Revival

4 Capítulo Três - A Grande Expansão


Às vezes, as coisas se mostravam incompreensíveis em sua mente. Era como se, em algum momento, as sinapses cerebrais falhassem e as coisas ficassem embaralhadas em sua cabeça como uma mistura das mais diferentes partículas microscópicas, movendo-se para todos os lados e sentidos, como na teoria da criação do Universo. Apenas lhe faltava uma grande explosão para que tudo parasse logo, talvez assim os astros se ordenassem em sua cabeça, só queria que não precisassem milhões de anos para que tudo se arranjasse ali dentro.

O bater constante da ponta dos dedos no balcão não passou despercebido aos ouvidos do jovem ali presente. Viu-o negar com a cabeça e voltar a arrastar-se embaixo do carro que consertava. Estava tão compenetrado em seus problemas que havia esquecido totalmente o que fora fazer ali: trabalhar.

Balançou a cabeça, livrando-se daqueles pensamentos inúteis e suspirou, antes de caminhar com a perna dolorida até onde o garoto se encontrava. Deu duas batidas na lataria do carro para chamar atenção e esperou que ele saísse debaixo do veículo.

― O que?

― Precisa de ajuda? ― perguntou, coçando a cabeça, envergonhado.

― Ah, então a madame finalmente resolveu trabalhar? ― Ele sorriu, não foi retribuído, Bakugou não estava no clima para piadinhas.

Estranhando a falta de respostas, o adolescente ruivo observou-o com mais atenção dessa vez. Algo estava errado, ele sabia, não perguntaria o porquê, já havia decorado todas as respostas invasivas que Katsuki dera para suas perguntas e preocupações. Eles eram amigos, poxa! Será que ele poderia não esconder as coisas que aconteciam em sua vida?

Suspirou ao perceber que passou muito tempo apenas olhando para o rosto emburrado do outro, sabia que pensar demais no que falar, pelo menos quando se tratava de Bakugou, não era uma boa forma de solucionar as coisas. Então, ao invés de adquirir uma postura mais séria em relação àquela situação, ele apenas perguntou a primeira coisa que lhe veio à mente.

― Ei, Bakugou, quer dar uma volta? ― Arregalou os olhos, percebendo o que havia dito. ― Quer dizer, você parece cansado e meu pai não aqui hoje. A gente podia, sei lá, sair um pouquinho para espairecer…

Katsuki não pôde deixar de sorrir com o embaraço do outro. Kirishima era mesmo uma figura.

― Cabelo de merda ― insultou-o, mesmo que ainda estivesse sorrindo. ― Você é mesmo um idiota.

― O que? ― perguntou, confuso. ― Por quê?

― Você não precisa nem perguntar, seu imbecil.

E, dessa vez, Kirishima sorriu como se Katsuki houvesse dito a coisa mais bonita do mundo. Ele ficava bonito quando sorria. Ver Bakugou mancar até a parte de fora da mecânica trouxe a tona a sua antiga preocupação, ele precisava saber o que havia acontecido, queria ajudá-lo. Por isso, mesmo que soubesse que não era muito, ele pegou as chaves da moto depressa, correndo até o garoto e segurando-lhe pela cintura, a fim de colocar o braço do outro sobre seu ombro, aquilo o fez corar.

Tamanha foi a surpresa quando Katsuki não o rejeitou, não apenas isso, ele pareceu relaxar com o toque leve na cintura e aquilo trouxe uma felicidade tão grande para Ejirou que nem mesmo ele conseguiria explicar.

Aquele dia seria longo. E aquilo não era nem um pouco ruim.

oOo

Deku nunca foi muito bom com matemática, principalmente quando se tratava da terrível geometria plana, protagonista de seus pesadelos mais tortuosos, nunca achou que odiaria tanto um assunto na vida. Não era exatamente uma novidade aquela disciplina não era do seu agrado e isso ficava evidente nas notas gravadas em seu boletim, todas sempre muito boas, sempre no alto patamar da sua classe, menos… matemática. Talvez ele não gostasse tanto de números, equações, fórmulas, talvez ele não gostasse das respostas definitivas ou da lógica, da racionalidade.

Talvez, por isso, ele estivesse fugindo naquele momento, com livros em mãos e a mochila meio aberta, pelo desejo irracional de se esconder, não se deixar levar. Um de seus pés doía por ter se desequilibrado alguns metros antes. Mas ele não parou de correr, não afrouxou o passo, porque sabia que ele o encontraria, olharia em sua cara como da última vez, faria seu coração palpitar dolorido de novo e de novo.

Deku correu até quando não aguentou mais e se segurou na porta de madeira clara, a primeira coisa que viu pela frente. Respirava profundamente, tentando recuperar o fôlego perdido durante o exercício que fizera para chegar até ali. Os olhos cravaram no número preso a porta, "09", era a sua sala, aula de Química Orgânica. O professor o conhecia bem, não implicaria tanto consigo por ter se atrasado, ou assim esperava.

Ele abriu a porta vagarosamente, pedindo aos deuses para não fazer barulho. Engoliu em seco antes de encarar o professor e não se surpreendeu ao ver o sorriso em seus lábios.

― Jovem Midoriya ― ele falou, em um tom alegre. ― Algum motivo para o atraso?

― Sr. Aizawa pediu para falar comigo por um tempo depois da aula ― respondeu, sentindo a voz falhar pelo nervosismo de estar em frente a toda a classe. ― Sinto muito.

― Tudo bem, sente-se, não começamos a aula ainda.

Ele assentiu, sem dizer qualquer outra coisa e caminhou até o assento vago, ao lado de uma garota de cabelos castanho-claro. Viu-a sorrir, indicando a cadeira para que ele sentasse em um movimento rápido de cabeça.

― Fugindo de novo? ― perguntou Uraraka, em um tom engraçado. ― De quem dessa vez?

― Não estou fugindo. ― Sentou, fazendo uma careta. ― Aizawa realmente quer me matar.

― Deu ruim na matéria de novo?

― Quando não dá? Tenho uma capacidade incrível de ser ruim em matemática ― grunhiu ele, colocando a cabeça sobre a mesa. ― Ele "aconselhou", entre muitas aspas, que eu pedisse ajuda a alguém da classe. Aconselhou, né?, daquele jeito Aizawa de ser.

Ela riu.

― Ah, Deku, se eu não fosse horrível em matemática, eu te ajudava. Se brincar, sou até pior que você, principalmente nesse assunto demônio que é geometria ― explicou em um tom mais baixo, enquanto via Toshinori folhear o livro que trouxera. ― Por que não pede a Iida? Tenho certeza que ele vai te ajudar.

― Iida começou a ajudar o pai na loja, ele provavelmente vai ficar sem tempo a partir de agora.

― Ah, é mesmo, ele falou. ― Ela suspirou. ― Queria um pai rico que me desse um emprego.

― Ura, se você tivesse um pai rico, não precisaria de um emprego. ― Ele riu.

― O fardo de ser pobre nesse país de bosta, argh.

Riu novamente, voltando a atenção para o homem diante da sala. All Might falava de forma tão calma que Izuku se perguntava se ele havia ao menos dormido. Seu pai costumava ser animado demais, até pela manhã. Duvidava até que ele houvesse corrido antes de ir trabalhar. Era verdade que Toshinori estava ficando cada vez mais estressado com o tempo, aquilo incluía o modo como ele agia em casa.

Só não sabia o porquê de tanto estresse, mas isso ele viria a descobrir dias depois, quando recebeu uma visita inesperada.

oOo

― Verde ou azul celeste? ― A voz que ressoou em todo o cômodo era leve, apesar da expressão nada calma que tomava seu rosto. Ela pegou a xícara de porcelana sobre a mesa e tomou um ou dois goles antes de fazer uma careta em desagrado. Odiava açúcar no chá! Nunca entendeu aquele costume estúpido de adoçar a bebida daquela maneira. ― Vamos, vamos, eu preciso escolher isso até o final da tarde.

― Foi por isso que você faltou aula? Para escolher qual roupinha você vai usar daqui a dois dias? ― ele perguntou, repleto de indignação na voz.

― Roupinha? Ah, qual é? Temos um evento, você sabe quais benefícios uma boa impressão traz. Eu preciso que os patrocinadores olhem para mim e vai ser daqui a dois dias ― explicou Momo, sem olhar para a tela do celular. ― E eu não faltei aula por isso, tive que ir ao escritório do seu pai, porque o meu pai quer que eu estagie lá.

― Eu sinto muito pela sua morte. Como foi lá?

― Eu tenho medo do seu pai, você sabe, não sabe?

― E quem não tem? ― Suspirou, enquanto via ela olhá-lo com aquela careta de tédio costumeira. ― Bom, eu preciso da sua ajuda. Preciso que fale com Jirou.

― Jirou? Por que você não fala com ela? ― Arqueou as sobrancelhas, confusa.

― Não posso.

― Não pode? Desde quando você não pode fazer algo?

― Kyouka está me ignorando desde o último favor que pedi. Preciso que ela faça algumas coisas para mim.

― Você não quer que ela invada o sistema da polícia nem nada assim, não é? ― Apertou o colar de pérolas em seu pescoço, preocupada pelo que ouviria a seguir. Todoroki era louco o suficiente para fazer qualquer coisa que desse na telha. E o pior, ninguém nunca desconfiava dele, por causa daquela cara de jovem inocente. ― Shouto, se você estiver pensando em fazer alguma besteira, eu juro que eu…

― Momo, ― Ela engoliu em seco, o tom da voz era firme, sério demais comparado a forma como ele sempre agia, mesmo que fosse daquele jeito por natureza. ― Alguma coisa está acontecendo, Katsuki se feriu de novo, achamos que dessa vez não foi algo aleatório. E eu tenho certeza que ele não vai aguentar uma rodada dessas de novo.

Suspirou ao morder o lábio em conformação. Era difícil falar sobre racionalidade quando se tratava de Bakugou e Todoroki, Momo ainda achava um golpe de sorte aquele terceiro elemento não estar envolvido daquela vez, seria mil vezes pior.

― Tudo bem, eu falo com ela. ― Revirou os olhos, olhando-o nos olhos através daquela vídeo-chamada. ― Você me deve uma.

Ele não sorriu, mas ela conseguiu identificar as feições mais leves no rosto do garoto. Momo automaticamente sentiu o alívio bater sobre o próprio corpo como uma brisa de verão.

― Eu te devo muitas ― ele disse, segurando a alça da mochila com mais força. ― E, Momo…

― Hum?

― Use o azul, combina mais contigo.

Notas finais
E aí, pessoas? O que acham do Kirishima motoqueiro? Midoriya fujão e Ochako dos 3000 yens? Sei que tá tudo meio parado ainda, mas começamos a nossa saga de verdade no quinto capítulo! Espero que estejam gostando. Inté a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.