Notas iniciais
Desculpem a demora, acabamos esquecendo de postar aqui... Esperamos que gostem

HANNAH, SIMPLESMENTE, NÃO sabia o que dizer daquele jantar. De certa forma não estava sendo ruim, mas também não estava sendo agradável.

Os homens conversavam sobre o trabalho e a expectativa sobre a guerra, enquanto ela e Piper comiam em um silêncio mortal. A dona da casa não havia sido grosseira com ela, apenas se limitava ao silêncio.

Talvez ainda não se sentia confortável — ou até mesmo disposta — para conversar com uma estranha sobre o infortúnio que havia passado, e Hannah não a julgava. Se fosse o contrário, também não iria querer falar sobre o assunto.

Por isso, quando Piper Mclean pediu para que ela a acompanhasse na cozinha, a ruiva não pode evitar ficar surpresa.

Enquanto as mulheres conversavam coisas — aparentemente — fúteis, os Generais discutiram sobre a atual situação do III Reich, com o Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado no início da Guerra, a Alemanha não precisava se preocupar com a União Soviética — nos primeiros momentos, afinal seria egoísmo deixar com que o resto do mundo seja contaminado pelos ratos. Aparentemente, a Guerra estava a favor deles.

No entanto, quando Jason afirmou o lema do nazismo sobre a raça ariana, Perseu não conseguiu não se lembrar de seu melhor amigo de muletas. Não sabia até que ponto o lema estava certo, mas não o questionava. Sua vida era aquela ideologia, aquele era o seu mundo e desvincular dele era extremamente complicado e desnecessário.

Lembrou das histórias que seu pai lhe contava, se os judeus tivesse feito aquele empréstimo durante 1° Grande Guerra, a Alemanha não teria sido humilhada. Da mesma forma, homossexuais, negros, deficientes e ciganos serviam apenas para contaminar um país cuja origem era extremamente virtuosa.

Ele havia sido criado assim, criado para amar a pátria acima de tudo e de todos, Hitler só estava adiantando o processo. Mas havia momentos — como naquele jantar — que todas suas concepções eram jogadas no lixo, e ele percebia que apesar dos rótulos, os ratos eram na verdade pessoas.
Respirou fundo e tentou mudar o rumo da conversa para o ramo econômico, afinal a Alemanha crescia como nunca havia crescido.

— Você conheceu a Silena Beauregard? — Jason perguntou após alguns minutos de silêncio.

Perseu sentiu um frio subir na sua espinha, sabia que Silena — quando era viva — havia descoberto seu segredo e se o loiro soubesse, provavelmente, ele seria morto.

— Somente de vista, porém não imaginava que poderia ser uma espiã. — disse olhando nos olhos do loiro, procurando algum resquício de confirmação.

— Ela teve o que mereceu. — Jason disse tentando entender o que se passava na cabeça do homem a sua frente.

Porém, o marido de Hannah não conseguiu dizer nada. Apenas assentiu se perdendo em pensamentos obscuros e na noite que havia manchado seu currículo de General.

Em outro cômodo da casa, Piper tentava se manter no papel da mulher frágil e triste que havia acabado de perder o neném, ao mesmo tempo em que reparava nos pequenos detalhes que para qualquer pessoa passariam despercebidos. Mas Piper Mclean não era qualquer pessoa.

Hannah mexia na aliança constantemente e olhava para os lados como se estivesse esperando alguém ou até mesmo algo. Hannah Neumann não era uma pessoa superficial, era extremamente complexa e não conseguia esconder tal fato. Principalmente de uma agente que nasceu em uma trincheira.

— A senhora é alemã? — Piper perguntou oferecendo um copo de água para sua vizinha.

De primeira, Hannah a encarou em um silêncio duvidoso, se limitando a pegar o copo estendido. Não que estivesse esperando que Piper fosse continuar calada, já que no momento se encontravam sozinhas, mas também não estava preparada para uma conversa direta.

— Tem um sotaque pesado — esclareceu a morena cortando algumas maçãs sobre a bancada — Algo parecido com o escocês ou britânico. — deixou escapar.

— Oh, sim — Hannah largou o copo em um canto da bancada e piscou algumas vezes para se concentrar no que diria — Morei em Londres com meus pais quando começou a crise na Alemanha. Voltei um pouco antes de estourar esta guerra.

— É um sotaque bonito. — comentou Piper — E como era morar lá? Digo, foi logo depois da Guerra de 1914. Não era estranho para os ingleses que tivessem alemães em sua terra?

Hannah concordou.

— Se não comentássemos que éramos alemães, não seria tão insuportável. Ainda havia um pouco de ressentimento por parte de alguns.

Piper virou-se para procurar por alguns ingredientes pela cozinha, trazendo-os para cima da bancada.

— Se importa em me ajudar? Não tive tempo de preparar a sobremesa.

Hannah assentiu, aliviada por estar, de algum jeito, compactuando com a vizinha. Reconheceu os ingredientes e agradeceu mentalmente por conhecer a receita do strudel. Um doce austríaco. Austríaco como aquele...

— Imagino que, por isso, tenho sido um pouco difícil criar laços por lá. — comentou a anfitriã voltando ao assunto.

— Criei laços porque cresci lá e é difícil se desapegar de alguns hábitos. Mas não há nada mais prazeroso que estar em sua nação.

— Concordo — Piper entregou-lhe uma tigela e esperou o próximo movimento da ruiva — E quanto a seus pais? Como estão?

— Infelizmente não estão mais vivos. Tiveram complicações na saúde.

— Sinto muito.

— Tudo bem, eu não me importo em responder.

"Ótimo!", pensou Piper.

A morena voltou a atenção para a massa à sua frente. Destrinchava do mesmo modo que desenrolou a conversa, aos poucos e com calma.
Ao seu lado, a ruiva misturava os ingredientes na tigela.

Algo nela ainda a intrigava. Hannah irradiava uma aura silenciosa que incomodava Piper. Sabia que a vizinha não jorraria informações sobre a vida pessoal assim, no primeiro contato mas tentaria ganhar sua confiança aos poucos. Por hora, já tinha o suficiente para o começo de uma investigação.

Continuaram a conversa com assuntos longe de guerras. Coisas triviais sobre maridos, eventos e, até mesmo, bebês — ato que deixou Hannah com as bochechas completamente coradas — mas no final, nada disso importava para Piper, o que ela queria da ruiva levaria tempo.

Sorriu para si mesma, escondendo ao máximo suas reais intenções.

— Bom, Hannah, estou lisonjeada em conhecê-la, mas ficaria ainda mais se aceitasse voltar mais vezes.

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— Tudo sob controle — ela respirou fundo mais uma vez, na tentativa de se acalmar — Está tudo sob controle.

Embora estivesse há vinte minutos repetindo isso a si mesma, nem ela acreditava mais no que dizia. Não podia mais mandar cartas para Leo e em consequência disso não podia mais atualizá-lo de sua situação na Alemanha. Era bem possível que tivesse sido dada como desaparecida — ou quem sabe, morta — depois de seis meses sem comunicação com a agência.

Considerava isso como um desastre para uma estreante no campo de ação.

Mas a situação de Annabeth era uma verdadeira balança inconstante. Ao mesmo tempo que se lamuriava por estar incomunicável para Londres, também se vangloriava por seu plano estar dando certo. Perseu estava exatamente onde ela queria que ele estivesse: no posto mais alto de seu regimento, sempre atualizado dos novos esquemas do velho demoníaco e distraído com a adorável esposa. Este último ponto, um golpe de sorte, Annabeth diria.

Era sua primeira missão, mas não significava dizer que estava morrendo de amores. A sensação de estar em campo era extasiante, a iminência de morrer, não.

Acordava todos os dias, temerosa por estar arriscando sua vida e tentando fazer alguma mísera diferença para guerra. Por isso, sempre pensava em Silena, a agente morta pelos nazistas.

Antes de ir embora, passou pela ala de condecorações dos agentes e lá estava a foto dela: cabelos escuros e ondulados, sorriso gentil e olhos azuis reluzentes que denunciavam uma jovem cheia de sonhos. Chegava a dar raiva pensar que a vida dela fora interrompida em troca de algumas informações.

"Rá! É exatamente o que estou fazendo agora", pensou a espiã, debochando da própria sorte.

Guerra é guerra. Um sorriso gentil não salva ninguém porque ninguém está a salvo da crueldade humana.

Para Annabeth, tudo girava na questão de quem ela se tornaria, caso sobrevivesse.

Existiam duas vozes que confrontavam em sua cabeça desde o momento que avistou seu alvo: a calculista, que ansiava matar Perseu e achar o diário para que pudesse voltar à Inglaterra, e a compreensiva, que esperava estar errada em relação ao general e encontrar um ponto de esperança em meio aos caos.

Naquele instante, preferiu ouvir seu lado calculista.

Decidida, rodou a adaga que estava em suas mãos, analisando cada detalhe do cabo da arma. Sabia muito bem como usá-la.

— Uma pena se você não for amigo, Perseu. Tão bonito.

Notas finais
não esqueçam de comentar ❤
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.