Reverso

8 ♦ Capítulo 8


Notas iniciais
Mais um. Boa leitura.

Reverso

By Amanur

Capítulo 8

...

Sakura acha que há algumas coisas na vida que nunca vai entender por que acontecem.

Como por exemplo, por que Sasuke mentiu? Ela não se lembrava de tudo o que aconteceu naquela festa, mas lembrava de algumas coisas que aconteceram após a festa. Lembrava de estar vomitando no pneu da moto dele, não lembrava como chegou a casa dele, mas lembrava dele tirando suas roupas, enquanto ela se amaldiçoava por não ter forças o suficiente para impedi-lo. Dentre todas as pessoas do planeta, ele seria o último a quem se mostraria. E agora, ele tinha todos os artifícios em mãos para humilhá-la e debochar de sua cara de trouxa pelo resto da vida. Mas por que ele mentiu?

Talvez, para ele, ela não passasse de uma garota fraca que se submete à qualquer cena ridícula com um pouco de bebida alcoólica no sangue, e não valesse à pena ao esforço!, pensou. Vai ver ele pensava que ela era uma vadia contida. Já ouviu dizer que as pessoas fazem o que têm vontade de fazer quando está bêbada... Embora, ela se negue a acreditar com todas as forças que alguma vez tivesse pensado em deixar algum homem passar a mão nela, como o Gaara fez. Ela tinha vontade de pular de asa delta, bungee-jump, nadar pelada numa praia (quando estivesse completamente sozinha), fazer sexo no elevador com o namorado (quando conseguisse se libertar dos choques que sentia ao toque com sua pele), entre outras loucuras desse tipo. Mas nada muito escandaloso, que ferisse sua moral e integridade.

Quando entrou, encontrou seu pai sentado na cadeira da cozinha, com uma xícara de chá na mão, enquanto sua mãe tentava acalmá-lo. Quando a viram ali, diminuta e indecente, os dois se levantaram. Havia uma tensão pesada pairando no ar. Havia raiva e frustração nos olhos dele, e preocupação nos olhos da mãe. E muita vergonha nos olhos de Sakura, é claro.

Ela não disse nada. Apenas se retirou para o seu quarto, a passos lentos e rastejados, ao ver que eles não diriam nada. Nem precisavam dizer nada. Tudo o que pensavam estava bem estampado na cara deles. Tirou o vestido molhado da Karin de dentro da sacola e o pôs na cesta de roupa suja para lavá-lo e devolve-lo depois. Trocou rapidamente de roupa, lembrando de ter deixando sua bolsa com seu celular e carteira no fusca da amiga. Por sorte, ela ainda tinha algum dinheiro guardado numa gaveta do seu criado mudo. Pegou seus materiais, e saiu. Na porta de casa, ouvi seu pai dizer apenas que teriam uma “conversa séria quando ela chegar”.

Mas se surpreendeu ao ver o Sasuke ali, parado e vestido com uma capa de chuva transparente, como se não tivesse se movido um milímetro sequer, lhe esperando em sua moto. Só então se deu conta da chuva forte que caía. E ainda assim, ele estava ali, lhe esperando.

Mas nem Sasuke sabia ao certo o que estava fazendo ali.

— Vai uma carona, colega? Tenho uma capa de chuva extra. — disse, sorrindo de canto para a moça.

— Não, obrigada. — ela respondeu, sem aquela mesma empolgação em que ele lhe ofereceu o convite.

Tirou o guarda-chuva que sempre carrega na mochila e o abriu. Olhou para o chão, e começou a caminhar em passos apressados, pisando em poças d’água, até a parada de ônibus. Ela não precisava mais ser vista com aquele delinqüente. E não podia se deixar enganar por esse seu jeito dissimulado. Sakura estava certa de que ele queria enganá-la. Por que é isso o que garotos como ele fazem, certo?

Mas ela também deveria se preparar, pois deveria saber que ele não iria desistir fácil. E, de fato, Sasuke veio lhe seguindo lado a lado, com sua moto quase silenciosa.

Ma che brutte, ragazza ingrata! — ele resmungou.

— Não, eu não sou ingrata! Eu agradeço do fundo do coração pela sua ajuda, mas isso é tudo o que posso fazer! Não quero abusar mais de sua boa vontade. Tchau. — apertou mais os passos, mesmo sabendo que ele poderia facilmente lhe alcançar mesmo que Sakura corresse.

Mas ele apenas começou a rir.

— HAHAHA! Você sabe italiano? — perguntou.

— Um pouco. — deu de ombro, sem entender qual era a graça.

— Morei por dez anos na Itália, sabia? O Itachi não!

De repente, ela parou de caminhar e olhou para ele. O que diabos ele poderia estar tentando fazer?, pensou, se exibir para ela? Não. Talvez ele estivesse tentando fazer algo ainda mais estúpido.

Não. Sasuke apenas estava pensando em seu plano, agora.

— Que bom para você. — Sakura virou a esquina, vendo a parada de ônibus logo adiante. Havia uma senhora parada, com seu guarda-chuva nas mãos.

— Na verdade, foi péssimo. Você não tem idéia...

O olhou de canto, vendo que ele não parecia estar de brincadeira. E suspirou.

— E nem quero saber. — ela respondeu, secamente.

Assim que parou atrás da senhora, ele parou a moto na rua, bem em frente à rosada. Aí, ele tirou a luva de couro impermeável que vestia e lhe mostrou sua mão, do lado oposto à palma. Seus dedos eram cheios de cicatrizes e marcas finas e esbranquiçadas, como se alguém tivesse passado algo cortante neles por diversas vezes.

Ele ainda suspirou, sem acreditar muito que realmente estaria prestes a dizer aquilo. Mas aquela lhe parecia ser a única forma que tinha a seu dispor para conseguir atingir seu mais novo objetivo.

— Meu pai vem uma família rigorosa e tradicional, com descendência em italianos. Há vários músicos na família. Fui despachado para a Itália para aprender a tocar piano com os melhores músicos. Mas toda vez que ia apresentar minhas habilidades no piano ao meu pai, e errava uma nota, ele batia a tampa pesada sobre os meus dedos para aprender a não errar. Ele batia aquilo até que saísse sangue dos meus dedos. — não havia um sinal sequer de emoção em suas palavras. Com o tempo, ele aprendeu a lidar com aquilo da forma mais fria possível, olhando para aquelas memórias como se fossem apenas marcas de nascença.

Mas Sakura não pensou assim. Engoliu a seco, sem saber o que dizer. Até a senhora, que estava com ela na parada de ônibus, o havia escutado e o olhava com horror nos olhos. Quando ele a olhou, a mulher desviou o olhar em constrangimento.

— O Itachi também? — ela perguntou. Embora não se lembrasse de ver marca alguma nas mãos do namorado, ela achou pertinente a pergunta.

Sasuke olhou para o outro lado da rua, e pôs de volta sua luva.

— Não... O Itachi sempre foi meio que um gênio na matemática. Desde cedo lhe foi incumbido a tarefa de cuidar das finanças da empresa, e o coitado foi condenado a estudar feito... O condenado que é. Mas como eu sou cabeça dura e não aprendo nunca, meu pai acabou cansando de ficar indo e vindo, do Japão para a Itália, da Itália para o Japão, e resolveu me trazer de volta. E agora ele está tentando empurrar uma nova vocação para mim.

— Por que você está me contando isso, Sasuke? Você quer que eu sinta pena de você?

— Não, pena é digna somente para os fracos. Eu ainda estou aqui de pé e sorrindo, não estou? — ele forçou um sorriso, sem um pingo de humor — O que eu quero é a sua confiança. Quero a Karin.

Talvez, algum dia, Sakura entenda como funciona sua mente. Mas por enquanto, preferiu não fazer mais nenhum julgamento precipitado. E, no fim, acabou surpreendendo a si mesma, aceitando a sua proposta. As duas.

Enquanto isso, Sasuke pensava naquela famosa frase: para cada ação existe uma reação. Isaac Newton dissesse que as reações são opostas, mas de igual intensidade, ou as ações mútuas de dois corpos, um sobre o outro, são sempre iguais e dirigidas em direções opostas. Só que Sasuke não queria que suas reações fossem opostas a ele, e muito menos que ela fosse direcionada ao sentido oposto a si. Ele queria direcioná-la à si. E é aí que a psicologia reversa entraria como uma luva em seu plano. E ao que tudo indicava, as suas ações estavam surtindo o efeito exato nela, contrariando o tio Isaac. Se bem que ele usava a lógica matemática enquanto que, em psicologia, nada é lógico, tudo é relativo...

Bom, ele achou melhor esquecer tudo isso! Matemática nunca foi seu forte mesmo.

A chuva pareceu cair mais forte no momento em que ela disse “eu aceito”. Ela tinha uma expressão tão determinada no rosto, que ele não pôde resistir ao trocadilho.

— Até que a morte nos separe? — brincou.

Mas ela não gostou da piadinha. Revirou os olhos e cruzou os braços.

— Mas preste atenção! Se você pisar na bola uma única vez que seja, não vou perdoar, Sasuke. Eu não vou dar uma segunda chance.

Ele engoliu a seco. Por que sabia que não era o ser humano perfeito que ela, talvez, estivesse esperando que ele fosse. Que ela estivesse, na verdade, duvidando que ele fosse! Mas tudo bem, não seria agora que ele iria voltar atrás! Não depois desse grande passo que conseguiu dar. E também aceitou o desafio que ela propôs.

— Ok. Eu não vou deixar que você se arrependa. — ele diz, pensando em como só ele sabia do duplo sentido que aquela frase carregava.

Ele não soube dizer se foi só impressão, mas tive a sensação de que, desta vez, ela o segurou com mais leveza quando subiu na moto para lhe dar a carona. De certa forma, isso meio que indica que ela estava com tranqüila ao lado dele.

Sasuke não tinha a aula de estatística que ela teria no primeiro período, mas tinha a aula de psicologia organizacional no segundo período que ela também teria. Metade da turma ficou os olhando, curiosos, quando entraram juntos cinco minutos atrasados. Inclusive o professor Yamato, que também daria aquela aula. E o homem não a deixou sentar em seu lugar, chamando-a para um conversa rápida e obviamente privada — pois cruzou os braços quando Sasuke parou ao lado dela, em frente a sua mesa. E ainda, na maior cara de pau, o moreno sorriu para o professor.

— Bom dia, professor! Acordou de mau humor? Tem uma verruga no meio de sua testa. Cuidado para não ficar velho antes do tempo! — o rapaz comentou, sarcasticamente.

— Sakura, não tenha medo dele. Se ele chantageá-la com alguma coisa, ou suborná-la, ou qualquer outra coisa, por Deus, não tenha medo de denunciá-lo. — o professor lhe disse, fuzilando Sasuke. Mas claro que o moreno não iria ficar de boca calada!

— Outch! — resmungou — Assim você parte o meu coração, Yamato. Não diga essas coisas sobre mim por aí! Não se preocupe, Sakura, eu não me transformo num lobisomem as meia noite de luas cheias, nem engulo criancinhas abandonadas na sarjeta. — se virou de volta para o Yamato, que o olhava com os olhos cerrados — Na verdade, eu sou bastante generoso. — ergueu as mãos para o alto — Veja, não estou fumando e estou cem por cento sóbrio! — sorriu — E ainda fiz a caridade de dar carona à garota!

— Sentem-se. — Yamato apenas disse, sem um pingo de humor.

— Rir ainda é o melhor remédio!, sabia, Yamato? — Sasuke ainda lhe disse, após dar as costas ao professor.

Sakura revirou os olhos, sem entender o que aquele idiota poderia estar pensando ao fazer comentários como aquele, que só pioram sua imagem. Ela, definitivamente não o entendia.

E ele deu de ombros, a acompanhando até sua mesa, vendo que Hinata e a Ino o metralhavam com os olhos enviando suas energias negativas e sombrias. Sasuke sorriu para elas, como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse se esquecido de nada... Ou de alguém. Às vezes, acreditava ele, era melhor fazer de conta que nada aconteceu para não piorar a situação. Mesmo sabendo que ainda teria muito o que ouvir delas, isto é. Mas ele deixaria para testar a situação da sua paciência depois. Agora, tudo o que fez foi sentar atrás da garota dos cabelos cor de rosa, novamente. E perceber que a Karin lhe incendiava com chamas negras invisíveis. Piscou o olho para ela, enquanto ela se inclinava até a Sakura.

— Não acredite em nada do que ele diga, Sakura. — e a ruiva ainda o olhou, como se estivesse prestes a pular no pescoço dele. Afinal, ela tinha medo de perder a amiga por mal entendidos. Ela julgava ser mal entendido, pois tinha certeza de que o moreno havia contado outra história. Ou uma versão distorcida do que realmente aconteceu.

Sakura a olhou de canto, sem entender muito sobre o que sua amiga estaria falando. E não deu muita bola para isso, pois estava mais preocupada com os olhares acusatórios que o restante da turma lhe lançava. O Itachi não estava à vista, o que significa que eles não teriam aquela aula juntos naquele semestre, mas ela não sabia se isso era bom ou ruim.

E Sasuke pensava: é muita cara de pau!, se referindo à ruiva. Ele pensava que ela, provavelmente, iria lhe contar alguma mentira para se safar da culpa. Cruzou as pernas por baixo da mesa, sorriu para ela, e baixou a cabeça para dormir. À ele, pouco importa o que façam.

E assim, para Sakura, a aula se passou tranquilamente, com exceção do fato da Ino não parar de lhe encarar. E aquilo já estava lhe incomodando. Quando a aula terminou, sua amiga a puxou para fora da sala imediatamente, antes que o incomodo do Sasuke acordasse. Karin pretendia lhe contar alguns de seus segredos, enquanto comiam tranquilamente no restaurante.

Enquanto isso, Sasuke acordou com o Yamato batendo umas folhas de papel enroladas em sua cabeça, para lhe avisar que só estava o esperando para trancar a sala de aula, pois já se passara dois minutos do seu precioso intervalo. O professor ainda tentou passar uma lição de moral ao Sasuke, dizendo que deveria dar mais valor ao que tinha, que seu futuro estava em suas mãos e que o poder era dele. Blah-blah-blah!, pensou. Sasuke quis rir na cara dele. Infelizmente ele estava bem longe de ser o capitão planeta. Ele mal tinha capacidade para salvar a própria vida, o que diria o futuro de alguém — mesmo que fosse o próprio, isto é. Mas, para o moreno, isso não vinha ao caso. Apenas mandou seu professor tomar no buraco negro de seu rabo peludo, e se levantou.

Viu que as coisas as Sakura não estavam ali, em sua mesa, o que só podia significar que ela teria a próxima aula em outra sala. Pegou suas coisas, e saiu em direção ao restaurante universitário.

O lugar estava atulhado de gente sentada e de pé, andando para de um lado para o outro com bandejas nas mãos. Quem olhasse rapidamente, teria a impressão de que não havia mais lugar algum para sentar. Alunos de outros cursos e professores faziam suas refeições conversando uns com os outros, como se a vida fosse um perfeito mar de trivialidades. Enquanto ele passava, conseguia pescar algumas das conversas supérfluas que rolavam por ali. Falavam sobre algum inconveniente no trabalho, ou sobre o namorado da amiga, ou sobre o carro novo do pai, ou um show de alguma banda, ou uma mulher que conheceu em uma danceteria, ou um trabalho não entregue ao professor de topografia, ou as botas novas que ganhou, ou a mulher que saiu na capa da playboy, ou... A bunda gostosa da Sakura.

Reconheceu o ruivo que falava sobre isso com o Naruto. Na verdade Sasuke não o conhecia, como conhecia o Naruto. Ele apenas o tinha visto perambular por aí. Ou talvez tivessem sido colegas em alguma disciplina antes. Era um cara boa pinta, mas que não fedia nem cheirava.

Eles estavam terminando de almoçar. Havia pratos e talheres espalhados por suas bandejas. Sasuke, então, puxou uma cadeira e se sentou, encarando o cara.

— E aí, tudo bem? Me conte sobre a bunda gostosa dessa garota de quem vocês estavam falando.

O ruivo olhou desconfiado para o loiro, que apenas deu de ombros, sem entender nada. E Sasuke forçou um sorriso para eles.

— Voxê a conhexe? — o ruivo lhe perguntou. O moreno percebeu que ele falava meio estranho, como se tivesse a língua enrolada.

— Digamos que sim. — o moreno deu de ombros, ao ver que o loiro, de repente, se sentia desconfortavel em sua cadeira.

— É claro que conhece, Gaara. Sakura é namorada do irmão dele, lembra? — o loiro parecia começar a suar pela testa, mas olhava para Sasuke sem muito enteder. Afinal, desde quando Sasuke se importa com formalidades?

— Oooh! — o ruivo engoliu a seco. Ou tentou.

— Ele apenas estava me contando que havia dançado com a garota na festa do Kiba. — Naruto comenta, tentando amenizar o clima tenso que pairou sobre eles. Sasuke achou que o loiro estivesse apenas tentando defender o amigo, no entando — Na festa de ontem, você sabe. Você também estava lá com a Ino, lembra?

— Aham. — respondeu, sem olhar para o loiro — Você dançou com a menina. Eu entendi. Pule essa parte e me fale da bunda dela. — o moreno não soube explicar o que estava acontecendo, para sentir algo começar a queimar dentro das veias.

Esse ruivo deveria ser um tapado!, pensou. Por que ele começou a rir, nervoso, e sem o mínimo de noção do que estava se passando em sua mente, enquanto Sasuke alternava o olhar entre o ruivo e faca em sua bandeja. Aquele brilho prateado lhe exercia um fascínio inexplicável sobre seus olhos.

— Bom... ahm... Eu xó extava dixendo que ela xe exconde por baixo daquela fantaxia de viúva negla, max por baixo de todo aquele pano há uma mina... interexante, louca para xe moxtrar ao mundo... Pena que precisa extar bêbada e dopada para isso! Hehe... Mas excuta, ela não bate bem da cabeça! Aquela garota tem prob... — na medida em as palavras saiam de sua língua travada, mais forte Sasuke ia rangendo seus dentes. Mais pressão ele botava em seu punho cerrado. Não fez nem questão de ouvir o resto da história.

— Foi você quem a dopou? — o interrompeu.

— Hum? Ah, xim... Meio comprimido de ecxtasy no ponche.

E então, foi isso. Sasuke pegou a faca de sua bandeja sem pensar duas vezes.

Notas finais
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