Reverso
26 ♦ Capítulo 26
Notas iniciais
Reverso
By Amanur
Capítulo 26
...
Não havia como contar nos dedos de quantas coisas Sakura se arrependia. A vontade de poder voltar atrás em suas decisões era mais uma coisa que sempre a acompanhou, junto com a vontade de ser outra pessoa. Se ao menos ela tivesse sido mais determinada, mais segura de si, muita coisa poderia ter sido diferente. Se não tivesse se preocupado tanto em manter seu papel de filha — aquela que mantém a família unida —, até mesmo a relação com sua mãe poderia ter sido diferente. Às vezes, ela tinha vontade de bater na mãe, para fazê-la acordar daquele transe constante em que a mulher parecia viver. Por que ela não se dava conta do mal que estava lhe causando?, ela se perguntava. Mas sua mãe, há muito, deixara de ser uma mulher. Antes ela ainda era uma pessoa ativa, que se dedicava de corpo e alma ao trabalho. Às vezes até de mais, na opinião da garota. Mas agora, ela parecia um zumbi, caminhando sem direção. Sakura errou, quando pensou que a senhora Haruno seria mais feliz estando com aquele homem. Depois de um tempo, ela passou a ser alguém completamente infeliz. E agora não tinha mais como voltar atrás, para reparar seus erros. Além disso, Sakura achava que era tarde demais para mudar a si mesma. Sua personalidade já estava bem definida, e estabelecida em seu cerne. Sakura não era mais uma criança suscetível à mudança de opinião com facilidade, pois já sabia bem o que pensar sobre as coisas. E, por isso, acreditava que nada do que lhe dissessem minimizaria os efeitos do passado em sua mente.
No entanto, lá estava Sasuke, determinado em defendê-la. Ela se sentiu estúpida como uma menininha mimada, inocente e idiota, incapaz de proteger a si mesma. Ela já era uma mulher, e deveria ser capaz disso. Mas, ao mesmo tempo, não pode deixar de sentir aquele alívio por saber que ele não parecia interessado em rejeitá-la. E por isso, ela foi dormir mais tranqüila, aquela noite.
No entanto, Sasuke não dormiu. Ele optou por fazer aquela coisa estúpida. Era a única saída que via a sua frente. Depois de beber mais de uma garrafa inteira de vodca, o rapaz foi dirigindo pela cidade. Deu voltas e mais voltas, até a noite cair. Andava lentamente, justamente por estar alcoolizado, e sua coordenação motora afetada. Enquanto as rodas giravam pelo asfalto, ela ia repetindo a si mesmo que precisava se afastar da Sakura para conseguir pensar em alguma coisa. Se visse aquele problema com outros olhos, como se fosse “alguém de fora”, conseguiria enxergar o que não estava vendo. Mas quando se deu conta, sua moto estacionava na frente da casa da Ino. Estava realmente decidido a fazer a loucura que não queria.
Eram oito da noite. Não se sentia mais bêbado, mas assim mesmo sentia as penas bambas. Talvez fosse o cansaço, a exaustão mental. Meio cambaleante, ele desceu da sua moto, e foi meio trôpego até a campainha. Colou o dedo no dispositivo até que alguém o atendesse. Por sorte, talvez, a loira estava sozinha em casa. E ela se espantou ao vê-lo ali. A princípio sentiu aquele frio na barriga que sempre sentia quando o via. Mas ao se dar conta do forte cheiro de álcool que ele exalava, cruzou os braços na altura do peito, cerrando os olhos.
— Agora você se lembra que eu existo? — ela pergunta.
Ela espiou para dentro da casa dela, para certificar de que ninguém estaria atrás dela, ouvindo a conversa.
— Tem algo para fazer essa noite?
Ver que ele a procurava, lhe renovou as esperanças. Ela havia observado-o de longe, durante esse período em que foi ignorada por ele, e viu o quão empolgado ele ficava ao lado de Sakura. Ele sorria diferente para ela. Foi assim que se deu por vencida; que não haveria como vencer aquela guerra. Mas agora, cá estava ele a procurando novamente, como antigamente. Então, ela escancarou a porta para lhe dar passagem.
Ino estava sozinha em casa, por que seus pais haviam viajado para comemorar o trigésimo ano de casamento. Como ela não cozinhava, pediu uma pizza por tele-entrega, que levou quinze minutos para chegar. Comiam em silêncio na mesa da grande sala de jantar da casa. Nenhum sabia exatamente o que dizer para o outro. Ele sabia o que a Ino sentia por ele — embora não desconfiasse do quanto ela sentia — e agora se sentia estranho por estar ali com ela, depois de todo esse tempo sem vê-la. Era como se estivesse usando a moça para benefício próprio somente, para descartá-la quando não mais precisar dela, mas não se sentia muito à vontade por isso.
Ino sabia que ele estava com problemas, pois era visível a qualquer cego. E sabia que ele estava pensando na Sakura enquanto comiam. Ela também sabia que ele não falaria nada, nem mesmo que perguntasse. Sabia ainda que estava ali como a segunda opção dele. E justo ela, que sempre teve tanto orgulho por ser a primeira a quem ele ligava quando estava na cidade. Tinha orgulho de ser a primeira quem ele pensava para acompanhá-lo a uma festa. E pensar agora que foi rebaixada de posição era irritante. Mesmo sabendo bem que ele realmente se importava com outra — provavelmente por isso mesmo se sentia frustrada.
— Por que você não desiste daquela ameba rosa, se ela não te satisfaz? — perguntou.
Sasuke mastigou lentamente o pedaço de pizza que tinha na boca, olhando nos olhos de sua acompanhante, enquanto pensava na resposta.
— Acabei de desistir dela... — disse, enquanto encravava o garfo em outro pedaço de sua pizza.
Ino se surpreendeu com a resposta dele. Não esperava ouvir aquilo, e ficou olhando para ele, tentando entender o que ele não dizia.
— Você desiste ao primeiro problema que surge? Você é mais patético do que parece. — ela sequer olhou para ele enquanto as palavras lhe escapavam da boca. Não sabia bem por que dizia aquilo, no entanto. Não era como se torcesse pelos dois. Talvez tivesse, inconscientemente, se postado no lugar de Sakura, e sentiu raiva por descobrir essa parte estúpida dele.
E Sasuke também se surpreendeu com a raiva contida que a loira comprimiu nas palavras, ditas tão calmamente. Ela não sabia de nada e não tinha o direito de julgá-lo. Apesar disso, ele sabia que ela tinha razão. Em parte, talvez. Não sabia mais o que pensar, e bebeu em um só gole a taça de vinho que a loira havia aberto e posto na mesa.
Os dois beberam várias taças até saírem da sala de jantar bastante alcoolizados. Ela o levou até seu quarto para ouvirem musica, ou fazer qualquer coisa. Mas ao se depararem com a cama, se jogaram no colchão. Ela o olhava sedutoramente, mordendo o lábio, louca para ter a ultima chance com ele. E Sasuke apenas via uma garota a sua frente se oferecendo. Tendo em mente que precisava se afastar de Sakura, ele a beijou. Ficou longos minutos beijando-a passando a mão no corpo dela. Ela já ofegava, sentindo calor entre as pernas. Aos poucos, foram se desfazendo de suas roupas. Quando ele a penetrou, no entanto, ela lhe deu um tapa na cara, o fazendo acordar daquele transe estranho em que parecia estar, em cima do corpo dela.
— Você não consegue mais sequer ficar duro, Sasuke! O que aconteceu com você? Gosta tanto assim dela? Não me responda! — e então, ela o empurrou para o lado — Não quero saber; não quero saber de mais nada!
Ino não se importava em ser usada por ele, mas não conseguir excitá-lo já lhe era humilhação demais. A moça teve que morder o canto da bochecha para conter a raiva que estava prestes a deixar explodir.
E Sasuke nada tinha a dizer, então, apenas se vestiu. Sua mente estava completamente em branco, e havia somente o vazio a sua volta. A ele restou apenas ir embora, deixando a loira mais irritada ainda. Para a sua própria sorte, talvez, ela era mais orgulhosa do que sentimental.
No dia seguinte, Sakura foi mais confiante para a aula. De certo modo, se surpreendeu por se sentir aliviada por ter conseguido contar aquele segredo que a torturou por tanto tempo. E se lembrou de algo que disse ao próprio Sasuke, sobre ninguém dever manter segredos para si mesmo, dando-se conta de que ela era uma grande hipócrita, sínica, que não acreditava nas próprias palavras. E se sentiu constrangida por nunca ter se dado conta disso antes.
Sakura chegou alguns minutos atrasada para a aula, pois seu padrasto havia feito uma parado no posto de gasolina para abastecer o carro, e fazer uma troca de óleo no motor — o que tomou algum tempo. Mas ela se assustou ao ver que Sasuke estava sentado atrás do Itachi, concentrado em algo que copiava do quadro negro. Estranhou por ele ter trocado de lugar, mas resolveu não contestar nada. Acreditava ser louvável ele estar interessado na aula. No entanto, ao se sentar em sua cadeira de sempre, Karin a olhou indagativa. A ruiva não fazia a menor idéia do que estava acontecendo, e queria poder fazer parte do mundo deles, pois estava começando a se sentir excluída novamente. Mas tudo o que Sakura fez foi dar de ombros, já que também não entendeu o porquê da mudança do rapaz.
Quando a hora em que o intervalo bateu no relógio, Sasuke foi correndo para fora do prédio, para fumar um cigarro, sem nem mesmo olhar para a rosada.
— Vocês mal começaram a namorar, e já estão brigando? — Sakura se espantou ao ouvir a voz da Ino, quando se levantou para pegar sua mochila. Havia um tempo que a loira sequer a olhava e, agora, ela estava de braços cruzados, olhando para ela.
Karin também se aproximou, se preparando para o veneno estúpido da loira. Mas ela estava ali para tirar satisfações, na verdade. A noite que passou com o Sasuke a preocupou. Ele não disse nada sobre o que havia acontecido, mas estava mais do que claro que ele estava com algum problema em mente.
Sakura a olhou de canto, dando de ombros.
— Não que eu saiba. — apenas disse, enquanto jogava a mochila nas costas.
— Ele parecia aborrecido com algo. Não me diga que você não quis fazer oral nele, por que tem nojinho? — Ino perguntou. Sua intenção era meio sarcástica, meio debochada. Pois se lembrava de como ele reagia quando ela negava algo para ele. Em determinadas ocasiões, Sasuke parecia um adolescente mimado, exigindo seus direitos.
Mas tanto a loira quanto a ruiva se espantou com a vermelhidão que cobriu o rosto de Sakura, com o comentário. A garota sequer conseguiu olhar no rosto delas, constrangida por ser a única “virgem” ali.
— Não me diga que você não transou ainda com o Sasuke? — Ino perguntou, sem acreditar nas próprias palavras.
Mas Sakura apenas deu de ombros.
— E o que diabos vocês fazem? — desta vez, foi a Karin quem indagou. Não por que não acreditasse na amiga — já que sabia da dificuldade que Sakura tinha em se entregar ao Itachi —, mas por que não acreditava que Sasuke conseguisse ficar sem sexo por tanto tempo. Justo Sasuke, o cara mais mulherengo que conheciam.
— Agente conversa. — Sakura resmungou, caminhando para fora da sala, com as duas indo atrás dela como se fossem sombras.
— E desde quando Sasuke sabe conversar? — Ino perguntou. Na verdade, ela não acreditava muito na história da garota. Ela também achava impossível Sasuke ter ficado durante todo aquele mês sem sexo. Ainda mais depois da noite passada. Mas logo se calou, pensando que talvez esse fosse justamente o problema que ele pudesse ter em mente.
Sakura cessou os passos, de repente, virando-se para a loira.
— E você? Sabe ouvi-lo?
A loira sentiu uma pontada de inveja lhe cutucar em alguma parte do corpo. Até então, ela achava que Sasuke só se interessasse por sexo, álcool, cigarros, motos e festas. Afinal, ele mesmo vivia dizendo que não gostava de falar sobre si. Não poderia ser culpa dela se ele nunca quis conversar com ela sobre algo mais substancial. E achou irônico se ver “unida”àquelas duas. Karin, que sempre teve a amizade honesta do rapaz — que apesar das diferenças, ele a respeitava — e nunca aceitou ficar com ele porque sabia que ele não sentia por ela o que ela sentia por ele; Sakura que parecia ter capturado a essência dele; e ela, que apenas teve o corpo dele. Sentiu-se meio insignificante diante delas. Pois ela precisava admitir que Sakura não era a mocinha metida que se fazia de inocente. Sakura, na verdade, realmente era inocente! E sem querer, se viu obrigada a defendê-la perante o Sasuke, que parecia meio fora de si na noite anterior. E agora, sentia ainda mais raiva pelo que aconteceu.
Mas a loira decidiu ignorar aquele tópico para não se sentir ainda mais pra baixo, mudando de assunto. Começou a falar do trabalho em que deveria ser executado em trios. Pois ela havia sido deixada de lado pela Hinata, que se juntou a outro grupo. Então, lhe restou apenas se rebaixar às duas amigas sem sal da turma — como ela se referia.
Enquanto isso, Sasuke decidiu que estava na hora de dar uma chance para a empresa do pai. Ele não se obrigaria a acatar todas as exigências do Itachi, mas achou que devesse, ao menos, ajudá-lo em algo. Afinal, percebeu que Itachi, na verdade, era o mais forte entre os dois. Pois é preciso muito mais força para engolir sapos, do que apenas se esquivar deles, como Sasuke mesmo fazia.
Mas o porre que tomou no dia anterior, deixou seqüelas em sua memória. Ele se lembrava de todo o dia anterior; de cada detalhe. E de nada lhe adiantou encher a cara de bebida. Nenhuma resposta razoável lhe veio em mente. Apenas a idéia de que deveria se afastar dela, ao máximo possível. No entanto, não foi fácil para ele estar ali, em sala de aula, sentindo os olhares dela. Cada vez que o olhava, ele se sentia mais pesado. E por isso, precisou se dar um tempo para fumar, pois o cigarro aliviava o estresse.
Ele estava espacejando no concreto cinzento da calçada, quando sentiu a presença de alguém ao seu lado.
— O que está fazendo? — ouviu seu irmão indagar.
— Coçando o saco, e fumando.
— Vocês discutiram?
Sasuke o olhou de canto. Pensou em perguntar o que ele faria em seu lugar, mas hesitou.
— Como você se sentiria por ter que carregar o problema de alguém? Digo, mesmo com todos os seus próprios problemas? Isso não deveria ser algo que cada um deveria ter que superar por si próprio? — perguntou, tomando cuidado para não revelar demais.
— Não faz mal algum receber uma ajuda. Se fosse alguém que eu julgasse valer a pena, e eu acho que ela vale!, eu carregaria todos os problemas que ela tiver sem pensar duas vezes. Por que ela faria o mesmo.
— Mas não é justo sobrecarregar o outro com mais lixo...
— Então limpe o lixo que ela não consegue se livrar. Seja lá a quantia que você conseguir limpar, tenho certeza que terá seu significado para ambos.
Sasuke tragou mais algumas vezes a fumaça, pensativo. Se ao menos fosse assim, tão fácil quanto Itachi fazia parecer... Mas claro, o cabeludo não fazia idéia do que ele estava falando. E então, lembrou-se de que devia um “obrigado” ao irmão, por tudo.
— É complicado esquecer o que aconteceu, mas acho que eu deveria te agradecer, Itachi.
O cabeludo bufou, dando as costas ao irmão. Agradecimentos, ou pedidos de desculpas, não faria diferença alguma. Além disso, não era o que ele queria. Itachi estava apenas interessado em levar sua vida adiante. O que passou, passou.
Durante o restante do dia, Sasuke manteve seu silêncio diante de Sakura. Não sentou mais próximo dela, nem a olhou. E quanto mais ela percebia que ele estava querendo se afastar, mais inquieta se sentia. E assim foi durante aquela semana. O gelo entre os dois reinava triunfante. Até que Sasuke parou de frenquentar as aulas. Ele precisava se afastar dela o máximo possível. Lhe era estranho pensar que, quando a viu pela primeira vez na praça da cidade, achou que ela não passasse de uma esquisita, querendo fazer parte de alguma modinha com seu cabelo rosa e roupas pretas de marca. À primeira vista as pessoas não mostram o que realmente são. Mas o que poderia fazer, se faz parte do ser humano julgar o que desconhece? Talvez seja algum instinto de proteção, que precisa-se encontrar defeitos nos outros para manter-se em alerta. Somos estúpidos!, pensou.
E então mais mês se passou, e já estavam em Novembro. Fazia três semanas que ele não dava as caras na faculdade, e Sakura teve que perguntar a Itachi o que estava acontecendo. Mas o cabeludo apenas deu de ombros.
— Eu esperava que você me dissesse o que aconteceu. Ele tem ido trabalhar na empresa, mas mudou-se para a cidade vizinha, onde tinha seu apartamento privado, há duas semanas.
Diante daquela noticia, ela se sentiu abandonada. Sasuke sequer se despediu.
Notas finais
Eu vou explicar o porque da mudança dele no próximo capítulo, que inclusive vou reverter toda a situação! Esse afastamento dele foi necessário para que as coisas evoluam ainda mais entre eles. :) vou explicar tudo no próximo capitulo. Vou, até mesmo, explicar mais algumas coisas sobre ela. Se alguém, inclusive, quiser ajudar a tia amanur a lembrar o que precisa ser resolvido ainda, ela agradece T_T.
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