Riccione
6 Capítulo Cinco
Notas iniciais
“A twist of fate makes life worth while,
You are gold and silver”
— Hugh Grant
Capítulo Cinco
No dia seguinte a nossa briga, Edward me mandou algumas mensagens pedindo para a gente conversar, mas eu ignorei todas elas. Continuava chateada demais para falar com ele
Três dias depois, quando Alice me ligou, esperando noticiais sobre a noite que eu havia planejado, foi bombardeada com notícias sobre o acidente de Lucy antes de eu contar para ela que eu conhecia Edward.
Eu contei tudo em detalhes — pelo menos os que eu lembrava —, falei sobre o momento em que percebi que ele estava olhando para mim, sobre a conexão, sobre os beijos, sobre as conversas e o estranho conforto que eu senti ao redor dele, sobre o sexo e sobre o bilhete.
— Vamos ver se eu entendi — disse ela — Vocês se conheceram na Itália, tiveram uma noite mágica, ele te deu o segundo nome e você não passou o número de telefone pra ele. Então doze anos depois vocês se reencontram, não se reconhecem e se apaixonam. Vocês dois estão bem e felizes, então finalmente se reconhecem e você fica brava e manda ele embora?
— Você está dizendo que eu não tenho o direito de ficar brava? Ele mentiu para mim! — falei na defensiva.
— É claro que você tem o direito de ficar brava, Bella — respondeu com a voz calma. — Só estou tentando ser imparcial e te mostrar como eu, uma pessoa de fora está vendo tudo. Ele não escondeu, só omitiu.
— Ainda é errado, ele me enganou.
— E você tem o direito de ficar brava com isso — reforçou ela. — Mas você deixou um bilhete e fugiu. Sem número, sem sobrenome. Só Bella, que é seu apelido, não é Isabella?
— Mas todo mundo me chama de Bella, está escrito assim até no meu restaurante.
— E eu também não estou falando que isso é um problema. Você tinha todo o direito de não dizer o seu nome e de não dar o seu número — esclareceu ela. — Você tinha um motivo para isso e ele provavelmente também tinha o dele, mas você não deixou ele se explicar. O meu palpite é que ele não achava que a noite seria como foi, talvez se ele imaginasse te diria o nome que ele usa.
Eu não contestei dessa vez, apenas deixei com que ela continuasse.
— Além disso, já se passaram doze anos desde o que aconteceu. Você conheceu Edward de novo e se apaixonou por ele — disse Alice. — Fazia tempo que eu não te via tão leve e encantada com alguém. Não sei se é resultado da conexão que vocês tiveram desde a primeira vez, ou se vocês construíram isso agora. Mas ele te faz bem, vocês se gostam. Vai deixar um erro de quando vocês eram adolescentes atrapalhar o que vocês podem ter daqui em diante?
— Eu estou muito chateada, Alice — reafirmei.
— Você tem todo o direito — repetiu. — Não estou falando para você ligar agora para ele e perdoar. Mas pensa no que eu disse, toma seu tempo e quando você estiver disposta, escuta o que ele tem pra falar.
— Tudo bem, eu vou ouvir ele falar.
*
Edward continuou me mandando mensagens nos próximos dois dias, mas respeitou meu espaço e não apareceu no restaurante nenhuma vez.
A conversa com Alice ficou na minha cabeça e a minha raiva foi esfriando, ela tinha razão. Mas quando eu decidi que responderia a próxima mensagem de Edward, ele parou de mandar.
No primeiro dia sem mensagens, achei que ele estivesse ocupado com seu próprio trabalho — ele estava sempre tão disponível para mim, que eu esquecia que ele era uma pessoa famosa e tinha um emprego —, porém no segundo dia eu comecei a me preocupar.
Enquanto trabalhava, minha cabeça não parava de pensar que ele havia desistido, que ele não queria mais nada comigo.
Então depois de uma semana que eu havia conversado com Alice, já sem raiva e completamente disposta a conversar com ele, eu recebi uma notificação avisando que Edward tinha me enviado um vídeo.
Eu não costumava ficar com o celular na cozinha, mas desde a briga com Edward eu mantinha o celular no bolso, com todas as notificações desligadas, menos a dele. Então corri para o meu escritório e tranquei a porta antes de abrir o vídeo.
O vídeo começava com Edward deitado em um tapete com a aesthetic dos anos 80, ele mesmo estava vestido com o visual típico. Cortes de cenas dele tocando bateria, teclado, baixo, guitarra e sozinho no microfone, isso com a música de fundo me fez entender o que estava acontecendo. Era uma versão dele de POP! Goes my heart, do meu filme favorito com o Hugh Grant.
A versão dele no microfone estava com uma jaqueta preta e começou a cantar:
— I never thought that I could be so satisfied, everytime that I look in your angel eyes — cantou olhando fixamente para a câmera, como se olhasse diretamente para mim.
O vídeo seguiu com cortes dele em cada instrumento, além de trocas de roupa.
— I said I wasn't gonna lose my head, but then. POP! Goes my heart. — cantarolou.
Enquanto ele cantava o refrão, também fazia uma coreografia tipicamente dos anos 80. De alguma maneira ele tinha conseguido colocar cinco versões dele na imagem, o que tornava tudo melhor e mais engraçado.
— You show to me that my destiny's with you and there's no explaining.
No vídeo original contava uma história sobre um término e o encontro de um novo amor, mas no de Edward além dos takes focados nele tocando e cantando, depois do primeiro refrão também começaram a aparecer imagens dele olhando as fotos que tiramos juntos em nossos encontros.
— And I just can't let you go, I can't lose this feeling — finalizou.
Depois da última estrofe, a tela escureceu a apareceu uma mensagem:
Bella, me desculpe. Sei que você está chateada, mas por favor, fala comigo mais uma vez.
*
Eu estava completamente disposta a conversar antes do vídeo e depois de vê-lo, eu me sentia mimada, querida e feliz. Então dei ordens aos meus funcionários, passei pelo meu apartamento para buscar Lucy e Jude, e segui para a mansão de Edward — que eu já havia conhecido outro dia —.
Edward já me esperava na entrada quando eu cheguei e tinha uma expressão cautelosa, então desci do carro e corri até ele.
Sua surpresa pela minha reação não durou meio segundo, logo ele me abraçou fortemente e começou a me beijar. Uma semana longe nos deixou transbordando de saudade.
Ele me ajudou a levar os bichinhos para dentro, além de preparar um cercadinho para Lucy não ficar animada demais e querer brincar com o Allegra. Então me ofereceu algo para comer e beber, depois me levou ao sofá.
— Me desculpa — pedi.
— Não, a culpa é minha — respondeu.
— Eu deveria ter te deixado falar, o dia tinha sido horrível e eu descontei em você — insisti.
— Mas eu não deveria ter omitido meu nome, você tinha razão em estar brava — me tranquilizou.
— Se você quiser me dizer agora os motivos pra você usar seu segundo nome, eu estou pronta pra ouvir.
— O motivo é bobo — adiantou ele. — Não sei se você lembra, ou se cheguei a te falar, mas a ideia de ir para a Itália foi de Carlisle. Ele, como grande otimista que é, queria que eu tivesse uma última experiência como pessoa normal. Mas ele também sabia como o mundo é, viu o suficiente de golpes da barriga e outras tentativas de conseguir prender famosos. Então falou que eu deveria curtir essas férias com outro nome, pra se alguém viesse atrás de mim quando eu ficasse famoso, poderia dizer que não era eu.
Ele tinha uma careta no rosto enquanto dizia, não parecia confortável.
— A ideia não era a mais correta do mundo, mas eu confiei no que ele disse e me apresentei pra todos como Tony durante as férias. Não era o nome que eu usava, mas pelo menos não era uma completa mentira.
— Bem, pelo menos agora eu posso ficar tranquila sobre não ter te dado meu número — tentei fazer piada. — Você não ia me ligar de qualquer maneira.
— Eu ia te ligar — garantiu ele sério. — Depois daquela noite, não havia maneira de que eu não te ligaria.
— Vamos, Edward. Não precisa mentir.
— Você não acredita? Então espera aqui.
Ele me deixou em seu sofá e saiu correndo para um dos seus corredores, então alguns minutos depois voltou carregando um livro.
Quando ele sentou-se ao meu lado de novo, abriu o livro e tirou um envelope envelhecido de dentro dele e o estendeu para mim.
— Veja.
Assim que abri o envelope, peguei a mesma foto que eu tinha em casa, aquela que tinha nos feito lembrar de tudo e brigar. Junto com isso estava o bilhete que eu tinha escrito anos atrás, quando nos encontramos pela primeira vez.
Além disso tudo havia um outro papel, menos envelhecido do que o primeiro e uma caligrafia que eu sabia que era de Edward. Eu comecei a ler.
Minha Bella italiana,
Como você está? Você realmente esteve ocupada durante esse tempo?
Se passaram cinco anos desde que nos encontramos naquele verão e eu continuo vindo à Riccione todos os anos, na esperança de te ver de novo. Mas parece que o destino não é tão legal como eu imaginei que ele seria.
Estou deitado no mesmo quarto de hotel enquanto escrevo essa carta, respondendo o bilhete que você me deixou anos atrás, pensando que se vou colocar um ponto final em tudo, preciso fazer isso no lugar certo.
Você estava certa sobre as coisas boas que aconteceriam depois daquela noite. Não sei o quanto você lembra do que te contei, mas quando voltei de viagem recebi a resposta que esperava.
Era para formar uma banda e eu consegui.
Um ep, dois álbuns e um sucesso que eu nunca imaginaria que poderia fazer. E eu fico aqui pensando, você me ouviu tocar? Viu minha foto na internet e me reconheceu?
Mas boybands nunca duram para sempre e o fim da minha chegou. Estou prestes a assinar um contrato como artista solo, tenho algumas músicas prontas — inclusive uma sobre nós —, e vou escrever mais algumas. Porém eu estou tão apavorado.
Será que eu sou bom o suficiente para ser um artista solo ou minha carreira será um fracasso?
Eu realmente queria que você estivesse aqui, então você me beijaria de novo e toda a magia que você carrega me daria boa sorte.
Infelizmente não parece ser o que o destino quer.
De qualquer maneira, desejo que você esteja bem onde quer que esteja, que tenha conseguido realizar tudo o que queria.
E secretamente, desejo que pense em mim as vezes.
Mil beijos,
Do seu Astro Pop.
P.S.: Eu aprendi italiano nesses últimos anos, na esperança de te encontrar e não passar vergonha. Você está orgulhosa de mim?
Quando terminei de ler meus olhos estavam marejados. Edward era tão especial.
— Você tá brava comigo de novo? — questionou Edward cauteloso.
— Não sabia que isso era possível, mas estou ainda mais apaixonada por você — falei quebrando a distância entre nós e o beijando de novo.
Nós conversamos sobre o que poderia ter acontecido se eu tivesse dado meu número para ele naquela noite e acabamos chegando no consenso de que as coisas tinham acontecido como tinham que acontecer. Conversamos sobre os nossos desencontros — a cada lugar que Edward ia, eu não estava. Depois parei de para Itália por toda as minhas férias —.
Ele ainda me mostrou as músicas que ele escreveu sobre nosso romance de uma noite, havia uma música dançante, uma música triste e uma balada delicada — que era a minha favorita —.
— O destino nos amarrou juntos — comentou Edward.
— Depois de todos esse anos, nos encontramos de novo em Riccione — disse rindo.
— É o nosso lugar — concordou ele antes de me beijar.
A minha decisão de não dar meu número de telefone para ele havia desencadeado tudo isso, doze anos de espera até que o destino nos colocasse juntos de novo.
Eu não me importava com o tempo perdido, até agradecia. Todos os relacionamentos errados, corações partidos, encontros que não deram em nada. Tudo nos preparou para esse reencontro, para sermos nós mesmos e dar sentido para toda essa conexão e magia que tínhamos.
A carreira dele, o meu restaurante. Talvez tudo fosse diferente, mas eu estava feliz que não eram.
E mais feliz ainda porque as cordas do destino nos levaram de volta para o outro.
Em Riccione.
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