Revolting Child

19 Chuva de Confissões


Violet passou a noite inteira chorando. Demorou muito para dormir, mas, quando aconteceu, continuou chorando em seus pesadelos. É difícil dizer exatamente quais dos pensamentos que teve naquela noite foram enquanto estava acordada e quais foram enquanto dormia. Estava com raiva de sua mãe e com raiva de Charlie, mas sabia que o que o menino disse era verdade: ela estava mesmo com medo, com muito medo! De lidar com sua mãe e de enfrentar sua escola. Ela tinha medo da Trunchbull e tinha medo do Sufoco. E ela que era uma péssima amiga, não Charlie! Ela não sabia como ser uma boa amiga e, pra falar a verdade, nem merecia ter amigos, porque era péssima! Quando as pessoas eram legais com ela, ela só as tratava mal, não sabia como tratar os outros bem. Era uma pessoa horrível e merecia ficar sozinha! E quanto mais pensava nessas coisas, mais chorava. Depois, começou a pensar em várias outras e chorar por elas também: lembrou de quando virou amora na fábrica; pensou em seu pai; pensou numa competição aleatória que participou quando tinha 9 anos e ficou 5° lugar, deixando sua mãe decepcionada por não ter conseguido nenhuma medalha; pensou em como não conseguia mais confiar na mãe depois que foi rematriculada na Crunchem Hall... Enfim, naquela noite, foi como se chorasse tudo que deixou de chorar nos últimos 3 anos. Violet não tinha noção de como era possível sair tanta água de seus olhos de uma só vez! Suas lágrimas deixaram o travesseiro todo encharcado e seus olhos ardiam muito por causa das inúmeras tentativas de secá-las em vão.

A menina só teve certeza de que não estava mais chorando quando acordou na manhã seguinte. Estava morrendo de dor de cabeça e com os olhos ardendo, só que agora eles também estavam cheios de remela. Ela não se olhou no espelho de imediato, mas se tivesse feito isso veria que estavam inchados e vermelhos. Pouco tempo depois, ouviu uma batida na porta. Era sua mãe indo acordá-la para se arrumar para a escola e tomar café da manhã, coisas que Violet não tinha a menor vontade de fazer no momento. Ela não queria fazer nada, só continuar deitada.

— Filha, abre a porta! — Disse a Srta. Beauregarde, tentando abrir em vão a porta trancada.

— Eu não posso ir pra escola hoje, tô passando mal! — Disse a menina, limpando os olhos com as mãos.

— O que você tem? — Perguntou a mãe, preocupada.

— Dor de cabeça.

— Tudo bem, não precisa ir pra escola então. Quer que eu traga o seu café da manhã?

— Eu não tô com fome!

— Mas você precisa comer, filha! Talvez se sinta melhor... Abre a porta pra gente conversar? Eu quero entender o que tá acontecendo, quero te ouvir!

"Ah, tá, como se ela se importasse com o que eu digo...", pensou a menina.

— Vai embora, eu não quero falar com você!

Scarlett não sabia o que fazer. Ao contrário do que a filha pensava, ela queria, sim, escutá-la desta vez. Preocupada, desceu para a cozinha. Pensou em tomar o próprio café da manhã e depois tentar novamente levar o da filha.

A Srta. Beauregarde não queria que algo assim acontecesse justo quando elas tinham visita em casa, porém não estava tentando fingir que não havia nada de errado. Na noite anterior, até havia pedido desculpa para os Bucket pelo comportamento da filha e estava com vergonha por ele, porém, muito mais do que isso, estava preocupada com a menina.

E não era só ela: assim que chegaram para o café da manhã, todos os membros da família Bucket perguntaram se Violet estava bem e acharam preocupante ela estar se sentindo mal e não querer comer.

— Será que eu posso falar com ela? — Perguntou o garoto à mãe da menina. — Posso tentar convencer ela a tomar café da manhã...

A Srta. Beauregarde achou um amor o pedido do menino, mas não tinha muita fé que ia dar certo, pois Violet era muito teimosa e demorava pra querer comer quando não estava se sentindo bem. Porém, a mãe da menina concordou apesar de tudo. Não custava nada tentar, né?...

— Eu já disse que não quero comer nem falar com você! — Exclamou Violet ao ouvir batidas em sua porta, pensando que era sua mãe novamente.

— Violet? Sou eu, Charlie! Posso entrar?

Violet ficou muito surpresa, não esperava que ele fosse querer falar com ela depois de como o havia tratado. Por que será que estava lá? O que será que queria dizer a ela? A menina estava confusa, curiosa e ainda se sentindo muito culpada. Não sabia bem o que fazer, mas achou que precisava ver Charlie antes que ele fosse embora, então disse:

— Espera!

Se levantou, foi pro espelho arrumar um pouco o cabelo e ficar mais apresentável, destrancou a porta, deitou na cama novamente, se cobriu com o cobertor e disse:

— Pode entrar!

O menino entrou devagar, fechou a porta e perguntou como Violet estava. Ela não respondeu. Ele se sentou numa cadeira (o que mostrava que não pretendia sair de lá sem falar com a menina) e disse que a mãe dela estava preocupada porque ela não queria tomar café da manhã, ao que Violet respondeu:

— Ah, então foi ela que te mandou aqui?

— Não, eu que quis vir. Pra te chamar pro café e também... te pedir desculpa.

— Pelo quê? — Perguntou Violet, confusa, se sentando na cama.

— Eu pensei muito no que você disse ontem e você tinha razão, eu não fui um bom amigo. Eu entendo como é difícil pra você estudar naquela escola... quer dizer, eu acho que não dá pra eu entender totalmente porque eu nunca passei por nada assim, mas pelo que você me contou e pelo que eu vi ontem... eu imagino que seja muito ruim! Mas eu sempre quero fazer o que é certo... e eu achava que dava pra ficar tudo bem com você sem que você precisasse fazer nada escondida da sua mãe, mas... acho que as coisas são mais complicadas do que eu pensava... Então eu tomei uma decisão: eu vou te ajudar.

Violet não estava acreditando no que tinha acabado de ouvir! No final das contas tinha mesmo conseguido fazer Charlie se sentir mal com aquela conversa de ontem, na qual só o atacou pra se defender, além de tê-lo manipulado fingindo ser sua amiga todo esse tempo... Mas isso não estava certo! Apesar de ter conseguido tudo o que queria desde que recebera aquele convite dourado, Violet não podia continuar enganando Charlie assim, ele precisava saber a verdade. Precisava saber quem ela era de verdade e que não era sua amiga coisa nenhuma:

— Você é muito burro mesmo! Eu nunca fui sua amiga de verdade, eu tava fingindo o tempo todo porque eu achei que você era muito bonzinho e ingênuo e ia me ajudar a fugir pra fábrica se eu pedisse. Quando você recusou, eu achei que a minha primeira impressão sobre você tava errada, mas, pelo jeito, você é tão bobo quanto eu pensava!

Charlie ficou em choque. E muito triste, dava até pena de ver a carinha dele... Mas Violet teve que dizer a verdade e, dessa vez, não estava arrependida pelo que disse.

— Então eu acho que a minha primeira impressão sobre você também tava certa... — Disse o garoto depois que finalmente conseguiu falar.

Violet era má. Era o que Charlie pensava dela quando se conheceram, mas tinha mudado de opinião desde que se reencontraram. Porém, depois do impacto do que ouviu sobre a farsa da garota e de afirmar que sua primeira impressão sobre ela estava correta, ele começou a pensar um pouco. Então olhou pra ela e disse:

— Na verdade, não. Você mudou e eu sei disso, eu soube antes de entregar o convite. Você pode até achar que eu sou ingênuo, e talvez eu seja um pouco, mas eu consigo perceber algumas coisas. E eu sei que você não tava fingindo o tempo todo! A prova disso é que, se você não fosse minha amiga, não ia ter contado a verdade agora.

Charlie falou tudo com muita segurança e, dessa vez, foi a menina que ficou chocada. Ela ficou sem palavras (e olha que era difícil Violet não ter o que dizer!).

— Agora eu acho que você devia descer e tomar café da manhã, porque a sua mãe tá preocupada. Você vai?

— Tá... daqui a pouco eu vou — a menina concordou, ainda atônita.

***

Apesar de Violet ter concordado em tomar café da manhã, Charlie não tinha certeza se ela ia descer mesmo, então avisou à Srta. Beauregarde que era melhor ela tentar falar novamente com a filha depois de um tempo caso ela não aparecesse. Scarlett ficou tão grata ao garoto, que mesmo se Violet mudasse de ideia, já estava achando um milagre ele ter conseguido convencê-la.

A dona da casa achou melhor que as visitas comessem logo, já que teriam que pegar o avião em poucas horas, e tomou café da manhã junto com eles. Se Violet não aparecesse, ela falaria com a filha só depois do café.

A menina demorou, mas apareceu sem ninguém precisar chamá-la novamente. Todos já estavam terminando o café da manhã e indo lavar os pratos quando aconteceu. Violet não era de ficar tímida, mas estava muito envergonhada naquele momento. Isso porque ela estava prestes a fazer uma coisa que realmente não estava acostumada a fazer: pedir desculpa.

A menina ficou surpresa em ver que todos pareciam felizes em vê-la, perguntando se ela estava se sentindo melhor e o que queria comer. Isso a fez se sentir um pouco mais à vontade, mas mesmo assim ela sabia que tinha que pedir desculpa e foi o que fez. Ela estava acostumada a brigar com a mãe, inclusive em público, mas sabia que tinha sido feio fazer isso com visita em casa. Na verdade, sabia que era feio brigar com a mãe em qualquer momento, mas não conseguia evitar. E, como se não bastasse, não era só com a mãe que tinha brigado, era com um dos visitantes também... Enfim, obviamente Violet não disse todas essas coisas, apenas que queria se desculpar por seu comportamento na noite anterior e eles entenderam e a desculparam.

Ela se sentiu bem com isso, mas ainda precisava dizer mais uma coisa. E estava com um pouco de medo, principalmente da reação de sua mãe:

— Será que... eu posso ir pro aeroporto com vocês? Pra me despedir... — Então olhou para a mãe e disse: — A minha dor de cabeça passou e já tá muito tarde pra eu ir pra escola... então não tem problema, né?

Para os Bucket, não tinha o menor problema e para a Srta. Beauregarde também não, então estava decidido: os 5 iriam ao aeroporto juntos. A menina ficou muito aliviada! E finalmente pôde comer suas panquecas sem nenhuma preocupação. Quer dizer, quase nenhuma... Ainda precisava falar com Charlie e o que queria dizer era muito importante. E muito difícil de se dizer. O menino imaginou que ela quisesse falar sobre a fuga secreta, então, já que ele e os adultos já tinham terminado o café da manhã, ele disse que faria companhia a Violet enquanto ela comia. Os pais do menino precisavam preparar as últimas coisas pra viagem, então se retiraram, mas Scarlett continuou lá e parecia que não queria sair. E agora?

Bom, Violet não podia falar com ela ali, então teve que expulsá-la. Calma, ela não foi grossa como sempre, só disse que precisava falar sozinha com o Charlie e a mãe entendeu e deu privacidade a eles. Na verdade, a Srta. Beauregarde estava bem aliviada com a maneira como a filha estava agindo naquele momento, então imaginava que ela queria se resolver com o garoto por seja lá o que tivesse acontecido ontem, o que era um bom sinal.

Quando a mulher saiu e Violet finalmente pôde falar, o que Charlie ouviu não foi um plano de fuga, mas um outro pedido de desculpa. Ela já tinha se desculpado com todos, mas precisava se desculpar especificamente com ele.

— Eu não devia ter gritado com você ontem... E sobre as coisas que eu disse hoje... bom... eu disse a verdade quando falei que fingi ser sua amiga só pra você me levar pra fábrica. Esse era o meu plano no começo e eu até achei que ia ser difícil fingir, mas foi tão fácil, que depois eu parei de fingir. Eu gostei de ser sua amiga, de verdade! E eu não acho que você é um péssimo amigo, muito pelo contrário, eu acho que você é bom até demais! Eu só disse isso ontem porque... primeiro porque você não concordou com o meu plano e segundo porque disse que eu tava com medo. E o pior de tudo é que... era verdade, eu tava mesmo com medo... e eu não queria que ninguém soubesse! Mas você percebeu e isso me deixou com muita raiva.

— E agora? Como você tá?

Ela suspirou e disse:

— Eu não tô mais com raiva. Acho que não dá pra passar muito tempo com raiva de você... E também, eu entendi que... não posso mais fingir que não tenho medo de nada.

— É, você não precisa fingir. Na verdade, eu acho que admitir que tem medo é bem mais corajoso do que fingir que não tem!

— Não sei, eu tô me sentindo muito estranha com isso... mas acho que não posso mais ficar fugindo dos meus problemas.

— Então... você não quer mais ir pra fábrica?

— Eu vou tentar falar com a minha mãe, como você sugeriu. Mas eu não vou pedir de novo pra ela deixar eu ir pra fábrica, vou contar sobre a minha escola. Eu não sei se ela vai acreditar, mas... eu preciso tentar de novo. Eu queria muito ir pra fábrica, mas eu pensei melhor e... não sei se é o lugar certo pra mim. Além disso, foi muito legal você dividir o seu prêmio, mas quem ganhou foi você e você mereceu isso. Diferente de mim...

Charlie estava tão impressionado que nem sabia o que dizer.

— Você mudou muito mesmo! — Ele falou, por fim. — Eu queria muito que você fosse... e já expliquei por que dividi o prêmio, mas se você quer mesmo ficar pra se resolver com a sua mãe, eu entendo. Eu só queria poder te ajudar mais...

— Você já ajudou muito, sério! Acreditando em mim e sendo o meu primeiro amigo de verdade. Eu vou sentir saudade de você...

— Eu também...

— A gente precisa manter contato!

— Com certeza! Depois eu quero que você me conte tudo sobre a conversa com a sua mãe e a escola.

— Fechado! E você tem que me contar sobre as suas viagens. Se bem que... Você vai pra casa da Veruca agora?

— Não, pra do Mike Teavee, já que ele também mora aqui nos Estados Unidos.

— Ah, é verdade...

— A Veruca mora no mesmo país que eu, mas os pais dela acharam melhor eu só fazer a visita nas férias de inverno por causa da escola.

— Uhn... pois eu acho que você não devia ir.

— Por quê?

— Porque... porque ela é muito chata, você não vai aguentar!

Olha quem fala, né?

— Mas ela caiu num monte de lixo, eu preciso ver se ela tá bem...

— Então você é legal assim com tooodo mundo?...

Charlie não estava entendo muito bem as perguntas de Violet, mas deu a seguinte resposta à menina:

— Você também é muito legal quando quer.

Ela começou a rir e ele também. Mas enfim, independentemente da antipatia de Violet por Veruca, Charlie continuaria mantendo contato com a primeira e visitaria a segunda. E depois ele disse que, já que Violet não ia morar na fábrica, ela estava convidada para visitá-lo algum dia se pudesse, o que a menina achou uma ótima ideia, mas antes precisava mesmo se resolver com sua mãe pra saber se seria possível.

***

Chovia muito quando as Beauregarde e os Bucket foram para o aeroporto. Como se não bastasse Violet ter passado a noite inteira chorando, a menina tinha a impressão de que a qualquer momento aquele clima a faria chorar novamente. Despedidas são naturalmente tristes e, ainda que Charlie só tivesse passado uma semana em Atlanta, as crianças acabaram criando um vínculo muito grande nesse período. Violet ia sentir muita saudade dele!

Antes de os Bucket entrarem na sala de embarque, os dois se abraçaram pela última vez e Violet quase não conseguiu soltar o amigo quando ele disse:

— Pode contar comigo pro que precisar, tá?

Mas ela precisou soltá-lo. Sabia que tinha feito a coisa certa ao decidir ficar, apesar de ser mais difícil. Enquanto Violet olhava triste para a sala de embarque, sua mãe colocou um dos braços em volta dela. Naquele momento, parecia que a Srta. Beauregarde entendia e sentia empatia pelos sentimentos da filha. Mas será que seria assim quando Violet falasse novamente sobre a escola com ela?

Antes de sair do campo de visão das garotas, Charlie acenou uma última vez pra Violet, que acenou de volta. Depois disso, as Beauregarde saíram do aeroporto.

A menina tentou segurar o choro durante todo o caminho pra casa. Scarlett queria falar com a filha, mas, como sempre, não sabia como. Então ficou pensando no que dizer enquanto estavam no carro. Achou que Violet estava triste pela partida de Charlie e queria consolá-la, mas dizer que, apesar dele ter ido embora, ela podia fazer outros amigos agora. E também ia dizer que estava muito orgulhosa pela atitude da filha ao se desculpar com todos e por ter sido legal com as visitas a maior parte do tempo. Era isso que a Srta. Beauregarde iria dizer.

Porém, ela não esperava que Violet, ao invés de estar apenas triste pelo amigo que foi embora, também estivesse pensando em várias coisas para dizer à mãe. E, assim que chegaram em casa, a menina não aguentou mais conter as lágrimas e elas desceram como a chuva que caía do céu.

— Violet?! — Exclamou a Srta. Beauregarde, surpresa, e se esquecendo totalmente de tudo o que tinha pensado em dizer. — Você tá chorando???

— Sim. E não é a primeira vez. Eu também chorei ontem, a noite inteira!

Scarlett estava tão impressionada e emocionada, que ficou sem reação. Por um lado era bom que sua filha finalmente tivesse conseguido chorar, mas, por outro, ela tinha uma expressão tão grande de desespero, que deixou a mãe preocupada.

— Eu tentei fugir, de novo. — Disse a menina.

— O quê?!

— Foi por isso que eu briguei com o Charlie ontem. Eu queria que ele me levasse escondido pra fábrica e ele não aceitou. Eu sei que eu tava errada e eu já mudei de ideia, mas... eu preciso que você... me ouça e tente me entender.

Assim, Violet começou a contar tudo o que acontecia na escola. Não só as vezes em que foi pro Sufoco e quando a diretora quebrou seu braço, mas várias coisas que presenciou a Trunchbull fazer ao longo dos anos.

— E é por isso que eu preciso sair de lá, não me faz ficar, por favor! — Disse a menina, por fim, abraçando a mãe fortemente.

Scarlett ficou desnorteada. Por mais que as histórias que a menina tivesse acabado de contar fossem muito absurdas, ela não podia ignorar o quanto a filha estava sofrendo.

— Eu acredito em você, filha.

— É sério??? — Perguntou a menina, olhando pra ela.

A verdade é que Scarlett não tinha certeza se aquelas coisas haviam mesmo acontecido, mas tinha certeza de que Violet estava sendo sincera. Tinha certeza de que ela acreditava mesmo no que estava dizendo.

— Me desculpa por achar que você tava mentindo o tempo todo... Eu devia ter confiado em você!

— Eu não queria ter ficado com raiva de você de novo depois das férias, mas é que... foi tudo tão difícil!

— Eu entendo, filha... Teria sido mais fácil se eu simplesmente tivesse te ouvido, né?

— Então... você me perdoa pelo jeito como eu agi?

— Bom, você já pediu desculpa hoje mesmo e é claro que perdoo! Eu me lembro como você ficou nas férias, você tava se esforçando tanto pra se comportar... e eu estraguei tudo. Mas agora... eu tomei uma decisão: vou te matricular em outra escola.

Violet ficou tão feliz, que... continuou a chorar. Mas desta vez de alegria. E a mãe começou a chorar também, de emoção por ver sua filha finalmente chorando, de tristeza pelo tanto que ela devia ter sofrido todos aqueles anos na escola e por ter demorado tanto a acreditar na bichinha.

Depois que o choro diminuiu, a Srta. Beauregarde achou necessário reafirmar algo que não dizia há certo tempo: que sua filha era muito especial. E isso fez Violet entender uma coisa muito importante sobre si mesma.

Enquanto chorava na noite passada, ela não tinha parado de pensar em como era uma pessoa horrível, mas isso não era verdade. Ela não era horrível, não era má, não era revoltante. Ela só ficava muito revoltada com certas coisas em sua vida, então descontava nos outros. E tinha defeitos como todo mundo, mas tinha qualidades também. Charlie disse que ela conseguia ser legal quando queria e isso era verdade, principalmente quando as pessoas acreditavam nela e a entendiam. Assim, Violet começou a se sentir muito leve e acreditou que poderia finalmente ser feliz de verdade. E, depois de um tempo, finalmente a chuva parou.