"You've become...a perfect...perfection...at last...come foward, my dear, sweet...child"

Não ouvia nada a não ser o chiado que parecia sair de alto-falantes invisíveis presentes aqui e ali. A sensação térmica era esquisita. Não era quente, não era frio. Era um nada. Sua pele estava dormente e esfregou o braço esquerdo com a mão direita, mas não obteve a sensação que queria. Dava passos, lentos e repetitivos, que iam de nenhum lugar a lugar nenhum, não parecia sair do mesmo ponto. Não que houvesse alguma diferença. O chão se estendia para todos os lados. Um asfalto cinza que não tinha fim. Sem pedras, sem arvores, sem nuvens, sem sol. Não sabia dizer onde era céu, onde era terra. Uma voz chiada cantava uma música lenta, talvez em japônes, sobre o chiado, repetindo as mesmas palavras. Tentou parar de andar algumas vezes, mas seu corpo não obedecia. Nem seu cansaço vinha. Já andava a mais de 30 minutos e nada havia mudado. Exceto as palavras. Não era mais uma música japonesa, apenas sussuros, algumas palavras aleatórias inaldíveis. Alguns violinos inham e vinham, fazendo sons estranhos, não mais de 5 segundos. Até que a mulher falou aquela palavra.

"Nine."

Uma forte névoa invadiu o local. Não que fizesse muita diferença, não havia paisagem para se admirar. Mas os passos estavam mais rápidos. Um leve formigamento passeava por seu corpo. Experimentou respirar. O ar era fedido e pesado. Tossiu, mas receber ar nos pulmões era bom. Um pouco de água saiu também. Piscou os olhos e deus mais alguns passos.

"Eight"

A névoa sumiu. Estava em um campo aberto novamente. Mas havia uma cerca. Ele podia ver o limite, mas era muito longe. Um palanque apareceu a sua frente. Um homem de terno cinza falava apaixonadamente ao microfone.

"You'll find it....the Number... the next number.... wake up... the next number is the greatest. May it serve you well."

Logo que a última palavra foi dita, uma multidão apareceu de trás do palanque e correram contra o mesmo, mas não o antigiram. Correram e correram, até atingir a cerca, se jogando contra ela, esmurrando, debatendo, mordendo.

"Seven."

O palanque continuou ali, assim como a multidão. Mas não era mais um homem ali. Era uma mulher, em um esvoaçante vestido vermelho. Uma suave brisa balançava o vestido. Mas não a sentia e se aproximou para ouvir as palavras da mulher, já que não havia mais microfone.

"Desire, my sweet child. Embrace it. Sexuality is yours. Embrace it. My sweet child."

Havia algo sobre ela. Quis tocá-la. Quis abraçá-la. Quis tê-la. A multidão atrás jão não mais se jogava contra a cerca. Eles se abraçavam e se beijavam. Alguns passavam do que se consideraria decente em público. Subiu o palanque e se ajoelhou. Seus dedos estavam quase chegando ao vestido quando ouviu a mulher pronunciar a próxima palavra.

"Six."

Olhou para um lado e para o outro. Estava seguro. Começou a atravessar a rua. O caminhão apareceu.

"Five."

Estava amarrado. E o rádio ao lado da cama estava ligado. O chiado era menor e a música japonesa estava de volta. Mas quem a cantava estava do seu lado, sussurrando em seu ouvido. Sua voz estava diferente. Havia malícia, raiva. Tentou olhar para os lados mas não viu nínguem. Estava sozinho. A sala se estendia por metros, quilômetros. Era quase como antes, mas agora era uma sala fechada. Podia ver o teto e as paredes, mas não havia saída. Se viu em uma maca, fria e dura. Fria...tão fria...

"Four."

"The Grifter, The Rake, The Beautiful White Girl, they're all here, my dear sweet child. Come and redempt your soul."

"Three."

"Two."

"A dream, have beautiful dreams, my child, let the skies burn and the heaven crumb before the true master. My sweet, my dearest child. Stay here with me forever."

"One."

Acordou suado, com um beep no monitor ao lado. Os batimentos pareciam regulares. Piscou mais algumas vezes. As cortinas brancas ao lado da cama impossibilitavam a visão de qualquer coisa fora do pequeno espaço. Uma tv mais a frente mostrava uma cantora oriental cantando músicas estranhas. A cortina da direita se abriu. Havia uma mulher com vestido esvoaçante vermelho, mas o rosto não era o mesmo de antes. Era um rosto frio, doentio. O horror crescia cada vez mais. Incapaz de olhar por mais tempo, fechou os olhos e sentiu-se girando.

"Zero, wake up, MY child."

Debatendo-se, abriu os olhos e olhou para a lâmpada logo acima. A forte luz o fez fechar os olhos novamente, mas quando os abriu estava no mesmo local. Era um hospital. Uma enfermeira logo apareceu, injetando substâncias nos tubos. Três pessoas entraram correndo no quarto, tocando, beijando e apenas olhou para eles com um ar confuso. As faixas em seus braços estavam vermelhas e quando percebeu o que acontecia fechou os olhos e chorou. Não teve tempo de perceber o homem de branco na porta, segurando um fio com 10 bolinhas nele. A décima, que era da mesma cor das vestimentas do homem, ficara negra de repente. Ele fechou os olhos, de onde caíram lágrimas, e sorriu. Se virou e saiu do hospital. Um homem de terno preto o esperava, encostado em um poste. Sorriu, um sorriso diferente, genuinamente feliz, mas igualmente presunçoso e malicioso.

"I've been waiting for you.", o homem de preto falou.

Os dois homens se abraçaram.

"Oh, how i've missed you.", continuou.

Segurou na mão do homem de branco e uma enorme cratera se abriu no meio da rua. Uma escada de alumínio conduziria a uma longa e isolada estrada cinza logo abaixo. De um lado, uma multidão enfurecida, gritando com um ser não presente através da cerca. Do outro, um palanque, em que um homem e uma mulher, bebiam, riam, xingavam, batiam, e discursavam. Os dois homens desceram e a cratera se fechou. Nesse momento, um trovão foi ouvido em todo lugar. O caos reinaria a partir de agora.

"He made the Ultimate Sacrifice."

"Zero, it's over."

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!