Revival

4 Capítulo Quatro - A Grande Expansão


Às vezes, as coisas se mostravam incompreensíveis em sua mente. Era como se, em algum momento, as sinapses cerebrais falhassem e as coisas ficassem embaralhadas em sua cabeça como uma mistura das mais diferentes partículas microscópicas, movendo-se para todos os lados e sentidos, como na teoria da criação do Universo. Apenas lhe faltava uma grande explosão para que tudo parasse logo, talvez assim os astros se ordenassem em sua cabeça, só queria que não precisassem milhões de anos para que tudo se arranjasse ali dentro.

O bater constante da ponta dos dedos no balcão não passou despercebido aos ouvidos do jovem ali presente. Viu-o negar com a cabeça e voltar a arrastar-se embaixo do carro que consertava. Estava tão compenetrado em seus problemas que havia esquecido totalmente o que fora fazer ali: trabalhar.

Balançou a cabeça, livrando-se daqueles pensamentos inúteis e suspirou, antes de caminhar com a perna dolorida até onde o garoto se encontrava. Deu duas batidas na lataria do carro para chamar atenção e esperou que ele saísse debaixo do veículo.

― O que?

― Precisa de ajuda? ― perguntou, coçando a cabeça, envergonhado.

― Ah, então a madame finalmente resolveu trabalhar? ― Ele sorriu, não foi retribuído, Bakugou não estava no clima para piadinhas.

Estranhando a falta de respostas, o adolescente ruivo observou-o com mais atenção dessa vez. Algo estava errado, ele sabia, não perguntaria o porquê, já havia decorado todas as respostas invasivas que Katsuki dera para suas perguntas e preocupações. Eles eram amigo, poxa! Será que ele poderia não esconder as coisas que aconteciam em sua vida?

Suspirou ao perceber que passou muito tempo apenas olhando para o rosto emburrado do outro, sabia que pensar demais no que falar, pelo menos quando se tratava de Bakugou, não era uma boa forma de solucionar as coisas. Então, ao invés de adquirir uma postura mais séria em relação àquela situação, ele apenas perguntou a primeira coisa que lhe veio à mente.

― Ei, Bakugou, quer dar uma volta? ― Arregalou os olhos, percebendo o que havia dito. ― Quer dizer, você parece cansado e meu pai não está aqui hoje. A gente podia, sei lá, sair um pouquinho para espairecer…

Katsuki não pôde deixar de sorrir com o embaraço do outro. Kirishima era mesmo uma figura.

― Cabelo de merda ― insultou-o, mesmo que ainda estivesse sorrindo. ― Você é mesmo um idiota.

― O que? ― perguntou, confuso. ― Por quê?

― Você não precisa nem perguntar, seu imbecil.

E, dessa vez, Kirishima sorriu como se Katsuki houvesse dito a coisa mais bonita do mundo. Ele ficava bonito quando sorria. Ver Bakugou mancar até a parte de fora da mecânica trouxe a tona a sua antiga preocupação, ele precisava saber o que havia acontecido, queria ajudá-lo. Por isso, mesmo que soubesse que não era muito, ele pegou as chaves da moto depressa, correndo até o garoto e segurando-lhe pela cintura, a fim de colocar o braço do outro sobre seu ombro, aquilo o fez corar.

Tamanha foi a surpresa quando Katsuki não o rejeitou, não apenas isso, ele pareceu relaxar com o toque leve na cintura e aquilo trouxe uma felicidade tão grande para Ejirou que nem mesmo ele conseguiria explicar.

Aquele dia seria longo. E aquilo não era nem um pouco ruim.

X.X.X

A vassoura movia-se no chão conforme o corpo do seu controlador se mexia, embalado no ritmo animado que saía dos alto-falantes em cima do balcão. A música fora colocada em um volume tão alto que Izuku Midoriya podia escutar as batidas do próprio coração. Dançava da forma que gostava, sem tentar se esconder como fazia costumeiramente na frente de outras pessoas. Sentia-se livre, não podia negar, estava sozinho e ninguém poderia apontar-lhe o dedo pelo seu modo de agir. Pessoas conseguiam ser insuportáveis quando queriam e Midoriya estava de saco cheio de escutá-las.

Tão absorto estava que não chegou a notar quando começou a cantar em conjunto com música, muito menos percebeu quando a porta fora aberta por alguém. A pessoa também não fez questão de chamar-lhe a atenção, apenas sentou em uma das cadeiras dispostas no salão e passou a observá-lo com afinco.

O movimento corporal de Izuku era de uma graciosidade que nunca pensou em ver anteriormente, tal como nunca pensou que chamaria alguém de gracioso. De qualquer forma, seus olhos não conseguiriam sair do transe que o outro garoto havia o colocado. A ponta do polegar foi aos próprios lábios e, quando a mordeu e deixou que um suspiro alto e longo saísse da boca, ele viu o adolescente de cabelos esverdeados dar um sobressalto. A música havia dado uma pausa entre o término de uma nota e o começo de outra e quando o último acorde foi tocado, os seus olhos e os de Midoriya já não podiam sair do foco um do outro.

O corpo não estava nada além de paralisado, não cabia a ele dar o primeiro movimento. Não cabia a ele falar qualquer coisa antes de escutar o que o outro tinha a lhe dizer.

Viu o garoto caminhar lentamente até o laptop, apertando alguma tecla e a música foi desligada imediatamente. Midoriya o olhava confuso, de modo que suas sobrancelhas ficavam arqueadas todas as vezes que abria e fechava a boca numa confusão da sua própria cabeça sobre o que falar. Izuku respirou fundo, antes de tentar mais uma vez articular as palavras, perguntava-se, principalmente, sobre o motivo de Shouto estar ali, sentado à sua frente sem dirigir-lhe uma palavra sequer.

― Todoroki-kun. ― Ele sorriu, simpático, ignorando o peso no peito ao falar. ― O que faz aqui? Ainda estamos fechados. ― A voz saiu firme como queria, não demonstrar fraqueza era o poder que havia adquirido nos últimos meses. ― Se veio falar com Kacchan, ele não está aqui agora, só vem mais tarde. Se você estiver com pressa, é só ir na oficina ali na esquina, ele tem trabalhado lá nos últimos tempos.

Engoliu em seco, não querendo deixar o sorriso vacilar.

Suas questões com o mais novo da família Todoroki não datavam apenas dos dias em que seu irmão ficara internado no hospital. Na realidade, havia conhecido o garoto anos antes, quando, enquanto trancava o local em que trabalhava na época, viu ele e outro rapaz se atracando nos fundos do estabelecimento. Todoroki havia o visto, mesmo com a péssima tentativa de se esconder, não queria ter notado aquilo. Pior ainda foi saber que eles estudavam na mesma escola e que o Shouto era amigo de Bakugou. Não se falavam costumeiramente, mas o garoto fez questão de frisar que não deveria deixar aquela história escapar por aí. Não podia negar o quanto aquilo o amedrontou, ainda mais quando Todoroki passou a ir em sua casa com mais frequência.

Os olhares furtivos o incomodavam, as insinuações também, porém, há pouco mais de dois anos, Deku aprendeu a não abaixar a cabeça para qualquer coisa e o confrontou. Shouto riu, claramente, falando que Midoriya tinha entendido tudo errado.

― É sério que depois de tanto tempo você ainda não percebeu que eu estava te cantando? ― ele perguntou naquele dia, com os lábios próximos demais à orelha de Izuku.

Lembrar daquilo não era bom, principalmente depois que viu Todoroki começar a “namorar” Yamomo, depois de perceber como ele insistia em ser capacho do pai. Mas não reclamou, não podia, eles não tinham nada sério. Desde o começo sabia que aquilo aconteceria, então a culpa era sua por ter criado expectativas.

Ele havia se afastado de Izuku desde o início do namoro, sabia que era melhor assim. Esquecer. Aquele relacionamento acabou poucos meses depois, quando Momo terminou com Shouto ao se assumir em um jantar cheio de patrocinadores de sua carreira promissora como modelo. O sorriso dele não mostrava nada além do fato de que ele já sabia.

Mesmo assim, nem Deku e nem Todoroki voltaram a se aproximar. Quer dizer, até o evento do hospital, com Bakugou internado e sua cabeça explodindo. Nunca pensou que ver Katsuki machucado doeria tanto, nunca pensou que teria um medo real de perdê-lo. E ele se sentia culpado de alguma forma, por não ter brigado com Bakugou quando ele saiu, por não ter contado a Inko sobre tudo.

Shouto havia o ajudado tanto naqueles dias que não saberia explicar. Era grato por isso, sim, era, mas só. Nunca tentou se aproximar além da conta, nunca tentou voltar ao assunto. Entretanto, agora ele estava ali, em sua frente, com um olhar triste, mordendo os lábios secos ― sempre estavam secos, apesar de não parecer.

― Eu vim aqui falar contigo ― disse, quebrando o silêncio.

― Ah, é? Sobre o que quer falar, Todoroki-kun? ― Deixou que a cabeça caísse para o lado, em um gesto de confusão.

― Sobre nós. ― Lambeu os lábios ao apontar para o outro e depois para si. ― Você sabe o que quero dizer.

― Nós? ― perguntou com cinismo. ― Que nós? Nunca existiu “nós”.

Shouto mordeu os lábios, sabia que seria difícil, então, por que se sentia tão… frustrado?

― Midoriya, por favor…

― Hm? Por favor o que? ― perguntou. ― Seria “por favor, deixe-me explicar, Midoriya, sobre como eu me relacionei com a garota bonita e te deixei a ver navios porque eu sou um imbecil do caralho”? Uh, é isso, não é? Diga que eu acertei. ― Riu sem graça ao ver o rosto de Shouto adquirir uma coloração avermelhada. ― Ah, adoro como sempre estou certo.

― Foi um favor.

― Hm?

― Ela tinha me pedido um favor, fingir que eu estava namorando com ela por pouco tempo, só para conseguir os patrocinadores que queria, sabe, para se livrar dos pais ― explicou calmamente. ― Momo já era emancipada, ela só precisava de um rumo certo a tomar e me pediu aquilo. Nós sempre fomos amigos e eu devia muitos favores, ela apenas cobrou.

Midoriya gargalhou dessa vez, Todoroki era uma graça quando se fazia de inocente, mesmo não tendo nada de inocente. Limpou a garganta quando parou de rir, mas o olhar divertido ainda continuava no rosto.

― Você é engraçado, sabia?

― Oi?

― É muita coragem vir até aqui com carinha de cachorro sem dono para falar esse monte de baboseiras, quando não moveu um dedo para me explicar o que estava acontecendo naquela época. ― Riu mais um vez. ― Ai, Todoroki-kun, você sabe o que eu pensei quando vi tudo lotado de fotos de vocês, sendo que você vivia para falar aquele monte de besteiras melosas para mim dias, isso, dias antes de começar com toda aquela história?

A voz de Izuku era ácida, digna de alguém decepcionado demais para se importar com a tonalidade em que ela estava. Deku ainda sorria, dessa vez com deboche, ele havia mudado bastante naqueles anos, havia jogado toda aquela passividade fora e aprendeu a lidar com os próprios problemas, não era mais uma criança. O ato que veio em seguida surpreendeu Shouto de diversas maneiras, Midoriya não apenas havia sentado em seu colo, como segurava seu queixo, com o rosto próximo demais ao seu.

― Eu me senti tão, mas tão lixo, Shouto ― sussurrou próximo ao ouvido, dando-lhe um beijo na bochecha logo em seguida. ― Sabe o que você pode fazer com seu arrependimento? Enfiar ele no cu, não preciso dele e não quero.

Continuou a acariciar o rosto pálido, sem levantar, deixando que os olhos cravassem nos lábios finos, não pensou duas vezes antes de beijá-lo, mesmo sabendo que era um ato até que contraditório. Estava com raiva, aquela não era uma carícia, não havia intenção alguma de passar daquilo, muito menos de voltar àquela conversa estúpida. Todoroki o segurou pela cintura, soltando-se das amarras que o prendiam quando chegara ali e o beijo se intensificou. Só que Izuku não deixou que continuasse, as bocas se separaram sem aviso prévio, apenas restando-lhe uma mordida no lábio inferior.

Não deixou que ele saísse dali, não deixou que levantasse só para mandá-lo embora, Todoroki sabia que ele o faria, por isso, apenas o apertou em um abraço, colocando seu rosto na área do pescoço.

― Izuku, por favor ― falou, enquanto beijava levemente o pescoço, fazendo com que a pele arrepiasse. ― Por favor…

― Chega, me solta, eu quero levantar. ― Ele não o soltou, apertando-o mais em seus braços.

― Eu sou estúpido, um imbecil para ser mais preciso. ― Engoliu em seco. ― Mas eu conversei de verdade com Dabi, botei tudo para fora, eu venho tentado me aproximar há meses, mas você não deixa e eu sei que essa é a intenção. Só que, caralho!, eu vim aqui para isso não foi, para falar com você e colocar um ponto final nisso tudo, quer dizer, se você quiser. ― Midoriya suspirou, não estava a fim de se sujeitar àquilo de novo, merda.

Não houve tempo de responder, exatamente. Não antes de o barulho das passadas ser ouvido e a porta ser aberta com violência. A mulher de cabelos alaranjados trajava um vestido de longo e luvas brancas de tecido fino. No entanto, não era aquilo que realmente chamava atenção, pelo menos, não tanto quanto a arma disposta em sua mão.

A moça sorriu travessa antes de apontar-lhes a submetralhadora e abrir fogo contra os dois garotos sentados, mas as balas nunca chegaram.

Era como se o tempo houvesse congelado, uma pausa para que o narrador contasse a história por trás daquele evento. Todavia, não existia um narrador ali. Não era um conto de ação ou algo do tipo.

O tempo estava parado, olhos arregalados e um muro de gelo começando a se erguer, tentado escapar da chuva de balas que os atingiria a seguir. Mas, antes disso, uma espécie de portal se abriu e quem saiu de lá eram as pessoas que aqueles dois menos esperariam.