Reviravolta com sêxtuplos
1 Prólogo
I cut off all my youthful feelings year after year
After all they don’t mean much, they’ll soon disappear
This rotten heart
These filthy lies
— Rewrite, Darling Thieves
29 de dezembro, 19:00
— Eu já disse, zansu.
— Mas, Iyami, eu pensei que...
— Não pensou nada, zansho! Sai da minha frente!
— É assim? Então espero que morra amanhã, dentuço de merda!
— Cuidado com o que deseja moleque, não se brinca com carma, zansu yo.
30 de dezembro, 15:10
O evento de autógrafos terminara cedo, por volta das três da tarde, apesar de ter ficado boa parte do tempo na fila, só de poder chegar perto de sua ídolo valeu todo suor e esforço de aguentar a nevasca que caía lá fora, não chegava a ser alarmante, mas forte o bastante para rachar seus lábios e aquecer seu rosto. Quando finalmente entrou no prédio, quentinho pela calefação, apenas a vermelhidão nas suas bochechas permaneceu, e ainda estava lá ao estender a sua revista de edição especial para que a cantora pop autografasse. Por um breve momento se esqueceu do frio, um sorriso bobo estampado no rosto, passou por desconhecidos da fila na volta, balançando de leve a sacola de pano, sua mente estava nas nuvens cantarolando alguma melodia alegre, e então, o primeiro passo fora do prédio o fez estremer da base à cabeça.
— Que inferno! — Maldisse a meias palavras, encolhendo-se.
A sacola ia dessa vez rente ao corpo, ainda balançava, mas agora batia contra o seu casaco espesso de lã. Por causa do tempo que fazia, não surpreenderia que tivesse vontade de chegar logo em casa, guardar seu tesouro à sete chaves longe de certas pessoas, mas seus pés pareciam ter outros planos e se viu indo para o lado oposto.
A neve chicoteava em seu rosto dificultando que enxergasse bem a sua volta, sabia que passava por pessoas e edifícios, deveria saber para onde estava indo. Num determinado momento forçou a vista, comprimindo as pálpebras, e avistou a ponte não muito longe, foi caminhando naquela direção.
— Engraçado, era para ele estar aqui. — Pensou, e não muito tempo depois deixou o local.
Se estivesse atento perceberia cada vez menos pessoas nas ruas, perceberia o sol se pondo, as poucas luzes do natal se acendendo e dando margem para uma nova festividade, perceberia a luz avermelhada da barraca de comidas logo abaixo de si, perceberia uma silhueta familiar agachada na ribanceira, escutaria as sirenes da ambulância, antes de olhar de relance para o veículo logo após virar a esquina que dava para sua casa.
Ao chegar, Choromatsu tirou as botas na entrada e pendurou o casaco no cabide, não havia sistema de calefação instalada, mas podia ver a claridade fraca do aquecedor à querosene na sala através do fino papel da porta de correr.
— Cheguei. – Anunciou sua presença sem muito ânimo.
Passos tão animados quanto vieram em sua direção.
— Ah, é você, Choromatsu.
— Porque eu não estou surpreso? – Deu um suspiro cansado. – Aliás, você viu o Karamatsu? Eu jurava que ele ia estar na praça, tão absorto em si mesmo para se dar conta da tempestade que está fazendo. Eu só espero que não morra congelado, porque não vou ser eu a carregar a carcaça dele, não ponho mais os pés lá fora.
— Ei, ei, ei! Calma aí, Choro-chan, ele tá lá na sala, não desgruda da televisão desde que começou o noticiário.
Choromatsu arqueou uma sobrancelha, mas não disse nada.
Aproximando-se da porta conseguiu distinguir melhor a voz que saía do aparelho, parecia ser de uma jovem jornalista.
“Estamos aqui com o advogado que inocentou o grande mágico do Berry Big Circus, Maximillion Galactica. Senhor Wright, poderia nos dar um pouco de seu tempo para responder umas perguntas?”
— Podia ter me avisado que voltaria mais cedo.
Assim que deslizou a porta foi recebido por um grande sorriso e diversas piruetas.
— Brother, que bom vê-lo, hoje é um dia maravilhoso, as luzes da verdade brilharam sobre o grande, fantabuloso, esplendoroso, mágico —
— Fico feliz que esteja bem.
Karamatsu parou a frase pela metade, piscou algumas vezes sem entender.
“Ah, sim, confesso que também fiquei surpreso quando percebi que era o Acro, foi um choque para todo mundo.”
O advogado na tela da televisão coçava a cabeça sem jeito com um sorriso nervoso no rosto. De repente só sobrou a iluminação da tela e um apito se fez ouvir. O aquecedor precisava de mais querosene.
31 de dezembro, 13:15
Escritório de advocacia Wright e sócios
A semana foi mais cheia do que esperava, quando levei a pequena Pearls ao circo junto com a Maya não imaginava que teria que passar mais de um dia lá. Estaria mentindo se dissesse que não foi cansativo, mas no geral foi um caso satisfatório.
Apenas uma coisa permaneceu um mistério. Durante o intervalo, antes do próximo testemunho do Acro, o detetive Gumshoe apareceu com uma nova evidência para o caso, dizendo ter um aviso da promotoria para mim. Contudo, eu tive uma ligeira impressão de que ele não estava se referindo à promotora von Karma.
Enfim, por agora, só quero pensar é em tirar umas boas férias de ano novo e ver os fogos de artifício com a—
— Nick! Terra para Nick!
— Maya!
Eu levanto a cabeça de súbito e me ajeito na cadeira.
— Isso não é hora de ficar dormindo, a gente tem que sair para encher a barriga de hambúrguer e escrever a carta de ano novo para a Pearly.
Animada como sempre... Tirando os hambúrgueres, talvez não fosse uma má ideia distrair um pouco a mente com o ar fresco da tarde e visitar a barraca de macarrão do senhor Eldoon, tenho certeza que ele não nos recusaria uma tigela.
— Bem, depois que eu terminar de preencher estes papéis aqui podemos sair.
— Vamos, você já trabalhou demais, é bom descansar de vez em quando, se continuar assim seus olhos vão cair.
— Acho que anda vendo desenhos demais, Maya.
Mas, dessa vez, eu tenho que concordar com ela. Eu estico bem os braços e sinto meus ossos estalando das costas até os pulsos. Pronto! Este Phoenix está preparado para
De repente a campainha toca.
— Quem será? Um cliente? – Pergunta Maya olhando para a entrada do escritório.
— Deve ser algum jornalista em busca de um furo sobre o caso recente.
— Nick, seu cérebro já virou pudim? Quem estaria trabalhando num dia como este.
— Pergunta isso para a Lotta, eu aposto o almoço de hoje que é ela.
Lotta Hart, uma fotógrafa temperamental, mas de bom coração. Ela já me deu algum trabalho em casos anteriores, principalmente por oferecer fotos bem suspeitas como evidência, mas nunca com má intenção, a sua paixão por furos jornalísticos acaba ganhando o melhor de si.
— Nick...
A voz preocupada da Maya me tira de meus pensamentos, ao lado dela estava uma senhora de idade que parecia estar nos seus setenta anos, ela vestia um quimono tradicional com variações de ocre e azul escuro, carregava com as duas mãos em frente ao corpo uma bolsa pequena de alça.
— O jovem seria o famoso advogado que meu filho tanto fala? Senhor Wright, estou certa?
Algo na tonalidade da sua voz me fez engolir em seco. Pelo visto vou ficar devendo à Maya o lanche da tarde.
— A senhora seria...
— Matsuyo, pode me chamar de Matsuyo.
— Ah, por favor, senhora... Matsuyo, queira se sentar—
Ela bateu com tudo a bolsa em cima da minha mesa, fazendo com que me sobressaltasse.
— Eu serei rápida e direta senhor advogado.
De dentro da manga do quimono ela retirou um lenço e começou a enxugar de leve o canto do olho, depois com uma voz chorosa continuou:
— Meu filho, meu querido filho... Ele é inocente!
No fundo, bem lá no fundo eu queria, com toda delicadeza e respeito, ter recusado o caso, acho que a Maya seria da mesma opinião, mas havia algo, algo de peculiar na expressão resoluta daquela senhora de idade que me convenceu a aceitá-lo.
— Perdão, poderia repetir o nome de seu filho?
— Osomatsu, meu filho se chama Osomatsu Matsuno.
E lá se vão os planos pro ano novo...
Continua
Fale com o autor