Rewind
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O som da chuva batendo contra a janela ecoava pelo quarto. Angelique ergueu os olhos, pensando em quantos temporais já presenciara, e como o efeito deles não mudava muito. Não importava de onde observava, era o mesmo som. E sempre a deixava pensativa. No momento, focava nisso, na estabilidade de certas coisas.
E em como outras simplesmente mudavam, e talvez até demais.
Uma estabilidade: suas memórias. E como sempre as revisitava. Bem, em parte, isso não era culpa sua. Fizeram-na reviver aquela cena mil vezes enquanto a pediam para narrá-la – “dessa vez, com a verdade, por favor”. E era sempre a verdade que ela falava, mesmo que não acreditassem.
Mas, de qualquer jeito, ao que voltava para o quarto reservado a ela naquele sanatório, ficava rememorando-a de qualquer jeito. E imaginando seu desfecho. Esperando seu desfecho. Porque aquele não poderia ser o final, não é mesmo? Mili voltaria. Sabia que ela ia voltar. Tinha que voltar.
Every day, I’m still waiting for you (Todo dia, ainda estou esperando por você)
From the day, from that place you left me (Do dia, do lugar que você me deixou)
Hoping you’ll come back again (Esperando que você volte)
I’m here with my eyes closed (Estou aqui com meus olhos fechados)
Again today, I’m rewinding (Mais uma vez hoje, estou rebobinando)
Mesmo depois de sair daquele lugar, mesmo depois de retomar sua vida, mesmo que a pergunta sobre aquele fatídico dia não fosse mais feita. Claro que a memória não vinha à tona de maneira tão frequente, mas, vez ou outra, algo aparecia e provocava sua mente, trazendo-a à tona. Nem sempre sobre aquele momento; às vezes, era algo mais casual, alguma cena do cotidiano que as duas compartilharam um dia.
No fundo, sabia que não poderia apagá-la. Era sua melhor amiga. Uma parte de seu coração sempre seria dela, sempre seria ela. Não poderia arrancá-la, não sem perder uma parte de si.
Every step I take, there are memories welled up (Todo passo que dou, há memórias se erguendo)
I try to erase you (Eu tento apagar você)
But I can’t (Mas eu não posso)
[...]
I try to turn things back (Eu tento fazer as coisas voltarem)
But I feel the same again (Mas eu sinto o mesmo de novo)
Whether I go and come back, come back and go (Onde quer que eu vá e volte)
I am you, you are me, take it all away (Eu sou você, você sou eu, leve tudo embora)
E, em um ponto, estava certa. Aquele não fora o desfecho. A vida ainda tomaria rumos imprevisíveis, e elas se encontrariam de novo.
Contudo, ao contrário da chuva e seu reconfortante som, algumas coisas mudam. Mudam muito. E nem sempre para melhor.
O fato de não estarem mais próximas, por exemplo. De inicio, fisicamente apenas, por serem de sociedades distintas. E então, a verdade: aquela separação ia bem além de mero espaço. Era uma separação de suas mentes, de seus ideias.
Emilie estava pronta para guerrear contra aqueles que lhe acolheram, que em tão pouco já tinham se tornado sua família. Pronta para possivelmente lutar contra ela. E não parecia disposta a recuar – nem mesmo considerando a possibilidade, na verdade.
You don’t even try, don’t ask me (Você nem está tentando, não me questione)
This relaxed night doesn’t suit you anymore (Essa noite calma não combina mais com você)
Talvez fosse hora de ela mudar também. Talvez fosse hora de deixar para trás aquelas memórias. Seria possível? Talvez não. Mas também nunca achara possível que ficassem em lados opostos, então talvez só não fosse boa para julgar probabilidades.
E, afinal, Emilie também não tinha feito isso? Ao menos, parecia ter feito. Talvez, apenas ela estivesse presa ao passado. Presa a imagens que não se repetiriam mais. Presa a sentimentos que não possuíam mais nenhum eco que lhes correspondesse.
Era um bom momento para parar de recordar.
Rewind that I swallow at last (Retorno que eu engulo afinal)
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