Ribelle Amato
8 Capítulo 7 - Auxiliada
Notas iniciais
Capítulo 7 – Auxiliada
PASSARAM-SE ALGUMAS SEMANAS desde o episódio na cozinha. Eu passava todo o meu tempo tentando despistar Jamie toda vez que ele tentava falar comigo. Por mais que eu tivesse falado com Peg que resolveria isso, eu simplesmente não conseguia só de pensar em ter que encarar ele. Como eu tinha quase certeza que nós acabaríamos discutindo de novo, então eu o evitava ao máximo. Eu sempre entrava em nosso quarto depois que eu garantisse que ele já estava dormindo e saía antes de ele acordar. Com os pesadelos, eu simplesmente aprendi a pegar uma blusa que já não cabe mais em mim e tapar a boca para durante a noite eu não acordar ninguém. E estava funcionando.
Eu conversava com todos ali, mas como qualquer sociedade comum de antigamente, havia grupos com os quais eu me dava melhor e outros que eu simplesmente tentava não ter muita interação social. Eu conversava bastante com Trudy, Heidi e Lily, mas eu tinha uma amizade maior com Peg, Melanie, Ian e depois que aqueles que estavam em incursão retornaram, com Sunny e Jared também. Não conversava com Kyle por recomendações contra violência grátis e Brandt se mostrou bem amigo e prestativo quando lhe pedi ajuda para de fugir do Jamie, apesar de não ser o suficiente para encaixá-lo entre meus amigos. Mesmo tendo dito que eu deveria resolver o problema com Jamie, ele não me negou ajuda e eu pude já taxá-lo de simpático, pois conversávamos muito no quarto quando Jamie não estava.
Eu conheci um pouco mais de Jamie no tempo que eu o observava ao longe sem que me visse. Apenas de observá-lo parecia que eu já o conhecia há muito tempo e mesmo sem estar falando diretamente com ele, eu já o considerava como meu melhor amigo apenas por ter me ajudado tanto no dia em que cheguei. Às vezes eu me arrependia por ainda estar guardando rancor toda vez que eu o via soando no calor do campo de milho. Eu chegava perto dele para entregar-lhe a garrafa de água como tenho que fazer com todos e ao ver seus olhos tristonhos encontrarem com os meus eu abria a boca para me desculpar. Mas o momento passava assim que ele dizia “que precisávamos conversar sobre aquele dia”, com a voz firme que me fazia lembrar o porquê de eu estar irritada.
E então eu comentava sobre isso na cozinha e as meninas que trabalhavam lá comigo – Sunny, Peg, Trudy e Heidi – vinham insistir para que eu o perdoasse e que eu sentia que poderia ser amiga dele. E eu aprendi a simplesmente não comentar nada mais sobre isso com elas. Somente algumas pessoas ainda me falavam sobre isso. Peg e Sunny – depois de me pegarem analisando-o de longe – vinham falar, com aquele jeito doce de Alma que era próprio delas, que eu devia conversar com ele e resolver isso. Mel e Lily, que também são outras grandes amigas, sempre vinham me insinuar depois do seu turno nas plantações que Jamie andava tristonho e que eu deveria checar o que ele tinha.
Eram as que mais insistiam, mas não eram as únicas. Ian e Jared, sempre que eu ignorava as tentativas de Jamie de falar comigo, balançavam a cabeça desaprovando. Mas ao menos já aprenderam que não adiantaria nada discutir, que eu realmente era cabeça dura. De acordo com Ian, eu era mais cabeça dura que Jared e eu não sabia se era um elogio ou um xingamento, mas quando Jared ria eu considerava como um bom elogio. E não posso me esquecer de Doc e Jeb, que também se encaixam em meu círculo de amigos mais íntimos. Não eram como os outros, apesar das piadinhas toscas que Jeb mandava. E Doc sempre preocupado paternalmente, não posso me esquecer disso.
Mas, infelizmente, para todo lado bom, existe um ruim. E põe ruim nisso, por que Maggie, Sharon e Lacey não são flores que se cheire. Parece que nasceram para atormentar a vida de todos aqui, mas tomaram uma antipatia maior por mim, Peg e Sunny. Acontece que não era tanto por mim no início, mas depois que a fofoca de que eu usava lentes que imitavam os reflexos das Almas para sobreviver até agora se espalhou pelas cavernas, fui rebaixada a um nível ainda pior do que das Almas que estão sobrevivendo aqui ao redor de humanos.
Mas em meio às fofocas, eu soube que Jamie andava me defendendo. De acordo com Peg, que conversava bastante com Jamie sobre esse assunto, ele havia enfrentado Sharon depois de uma das aulas e falado a ela que eu pelo menos havia encontrado um jeito de sobreviver sozinha enquanto ela estava sempre à custa dos outros. Ao invés de continuar falando sobre como eu devia ser muito burra para tentar algo assim, a Medusa resolveu aplicar um castigo duplo para ele. Mas parece que não havia resolvido muito, pois Peg disse que ele ainda tentava de tudo para me defender.
— Ainda acho... Que você... Deveria falar com ele! – disse Peg ofegante e cansada.
— Anh? – perguntei, enquanto lançava a bola de futebol para ela mais uma vez.
Hoje era um daqueles dias em que treinávamos depois que o trabalho na cozinha estava feito. Geralmente quem trabalhava na cozinha saía antes de quase todo mundo. Enquanto os outros faziam tabela para os diferentes trabalhos, o da cozinha era sempre fixo – o que facilitava bastante criar uma rotina. Enquanto deixávamos os pães assando no forno, em um intervalo de quarenta minutos até o jantar, Sunny, Heidi e Trudy se revezavam no banho com os outros que no dia estavam encarregados de limpar os espelhos da Praça Principal.
Eu e Peg preferimos jantar primeiro, pois, durante o tempo livre que tínhamos após o jantar, íamos até o salão de jogos e treinamos. Fazíamos isso cinco vezes por semana e ainda não entendi como Peg consegue arrumar desculpa para Ian para que eles não aproveitassem o tempo juntos. Mas ela sempre dava um jeito e aparecia no tempo certo. A ideia de ser cinco vezes por semana era dela, pois não importa o quanto eu pegue leve, ela nunca demora a se cansar e percebi que isso não vinha dela, e sim de sua hospedeira.
Pet – sim, eu já descobri o nome – não era exatamente muito atlética e isso prejudicava o desempenho de Peg. Mesmo que ela insistisse que somente Jamie pudesse me dizer mais sobre sua primeira vida aqui na Terra, tinha vez que eu conseguia arrancar uma informação ou outra. E uma delas foi que sua antiga hospedeira tinha um corpo já treinado e elas adoravam as partidas de futebol. Mas ela disse que isso era a hospedeira que assumia o controle momentaneamente. Ela não era muito boa nisso e nenhum dos outros humanos ao menos davam a chance de ela aprender.
E, para não ser igual a eles, eu estava neste instante treinando o famoso chute ao gol. Depois de umas quatro semanas, Peg já calculava bem os espaços que existiam entre mim e os dois lados que determinavam o gol. Quando chutava, ela conseguia tirar a bola do lugar, mas nem sempre conseguia força o suficiente para que ela chegasse até mim. Ela havia melhorado muito desde o primeiro treino, pois tinha vezes – que agora já não eram tão raras assim – em que ela conseguia fazer um gol. E não era por distração minha, ela realmente fazia um ótimo gol. E estava conseguindo aumentar sua força cada vez mais.
— Não se faça de BOBA! – ofegou a última palavra, pois havia chutado a bola mais uma vez.
E eu havia pegado ela mais uma vez. Eu não estava entendo como ela pode estar tão aérea hoje. Não havia feito nenhum gol e pelo tempo que já estávamos ali ela teria conseguido ao menos dois.
— Eu não vou falar com ele, Peg! – respondi, enquanto lhe lançava de volta a bola.
— Rocker, mas você precisa. – insistiu ela, colocando a bola no chão e colocando-a na marca. – Não sei o que está acontecendo entre vocês, mas ele está diferente. – disse isso, enquanto se afastava de ré, olhando para trás para garantir que não tropeçasse na terra; os cachos loiros presos em um rabo alto balançando.
— Diferente como? – perguntei, enquanto pegava mais uma tacada e lhe devolvia a bola com um chute mesmo.
Ela pegou a bola do chão e a encaixou embaixo do braço, enquanto estalava os dedos, provavelmente procurando pelas palavras certas.
— Ah, sei lá! Só diferente! – disse, enquanto repetia todo o processo.
Por mais que eu dissesse que eu o evitava pelo que acontecera semanas antes, nós duas sabíamos que eu ficava confusa perto dele. E eu não via essa confusão com bons olhos.
— Manda mais forte. – pedi, enquanto ela corria e chutava a bola. Rebati-a com o pé, pois senão eu perderia a oportunidade de segurá-la e acabaria deixando-a passar direto por mim. Enquanto via a bola voltar quicando para os pés de Peg, disse. – Não vou ainda. Não agora. E esse seu “diferente” não explicou nada!
— Ele não anda mais tão brincalhão quanto antes de você chegar. Acho que por você ser o mais próximo que ele já teve em anos de um humano da mesma idade para se conversar, isso deve tê-lo afetado mais.
— Mas você não tem só dezoito anos?! – perguntei.
Ela riu.
— Minha hospedeira! Eu tenho mil anos terrestres! – exclamou, ainda rindo, e eu parei um segundo para pensar.
— Realmente, você não seria o mais adequado para uma conversa normal de adolescente! – soltei sem pensar e quando percebi tudo o que podia fazer era tapar a boca com a mão e lançar um olhar de desculpas para Peg, antes que ela se sinta ofendida.
Mas ela só riu. De novo.
— Tem razão, nunca pensei muito por esse lado diretamente direto! Meus argumentos de conversa são o que vocês chamam de filosóficos.
— Não duvido! – respondi, rindo, mas então eu me lembrei de quantos livros, ficcionais ou não, Matt havia roubado para mim nos últimos anos. – Ah, mas eu também não sou tão apropriada como uma adolescente comum, não!
Rimos juntas desta vez.
Ela ajeitou a bola a seus pés e se preparou para chutar. Desta vez, ela chutou com força e em um ângulo perfeito. Tive que me jogar no ar para ao menos tentar pegar a bola, mas ainda assim ela nem raspou em meus dedos. Quando percebi, já estava estirada no chão e com uma dor terrível no cotovelo e na panturrilha esquerda. Quando chequei, estavam arranhados e sangrando levemente. Peg veio correndo para meu lado pedindo desculpas, mas eu a convenci de que não foi culpa dela. Tentei convencê-la a voltar a jogar, mas quando viu que os ferimentos sangravam, deu o treino por encerrado.
— Você tem que ir até o Doc! – exclamou ela.
— Nem pensar! – respondi rapidamente, enquanto aceitava sua ajuda para me levantar. – E ter a chance de sermos descobertas aqui, de jeito nenhum!
— Tudo bem. – aceitou forçadamente, mas apenas porque sabia que se nos descobrissem, dariam um jeito de tapar a passagem só para Peg não se machucar. – Mas quando for tomar seu banho não deixe de limpar bem os ferimentos. – recomendou ela enquanto saia pelo portal.
— Vou agora, me espere! – gritei, enquanto corria para acompanhá-la.
— O que?! – olhou assustada para mim.
E não era para menos, ela sabia que eu evitava Jamie até mesmo em nosso quarto. Geralmente eu esperava mais uma ou duas horas até ir tomar meu banho e depois dormir. Até aí ele já estava dormindo e eu não teria que encará-lo.
— Tudo bem, você venceu! – disse, exausta. Quando ela arqueou a sobrancelha, ainda duvidando, continuei. – Vou falar com ele hoje!
— Finalmente! – comemorou, dando um pulinho e enganchando o braço no meu.
Uma hora depois eu já estava de banho tomado e com uma roupa confortável e limpa. Como aqui nós mesmos tínhamos que lavar nossa roupa, todos demoravam uma semana com a mesma roupa. Entrei no quarto e vi Jamie sentado na cama, de cabeça baixa, mas virado de frente para a entrada. Não podia ver seus olhos, mas se agora ele estava do mesmo modo como Peg o descreveu, parecia mais para baixo ainda. Completamente diferente do menino que conheci há quatro semanas atrás.
Não vi Brandt em lugar algum do quarto, então constatei que ele estava provavelmente conversando com Aaron. Respirei fundo e fui até ele, receosa. Assim que percebeu minha presença, grudou seus olhos azuis curiosos e esperançosos em mim até que eu me sentasse à sua frente, mexendo incessantemente na manga preta da minha blusa.
— Oi. – disse tímida e receosa se ele não estaria com raiva de mim, mas assim que vi seus lábios abrirem um sorriso que mostrava seus dentes brancos perfeitos, soube imediatamente que eu também estava perdoada.
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