Rhaegar e Lyanna: Paixão de Inverno
1 O primeiro banquete do torneio
"Anos atrás, no auge do verão, meu pai contou a meu irmão e a mim uma história. Ele só a contou uma vez, e ele se recusou a falar dela novamente”
— Meera Reed
Jorah Mormont
281 d.C
Este é o Ano a quem todos dizem ser da Falsa Primavera. Lorde Whent, um senhor do Sul, que prometeu que seu torneio no grande castelo de Harrenhal será futuramente lembrado. Não apenas por seus filhos e netos, mas pelas gerações futuras. É verdade que nunca um torneio de tal porte foi realizado antes, mas o lorde tende a ser esnobe, assim como, a maioria dos nobres ricos de qualquer lugar. As pessoas no Salão e ao redor do castelo, ficam impressionadas com o tamanho da construção. Afinal, é o maior castelo de Westeros.
Muitos anos atrás, durante o início da Guerra da Conquista de Aegon, Harrenhal foi a primeira conquista do rei que unificaria os 6 reinos (lembrando que Dorne só foi conquistado posteriormente no reinado de Daeron I por meio de casamentos arranjados com a família real).
Quem anda pelo castelo esta semana, pode também notar que é uma das construções mais destruídas de Westeros, com marcas que não foram apagadas pelo tempo. Um de seus reis (Harren, o Negro) pensou erroneamente que poderia enfrentar Aegon. Confiou na grande fortaleza com suas paredes fortes. O que ele não pensou, entretanto, é que o Conquistador tinha dragões e poderia apenas voar acima e queimar tudo. E assim o fez. O Targaryen queimou o rei e sua descendência que estupidamente se trancaram dentro da própria fortaleza. O grande castelo se tornou um grande forno.
— Deveríamos caminhar até a floresta? – inquere Howland Reed, um rapaz alguns anos mais novo do que eu. Ele é de uma casa vassala aos Starks, assim como, eu. Não eramos grandes amigos, mas conversamos nos eventos em que o povo do Norte se reunia
— Por que não? Só espero que esteja mais fresco lá que aqui... – digo incomodado com o calor do Sul. No Norte, estávamos habituados ao frio ou ao gelo. Como diriam os Starks “O inverno está chegando”, porque na maior parte do tempo, é inverno no Norte.
Ao contrário dos grandes senhores das outras casas que tem um lema significativo como os Targaryen “Fogo e Sangue” que faz menção aos dragões e a guerra da conquista ou a Casa Arryn “Tão alto como a honra” que se refere a altura do castelo (torre), os Starks tem um lema genérico. Não parece assim tão estranho se pensarmos que no inicio, o Norte apenas tinha um rei (Tohrren, o Rei-que-se-ajoelhou) devido a necessiaade de sobrevivência e não por ganância. Não acho que eu possa reclamar. Como um Mormont, herdeiro de uma casa vassala, meu lema é: “Aqui permanecemos”, embora não tenha sentido nenhum. Temos reputação e honra, mas não somos tão poderosos.
— Então o que está fazendo aqui exatamente? – inquiro ao meu companheiro de caminhada para passar o tempo – Não acho que ninguém vai se importar se uma casa pequena compartilhar ou não deste torneio. Além disso, achei bastante caro apenas a viagem até aqui
— Estou aqui pelo mesmo motivo que você, eu acho: fazer parte de algo grandioso. Um torneio que eu provavelmente nunca vou ver novamente enquanto respirar – explica Reed com simplicidade. Devo admitir que gosto do garoto. É bastante direto, embora introvertido (não é o tipo de homem que você escuta falar por muitas horas ou ficar bêbado na frente dos outros).
— Honestamente pode dizer que não está interessado na recompensa do campeão?
— Luto bem o suficiente para me defender, mas jamais poderia combater aos grandes senhores que passam os dias treinando com grandes cavaleiros – afirma num dar de ombros despreocupado e embora isso possa soar um pouco desanimador ou piedoso, o rapaz tinha sua dose de razão. Todos no reino já haviam escutado ao menos uma das proezas de sir Jaime Lannister. O garoto tinha apenas 15 anos e já havia derrotado sir Barristan Selmy, um dos heróis da guerra de nove moedas. Eu tinha quase 30, mas a única vez que me atrevi a enfrentar sir Selmy, fui profundamente humilhado. Não é prudente esquecer que o Lannister advém da família mais rica de Westeros. Na linguagem do povo comum, o pai dele, a Mão do Rei e lorde de uma das grandes casas, “caga ouro”. É risível, mas tem sua dose de verdade.
— Imagino eles escrevendo sobre este torneio algum dia: “Cavaleiros e senhores de todos os Sete Reinos se fizeram presentes, atraídos pelo espetáculo e o tamanho da recompensa do campeão” – zombo com uma risada forçando minha voz a soar avelulada como a de um bardo
— Você ouviu aos rumores?
— Quais?
— Ouvi o homem da casa Bolton dizer que até mesmo o rei vai participar
— Sério? – inquiro surpreso – Faz alguns anos que ele não é visto em público
— Pois é. Talvez seja mentira, mas foi algo que ouvi dizer – afirma como se estivesse distraído e eu olho ao longe
— Quanto tempo isso ainda vai levar? Pensei que a floresta fosse perto
— Já está cansado? Isso é sinal de que está ficando velho
— Morda meu traseiro
— O que está fazendo? – questiona ao me ver parado com as mãos na cintura
— Eu desisto – respondo ao ver a distância até o local. Faltava muito até chegarmos lá e eu duvido que sequer esteja ventando entre as árvores. O calor desse lugar é insuportável e eu estava com uma armadura. Minha expectativa era ao menos lutar por um tempo para trazer renome a minha casa
Rowland Reed
Após me separar de Jorah Mormont, continuei a caminhar em direção a floresta. A verdade é que eu queria um lugar quieto, sem as conversas ou barulho ao meu redor do local em que estava acomodado. As casas principais tinham uma tenda para cada filho ou algumas mais próximas da Coroa contavam com acomodações dentro do castelo, mas eu enquanto casa vassala tinha uma tenda compartilhada com meus pais e irmãos. Não era um local quieto e eu gostava de ficar mais isolado. É difícil pensar em meio ao barulho. Agora me pergunto se não foi uma ideia muito, muito idiota.
— Comedor de rãs! – diz um dos garotos e os outros começam a rir. Nenhum deles deve ter mais do que 15 anos, mas são maiores do que eu. Pela qualidade de suas armaduras posso deduzir que são escudeiros.
— Por favor, não podem apenas parar de fazer isso? – questiono em tom alto ao me levantar, finalmente fazendo com que minha boca deixe de ser pressionada contra a terra do local. É outra atitude idiota porque logo sinto minha cabeça latejar com a pancada enquanto meu rosto é bruscamente apertado contra o chão novamente. Volto a receber chutes na barriga e dói muito. Não tenho ideia de quantas vezes já fizeram isso. Me pergunto quanto tempo isso vai durar. Talvez eu devesse apenas fingir que estou morto ou algo assim. Não sei. É difícil pensar ou fazer alguma coisa com minhas costelas doloridas. Um chute vai mais fundo que os outros ou mais forte. Griito de dor.
— HEY. VOCÊS AI! – grita uma voz, mas meu rosto ainda está contra o chão enquanto envolvo minha barriga com as mãos – Estão chutando um dos homens de meu pai – diz, mas me contenho a apertar meus olhos. Sou um covarde. Admito isso. Não vou levantar aqui pra defender a filha de um lorde depois da surra que tomei. Estou com medo de apanhar de novo.
É estranho porque ouço barulhos de espadas, pancadas e gemidos de dor. Me atrevo a abrir os olhos porque minha curiosidade é usualmente alta. Então vejo esta garota: vestido azul-escuro e olhos que parecem ser amarelos ou de algum tom mais claro que seu cabelo. Pele clara e um cinto que serve como bainha para uma espada. Os cabelos vagamente ondulados e logo noto a espada em sua mão. Seria estranho ver uma mulher segurar uma espada se eu não estivesse aliviado. Os três escudeiros estão no chão.
— Saiam daqui, pedaços de merda! – ela ruge e logo os garotos buscam pegar as próprias espadas no chão e se levantarem
— Isso não vai ficar assim, puta – diz um deles e eu o vejo encarar a garota misteriosa. Ela dá um passo a frente e ele claramente se intimida, recuando e saindo dali apressado.
— É capaz de se levantar? – questiona e seu tom é um pouco mais suave do que quando falou com os escudeiros. Aceno com a cabeça, logo ficando sob meus joelhos sentindo fisgadas ao tentar respirar fundo.
— Obrigado, milady – digo ao olhar para ela. Os cabelos escuros em meio ao rosto branco. Seus olhos são verdes e eu sei que ela provavelmente é de alguma família importante ou nobre. Ela parece familiar, embora não consiga me lembrar de onde a conheci. É provavelmente impressão minha
— Você tem um nome?
— Hm... Rowland Reed – digo e logo me lembro do que ela disse aos garotos – Suponho que seja uma Stark?
— Sim. Meu primeiro nome é Lyanna – explica e logo desce seu olhar a minha barriga – Precisa de ajuda para se levantar?
— Consigo fazer isso por mim mesmo – respondo e acabo fazendo isso. É ruim o suficiente que eu tenha sido defendido por uma garota. Ela é a filha do Guardião do Norte e meu senhor soberano.
Ao me erguer sob meus pés, noto que há um rastro de sangue onde recebi o último chute. Minha boca e meu olho direito não devem estar em melhor estado.
— Venha comigo – ordena e isso me faz franzir o cenho. Acabo apenas acenando sem me opor.
Espero que esteja me levantando a algum lugar para exigir que eu faça algo em troca de sua ajuda. Entretanto, ao chegar em sua tenda, ela ordena uma criada que traga um balde e panos limpos, logo me dando espaço para limpar os hematomas e cortes que foram feitos em meu torso. Um dos escudeiros foi maldoso o suficiente para perfurar meu ombro com sua espada.
— Garotos como aqueles são covardes. Não acho que voltarão a machucar você depois do que houve
— Assim espero, milady
— O que está acontecendo aqui? – questiona um homem ao entrar na tenda. Sua voz é alta e ressoa pelo lugar me assustando. É o mais alto: cabelos negros abaixo dos ombros e barba farta sobre o rosto. Dois outros rapazes o acompanham. O segundo mais alto tem cabelos lisos e castanhos de um tom mais claro que os outros três. Nariz proeminente e a sombra de uma barba ainda nascente. O mais baixo e também o que parece ser mais novo tem cabelos negros e lisos na altura da nuca.
Me levanto e faço um cumprimento. Embora o habitual seja utilizar a mão direita, meu ombro está dolorido (o escudeiro feriu o lado que uso a espada) então fecho o punho da mão esquerda sobre meu ombro como reverência aos grandes herdeiros do senhor Rickard Stark.
— Alguns garotos o machucaram, então o trouxe aqui para cuidar dos ferimentos
— E o que você tem a ver com isso?
— O que eu tenho a ver? – inquere em tom alto e revoltado – O garoto pertence a uma casa vassala ao nosso pai. Se nós não cuidarmos de nossos vassalos, quem cuidará? – questiona e eu sequer me atrevo a erguer o olhar
— Vejo um lagarto-leão em sua roupa – afirma o homem barbudo com sua voz de tom severo – Significa que pertence a casa Reed, certo?
— Sim, milorde – digo de modo cortês antes de voltar a abaixar meus olhos
— Considerando que nossa irmã o ajudou, acredito que seria cortês de nossa parte convidá-lo a participar do banquete que ocorrerá esta noite – diz o rapaz de altura mediana. Isso me espanta
— Hm.. eu fico agradecido por isso, milorde, mas não acho que seria adequado. Não tenho posição ou roupas para fazer parte de tal evento.
— Tem uma casa e nascimento elevado. Tem direito a participar como qualquer outro homem
— Me desculpe, milady, mas... – começo a dizer e logo a garota cruza os braços
— É rude recusar o convite de um lorde ou lady – afirma e eu abaixo o olhar – Más maneiras, Reed – completa em tom de gravidade
— Não intimide o garoto assim – diz o Stark mais novo com sua voz ainda tendo algo de infantil – Se vai ao banquete, tenho que emprestar roupas a ele para não ser envergonhado pelos outros
— Fico honrado, milorde – afirmo me abaixando de novo
(...)
Então, assim como lady Lyanna desejou, assim aconteceu. Com as roupas de Benjen, o mais novo dos irmãos e sob a companhia dos Starks, me dirigi ao grande castelo. É realmente uma experiência única comer e beber num evento de tamanha magnitude. Há vários companheiros do Norte ao redor da mesa e eu tenho certeza que nunca vi tal abundância de comida ou variedade de alimentos.
— Estou dizendo a vocês, não há lugar melhor que a Patrulha da Noite. Juntem-se a nós, companheiros – diz um guerreiro vestido em negro
— Um lugar onde o homem não pode foder ou ter propriedade. Veja as maravilhas da Patrulha – zomba o homem da casa Bolton trazendo risinhos e sorrisos. Em poucos segundos, todavia, um silêncio começa a se espalhar pelo local e eu ouço o barulho de cordas. Demoro um momento para entender o que está acontecendo. Algumas ladies começam a murmurar de repente e se aglomeram numa mesa.
Apoiado num banco solitário próximo a porta, vejo um homem de cabelos brancos e lisos que correm abaixo de seus ombros. Ele tem a pele clara e uma roupa vermelho com preto. É pelo dragão de três cabeças em seu peito e os guardas ao seu redor que consigo captar que se trata do príncipe Rhaegar Targaryen. Nunca, durante toda minha vida, pensei vê-lo ou respirar no mesmo lugar que ele.
— No alto dos salões dos reis que já se foram... – começa ele tocando sua harpa. Sua voz é grave, mas tem algo de agudo enquanto desliza os dedos pelas cordas – Jenny dança com seus fantasmas – completa e é notável o tom de lamúria em sua voz
— Aqueles que ela perdeu e aqueles que ela encontrou... E aqueles a quem ela mais amava – canta e deixa apenas sua voz ressoar pelo salão ao parar de dedilhar a harpa. Pelo canto dos olhos vejo algumas ladies enxugarem os olhos. O salão inteiro está em completo silêncio e isso é um pouco surpreendente. Ele volta a tocar o instrumento, trazendo a minha mente a letra que acabou de cantar.
— Aqueles que estiveram fora por tanto tempo, ela não podia lembrar seus nomes. Eles a cercavam sobre as pedras antigas e úmidas. Afastando toda a sua tristeza e dor. Ela nunca quis partir... – continua com seu cantar e me choca ver a garota Stark enxugar as próprias lágrimas
— Ela nunca quis partir... – canta em tom alto e novamente melancólico – Nunca quis partir... – completa apenas com sua voz e parece ter abandonado sua harpa. Sou surpreendido por aplausos e assobios ensurdecedores ao longo do salão e alguns gritinhos femininos.
— Pelos deuses! Precisa de um lenço, garotinha? – zomba Benjen Stark sentado ao lado de Lyanna que ainda enxuga as próprias lágrimas. O rosto da garota se torna vermelho e ela se levanta, logo agarrando uma taça de metal e virando seu conteúdo na cabeça do irmão. Adivinho rapidamente que havia vinho ali porque o liquído que pinga é vermelho-tinto. Ela sai dali ainda irritada e eu vejo o mais novo brigar com ela, enquanto a segue rumo a saída do salão.
Meus olhos subitamente são atraídos para a movimentação do Salão. Vejo casais começarem a assumir controle no meio do cômodo, enquanto cavaleiros vão na direção de ladies para bailar.
— Está vendo aquela lady? – questiona Brandon Stark se virando para o irmão. Acabo seguindo em direção a onde ele aponta apenas para ver uma mulher de cabelos escuros, pele clara e olhos que parecem ser da mesma cor que seu vestido. Púrpura ou roxos. Talvez azul em meio ao roxo. Ela é deslumbrante – Aquela é Ashara Dayne, a nobre mais bonita da Corte – completa ele e meu olhar volta aos irmãos
— Ela é bonita – diz Eddard simplesmente antes de voltar os olhos a sua bebida
— Só isso? – questiona o outro – Pois eu vou pedir uma dança a ela antes das ladies se recolherem
— Já está noivo...
— Para você, Ned – interrompe o outro e logo passa o braço nos ombros do mais novo – Tem que perder essa timidez com as mulheres ou vai ter problemas quando se casar...
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