Revival
1 Epígrafe + Prólogo
[Epígrafe]
“Gosto dos epitáfios; eles são, entre
a gente civilizada, uma expressão daquele pio
e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar
à morte um farrapo ao menos da sombra que passou.”
(Memórias Póstumas de Brás Cubas — Machado de Assis)
[Prólogo — Do Fim]
Grand Island — Nebraska
12 dias antes do fim do mundo
Aquele era um belo dia em Grand Island, não havia muitas nuvens no céu, mas isso não queria dizer que aquela era uma tarde escaldante. Bennie Harrington estava sentada em sua cadeira de balanço, na porta de casa, uma das mãos acariciava aos poucos a cabeça de Sallie, sua labradora e fiel escudeira. Crianças corriam na rua, fazendo barulho ao brincar e aquela cena nunca pareceu ser tão bela aos olhos da idosa.
A xícara posta ao seu lado foi esquecida e o chá verde ficara frio com o passar do tempo, porém Bennie não pareceu ligar para aquele fato, já que, quando a viu, logo pôs-se a beber o líquido amarelado. Enquanto isso, sua cabeça fazia esforços para lembrar se já havia tomado seu remédio, não sabia se tinha escutado o alarme tocar naquela manhã, o que ainda era muito confuso na cabeça da senhora. Acordou juntamente a Sallie, a cadela sempre ficava em seu quarto até que, por fim, levantasse e fizesse as suas obrigações do dia a dia.
A labradora se tornou a sua maior companheira, com certeza. A Sra. Harrington não teve filhos e estava sozinha há quase quatro anos por causa da morte de sua esposa, Ella. Sallie havia caído em sua vida como um anjo para ajudá-la com tudo, não se sentia tão solitária com ela ao seu lado. Era realmente uma pena que a cachorra tivesse que sair daquela casa no dia seguinte, iria para Omaha, em busca de uma nova família. Na mesma noite, seu uivo foi escutado e aquela foi a marcha fúnebre de sua dona, a qual a acompanharia por todo caminho até o Submundo.
Uma história triste, não? Mas não tão triste quanto o rumo que a Terra tomaria dali a alguns dias, mesmo que fosse de apertar o coração dos mais emotivos. Era, de certa forma, estranho pensar naquele fato. Ninguém lembrava o que realmente aconteceu, não parecia ser tão importante para todos ali. Entretanto, aquela questão estranha entrou em pauta de forma bastante aleatória.
Era uma reuniãozinha em um lugar muito, muito distante dali. Rum e outras bebidas baratas estavam dispostas sobre a mesa e o tripulantes daquela nave riam alto, de forma que qualquer um que passasse por aquela sala pudesse escutá-los. Zelline dormia em um dos sofás, mas Karen, a única humana no recinto, insistiu em ficar mais um pouco, mais bebida, mais conversas. E, em determinado momento, o jovem ziliano, apelidado de Kruger ― uma piada sem noção do seu capitão ―, fe-lhe uma pergunta estranha: Como era a Terra?, ele perguntou em um tom animado. Um silêncio desconfortável se instalou a partir daquele momento. No entanto, a pergunta vagou por todos os cantos daquele cômodo de tempos em tempos, mesmo que não tivesse sido trazida a qualquer pauta em situação alguma além daquela.
Mas, claro, a quem não sabe, sinto o dever de explicar.
A Terra era o terceiro planeta de um dos milhares de sistemas solares daquela galáxia, conhecida por seus habitantes como Via Láctea e bla, bla, bla, vocês já sabem dessa história. Não era tão grande quanto outros planetas daquele sistema, mas definitivamente não era o menor. De acordo com o Wikipédia, o planeta era designado como Mundo Azul e a maior parte da sua superfície era banhada por água. Informações desnecessárias a parte, a Terra era um planeta habitado por seres humanos. Era, porque não existia mais nada naquele lugar, além de insetos e aracnídeos. E, claro, um homem.
Era, pois, o sobrevivente do maior fenômeno que atingira aquele planeta desde as naves em Queensland, o Armagedom. Enfim, ele havia sido o último, o único que ficou para contar a história, um destino injusto, de certo. Um bom homem, apesar do cheiro horrível de vodca que seu corpo emanava e o jeito estranhamente amoroso como tratava aquele manequim. Era uma piada de mau gosto, o único a quem poderia contar o que realmente havia acontecido era um objeto inanimado, mesmo que nutrisse sentimentos por tal objeto, não faria sentido contá-lo ― só que ele realmente o fez.
Tamanha foi a surpresa quando acordou, um dia, com o som de saltos batendo no chão. Tão grande que sentiu seu coração bater frenético, esperançoso demais para um velho bêbado de cinquenta e poucos anos de idade. A mulher de luvas brancas lhe estendeu a mão, tinha um sorriso simpático no rosto e trazia uma maleta ao seu lado. Não pensou duas vezes em aceitá-la, ainda segurando o manequim em um dos braços.
A proposta que lhe fora feita era irrecusável, não que houvesse muito o que recusar, considerando a situação em que se encontrava. Matar Kennedy era a sua missão, estava tudo bem escrito e formulado. Mas ninguém sabia o que aconteceria a partir do momento em que resolveu quebrar as regras. Ninguém além dele mesmo.
Senhores, essa é a história de um fim. Acomodem-se em seus assentos e tomem nota, essa será uma longa viagem.
Notas finais
Bom, vamos a uma breve explicação sobre Revival: Essa história foi criada para um desafio do grupo Inkspired, mas foi escrita em um formato menor e não muito bem construído. Por isso, tomei a decisão de reescrevê-la e é esse formato que trouxe pra vocês lerem.
Saibam que essa história pode conter violência, bullying, uso de drogas e palavras chulas (que pode ser o mais leve, mas que muitas pessoas que se incomodam), então, por favor, se você não gosta desses temas, não leia.
Além disso, Revival é uma obra LGBTQ+, é recheada de personagens LGBTQ's e que eles são muito presentes. Se você veio aqui ler essa história e tem intuito de fazer algum tipo de comentário preconceituoso de qualquer esfera, pode enfiá-lo diretamente no cu. Essa história não é para você.
A todos os outros, sejam bem-vindos a Revival, espero que gostem dessa versão.
Volto dia 14 de outubro com o primeiro capítulo de muitos.
Inté, meu povo!
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