarem o karaokê assim! – Nagisa se levantou.

– Ahn? – Rin o olhou, brincalhão. – Foram só duas músicas.

– Não importa. É hora de músicas de grupo!

Makoto riu da maluquice do loirinho. Haruka foi se sentar novamente. Rin deu de ombros e aceitou que Nagisa escolhesse a música. Passaram mais uma hora lá, antes que começasse a ficar tarde e tivessem que voltar para casa.

Em alguns minutos, haviam se despedido e tomado cada qual seu caminho para casa.

Ao lado de Haru, enquanto caminhavam para suas casas, Makoto perguntou, sorrindo:

– O que foi aquilo?

– O quê?

– Como o quê? Você cantando com o Rin...

– Eu... Apenas cantei.

Makoto balançou a cabeça. Haru era mesmo complicado.

Do outro lado da cidade, Rin chegava ao dormitório da Samezuka. Nitori não havia chegado ainda, o que lhe dava algum tempo de paz. Ele tomou um banho e se deitou na cama. Nunca se sentira tão bem. Como se todo o peso que tivesse carregado nas costas até aquele dia tivesse sumido. Ele lembrou do azul profundo dos olhos de Haru e ficou pensando nessa tarde e em outros momentos que viveram juntos, até que caiu no sono. Ele sonhou que mergulhava naqueles olhos, e que era criança novamente, na época em que se conheceram.

“Eu vou lhe mostrar algo que nunca viu!”

É, Haru.... Eu nunca tinha visto ninguém como você....

Notas finais
Eu não sei de onde tirei a idéia para esse capítulo, mas espero que tensa dado certo kkk venho comentar que apesar de eu ter uma noção de como vai ficar a fic, ela não está pronta, então estou aberta a sugestões, pedidos e, claro, elogios e críticas ;) Extras: As músicas que os garotos cantam são: Shake It Off (Taylor Swift) - Nagisa; (uma male version de) Aishiteiru (Kourin) - Haru; Moonlight (Mamoru Miyano) - Rin. Esta última foi escolhida justamente por ser cantada pelo dublador do Rin ^^ (e porque eu adoro o Mamoru *-*). Até a próxima ;)