Revivendo o Passado - HIATUS
1 Prólogo
- Não mamãe, as coisas não deveriam ser assim! – eu estava atirada na minha cama, abraçando fortemente Sulyn Pink meu hipopótamo cor de rosa, enquanto molhava todo o tecido suave do meu travesseiro com minhas lágrimas.
- Querida, você não pode impedir as coisas de acontecerem. – minha amável mãe afagava minhas costas e meus cabelos. Eu conseguia notar pela sua voz que ela também estava muito triste com tudo aquilo que estava acontecendo.
Nós tínhamos recém voltado do velório do meu namorado. Ou melhor, ex-namorado. Meu coração que há tanto tempo já não se sentia assim, tornava outra vez a se quebrar. E dessa vez eu não tinha bem certeza se conseguiria concertá-lo da devida maneira. Eu estava toda encolhida na cama, com os pés cheios de lama,e as roupas meramente molhadas. Soltando um longo suspiro, minha mãe levantou,tirou meu calçado, pegou uma coberta fina e deitou-se do meu lado, cobrindo a nós duas. Aquele momento já havia se repetido varias vezes comigo, então ela já sabia tudo o que tinha que fazer. Era sempre ela e Sulyn Pink que me acolhiam quando algo acontecia.
- Eu sinto muito novamente minha filha. – aconcheguei-me em seus braços, e ela descansou a bochecha na minha cabeça.
- Eu sei mamãe, eu sei. Mas é difícil passar por tudo isso novamente.
- Meu amor, você não está passando por isso novamente. É a primeira vez que lhe acontece.
- Eu sei. Mas de uma forma ou de outra eu o perdi. Eu “os” perdi. E eles se foram de maneiras tão diferentes, que é difícil de acreditar que isso pode acontecer com uma pessoa só.
Na verdade não é tão difícil acontecer tudo isso com uma pessoa só, pois acontecia comigo. O que é realmente difícil é acreditar naquilo, que eu nada podia fazer, ou que estava previsto para ser assim. Seria possível, ou até mesmo permissível que uma única pessoa, sofresse tanto, a ponto de não agüentar mais? Eu era crente em Deus, freqüentava a igreja semanalmente, rezava e pedia todos os dias primeiramente proteção a meus familiares e entes queridos, e depois a mim. Seria esse o meu erro? Eu deveria pedir antes para mim e depois para os outros, apenas para não sofrer? Não, não podia ser isso.
- Nessie, você já passou por essa dor antes, foram quantas vezes exatamente?
- Foram três, mãe, quatro com esse último acidente.
- Então minha flor, não há o que temer. Você é forte, esperta e tem um futuro maravilhoso pela frente.
- Como você tem tanta certeza disso? Só porque sua vida foi perfeita, e a da vovó também foi.
- Não fale assim! – sussurrei um desculpe – Eu apenas sei. É sexto sentido de mãe, e de mulher.
- Então porque o meu sexto sentido não funciona? – eu começava novamente a chorar, só que dessa vez molhando a blusa de minha mãe.
- Como assim ele não funciona?
Com raiva de mim mesma, por ser tão sentimental e burra, sentei-me na cama e comecei a despejar tudo encima dela.
- Porque eu sempre sou atraída para esses desastres? Parece que eu não sei escolher um cara que não vá me dar problema. Todos eles até hoje só me fizeram chorar. Eu mal estou me recuperando de um, e o outro arranja um jeito de me deixar. Sendo terminando comigo, indo morar em outra cidade, morrendo, e até me trocando por um homem. Não acredito que isso seja obra do destino, ou eu sou muito azarada, ou eu sou muito azarada. Só pode ser isso. E sexto sentido pra que? Se toda vez que eu confio nele, ele só me leva para junto de mais e mais problema?
- Nessie, isso é bobagem. Você não é nem um pouco azarada, já parou para se olhar no espelho? É maravilhosamente bela, um encanto de menina... Poderia até ser confundida com uma princesa.
- Só falta o meu cavalheiro. Que insiste em me deixar, ou em não aparecer. Continuo na bosta.
- E quanto aos “pequenos acidentes”, não creio que eles aconteçam porque é você que vive eles... Mas sim porque eles têm que acontecer. É a lei da vida, um dia se perde outro dia se ganha.
- É, mas até hoje eu só perdi. — amarrei meu cabelo que já grudava no meu rosto de tanto chorar – E se lembra o que a bisa falou?
- Aquilo de você ser muito parecida com a tataratatara avó dela?
- Sim.
- Não posso negar que a semelhança entre vocês é enorme, e que seu nome é o apelido dela. Mas meu amor, não vá acreditar em tudo que sua bisa fala, ela já esta caducando.
- Mãaaae, até você mesmo admitiu que eu sou praticamente um clone dela. E você já ouviu a historia de vida dela? Quando a bisa me contava, eu quase chorava.
- Nessie, mesmo que você seja muiiiiiito parecida com ela, os tempos são outros. Hoje nenhum cavalheiro precisa lutar pela sua honra. Qual é a chance disso tudo se repetir?
- Nenhuma. – respondi cabisbaixa. Ela levantou-se, viu que eu já estava melhor, me deu um beijo na testa, desejando-me boa noite, e foi saindo do meu quarto, quando eu a impedi com um berro. Ela parou na soleira da porta e me olhou, com uma cara de quem já sabia o que eu ia perguntar.
- Mãe, eu sei que a probabilidade de tudo aquilo se repetir é mínima... Mas... Mas e se acontecer? – ela colocou aquele lindo sorriso caloroso no rosto e me respondeu de maneira calma e serena.
- Bem, se você acha que isso pode acontecer, apenas lembre-se que os finais nunca são os mesmos. – exausta de todo aquele drama, deitei-me novamente na cama e abracei meu ursinho, quando me lembrei de algo e gritei o nome de minha mãe.
- O que foi dessa vez filha?
- Quando nós vamos visitar a bisa na Califórnia? – perguntei manhosa, pois eu não queria ir, e se eu tivesse que ir, esperava que faltasse muito tempo ainda.
- Apenas no verão.
- Me acorde quando o verão chegar?
- Mas é daqui a cinco meses menina!!
- Perfeito.
Rindo da minha depressão cômica, ela fechou a porta, e eu voltei a me recostar na cama. Sentindo um pouco de frio, tirei minhas roupas úmidas e coloquei um pijama leve e me enfiei dentro das cobertas. Abraçando apenas Sulyn dessa vez, e molhando a pelagem rosa e cheirosa dele com minhas insistentes lágrimas.
Eu era uma adolescente praticamente já adulta, com 20 anos, e ainda chorava que nem uma criança que tinha medo do escuro. Porém, ninguém podia dizer que chorar daquela maneira não era permitido, e mesmo que não fosse, eu choraria. Pois lava a alma, alivia a tensão e estranhamente no outro dia você pode até se sentir “seca”, mas acima de tudo leve. Como se aquele enorme bolo que havia se formado na sua garganta evaporasse num piscar de olhos.
Eu tinha apenas 15 anos quando sofri minha primeira desilusão, não amorosa, mas eu estava vivendo a síndrome do abandono. Eu era uma garota, descobrindo os prazeres da vida, como o primeiro beijo, as conversas escondidas com as amigas, às festinhas da turma e o primeiro namorado. Ele era uma graça, era inteligente e bonito. As garotas babam por ele, e eu tive a enorme sorte dele se interessar por mim. Começamos a namorar e depois de um ano e pouco juntos, ele foi embora. Simplesmente chegou para mim e disse que estava partindo para outro país, e que não podíamos continuar mais junto. Se eu o amava, eu não tinha tanta certeza, mas primeiro namorado nunca se esquece. Depois eu já estava naquela fase de mais pegação, o que viesse era lucro, mas claro, sempre com qualidade. O conheci num show de rock que eu fui com minhas amigas, eu tinha quase 18 anos e ele também. Novamente ele era lindo, com seus olhos azuis e cabelo negro, não fazia o estilo roqueiro e nem playboy, era simples e modesto. Foi o meu primeiro. Depois de alguns meses namorando, ele chega para mim e diz que não tinha mais como continuar com aquilo, que não me amava como pensava. E novamente eu sofri, afinal o primeiro a gente nunca esquece. Então eu me revoltei, sai pegando geral e conheci meu terceiro e mais lastimável namorado. Esse sim eu poderia dizer que tinha um estilo bem alternativo, toda semana ele mudava de opinião como mudava de roupa, demorava mais que a mim mesma para se arrumar. Meus amigos até tentaram me dar alguns toques dizendo para eu fugir daquela cilada, mas como eu estava encantada com seu jeito despojado e beijos de arrancar suspiro, apenas fingi que não os ouvia. E como eu queria ter ouvido eles, após algum tempo juntos, eu pego ele se amassando com outro cara nos jardins da sua casa. Foi choque total, prometi a mim mesma que nunca mais me relacionaria com outro homem. Mas foi impossível, eu estava arrasada, quase entrando em depressão, e assim apareceu meu quarto namorado. Querido, gentil, diferente de todos os outros e acima de tudo amigo. Ele tornou-se meu melhor amigo primeiro e depois de muito tempo investindo em mim eu resolvi cair na teia dele. Foi o melhor namoro que eu já tive o mais sincero, calmo e promissor. Até um idiota perder o controle do carro, indo pra cima dele e fazendo-o desviar e dar com o carro num poste.
E o que mais me dói, era saber que podia dar certo. Que ele tinha planos comigo, como casar e constituir família. E que outra vez foram desperdiçados. Atirados para os crocodilos.
Não, mas aquilo não aconteceria novamente. Eu não me envolveria com mais nenhum cara. Eu havia decidido isso durante o velório. Ninguém ficaria sabendo, pois eu não contaria para ninguém, era um segredo meu e só meu.
E quanto à história da minha tataratataratatara e mais um pouco avó, eu esqueceria e não daria bola. Pois aquilo era lorota pra por boi dormir, nem acontecer de verdade tinha acontecido. Então, como uma boa adolescente já crescida que eu sou, coloquei aquelas lembranças todos para fora de mim, e só acordei quando a viagem para Califórnia havia chegado.
CINCO MESES DEPOIS...
Era óbvio que nos dias que se seguiram a morte do meu ex- namorado, minha mãe e minhas tias me acordaram incansavelmente para me alimentar e continuar a viver. Elas até respeitavam quando eu não queria levantar e curtir aquela solidão gelada, mas meu corpo era mais inteligente que eu. Ele pedia por comida, bebida e ar puro. Por isso fui levando a vida como dava, chorando algumas vezes, pensando em se matar em outras e assim por diante.
Mas como já era de se esperar, depois de um tempo, você é obrigada a aceitar as coisas como são. E eu aceitei que eles haviam partido, pois alguém me disse uma vez que, se eles foram, é porque tinha que ser assim, e que principalmente porque algo muito melhor me esperava. Quem falou isso? Eu sinceramente não sei, uma mulher louca parou-me no meio da rua e ficou lendo minha mão. Se eu acreditei nela? No inicio eu apenas ri, mas depois vi que ela estava completamente certa. Eu vinha sofrendo por nada, pois eu nunca cheguei realmente a amá-los, o que eu sentia era uma atração muito forte, e eu já estava emocionalmente desestabilizada por ter sido “deixada” tantas vezes.
Encostei minha cabeça no banco e olhei para cima, vendo através do vidro de carro o enorme e lindo céu azul que persistia em ficar todos os dias na Califórnia. Fechei os olhos, e deixei aqueles raios quentes tocarem minha pele, o vento que entrava pelas janelas abertas do carro bagunçar todo meu cabelo e acariciar minhas pernas. As gaivotas cantavam da sua maneira, do mesmo modo que meu pai cantarolava a canção favorita de minha mãe. O dia estava lindo. Eu podia odiar quando menor aquele lugar, mas pela primeira vez em muitos anos eu me sentia livre, eu me sentia em casa. Eu sabia de algo, eu esperaria me formar e iria morar lá.
- Já estamos chegando meu amor! – meu pai falou, desafivelando cinto e se espreguiçando. Lá não tinha perigo nenhum, pois todos eram muito respeitosos, ou seja, perigo de sofrer um acidente por se espreguiçar: nula.
- Tudo bem pai, enquanto isso eu aproveito a paisagem. – falei olhando para o maravilhoso mar a poucos metros de mim.
- Mais a tardinha, você deveria ir na praia Nessie.
- Claro que irei mamãe, estou louca para molhar os pés.
- Que bom. – ela me olhou e sorriu – A família toda estará na casa da bisa, ou seja...
-...Cumprimente todo mundo, não fale de boca cheia, seja educada, ajude os mais velhos, não fale alto, converse com todos e blábláblá.- a cortei, recebendo uma carranca como resposta.
- Blábláblá nada...
- Mamãe, eu já sou adulta, não precisa me falar isso. Já sei décor e salteado! E me desculpe por lhe cortar a palavra.
- Desculpe a mim, às vezes eu esqueço que você não é mais meu bebezinho.
- Eu sempre serei só que agora eu falo e ando.
Nós três rimos e pegamos à via que nos levava aos morros, onde as mansões ficavam e a vista para a praia era a melhor do mundo.
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- Nessie, meus deus como você cresceu! Há apenas uns dias você era uma garotinha!
- Pois é vovó, esses “dias” era há 10 anos atrás! – abracei forte Esme. Eu sabia que pensar daquela maneira era feio e um tanto egoísta, mas era dela que eu supria o maior gosto. Ou seja, de todos os meus aos, era dela que eu mais gostava. O que não mudava muita coisa, pois eu amava irrevogavelmente a todos eles, era só que com vovó Esme minha ligação de neta era mais forte.
- Estou brincando querida, eu sei que você odeia quando falam como você cresceu! – ela colocou aquele lindo sorriso caloroso nos lábios e deu espaço para minha bisa.
- Nessie! Como você cresceu! – coitada da minha bisa, o aparelho auditivo já era modelo velho para a tão ultrapassada surdez dela.
Bisa Christina,era avó da minha mãe. Ninguém entendia até hoje como ela continuava viva, pois beirava seus 94 anos, e era firme e forte. A não ser sua dentadura que a tempo não servia para muita coisa, e algumas vezes “descolava” a deixando com um sotaque diferente, porém divertido. Era aquela velha senhora de olhos acinzentados, pele morena e cabelo branco como a neve que me contava as melhores histórias que eu já havia ouvido. Quando eu era menor, as historinhas para dormir só ela que podia contar, senão eu não dormia. Por isso, ela morou com nós uns tempos, até a casa de Esme ficar pronta e ela se instalar num quarto feito sob medida para suas necessidades de idosa, quase múmia.
E era isso que eu mais amava na minha família. Era saber que no inicio e no fim do verão eu teria todos eles junto comigo. Tanto da família da minha mãe, como a do meu pai. E era na casa de Esme e Carlisle que sempre nos encontrávamos. Todos estavam lá. Sempre. Meus tios, meus pais, meus avós, e minha bisa. Infelizmente eu ainda não tinha nenhum primo (a), pois meus tios ainda estavam focados demais na carreira. Apenas meus pais se descuidaram e deram depois de nove meses um “olá” para um espermatozóide vencedor chamado Nessie. E olha que isso faz tempo.
Abaixei-me um pouco, facilitando a vida de minha bisa e lhe dando um abraço leve – todo cuidado com ela era pouco — porém caloroso. E fui cumprimentar o resto da família, enquanto ela perguntava quem gostaria de um pedaço de bolo. Claro, que minha avó Renee se ofereceu para buscar as coisas na cozinha. Se eles queriam que um casamento grego com quebras de pratos e copos acontecesse naquela sala, era só deixar a bisa buscas as coisas. Não que ela fizesse de propósito, mas os ossos dela já estavam virando poeira, mesmo ela parecendo forte como um touro. Sim, nós a queríamos por perto, ainda por um longo tempo. De preferência tempo suficiente para que ela fosse ao meu casamento, que eu ainda não tinha previsão de quando iria acontecer, pois meu ex-quase-noivo faleceu meses atrás. Ou seja, ela teria que agüentar mais um pouquinho, afinal, ninguém podia negar que ela era a animação da casa. Sempre despreocupada com as coisas, contando mil e uma historias “milaborantes” e divertindo a todos com seu jeito quase imperativo.
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Naquela manhã, eu conversei em particular com quase todas as mulheres da casa. Não porque eu quis, mas sim porque elas me puxavam para um canto e perguntavam como eu estava sobre os últimos acontecimentos. E bem, eu tive que falar varias vezes as mesmas coisas, que eu estava bem, que não era para se preocupar, que as coisas estavam se encaixando e que não era para pensar naquilo, pois estava um dia lindo e merecíamos apenas alegria. Apenas bisa não conversou comigo, e eu agradecia de certa forma por ela não se interessar, pois eu tinha dois motivos. Eu estava cansada daquelas conversas, e minha bisa já era meio caduca, as coisas que ela às vezes falava não condiziam com a realidade.
Sentada numa cadeira estofada, toda enfeitada com bambu que valia uma fortuna, eu apenas observava aquela roda de pessoas alegres, radiantes e extremamente bonitas. Minha família era grande, e tanto os que eram de sangue como os que não eram como Rosalie e Jasper eram de uma beleza admirável. Mas não era apenas aquele tipo de beleza que eu admirava, cada um tinha algo em especial, e era isso que tornava aquele pequeno circo particular o melhor show do mundo. Eu admirava ver e saber que eles se davam bem com suas carreiras, com suas vidas e principalmente com seus amores. Eu adorava parar e enxergar que as coisas para eles pareciam tão fáceis, todos sentados na enorme varanda que tinha vista para o mar, com o sol batendo nos seus rostos e mesmo assim continuarem tão... Certos. Como se aquilo fosse a coisa mais certa do mundo, como se isso já viesse acontecendo há tempos – e vinha – mas há tempos como séculos.
Peguei-me pensando em algo bem surreal, e um tanto peculiar. Será que em vidas passadas eles ficaram juntos? Ri sozinha, atraindo a atenção da bisa para mim que me deu um tchauzinho.
Era claro que não, que inocência a minha ainda acreditar que o amor verdadeiro poderia pendurar por quantas vidas fosse necessário. Que tolice, eu tinha 20 anos e ainda acreditava em contos de fadas. Eu sabia que o amor não era assim, que você o acha como se fosse um barco encalhado, apenas há espera do seu resgate. Ele tinha que nascer com o tempo, com as expectativas, com os desapontamentos, e com a convivência. E ele só poderia surgir que você tivesse uma segunda pessoa para “tentar” amar.
Lembrei que essas tentativas só estavam dando errado para mim, e que só pensar na hipótese de ser deixada novamente, me arrepiava por inteira. Notei que minha bochecha formigou, e tratei logo de passar a mão para apagar os vestígios daquela lagrima tola. Nada adiantou mais e mais gotas salgadas começaram a escorrer involuntariamente por minha pele, e mais do que rápido me retirei daquele ambiente. Não queria que pensassem que eu era uma fraca inútil. Afinal, já se passaram cinco meses.
- Esses cinco meses não foram suficientes, querida? – eu estava sentada, com a cabeça enfiada nas mãos. Quando reconheci aquela voz velha e doce, e aquele cheiro de violetas invadirem o quarto que eu estava hospedada. Do mesmo modo que antes, esfreguei as mãos nas bochechas e coloquei um sorriso amarelo nos lábios.
- Oh bisa, tudo bem com a senhora?
- Comigo vai tudo ótimo há uns 94 anos, mas com a senhorita não vai nada bem. – ela veio e sentou-se do meu lado.
- Claro que estou bem, foi apenas um pouco de poeira que entrou nos meus olhos.
- Pelo menos você não usou a desculpa dos cílios nos olhos.
- A senhora às vezes é tão esperta e centrada e por outras vezes parece que não esta neste mundo.
- É porque eu sou assim, quando não estou viajando anos atrás, em busca de lembranças do meu antigo amor, eu estou aqui presente. Como estou agora, para lhe ajudar.
- Desculpe bisa, eu não quero lhe importunar com os meus ex-problemas bobos.
- Você nunca me importunou, dês do dia em que você nasceu, minha atenção é somente para você pequena Nessie.
- Mas por quê? Eu não deveria tomar seu tempo assim.
- E não tomou, os melhores momentos que eu tive, depois da partida de seu biso, foram ao seu lado, pequena.
- Obrigado bisa. A senhora é um anjo.
- Eu sei, eu sei! – ela sorriu como se ela já soubesse daquilo há muito tempo, e estava cansada de escutar, e não pude reprimir um riso – Muito bem, agora você esta sorrindo. A pergunta é, porque você estava chorando?
Soltei um leve suspiro de arrependimento, por não ter sido tão discreta na varanda. Olhei para ela, colocando no rosto uma expressão de duvida, de desentendida.
- OH, Nessie, não vai mesmo acreditar que eu caí quando você disse que tinha entrado poeira nos seus olhos.
- Mas eu acho que foi poeira E um cílio?
Bisa lançou-me um olhar de repreensão. É, não tinha como fugir dessa vez, ela sabia que eu estava chorando. E pelo jeito não sairia dali até eu falar algo. Como da minha boca não saia “água”, ela resolveu iniciar a conversa.
- Então esses cinco meses, realmente não adiantaram de nada?
- Na verdade adiantaram sim Bisa. É só que... Que mesmo eu não o amando, eu sinto saudade. Ele era bom pra mim, carinhoso, e queria ficar comigo pra sempre.
- Você sabe o que eu penso do “pra sempre”, não é?
- Na verdade, acho que me esqueci!
- O tal para sempre, só existe para poucas pessoas. Para aquelas que realmente se amaram dês do primeiro minuto em que se viram, e que apesar de todas as dificuldades passadas, dificuldades como a morte, continuam se amando. Elas até podem viver o resto de suas vidas com outra pessoa, mas amariam apenas uma. E eternamente.
- Bisa, as vezes você me deixa desnorteada com suas palavras.
- Querida, o que eu quis dizer, é que se você não o amava. Não há motivo para ficar assim, pois você seria infeliz ao lado dele.
- E você bisa, amou o biso dês do primeiro minuto que o viu?
- Não querida, eu não o amei. Mas aprendi com o tempo, e o amo até hoje.
- Mas então, comigo poderia ser assim!
- Nessie, eu sei de toda a história que vocês passaram juntos. Sua mãe é uma bela de uma fofoqueira. Ela não tem culpa, puxou pra mim. – nós duas rimos, pois ela tinha razão, minha mãe adorava falar, e se fosse alguma fofoquinha, melhor ainda – Vocês passaram um bom tempo juntos, tempo até mais do que suficiente para aprenderem a amar um ao outro. E isso não ocorreu.
- Pelo menos da minha parte não.
- Por isso, que as coisas aconteceram porque tinha que ser assim. Talvez porque a missão dele aqui já tivesse se cumprido. E talvez porque ele não é o certo para você.
- Mas como eu vou saber quem é certo para mim? Eu só me relaciono com os errados!
- Você saberá. Aqui dentro – ela colocou a mão no meu peito – seu coração pulará tão alto, que parecerá que ele pode sair a qualquer minuto da sua boca. Você vai querer olhar para outro lugar, mas seus olhos só o virão, e um cheiro maravilhosamente atrativo, invadira seu nariz. E você saberá.
- Uau, eu quase me senti num conto de fadas agora. Mas infelizmente acho que as coisas comigo não ocorrerão assim. Ou seja, eu terei que aprender, eu terei que esperar. Mais do que eu já espero.
Bisa, colocou um sorriso de lábios no rosto e levantou-se, andando de um lado para o outro, com uma mão coçando a cabeça e a outra apoiada na gorda cintura. Parecia que estava lutando internamente com alguma idéia mirabolante. E de repente, estaqueou-se na minha frente.
- OK! Venha comigo!
- O que? Como? Por quê? Pra onde?
Eu perguntava enquanto, ela me puxava pela mão, quarto a fora. Quando eu disse que ela era firme e forte, eu só não imagina o quão forte ela conseguia ser. Pois praticamente estava me arrastando pela casa toda. Subimos as escadas numa leve corridinha, e adentramos seu quarto, com inúmeras fotos espalhadas por ele. Dando para aquele quarto amarelo clarinho, uma suavidade maior ainda. Quase parecia quarto de adolescente, se não fosse às cortinas de renda e os moveis velhos. E claro o cheiro de seu perfume. Violetas.
Ela me mandou sentar na poltrona que tinha abaixo na janela, e começou a revirar seu enorme armário, puxou roupas, sapatos, caixas e mais caixas para fora, até que soltou um “achei” e largou encima da cama um pequeno bauzinho. Ele era velho. Eu consegui adivinhar por cima a idade dele, por causa da madeira velha e já não mais fabricada, pois meu tio Emmett costumava me ensinar algumas coisas sobre seu oficio. Apesar de já poder ser considerado um “achado” pelos arqueólogos, ele era impecavelmente belo. Quadrado, com as pontas redondas, e detalhes em arabescos. Estes que eram dum dourado mais lindo que eu já tinha visto. A tampa era reta, continha apenas um pequeno relevo, creio eu que era algum detalhe, ou alguma inicial.
- Eu quero que você escute bem pequena Nessie. Este baú, esta passando de geração em geração para todas as mulheres da família Swan. Ele esta em minhas mãos, dês do dia que eu completei minha maioridade, quando minha mãe achou que eu já estava pronta para a vida. Eu nunca o passei para sua avó Renée, pois ela é uma destrambelhada, assim como sua mãe. Ou seja, elas não mereciam algo tão raro, iriam estragar, ou jogar fora em menos de dois minutos. Mas, eu esperei ansiosamente você crescer, e ser um pouco diferente delas. Estou orgulhosa de finalmente passar o legado adiante. Na verdade eu deveria lhe passar quando você já estivesse pronta para enfrentar a vida, mas vi que isto – ela apontou para o pequeno baú – pode lhe ajudar. E muito.
- Uau bisa você tem certeza disso? Eu não sei se mereço.
- Não seja boba, sua bisa pode ser biruta as vezes, mas sabe o que faz. Agora tome. – pegou uma sacola preta de um tecido diferente, e colocou o bauzinho lá dentro, dando um nó e me entregando – Faça bom proveito dele, qualquer dúvida é só me perguntar. Mas duvido que seja necessário, enfim, cuide dele como se fosse sua própria vida. E quando você tiver uma filha, não como a minha e a sua mãe, passe ele adiante.
- E a chave? – perguntei vendo, que ele só podia ser aberto com uma chave.
- OH! Está aqui! – ela tirou do pescoço um longo cordão que se infiltrava por do seu vestido longo e floral, e largou encima da palma da minha mão a chave. Muito peculiar para o meu gosto, toda detalhada dourado, e curvaturas que se parassem bem para olhar, formaria um “R”.
- O resto da família sabe da existência dele?
- NUNCA! Você não pode falar para ninguém, nem para sua mãe, nem para sua própria sombra.
- Tudo bem! Eu prometo não abrir a boca, e proteger ele.
Ela foi saindo rapidamente do quarto, e antes de fechar a porta virou-se e me disse, com os olhos brilhando.
- Não lute contra a maré, meu bem. Ela nem sempre só trás destruição.
E deixando um rastro de flor pelo quarto, ela some. Deixou-me sozinha num quarto, com um baú velho no colo.
Batuquei varias vezes meus dedos sobre o veludo preto que agora mantinha o baú escondido. Pensando se era o certo a fazer, porém minha curiosidade aumentava, a cada minuto com aquela preciosidade em minhas mãos. Mais do que rápido, sai do quarto dela e desci as escadas correndo, entrando no meu quarto. Peguei uma bolsa enorme, que havia ganhado de presente de tia Alice, e taquei tudo que vi pela frente dentro dela, inclusive o baú. Coloquei um vestido verde musgo de alcinha, com detalhes em renda branca, e que batia na metade de minhas coxas. Nem me preocupei em calçar um chinelo, e pus um enorme chapéu da cor camurça que me protegeria do sol. Desci as escadas correndo outra vez, e passei pelo pessoal que ainda estava sentado na varanda, deixando-os com olhares curiosos pra cima de mim. E para não ocorrer o risco de ter alguém atrás de mim mais tarde, apenas gritei “Estou indo para a praia”.
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Nossa como era libertador, poder enterrar os pés na areia clarinha e macia. Como era tranqüilizante ouvir as ondas do mar quebras nas pedras, e tocar seus pés deixando pequenos rastros de espuma marinha pela beira-mar. E como era reconfortante saber que eu estava sozinha ali, que os outros turistas ainda não tinham chegado de suas viagens, e que eu poderia desfrutar daquela tranqüilidade por um longo tempo ainda. Sem interrupções, sem repreensões, sem nada, além de mim, um mar azul clarinho, gaivotas e um pequeno baú.
Estendi minha toalha na areia e larguei minhas coisas encima, tratando logo de me ajoelhar e me proteger com protetor. Desliguei o celular, fiz um coque mais feito nos cabelos, coloquei o chapéu e senti meu coração disparar quando minhas mãos tocaram aquele cordão que estava no meu pescoço e que entrava furtivamente entre meus seios. Minha curiosidade já ia ser morta, e eu ainda me sentia uma criança esperando o natal chegar para ver qual presente ganharia dessa vez.
Desfiz rapidamente aquele nó que minha bisa havia feito no saco de veludo, e tirei o baú lá de dentro, olhando para os lados para verificar mais uma vez se não havia ninguém por perto. Passei a mão sobre a tampa dele, vendo como aquelas iniciais “R.S” eram bonitas e bem trabalhadas, com inúmeras voltas e flores aos seu redor, e fiquei me perguntando o que elas poderiam significar.Peguei o cordão com a chave, e sentindo meus dedos trêmulos abri o baú.
Minha duvida sobre as iniciais, foram logo esclarecidas quando dei de cara com um envelope antigo, completamente amarelado e que estava endereçado para RENESMEE SWAN.
Agora eu começava a entender as coisas, aquele só podia ser o baú da minha tataratataratatara... E mais uns tantos tatara avó. Aquele que minha bisa tanto falava, aquela que ela idolatrava sem mesmo conhecer, sem nem mesmo imaginar como sua vida havia sido. Aquela de quem meu nome fora tirado, e que incansavelmente minha bisa falava que eu era o xérox. Bem, eu esperava que não fosse tanto assim.
Fiquei um pouco confusa do porque bisa havia feito tanto mistério sobre o conteúdo do bauzinho. Pois eu só via cartas e mais cartas endereçadas a Renesmee Swan, algumas jóias raríssimas, porém já degradadas pelo tempo, bilhetes, uma pena completamente branca, alguns desenhos borrados e mais ao fundo um pequeno livro. Guardei o resto das coisas no baú e o tranquei, devolvendo-o para o saco e depois para minha bolsa.
Debrucei-me de barriga pra baixo sobre a toalha e fiquei a fitar aquele caderninho. Capa de couro fina e avermelhada, sujo de poeira, e bordas já completamente gastas. Dei um leve assopro rente à capa e aquela sujeira toda saiu, apenas dando-o um aspecto melhor, pois não havia escrito nada. Nem iniciais, nem mesmo uma rubrica. Um pouco desapontada por ver que o conteúdo da caixa não era grande coisa, abri o livrinho, encontrando todas as paginas escritas, com letra de forma e numa desenvoltura incrível. Elas eram formais e bem escritas, e assim como as iniciais que estavam cravadas na tampa do baú, elas eram cheias de voltas e arabescos. Passei a mão por cima, e fiquei espantada quando notei que elas não eram escritas de caneta, mas sim por pena. Aquele baú devia ser mais velho do que eu podia imaginar.
Escutei as gaivotas sobrevoarem sobre as enormes pedras, e avistei mais ao longe um barco pequeno, parado no meio do nada. Curiosa novamente para sabe do que se tratava aquele livrinho, tirei o mundo do meu redor e me concentrei naquela primeira frase.
“Será que é tão árduo para meu pai, compreender que não irei me casar com um cavalheiro, príncipe, nem rei nenhum, se eu não o amar?”
Notas finais
Enfim, as coisas podem parecer confusas neste quase gigante prólogo, mas posso afirmar que no primeiro cap vcs entenderao tudo.
Quero deixar claro novamente, que apenas o prólogo e o epílogo dessa fic são contados por Nessie Cullen Swan. Os demais capítulos serão todos pela visão de Renesmee Swan, que vive na era medieval. Sim nós teremos uma fic que envolve duas épocas aos mesmo tempo. Podem ter certeza que vocês entenderão tudo tim tim por tim tim no epilogo...pois eu tenho a fic toda ja montada na minha cabeça. *.* Tenho quase certeza que todas ja entenderam a intenção de fazer a fic assim.!! (eu espero.)
Cara eu falo demais, tenho que para com isso. Maaaaaaaas
Pleeeeeease comenteeem, como eu NECESSITO saber o que vcs acharam.
Enorme beijos, e agradeço desde já quem esta lendo
Isa Sartor
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