Reverse Falls - O Círculo da Decadência
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Gideon acordou tarde, depois de rolar de um lado para o outro a noite toda só conseguindo dormir nas últimas horas da madrugada e mesmo assim teve um sono perturbado, procurou por Pacífica mas está já havia saído para a escola deixando um bilhete junto a um prato de panquecas já frias e suco de laranja, a sra Northwest havia ido trabalhar, dizia o bilhete, mas caso sentisse fome havia um prato de comida na geladeira, o garoto comeu as panquecas sem pressa e quando desceu para a sala encontrou seu pai deitado no sofá, dormindo encolhido abraçado a uma coberta, Gideon fez um afago no cabelo do mais velho, agora já bastante ralo, e reparou o quanto ele parecia cansado.
— Preciso de ajuda… Só nos dois não damos conta… — Ele estava pensando sobre uma página em específico que havia visto no diário… Uma página sobre um demônio, um ciclope isósceles que invadia a mente e “liberava as portas do saber” mas seria arriscado, tendo em vista o que havia acontecido no dia anterior ele estava receoso, mesmo que o autor falasse o quanto a criatura era educada e divertida ele tinha seus receios… Era um demônio afinal.
Pacífica escolheu este momento para entrar feito um furacão em casa, fazendo Bud resmungar em seu sono e Gideon olha-la atravessado.
— Foi mal… Amanhã nos vamos a Tenda da Telepatia! — Ela dizia em um sussurro animado e dava pulinhos o puxando escada acima até entrarem no quarto. — Você sabe o quanto eu esperei por essa oportunidade? Três anos! Desde que a Tenda foi aberta, eles são um sucesso! Eu quero dormir cedo, chegar cedo, pegar os melhores lugares, será que eu consigo um autógrafo? — Gideon apenas observava aquele monólogo afinal por mais que ela parecesse estar se dirigindo a ele aquele era um mundo só dela.
Ele se dirigiu ao diário para mais pesquisas quando percebeu que aquele passeio seria a primeira vez que ele iria fazer algo não relacionado a sua mãe em muito tempo, mesmo os estudos eram pensando em uma carreira que ganhasse dinheiro o suficiente para cuidar dela… Ele as vezes pensava sobre o que estava fazendo da própria vida…
— Use o boné que eu te dei! — Pacífica o tirou dos próprios pensamentos enquanto ela revirava o guarda roupas atrás de um suéter que achasse adequado para a ocasião, ele apenas concordou com um sorriso e desceu para acordar o pai e tentar faze-lo comer algo.
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A Tenda da Telepatia parecia mais um grande circo de lona azul montado em uma avenida movimentada, a sra Northwest fez com que todos usassem roupas um pouco mais formais para a ocasião e Pacífica queria morrer por culpa disso, ela passou o caminho todo reclamando que iria morrer congelada tendo que usar somente aquele casaco e a echarpe como agasalho.
— Bom eu seu tio Nathaniel vamos para as máquinas e mesas de aposta, vocês e sua tia aproveitem o show e as outras atrações, nos procurem quando formos ir para casa.
Eleonor iria dirigir na ida e na volta já que se dependesse dos dois mais velhos o carro ia ficar em uma mesa de poker como pagamento das apostas.
— Bem vindos a Tenda da Telepatia! Deixem seus desejos em nossas mãos! — Uma recepcionista saudava animadamente a todos que entravam, o lugar na verdade era um prédio luxuoso debaixo da lona azul, todo decorado em dourado perolado e verde mar, com os funcionários se destacando com seus uniformes azuis e brancos, pessoas transitavam em bandos pelo lugar fazendo pequenos tumultos mas mesmo assim um fraque que era para ser igual ao de qualquer outro funcionário chamou a atenção de Pacífica, ela o viu de relance mas tinha certeza, era o homem que apareceu em seu sonho na noite anterior. Tudo ao redor ficou cinza e em silêncio com exceção dos dois, ele parou por um segundo e se virou para ela lentamente com o único olho arregalado num misto de pavor e fúria, Pacífica queria gritar mas a voz estava entalada na garganta.
— Paz? — Gideon segurava o braço da prima. — Onde você ta indo? — Ele a olhava preocupado. — Você simplesmente saiu andando no meio da multidão quase correndo! Ta tudo bem?
— O que…? Ah ta sim… Eu… — Tudo ao redor estava normal outra vez, o burburinho voltou quase no mesmo instante em que foi tocada — Não,nada não, deixa, que horas vai começar o show?
— Nos já vamos escolher os lugares, seu pai e o meu já foram para as mesas de apostas... — Ele a guiou de volta a sra Northwest — Paz… Você ta bem mesmo?
— Eu não sei… — Ela admitiu por fim, quase em um sussurro. — Por um segundo eu me senti fora da realidade… Como quando… Quando você alucina no sono a noite durante a febre alta e acorda mas o pesadelo ainda fica visível por um segundo, parado, ao lado da sua cama... — Ela tremia um pouco e estava pálida, Gideon apertou a mão dela com força até ela fazer uma careta.
— Eu sou real Paz… Você está acordada e nada dentro da sua cabeça pode te machucar, monstros existem, mas nada é pior que o ser humano e nenhum inimigo é maior que você mesma! — Era o que ele via o pai dele repetir constantemente para a mãe durante os surtos, apesar de que na parte dos monstros o velho Bud se referia a assassinos e estupradores enquanto Gideon se referia a monstros que deveriam existir somente nos contos de terror para fazerem crianças terem medo de irem dormir tarde, mas que ele já havia presenciado.
Era a primeira vez que ele demonstrava uma real preocupação com ela, Pacífica se espantou com a atitude seria do menor que por mais brusca que tenha sido fez com que ela colocasse os pensamentos no eixo.
— Obrigada… — Ela disse com um sorriso choroso. — Agora vamos pegar os melhores lugares da casa! — E saiu correndo puxando o albino aos tropeços atrás dela.
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O palco era coberto por finas cortinas brancas um pouco transparentes o que dava um ar levemente etéreo ao ambiente, de algum lugar ao fundo a música melancólica vinda de um orgon preenchia o vasto salão e pouco a pouco as luzes morreram até somente as velas do palco iluminarem o lugar e surgido das sombras tremulas um mestre de cerimônia se apresentou.
— Boa noite… Boa noite… Bem vindos ao mundo da mente, sou Arnold Kryptos e irei guia-los para o destino que melhor nos aprouver — O homem de cabelos brancos penteados em um topete alto fez uma mesura dramática com a cartola em mãos. — Hoje um de vocês será colhido desta vida e passara para o nosso mundo… Permanentemente… — Ele observou atentamente a plateia, seus olhos tinham cores distintas o direito era laranja quase vermelho e ficava no centro de uma estranha cicatriz que corria por quase toda a lateral de sua face e sumia pelo cabelo, como se alguém tivesse tentado desenhar um pentagrama em seu rosto com uma tesoura enquanto ele se debatia, o outro olho tinha uma colocação dourada que parecia variar de tonalidade conforme ele falava. — Aproveitem a noite.
A música aumentou e de cada lado do palco surgiu uma criança, eram os gêmeos Pines, Mabel e Dipper e um assistente de tapa olho e cabelos azuis fitando o chão com ar de pesar, Pacífica segurou a mão de Gideon com força por baixo da mesa.
— Ele… — A garota sussurrou assustada, o primo a olhou sem entender. — Foi ele que me fez correr mais cedo, ele apareceu no meu sonho ontem a noite, ele… — Ela foi interrompida por um abraço apertado, a sra Northwest felizmente estava muito entretida com o show.
— Eu estou aqui lembra? Eu também estou vendo ele, então é real e o que é real pode ser combatido. — Gideon a olhava firme. — E eu vou lutar com você. — Ele não deixaria ninguém definhar mentalmente de novo na sua frente se pudesse impedir.
— Sim… — “e eu vou lutar com você também” ela pensou, Pacífica não estava como a Sra Gleeful, ela só estava assustada, mas o pequeno já estava marcado por uma vida de preocupação constante e toda a imprevisibilidade do estado mental da mãe fazia com que ele entrasse em “modo super protetor” ao menor sinal de perigo, ela sabia que ele iria apoia-la mas ela o apoiaria também.
O show corria deslumbrante, com os gêmeos encantado a plateia Mabel se deslocava graciosa pelo palco usando um maiô e meias pretas e um bolero azul, lançando olhares afiados a todos, seu irmão, usando uma roupa social nas mesma cores, mantinha a expressão neutra com os cabelos penteados para trás de forma que uma marca no formato da ursa maior destacava-se em sua testa, ambos mostravam todo o seu potencial, revelando fantasmas em grandes espelhos de vidro que respondiam a perguntas da plateia, segredavam desejos ocultos perguntando a cabeças de homúnculos dentro de jarras cheias de líquido turvo e domavam bestas enfurecidas trazidas em jaulas de ferro. Até que chegou o ponto alto da noite.
— Agora! Nos vamos escolher um de vocês como convidado especial! — Mabel sorria com os braços abertos, mas havia algo a mais naquele sorriso, Gideon pensou, mas não conseguiu identificar de cara o que era... — Bill Cipher! Traga-nos alguém da plateia!
— Cipher!? — O garoto engasgou, algo passou por sua mente como uma sombra, não… Não era possível…
O assistente seguiu pela plateia olhando de mesa em mesa seu olhar cruzou com o das duas crianças e se desviou rapidamente com uma careta quase imperceptível e seguiu até o fundo parando em frente a um homem com ar de embriaguez e desleixo, ele tentou negar o convite veementemente mas Cipher não se moveu até que fosse seguido, era difícil saber quem parecia mais assustado o assistente ou o bêbado, ambos seguiram até o palco onde os Pines enrolaram o convidado em uma mortalha dos pés a cabeça riscando um “x” com carvão onde o pano cobria os olhos, amarraram correias a seu corpo e correntes o suspenderam do chão, era possível ver que ele tremia.
— Agora sua essência pertencente ao oculto… — Dipper dizia de forma monótona. — Você não pertencente mais a si desde o momento em que faltou com sua palavra… — Lanças, espadas, setas e espetos iluminados por uma energia verde como os olhos dos garotos flutuaram a volta do corpo suspenso, Mabel recitava um encantamento como se estivesse em êxtase rodopiando e transcrevendo símbolos em círculo sob o homem suspenso usando uma vara com a ponta queimada, uma sombra com o formato de triângulo desceu sobre o pobre dependurado e seus olhos debaixo do pano brilharam dourados, nesse instante as armas a volta dele perfuraram o corpo manchando o tecido de vermelho e escorrendo em abundância sobre o círculo mágico que brilhou até se tornar uma luz ofuscante e o palco se encheu de névoa que se dissipou com violência quando a mortalha se rompeu em uma explosão revelando o assistente de tapa olho no lugar do convidado, a plateia rompeu em aplausos e elogios ao final espetacular.
As crianças estavam aterrorizadas, elas não entendiam como mas tinham quase certeza que o homem havia morrido de verdade, talvez estivesse começando a adquirir experiência com o desconhecido, pensou Gideon, o de tapa olho os fitava fixamente sem expressão sob a aba da cartola.
— Ele foi consumido… — Pacífica disse de forma lenta após alguns instantes. — Pobre coitado… Ele não queria…
— Obviamente ele não queria! Quem quer morrer!?
— Não falei do homem… — Os olhos dela se encheram de pena e levando a mão ao peito apertou o tecido do casaco. — Pobre Cipher...
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