Revival
2 Capítulo Dois - Burning Day
O movimento se desfez em um grande barulho e o corpo magricela foi arremessado à parede de concreto. Mais duas explosões foram escutadas antes que um muro de gelo se formasse ao redor do criminoso. A polícia local já havia sido notificada àquela hora, o que significava que teriam que sair dali logo.
Katsuki não aguentaria muito mais que aquilo, o esforço físico que fizera depois de tanto tempo parado fazia com que seus músculos ardessem como o inferno, mesmo que tentasse se movimentar, não conseguiria, não sem ajuda de alguém. E Shouto Todoroki sabia, ele havia observado o amigo desde o início daquela luta, os movimentos de Bakugou continuavam rápidos e precisos, as explosões estavam mais potentes e altas do que nunca, mas depois de um tempo, o garoto perdeu a força e mais parecia que ele estava se esforçando para continuar em pé do que tudo.
Foram seis homens no total, as três mulheres que continham o objeto valioso haviam fugido antes mesmo que eles chegassem ali. Não era burro, sua mente podia traçar os destinos que elas poderiam ter tomado, mas com Katsuki naquele estado, seria difícil segui-las.
Todoroki crispou os lábios em um gesto que demonstrava toda a sua indignação perante a situação em que se encontrava. Tinha que se manter calmo, sabia disso, só que não pôde pensar em muita coisa antes de ver Bakugou cair sobre os joelhos, desacordado.
X.X.X
Os passos podiam ser escutados até mesmo dentro do quarto. A pessoa que andava parecia estar estressada e Bakugou não se impressionou com aquilo ao notar que estava na casa dos Todoroki. Aqueles passos eram, provavelmente, do pai de Shouto. E o quarto onde se encontrava devia estar debaixo do escritório do demônio ― como Katsuki havia apelidado carinhosamente o progenitor de seu amigo.
Mas não só aquilo chamou sua atenção. Muito pouco lembrava do que havia acontecido na noite anterior. Lembrava de ter acordado quando ainda estava escuro, voltando a dormir logo em seguida, mas não sabia ao certo como havia chegado à casa do meio a meio e isso era algo a se questionar quando encontrasse o companheiro em um dos infinitos cômodos daquela mansão. Porém não poderia negar que, antes de se meter a procurar, ele deveria descansar mais um pouco. Bakugou não era louco, sabia que passara dos limites na noite anterior, seu corpo precisava de uma parada, mesmo que sua mente não o ajudasse a ficar exatamente quieto. O impulso de fazer algo, investigar o porquê de tantas organizações criminosas estarem se reunindo naquela época do ano, em específico; aquilo sim estava o matando.
Não conteve o revirar de olhos quando a porta abriu e a pessoa de uniforme entrou segurando uma bandeja em seus braços. Ele mal havia batido, um péssimo hábito que havia criado. Katsuki gostava de enumerar as coisas que mais o incomodavam, invadir sua privacidade era uma delas. E aquele imbecil não parecia ter a menor intenção de escutá-lo. Aquilo o tirava do sério!
Izuku sorria pacífico ao colocar o objeto sobre a cômoda. Katsuki podia ver sua respiração pesada ao perceber o movimento do tórax. Ele estava nervoso, não queria demonstrar, mas estava. E isso fez com que o garoto refreasse um pouco sua mente. Por isso, deixou que um suspiro resignado saísse da sua boca.
― Por que você tá aqui? ― ele perguntou entediado, já sabia a resposta.
― Shouto me ligou, pediu que eu viesse te buscar ― respondeu em um tom preocupado. ― Ele imaginou que poderia dar problema que se a mãe te visse desse jeito e eu, bem, concordo.
Katsuki revirou os olhos mais uma vez, vendo Deku pegar a maçã em cima da bandeja e apontar para ele como se nada tivesse acontecido. Mas não foi aquele gesto que o adolescente observou, e sim a forma em que a mão de seu, bom, seu alguma coisa se mexia, estava firme demais para alguém que chegara ali respirando profundamente. Quando Izuku ficava nervoso, costumava tremer como um filhote de gato. Aquela comparação fez seu estômago revirar.
Pegou a maçã oferecida e mordeu com pressa, sem dar atenção ao sorriso vitorioso que o outro garoto exibia.
― E desde quando você e o meio-a-meio se falam? ― perguntou, ainda mastigando. Izuku esperou até que ele engolisse a fruta para responder, o sorriso ainda não havia saído dos lábios e aquilo incomodava Bakugou.
― Desde que você parou na merda de um hospital e eu tive que te encobrir.
Katsuki jogou o resto da fruta na lixeira quando viu a expressão de Deku se tornar debochada, contando um ponto por ter acertado. Ele não queria conversar com aquele idiota, não, já haviam trocado mais palavras do que normalmente faziam, aquilo não era bom. Revirou os olhos ao sentir a garganta seca e estendeu o braço para pegar o copo de suco, péssima ideia, o braço começou a doer como houvessem jogado algo nele. Era uma dor infernal, menor do que teria se houvesse quebrado algum osso, mas ainda assim doía como se a morte tocasse seu membro e o girasse infinitas vezes, como um castigo por ter passado dos limites.
Deku apenas se moveu para pegar o copo e entregá-lo, não falou nada. Só ficou ali, imóvel, com o olhar focado na prateleira cheia de livros, o que não fazia sentido, já que era um quarto de hóspedes.
― Eu não te pedi para me acobertar ― rebateu Katsuki.
― Não, não pediu, mas é isso que irmãos fazem, não é? Eles estão lá e dão um jeito nas suas merdas mesmo que você esteja de saco cheio da cara deles.
Não era aquela resposta que ele queria, Izuku não era seu irmão, nunca seria, mesmo com os esforços que Inko fizera para que parecesse ser daquela forma. Mas o garoto não teve tempo de rebater antes que Deku mudasse de assunto.
― Esse é o quarto de alguém? ― perguntou curioso.
― Provavelmente não. Os quartos de todo mundo ficam o mais longe possível do escritório do Demônio. Ninguém nessa casa gosta dele para ficar com o quarto próximo daqui. E é por isso que Shouto sempre me traz para cá, ninguém se aproxima dessa parte da casa, quer dizer, acho que não. ― A voz saiu mais baixa do que normal, Katsuki não gostava de admitir, mas nutria um medo terrível por aquele homem. Endeavor, como a mídia gostava de chamá-lo, era dono de uma das maiores corporações crescentes no país, ele era um homem fechado demais, irritado demais e escroto demais. Mais que medo, o adolescente tinha nojo dele.
― Ah, sim. É que esse quarto está decorado demais para ser algo para hóspedes ― explicou ele, ainda olhando a xícara usada em cima da escrivaninha.
― É porque não é para hóspedes. ― Uma terceira voz foi ouvida, fazendo com que ambos os garotos se sobressaltassem pelo susto. ― Pensei que tivesse dito que o levaria para casa assim que chegasse a esse quarto, Midoriya.
― Ele disse?
― Eu disse. Não acha um pouco grosseiro expulsar as pessoas dessa forma, Todoroki-kun? ― Izuku debochou, retomando a ascendência japonesa do outro. ― Pensei que ele fosse seu amigo, não? ― E gesticulou, colocando uma perna sobre a outra. Shouto era tão sem graça. ― De qualquer forma, estou esperando Katsuki terminar o café da manhã, é muito incômodo para você?
Todoroki suspirou.
― Não, claro que não. Eu só quero um minuto a sós com ele. ― Limpou a garganta. ― Para discutir negócios.
― Eu não posso mesmo ficar aqui? ― Deixou a cabeça cair para o lado, assim como deixou o sorriso divertido morrer em seus lábios, adquirindo ares mais dramáticos a sua expressão. ― Não é como se eu não soubesse de tudo o que vocês fazem.
Katsuki volveu o olhar para Todoroki, que suspirava cansado demais para discutir sobre qualquer coisa e apenas revirou os olhos com aquela falta de tato diante do seu irmão.
― Deku, fora ― disse, em um tom sério demais para a careta que exibia na face.
Izuku estalou a língua, injustiçado, porém não contrariou o pedido, só levantou e saiu a passos largos, batendo a porta com mais força que o necessário.
― Seu irmão é difícil demais de lidar ― reclamou ao deixar os ombros caírem sem pressa.
― Ele não é meu irmão. ― Semicerrou os olhos. ― E você que é medroso demais para falar com ele. Ah, não me olhe assim, eu sei de tudo, okay? Agora, pode me dizer o que tanto quer falar?
Todoroki suspirou mais uma vez antes de colocar levemente a xícara de café sobre a escrivaninha e sentar na cadeira, girando-a para ligar o notebook já cheio de poeira que ali se encontrava. Bakugou o viu tomar dois goles do café ao levantar com o aparelho em mãos e soltá-lo em cima do cobertor azul petróleo que cobria metade do seu corpo.
― A briga de ontem à noite não foi um evento isolado, disso nós já sabíamos. Mas o porquê é que me intriga ― ele falou, levando, mais uma vez, a xícara aos lábios. ― Eu pesquisei alguns eventos, algum motivo devia existir para tantas organizações criminosas estarem, bem, se organizando.
― Cara, vai direto ao ponto.
― Tudo bem, tudo bem. Lembra daquele “boom” que aconteceu quando descobriram que uma das crianças daquela academia, é…
― Umbrella Academy?
― Isso, isso. Quando aquela criança sumiu e saiu em todos os jornais e tudo mais?
― O que isso tem a ver com as pessoas com quem lutamos ontem?
― Então, tudo. ― Ele sorriu, ajeitando os óculos de armação redonda sobre o nariz. ― Não são “as organizações criminosas” como pensávamos, é A Organização.
― Todoroki, desenvolva ― ele disse, impaciente.
― Eu procurei pelos crimes recorrentes nas últimas semanas. E, antes que pergunte, eu pedi a ajuda da Jirou sim e se você implicar com isso, dane-se. ― Voltou a tomar o café, enquanto dedilhava com rapidez o teclado.
― Okay, mas que porra você encontrou?
― Sequestros. Adolescentes desaparecidos em 16 países diferentes. ― Girou notebook em seu colo, mostrando os dados que havia colocado no programa. ― Vinte e dois adolescentes nas duas últimas semanas.
― Existe ligação entre eles?
― Nada além da data de nascimento.
― Shouto, cara, sequestros são normais, isso pode ter sido apenas coincidên…
― Bakugou ― ele o cortou. ― Esses adolescentes nasceram em 01 de outubro de 1989. E eles são como nós.
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