Revolting Child
16 Passeios, Desenhos e Doces

Violet achava que o fim de semana com os Bucket seria só diversão, mas estava um pouco enganada. Eles eram muito educados e prestativos, então, para retribuir a gentileza das Beauregarde por receberem eles, estavam sempre querendo ajudar em alguma coisa na casa. A Srta. Beauregarde insistia que eles eram visita e não precisavam fazer nada, mas mesmo assim a Sra. Bucket preparava algumas refeições, o Sr. Bucket procurava coisas para consertar e Charlie arrumava o quarto de visitas.
Então, vendo que não podia impedi-los, Scarlett resolveu que ela e Violet também deviam fazer algumas tarefas ou senão eles iam acabar fazendo tudo, e a anfitriã não podia se aproveitar assim. Para a menina, como sempre, ficaria apenas a obrigação de arrumar seu próprio quarto, que, aliás, estava um chiqueiro e Scarlett torcia para que nenhum dos Bucket tivesse passado por ele e percebido isso.
No sábado de manhã após o café, a menina estava indo em direção a ele para escolher com que roupa ia passear, quando sua mãe disse:
— Tá vendo, Violet? — Olhando na direção do quarto de hóspedes. — O Charlie também é criança e faz tudo em casa: lavou o prato dele depois do café, agora tá arrumando o quarto de visitas... Você nunca faz nada!
— Acontece, mãe, que eu não sou o Charlie!
Será que os adultos não entendem que te comparar com uma criança certinha não vai fazer você ter vontade de se comportar??? Na verdade, causa o efeito contrário: Violet estava com vontade de bagunçar o quarto ainda mais depois desse comentário da mãe!
Porém, logo em seguida, a Srta. Beauregarde conseguiu falar algo que fez Violet mudar de ideia:
— É o seguinte: você só vai sair de casa neste fim de semana depois de arrumar o quarto.
— O quê?!
— É isso mesmo. Se não fizer isso, eu levo os Bucket pra conhecer a cidade sozinha.
Violet ficou furiosa, mas não queria perder os passeios, então obedeceu. Mas podia ter sido pior: se não estivesse com o braço engessado, ia acabar tendo que lavar louça também.
O quarto estava tão bagunçado, que a menina nem sabia por onde começar. Mas tinha que terminar o mais rápido possível, então tratou logo de tirar as roupas espalhadas pelo chão, arrumar a cama e deixar todo o resto organizadinho.
Depois que terminou com o quarto de hóspedes, Charlie apareceu lá e perguntou a Violet se ela queria ajuda. A menina se voltou para ele com o sorriso mais falso do mundo e disse:
— Não precisa! Mas obrigada mesmo assim.
E revirou os olhos quando ele saiu. Afe, aquele menino era tão bonzinho que chegava a ser chato! Até que seria bom Violet receber um pouquinho de ajuda pra terminar logo, mas não estava com paciência pra fingir ser amiga de Charlie no momento, então, se ele ficasse lá, ela ia acabar se irritando com ele e estragando totalmente a sua farsa de menina legal e divertida do dia anterior. Não ia dar, precisava ficar um pouco sozinha e se concentrar no prêmio (ir pra fábrica), então conseguiria voltar a ser menina do boliche que conseguiu convencê-lo a cantar no karaokê.
E acabou dando certo, depois de terminar de arrumar o quarto, Violet já voltara a ficar animada com o passeio. E, tirando as tarefas domésticas, o fim de semana foi mesmo divertido como ela esperava que fosse. Também não foi difícil fingir ser amiga de Charlie, na verdade, foi tão fácil que às vezes ela até esquecia que estava fingindo. Isso porque o garoto não era tão sem graça quanto ela pensava. Ele podia não gostar de coisas tão radicais quanto ela, mas sempre topava experimentar coisas novas e sabia como se divertir.
Ele gostou muito da roda-gigante (que era realmente gigante!) do Centennial Olympic Park. Enquanto estavam lá, Violet ficava falando muito sobre o parque e sobre o que eles viam, mas Charlie foi além e começou a dizer que eles iam entrar nas nuvens, depois ir pro espaço, coisas assim. Ele tinha a imaginação muito fértil, e Violet, mesmo tendo achado isso meio doido, começou a entrar na onda quando fizeram uma trilha na floresta e ele inventou que aquela era uma floresta mágica e eles tiveram que lutar contra criaturas das trevas. Foi muito divertido!
Era como brincar com a Pirralha, só que melhor, porque os dois entendiam tudo o que o outro dizia. Também era mais legal do que o faz-de-conta na terapia porque, por mais que conseguisse ser espontânea lá, o Dr. River era adulto e estava trabalhando, não só brincando porque queria com ela. E também foi diferente de todas as outras trilhas que ela já havia feito, é claro.
Outros momentos em que Violet pôde perceber a criatividade de Charlie foi quando iam comer qualquer coisa. As comidas dos restaurantes e os pêssegos de Atlanta (que eram bem famosos e ele estava doido pra provar) o deixaram muito inspirado. Por mais inesperado que tivesse sido ele ganhar o convite dourado, o menino claramente tinha vocação para ser o dono da fábrica de chocolate, pois tinha muitas ideias diferentes para doces nunca vistos antes. Ele tinha ideias até para chicletes...
— Chicletes?! — Perguntou Violet, baixinho e um pouco alarmada quando o garoto disse isso a ela. Como se estivesse falando de algo proibido.
— Você ainda gosta, né? — Perguntou ele, desconfiado.
Ela hesitou um pouco, mas afirmou.
— Eu já consigo ficar sem, e não quero mais mascar o tempo todo, mas... é, eu ainda gosto.
Os adultos não ouviam quase nenhuma das conversas deles, mas é claro estavam juntos em todos os passeios. Os pais de Charlie, apesar de não estarem se divertindo tanto quanto ele, também estavam gostando de conhecer Atlanta. Um dos lugares que os três Bucket mais gostaram de visitar foi o museu do Martin Luther King, personalidade que foi tão importante para a luta de pessoas negras e pobres. Violet achou que essa parte do passeio seria meio chata, mas acabou gostando bastante também. Ela ficou pensando sobre como aquele cara era revoltado e isso era muito legal. Quem sofre injustiças tem que falar mesmo e ele falava!
Mas esse não tinha sido o único momento em que Violet havia ficado pensativa nesse fim de semana, apesar de toda a diversão. Isso porque ela ficava o tempo todo conversando com Charlie e, ao invés dessas conversas serem apenas Violet apresentando a cidade como uma guia turística ou fazendo várias perguntas sobre a fábrica de Willy Wonka, elas envolviam também as falas do garoto, que não se resumiam apenas a exclamações admiradas com a cidade e respostas básicas sobre a fábrica. Vez por outra, ele dizia alguma coisa que grudava na cabeça da menina ou fazia alguma pergunta inesperada a ela, como aquela sobre aquela sobre bullying do dia do boliche. Além disso, Violet não parava de se perguntar qual o porquê dele ter convencido o Sr. Wonka a dar novas chances às outras crianças.
Em determinado momento, enquanto estavam em casa, ela ficou curiosa pra saber como tinha sido a viagem de Charlie para a Alemanha, ao que ele respondeu que foi muito legal. Disse que conheceu os amigos de Augustus e eles eram bem legais. Violet nunca tinha se importado com o fato de não ter amigos, mas naquele momento, talvez pela primeira vez, se sentiu um pouco triste por isso. E nem entendeu o porquê... Charlie continuou falando sobre a Alemanha, mas percebeu que Violet parecia meio triste, então perguntou:
— O que foi?
— Nada... é que... você não vai poder conhecer os meus amigos.
— Ah, tudo bem. Sua mãe disse que a sua escola é longe, então eles devem morar longe também, né?
— É... é só por isso que você não vai poder conhecer eles!
Violet ficou aliviada por ele ter pensado isso. Poderia ter encerrado o assunto aí e voltado pra Alemanha, mas, por alguma razão, talvez por nunca ter sentido a necessidade de esconder que não tinha amigos, acabou adimitindo:
— Na verdade não é por isso... É porque eu não tenho amigos.
— Por que não?
— Ah, acho que você sabe... eu sou muito chata!
— Mas você tá sendo legal comigo agora — ele respondeu. — Por que não é assim com todo mundo?
"Porque você é o único que pode me ajudar a sair da escola", ela pensou. Mas não podia dizer isso, então falou:
— Não sei... — E teve uma ideia ótima pra mudar de assunto: — Ei, você quer desenhar no meu gesso?
— Quero — Charlie respondeu, sorrindo.
Violet também sorriu e foi pegar canetinhas pra ele desenhar no gesso do braço dela, como o Dr. River disse que crianças que tinham amigos faziam. Enquanto Charlie desenhava, Violet ficou o tempo todo tentando adivinhar o que era o desenho, mas as respostas do menino para os palpites dela eram sempre negativas. Quando terminou, disse que o desenho era abstrato, então não tinha como nenhum dos dois saber o que era.
— Você não disse que o desenho precisava fazer sentido — falou o menino, por fim.
E os dois deram altas gargalhadas por causa disso.
***
A mãe de Violet estava menos chata depois da chegada dos Bucket. Apesar de ter feito a menina fazer tarefas que normalmente não fazia, ela também a estava deixando fazer várias coisas que normalmente não podia, como comer doces. Desde que Violet ganhou a barra de chocolate de Charlie, sua mãe não fez nenhuma restrição alimentar a ela, o que a menina, apesar de ainda estar com raiva da mulher por outros motivos, estava achando ótimo.
Na segunda-feira, quando foi pra escola, ela até deixou a filha levar um daqueles pirulitos que têm chiclete dentro. Violet saiu do carro sorrindo enquanto desembrulhava o doce até se deparar com os portões da escola e lembrar de sua realidade horrível. Ela precisava mesmo dar um jeito de fugir de lá! Mas precisava ter paciência, seu plano estava parecendo promissor, parecia mesmo que Charlie estava mordendo a isca.
Violet foi se sentar debaixo da estátua da diretora enquanto a aula não começava e ficou chupando seu pirulito lá. O que ela queria há muitos anos era derrubar aquela coisa horrorosa, mas, como não conseguia fazer isso, aproveitou que a Trunchbull não estava pra ficar lá sentada enquanto os outros alunos entravam em forma. Além de Violet, as únicas alunas que não estavam em forma eram duas pirralhinhas que chegavam pela primeira vez e andavam em direção ao prédio. Coitadinhas! Mal sabiam o que as esperava... Era melhor avisar às novatas do terror que teriam que enfrentar naquela escola.
— AÍ, NOVATAS!
Elas se voltaram para Violet quando a garota as chamou. As duas tinham cabelo castanho e usavam o chapeuzinho cinza do uniforme da escola. Uma era branca, tinha pele pálida e rosto sardento, e a outra, apesar de também ter a pele clara, era uma asiática mestiça.
Como sempre, Violet falava com as crianças mais novas como se quisesse assustá-las, e era pra assustar mesmo, porque a Trunchbull era realmente assustadora e tudo o que a menina dizia era sem exageros. Mas Violet não foi a única: vários outros alunos apareceram para contar como seria o fim da felicidade das menininhas, que já deviam estar bem assustadas. Pra piorar, apareceram os delegados, liderados por Cornelia Prinzmetal, marchando e ensinando como elas deviam se portar. Os outros alunos marcharam para dentro do prédio enquanto os delegados continuavam a instrução militar com as alunas no pátio até levarem as duas pra conhecerem a parte interna da escola.
Violet sempre se recusava a marchar, portanto, quando os outros entraram, ela tomou outro caminho para poder entrar na sala ainda com seu pirulito. Por conta da chegada das novatas, nem a diretora nem os delegados estavam dando atenção a ela, que podia voltar para as suas pequenas malandragens dos anos anteriores. No caminho, se deparou novamente com as pirralhinhas, que estavam sendo apressadas pela Dona Honey, uma professora das crianças mais novas, para entrarem na sala dela. Violet aproveitou para fazer um último terrorismozinho, falando sobre a Ed. Fis., e a porta da sala dos pequenos foi fechada.
Violet nunca tinha tido aula com a Dona Honey, mas sabia quem ela era pois era a professora mais fácil de diferenciar, já que era a única mais nova. Ela era negra e muito bonita, mas estava sempre com cara de assustada, que nem a maioria dos alunos. Porém, para os alunos que tinham aula com a professora, ela era totalmente diferente: estava sempre alegre e suas aulas eram bem divertidas, mas só conseguia agir assim se a Dona Trunchbull não estivesse por perto.
Enfim, Violet conseguiu chegar tranquilamente em sua sala desviando das câmeras pra diretora não ver que ela estava atrasada. E também conseguiu passar despercebida enquanto entrava porque a professora estava ocupada dando bronca em Alice, uma menina que chegava atrasada quase todo dia. Ela tinha olhos castanhos, cabelo grande, loiro e ondulado e seu lugar era à direita de Violet. Porém, nem a própria Alice quando foi se sentar percebeu que a colega ao lado havia chegado depois dela, de tão nervosa que estava.
Até que foi um início de manhã emocionante, mas depois que o pirulito acabou e Violet jogou o chiclete fora, ficou bem entediada. Por conta da chegada das alunas novas, Trunchbull e os delegados não estavam mais prestando tanta atenção nela quanto antes, o que era ótimo, pois assim poderia executar seu plano de vingança sem ser perturbada. Porém, por incrível que pareça, a garota não conseguia pensar nisso. Além de estar sem ideias no momento, ela não parava de pensar no último fim de semana.
Fazia tanto tempo que não se divertia antes de Charlie chegar! Mas não era só nos passeios que estava pensando, estava sentindo falta do garoto também. Ela só queria fingir ser amiga dele pra ir pra fábrica, mas, sem perceber, acabou gostando de verdade de ficar com ele. Será que ele estava tão entediado quanto ela naquele momento? O que será que estaria fazendo? Ele tinha tanta sorte de não ir pra escola... Violet não via a hora de chegar em casa!
***
Scarlett não estava convencida de que a ideia de incentivar Violet a fazer amigos estivesse funcionando. Ela tinha muitos motivos pra acreditar que Violet estava mesmo fazendo amizade com Charlie (até os pais do garoto acreditavam nisso!), porém, conhecendo a filha que tinha, também tinha muitos motivos para duvidar.
A Srta. Beauregarde costumava identificar quando Violet estava sendo espontânea ou não e, sinceramente, achava que o único motivo para a menina estar sendo legal com Charlie eram os passeios e os doces. Sendo assim, depois que o garoto fosse embora, ela provavelmente não faria amizade com outras crianças, a não ser que também pudesse passear e comer besteira com elas, o que, obviamente, Scarlett não deixaria acontecer com frequência...
A mulher ficou pensando nisso durante todo o caminho enquanto ia para a Crunchem Hall buscar a filha da escola. Quando chegou lá, a menina entrou no carro rapidamente, parecia ansiosa. Mas não de um jeito ruim, estava quase demonstrando animação. E Scarlett até já imaginava o porquê...
— A gente vai pra algum lugar com os Bucket hoje?
E a pergunta da menina confirmou sua suspeita.
— Eu não planejei nada por enquanto. Dia de semana é mais difícil, as coisas são mais corridas...
Elas ficaram em silêncio por um tempo. Isso definitivamente era bem melhor do que quando brigavam! Mas Scarlett estava tão incomodada com a atitude interesseira de Violet, que achava que devia falar alguma coisa sobre isso, só não sabia como...
— O que o Charlie ficou fazendo enquanto eu tava na escola?
A pergunta da menina interrompeu os pensamentos da mãe e a deixou surpresa, pois estava parecendo que Violet não estava só interessada em bater perna como ela pensava. Um pouco mais otimista em relação às atitudes recentes da filha, Scarlett respondeu que Charlie havia se oferecido pra ajudar a limpar a casa e encontrado a pasta de desenhos de desenhos da menina.
— Ele perguntou se podia ver e eu deixei, então, se isso te deixar com raiva, reclame comigo, não com ele!
Isso não deixou a menina com raiva, muito pelo contrário! Agora ela estava curiosa pra saber o que Charlie tinha achado de seus desenhos. Será que ele tinha gostado? Tomara que sim!
Sem perceber, Violet estava quase sorrindo ao pensar nessas coisas. Na verdade, teria sorrido se sua mãe não estivesse perto. É que, inconscientemente, ela reprimia qualquer sentimento que não fosse a raiva quando estava sozinha com a mãe.
Mesmo assim, Scarlett percebeu que a filha parecia feliz e agora tinha certeza de que isso não tinha nada a ver com os passeios. Pelo jeito, essa história de amizade estava mesmo dando certo. Isso acabou fazendo a mulher se sentir feliz também.
— Você gostou que o Charlie tenha vindo pra cá, né? — Perguntou à filha, sorrindo.
Na mesma hora, Violet fechou a cara e disse:
— Pode até ser... Mas eu ainda tô com raiva de você! Não pela pasta de desenhos, por outra coisa, você sabe o quê...
— Porque eu te fiz arrumar o quarto?
— Não, é muito pior que isso!
— Ah... porque eu não te tirei da escola.
— Exatamente.
E as duas voltaram a ficar em silêncio. Mas Violet não queria pensar na escola agora, afinal, já tinha um plano pra sair de lá. Quer dizer, quase... Ela ainda não tinha pensado em todos os detalhes do plano, teria que elaborar melhor, mas talvez fosse mais fácil depois que contasse a Charlie e ele a ajudasse. Só que ela não queria falar disso com ele ainda, só queria pensar em alguma coisa legal pra brincar, porque hoje provavelmente sua mãe não ia poder levá-los pra sair. Ela estava trabalhando de casa naquela semana por causa das visitas, mas, de qualquer forma, ainda estava trabalhando.
Chegando em casa, Violet saiu do carro correndo feito doida e não escondeu mais felicidade nenhuma quando viu que Charlie estava esperando na sala de estar, foi direto dar um abraço nele. Ele pareceu surpreso com o gesto dela, mas retribuiu.
— Aconteceu alguma coisa hoje na sua escola? — Perguntou Charlie como se essa fosse a explicação pra Violet estar tão feliz.
— Ah, não, foi chato como sempre, eu tava doida pra voltar pra cá! — Ela respondeu, com um sorriso orelha a orelha.
Charlie ficou um pouco confuso, mas sorriu também e depois foi com ela pegar a pasta de desenhos que tinha achado.
Era como se a Srta. Beauregarde nem tivesse passado por eles! Mas ela não se incomodou, estava realmente feliz pelas crianças estarem se dando bem. Só tinha receio de que, por conta de todo aquele ódio que Violet tinha da escola, a menina continuasse sem fazer amigos lá... Scarlett realmente não sabia como lidar com esse assunto da escola! Talvez depois que os Bucket fossem embora, tentasse novamente conversar com a filha sobre isso...
A pasta de Violet estava sobre a mesa da cozinha e os desenhos todos espalhados por cima. Charlie tinha gostado muito deles, até porque também gostava de desenhar, o que Violet adorou saber! Ele tinha gostado principalmente de um desenho que ela tinha feito da Fantástica Fábrica de Chocolate.
— Eu fiz na época do concurso, quando tava tentando achar o convite — ela disse o contexto.
— Que legal! Naquela época eu terminei de fazer... quer dizer, foi um pouco antes na verdade que eu terminei a minha escultura da fábrica...
— Escultura? — Perguntou a menina, com surpresa e curiosidade.
— Era de tampinhas de pasta de dente.
— Como assim?
Então Charlie explicou que antes seu pai trabalhava numa fábrica de pastas de dente e que, desde que começara a trabalhar, o que tinha sido muitos anos antes, trazia pra casa as tampinhas com defeito porque sabia que Charlie veria algo de interessante nelas, então, como eram brancas que nem a fábrica do Willy Wonka por fora, ele resolveu fazer uma escultura dela. Levou anos até ficar pronta, mas ele conseguiu terminar, pouco antes de começar o concurso.
— Nossa! — Violet estava muito impressionada. — Isso é muito legal!
Charlie sorriu e voltou a olhar os desenhos. Era incrível como ele tinha acabado de dizer uma coisa impressionante que fez como se não fosse nada de mais! Como alguém podia ser tão humilde assim? Violet queria muito ver essa escultura algum dia! O mais doido é que, pelo que parecia, Charlie sempre tinha se interessado pela fábrica do Sr. Wonka, muito antes do concurso... Era como se, mesmo sem saber que algum dia isso seria possível, ele sempre tivesse querido trabalhar lá... Violet não ligava muito pra fábrica antes do concurso, quer dizer, ela comia os doces Wonka de vez em quando, mas só na época dos convites dourados ficou obcecada pelos chocolates e, bom, fez aquele desenho.
De repente, a menina se lembrou do que o Dr. River disse a ela na terapia depois que ela ficou com raiva por Charlie ter ganhado a fábrica. Ele perguntou se ela já quis ter uma fábrica de doces na vida e perguntou se ela não achava melhor que as vitórias dela tivessem mais a ver com seus objetivos. Será que o que Violet estava fazendo agora era certo? Não parecia justo Charlie dividir o prêmio com uma garota que não tinha nem de longe tanto interesse pela fábrica quanto ele... Mas o que mais ela podia fazer? Não podia mais ser atleta, porque sua mãe tinha dito que ela só voltaria a praticar esportes se se comportasse até o dia 1° de fevereiro do ano seguinte e Violet não se comportava mais desde o início de setembro. Além disso, se não fosse pra fábrica teria que continuar na Crunchem Hall, então não importa o que o Dr. River falou e não importa se foi Charlie quem ganhou, ela tinha que ir pra lá! E quer saber? Não estava fazendo nada de errado, pois foi o próprio campeão que resolveu dividir o prêmio, ela não obrigou ele nem nada do tipo! E enfim, essa podia não ser a carreira dos sonhos dela, mas não deixava de ser muito interessante. Além disso, a fábrica era muito legal e Violet queria voltar lá, só que tomando cuidado pra não experimentar nenhum chiclete com defeito, claro...
— Eu achei esse aqui muito bom! — Disse Charlie sobre um dos desenhos de Violet. — Só não entendi direito o que é... Esse lugar existe de verdade ou você inventou?
Violet havia ficado tão perdida em pensamentos, que nem estava mais prestando atenção nos desenhos, então não sabia de qual Charlie estava falando, mas com certeza devia ser um lugar que existia de verdade, porque Violet sempre desenhava só o que via, nunca inventava nada. A menina foi ver qual era o desenho que Charlie tinha na mão e, imediatamente, tomou dele com força.
— Isso não é nada! — Disse, alarmada.
Era um desenho daquela construção de madeira horrorosa no meio da floresta, também conhecida como Sufoco. Violet não sabia por que tinha desenhado aquilo se odiava tanto aquele lugar. Tinha sido no ano anterior ou talvez no retrasado, depois que teve um pesadelo em forma de memória com sua primeira noite lá...
Obviamente, Charlie estranhou a reação da menina. Imediatamente ela mudou de assunto e disse que teve uma ideia:
— Vou fazer um desenho pra você. Você quer?
Charlie disse que sim e Violet ficou animada de novo, falou que ia buscar lápis e papel em seu quarto e já voltava. Ao chegar lá, largou a mochila no chão (como sempre) e depois amassou muito bem amassado o desenho do Sufoco e o jogou em direção à lixeira. Ele não caiu dentro do lixo exatamente, mas a menina não percebeu, estava com pressa para voltar lá pra baixo.
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