Revival
1 Único
Notas iniciais
E mais uma vez acordei entristecida. Minha cabeça começou a doer logo que abri meus olhos.
Gostaria que aquilo tudo tivesse sido verdade. Infelizmente não é.
Estou enlouquecendo?
Há três meses aquela pessoa da foto abriga meus pensamentos. Me persegue a todo momento. Se estou preparando meu jantar, me pergunto se aquela pessoa estivesse viva estaria vindo pra minha casa com meu vinho preferido. Se ele me aprovaria por ter dito aquelas coisas para quem se dizia minha amiga.
Eu quero acreditar que sim.
Será que ele sentiria prazer comigo? Será que ele me acharia bonita?
Pelo menos nos sonhos, tudo vai muito bem. É maravilhoso sentir o suor dele na minha pele e ouvir aquela respiração ofegante. O jeito que ele me beija e pronuncia meu nome me deixa nas nuvens. Nunca alguém mexeu comigo desse jeito. Nunca.
Queria que isso tudo fosse real.
Preciso desabafar isso com alguém. Não tenho a quem recorrer; provável que achem que estou doida.
Espero que você não se importe em ser meu confidente.
Vamos lá…
Tudo começou quando a esposa do meu chefe morreu e precisamos fazer toda aquela encenação de que estávamos enlutados e que tinha sido uma grande perda — o que era um grande faz de conta. Não nos importávamos com aquela vaca. Enfim, boa parte do nosso horário comercial foi para irmos ao funeral rápido por causa do distanciamento social e, depois disso, iríamos pra casa (tinha planos maravilhosos para a tarde, inclusive).
Ao levarem o caixão para a terra, pegamos as flores para jogar antes que o cobrissem de terra.
Quando chegou a minha vez de jogar a flor, eu quis fazer o mais rápido possível, pois a garoa tinha se transformado em chuva e eu não queria pegar o ônibus toda molhada. Assim que fiz o sinal da cruz e me virei para sair, uma colega segurou meu braço e sussurrou que queria falar comigo. Ouvi o recado e fui procurar abrigo debaixo de algum guarda chuva conhecido, mas acabei escorregando e segurei nas asas de um anjo que decorava um túmulo.
As atenções que eram da falecida se voltaram pra mim, que tentei inutilmente achar um jeito de fixar a asa na costa do anjo. Fiquei muito constrangida, mesmo sabendo que meu ato não tinha sido intencional como os atos daquelas pessoas que roubam flores ou urinam nas cruzes.
Coloquei a asa de frente pro anjo, que estava ajoelhado em frente a lápide. Com isso, olhei para a inscrição e para aquela foto.
Albert W. Hoff. Esse é o nome dele.
Acho que devo ter demorado ali, pois a pessoa que anteriormente tinha dito que gostaria de falar comigo veio me convidar para sair.
— Está chovendo, vamos. Eu sei que você perdeu uma grande amiga, mas vamos sair nos proteger.
Não mencionei anteriormente, mas graças à falecida que eu consegui meu emprego. Ela me conheceu numa loja de sapatos e lá desenvolvemos “nossa amizade”. Mais dela do que minha, é claro. Admito sim que ela me ajudou e no começo eu gostava muito dela, mas ela foi arruinando tudo quando começou a me criticar devido meu emagrecimento. Que culpa eu tenho se ela não quis procurar uma academia comigo? A cada quilo que eu perdia, ela tentava colocar defeito em mim. Aquilo foi demais. Me afastei e mesmo assim, ela vinha me procurar. Seja pra oferecer comida ou apenas para reclamar do marido dela, que a criticava por não ir cuidar do negócio deles.
Voltando ao assunto do meu Albert, admito que desde que saí daquele enterro, não consigo parar de pensar nele, naquela foto preto e branco, que mostrava um homem de traços fortes e cabelos claros. Não consigo parar de imaginar aquele par de olhos firmes me encarando e, toda noite, sinto aqueles lábios finos encostando na minha boca, nos meus seios, nas minhas coxas… algo impossível de acontecer — quando nasci ele já estava morto.
Procurei na biblioteca da cidade, procurei no google, em todo lugar possível e não encontrei nada sobre ele. Nada. Queria encontrar algo para poder de certa forma nos aproximar. Talvez não estivesse preparada para saber da sua descendência, se é que ele teve uma.
Não sei até quando vou ficar assim. Acho que preciso de ajuda. Por enquanto ninguém desconfia, acham que eu vou todos os dias ao cemitério para chorar por Olívia. Você sabe que não. Mais cedo ou mais tarde eu vou acabar deixando escapar que tem algo de errado comigo.
Por favor, me ajude.
Notas finais
Obrigada.
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