Revenge'S Queen
1 Capítulo I
Notas iniciais
A rainha Ultear Mikolvich ergueu-se e ofereceu a mão à princesa Meredith.
Sir Fernandez conteve o bocejo. Fora uma noite entediante como sempre acontecia no Palácio Do Conselho. Ele surpreendia-se por certas pessoas conseguirem apreciar aqueles longos e cansativos cerimoniais. Achava que só Sua Majestade poderia considerá-los interessantes.
A rainha sorria ao iniciar sua vagarosa e digna caminhada pela sala do trono. Ouvia-se um farfalhar de sedas, cetins, tarlatanas e tules, quando as senhoras dobravam-se até o chão em respeitosa reverência. Havia um lampejo no ar provocado pelas condecorações dos homens ao se inclinarem à passagem da soberana. Tudo estaria findo em poucos minutos, pensava sir Jellal, ansioso pelo ar fresco fora do ambiente sufocado de ostentação.
Mas Sua Majestade não tinha pressa. Ela parou para falar com o Primeiro Ministro, lorde Makarov Dreyar, e sorriu para o lorde Hades, Secretário de Estado em Assuntos de Guerra. A Princesa Meldy, séria, fez uma observação ao sr. Laxus Dreyar, observação essa que, sem dúvida, seria publicada em famoso periódico no dia seguinte.
Enfim, o cortejo pôs-se a caminho de novo, sir Jellal preparava-se para saudar a rainha quando, inesperadamente, ela dirigiu-lhe a palavra.
Sir Jellal teve de baixar a cabeça para fitá-la no rosto. Era extraordinário constatar-se como, mesmo de pequena estatura a soberana podia transpirar uma aura de tanta dignidade. Seria impossível não admirá-la por isso. Naquela noite, ela tinha os olhos brilhantes de felicidade. Em outras ocasiões, contudo, nos mesmos lábios que agora sorriam havia rugas de pertinácia e, nos olhos, uma expressão de ira violenta.
– É bom ver o senhor, sir Jellal — Disse Sua Majestade com sua voz clara e bem modulada, um tom mais grave do que se esperaria de tal pessoa.
– Obrigada, madame — Murmurou sir Jellal.
– Quando vier aqui novamente, quero ter o prazer de cumprimentar alguém ao seu lado; sua esposa, claro — Continuou a rainha.
Sir Jellal não soube o que responder. Ficou perplexo, acreditando não ter ouvido bem; em seguida, antes de poder saudá-la mais uma vez pela honra que lhe era concedida, Sua Majestade foi adiante. E os cumprimentos das senhoras e dos homens prosseguiam ao longo da sala.
Sir Jellal não se moveu. Sentia o cérebro paralisado, sem condições de analisar o que lhe fora dito. E, quando os lacaios de libré vermelha e passamanaria dourada abriram as portas de par a par, e o cortejo real desapareceu, um murmúrio de vozes o chamou de volta à realidade.
O vozeiro recrudescia. O freio, que segurava a multidão em silêncio por três horas, sumiu como a neblina ao nascer do sol.
Sir Jellal resolveu sair, escapar antes que as pessoas começassem a interrogá-lo acerca do que lhe dissera a soberana. Não seria necessário esperar muito até o primeiro curioso lhe dirigir a palavra. Teria ele já sido prometido pela soberana à alguma mulher? Quais seriam os planos de Sua Majestade à seu respeito? Quem fora a escolhida?
Essas perguntas que sir Jellal não tinha intenção de ouvir a viva voz. E a expressão de seu rosto afastava dele os que se aproximavam.
Sir Jellal atravessou a sala do trono, evitou o salão onde se serviam refrescos, e desceu as escadarias acarpetadas de vermelho. Uma ou duas vezes escutou seu nome pronunciado, sentiu alguém tocando-o; um ou outro amigo interceptou-lhe o caminho. Mas ele estava cego e indiferente a tudo, salvo ao urgente desejo de fugir, de respirar o ar fresco da rua. Isso, de repente, transformara-se numa necessidade imperiosa.
Na porta do palácio dispensou sua carruagem e seguiu a pé, passando rapidamente pela guarda montada do pátio. Preocupou-se em escapar da multidão, caminhava a passos largos pela alameda de árvores frondosas.
Com seu traje de gala, calças largas até os tornozelos, meia de seda, capa forrada de roxo esvoaçando e deixando à vista suas condecorações, ele era, de fato, uma pessoa de destaque. E, como tal, despertara muito interesse nos homens e mulheres que esperavam, em longas filas, por um olhar da rainha. Mas não apenas as roupas de Jellal chamavam a atenção; muitas outras qualidades dele eram apreciadas, principalmente pelas mulheres. Por onde quer que passasse ouviam-se observações sobre seus preciosos atributos.
Seria estranho que tal não acontecesse. Alto, de ombros largos, feições perfeitas, cabelos azulados, seu olhar era o que mais atraía. Poucas pessoas deixavam de apreciar Jellal quando vinham a conhece-lo. Não obstante, a frieza de sua expressão, seu orgulhoso desdém, afastava o mais cordial gesto de aproximação.
Havia também uma arrogância agressiva no modo como se portava, no modo como emitia opiniões ou contradizia opositores. E o sorriso irônico caberia melhor num homem de meia-idade do que nele, ainda no esplendor da juventude.
Não obstante, sua atração era inegável!
Uma mulher que passava pela alameda naquele instante cutucou outra ao lado e disse:
– Esse é o tipo de homem com quem eu gostaria de ir para a cama, minha cara. Um homem cem por cento! Mas, algo o aborrece. Enxergo um toque de diabo no rosto dele!
E não estava longe da verdade, pois sir Jellal, andando pelas sombras da noite, mostrava-se profundamente contrariado. Os que haviam estado ao lado dele na sala do trono do Palácio Do Conselho, com certeza, ardiam de curiosidade para saber o sentido do que a soberana lhe dissera. Fora obviamente uma ordem, uma advertência.
Havia sido tão inesperado, totalmente fora de suas cogitações! Mas o incidente servira para lhe mostrar como tinha sido ingênuo em não desconfiar que era espionado em sua vida privada. Muito pouco escapava aos ouvidos da rainha. Ela possuía meios próprios de descobrir os segredos mais ocultos acerca dos que lhe interessavam.
E ele que pusera muito esperto!
Fora publicamente desmascarado! Mais que isso, não ignorava ter recebido uma ordem que não poderia ser desobedecida. Tolo em pensar que seu romance com Minerva passaria despercebido à rainha, não chegaria aos ouvidos da Corte!
Há quanto tempo saberia a soberana de tudo? Um mês, dois, três, talvez desde o início, há seis meses? Não, não, não podia ser!
Fora em janeiro que lorde Makarov Dreyar lhe dissera que, tão logo lorde Jura deixasse o cargo de Ministro de Etherion, ele seria designado para o posto.
Sir Jellal delirara de alegria. Planejara obter a posição há muito tempo, trabalhara para isso, mas não esperava que sua mais ardente ambição se concretizasse tão depressa. Seu sucesso político já era fenomenal, não havia dúvida! Desde o primeiro instante em que entrara para a Câmara dos Conselheiros ocupara um lugar de destaque, primeiro como membro do Tribunal Superior de Magnolia, depois como Secretário Geral.
Tinha apenas vinte e sete anos ao ser enviado para uma missão a colônias como representante de Sua Majestade. Não havia outro membro no Ministério com a mesma capacidade. E Jellal Fernandez tivera a chance de demonstrar seu talento, não desapontando os que confiaram nele. Ante seu enorme sucesso, Sua Majestade não titubeara em dar-lhe o título de membro dos 10 Santos de Magnolia. Assim, da noite para o dia, ele transformara-se no jovem mais promissor da Câmara dos Conselheiros.
A aptidão demonstrada por Jellal durante o trabalho nas colônias não fora esquecida. O Primeiro Ministro nomeara-o para várias outras missões importantes. E logo, no início do ano de 1850, diante de uma série de incidentes envolvendo a Oracion Seis, uma ameaça de guerra e crises diplomáticas, lorde Makarov Dreyar declarara a sir Jellal o que tinha em mente.
Pretendia, dissera ele, exonerar lorde Jura do Ministério de Etherion e conceder-lhe o cargo de Ministro. A rainha não gostava de lorde Jura, e muitas vezes queixara-se do procedimento dele.
"Eu previni muitas vezes lorde Jura sobre a insatisfação de Sua Majestade" comunicara o Primeiro Ministro a sir Jellal. "Mas ele não me deu ouvidos."
O Primeiro Ministro prosseguia falando sobre as dificuldades nas relações exteriores naquele momento crucial da história de Fiore. Jellal escutara-o atentamente, esquecendo-se por momentos de seu ar agressivo. Mas, suas esperanças, como as da rainha, em afastar lorde Jura imediatamente, sofreram um grande revés.
A intenção do Primeiro Ministro fora rechaçada. Ataques à política exterior desferidos pela oposição tinham sido habilmente enfrentados por lorde Jura, cujas justificativas o puseram num pedestal de popularidade. Sir Jellal, acompanhando os detalhes, percebera de imediato que teria de esperar pacientemente por sua nomeação. Todavia, não se preocupara. O tempo estava a seu favor, pois era ainda muito jovem. Resolvera, então, divertir-se com mulheres.
Embora seus romances já andassem de boca em boca, escolher lady Minerva Orland Cheney como amante fora um grave erro. Para começar, ela era uma beleza notária e sempre visada pelos olhos do público. Em segundo lugar, possuía reputação de não ser discreta, e seu comportamento escandaloso chocava a jovem rainha, superpuritana. O romance dos dois chegara aos ouvidos da soberana, daí a sugestão para que sir Jellal se casasse.
Lady Minerva passava o verão no campo, onde sir Jellal também possuía uma propriedade. Lá se encontravam em segredo, e Jellal não tinha idéia de como o que acontecia naquela zona rural podia chegar até Sua Majestade. Era óbvio que subestimara, pela primeira vez na vida, a habilidade de seus opositores e... amigos.
Caminhando agora em direção a rua de Crocus, Jellal acalmava-se aos poucos. Refletia sobre as pessoas que saíam do Pálacio, comentando acerca do que a rainha lhe dissera.
Provavelmente acreditavam na existência de um noivado secreto, talvez até de casamento já realizado. Boatos de todos os tipos se espalhariam depressa, mas apenas ele e o Primeiro Ministro entendiam com exatidão o que a rainha quisera insinuar.
A soberana pusera em palavras claras que não toleraria deslizes em sua vida privada, quando ele fosse o Ministro de Etherion, em substituição a lorde Jura. E seu envolvimento com a mulher casada seria intolerável. Na próxima vez que fosse a Corte, precisaria apresentar a Sua Majestade uma noiva digna de se tornar esposa de um Ministro Santo.
Apesar de toda a irritação, Jellal louvava os planos da rainha, bastante diretos. Raramente ficavam dúvidas na mente dos que ouviam o que Sua Majestade requeria deles.
Muitas vezes rira, no passado, das pessoas atingidas pelo poder da soberana. Agora, quando o mesmo se passava com ele, não via nada de cômico na situação.
Sem perceber, chegava ao clube Grimore Hearts. Já havia posto o pé no primeiro degrau quando ouviu uma gargalhada. Não sabia de quem riam, mas imaginou que pudesse ser dele. Puxou o relógio; eram apenas dez horas da noite, muito cedo, portanto, para ir à cama. De repente, decidiu o que iria fazer. Precisava ver Minerva para lhe relatar o que ocorrera, pois seria absurdo ela vir a saber de tudo por estranhos.
Os Cheney encontravam-se em sua casa de campo, onde permaneciam durante todo o verão. Sir Jellal deu as costas ao clube; afinal, estava cansado de Magnolia. Iria também para o campo. Atravessou antão o Pier e seguiu em direção a Crime Sorciere. Alguns mendigos e mulheres de reputação duvidosa tentaram atrair-lhe a atenção; mas ele os ignorou. Arquitetava planos com sua clareza habitual e fria concentração, que as pessoas que trabalhavam com ele na Câmara dos Conselheiros conheciam muito bem.
De um ponto estava seguro: Depois do que acabara de acontecer naquela noite, teria de ser muito cuidadoso. Se procurasse Minerva abertamente, estaria se colocando nas mãos dos que esperavam por isso para reportar à rainha. Meticuloso ele sempre fora; costumava encontrar-se com Minerva em lugares que considerava discretos, tanto em Magnolia como nas florestas que circundavam sua propriedade. Acreditava que ninguém poderia surpreendê-los. Mas enganara-se redondamente. Ele e Minerva tinham de tomar precauções ainda maiores. Porém isso não significava deixar de ir à própria casa de campo que confinava com a propriedade dos Cheney. Uma vez lá, pensaria em um jeito hábil de ver Minerva.
Partindo naquela noite mesmo, chegaria em Sabertooth antes do café da manhã. Então decidiria como agir.
Ele entrou em sua mansão em Crime Sorciere, entregando o chapéu e a bengala ao mordomo. Com voz calma deu ordens para que a carruagem fosse preparada imediatamente.
– Uma velha amiga me comunicou que minha avó não está passando bem — Acrescentou à guisa de explicação. — Acho que ela proibiu o pessoal da casa de me mandar chamar, a fim de não interromper meu trabalho na Câmara dos Conselheiros. Mas quero partir agora.
– Muito bem, sir Jellal — Assentiu o mordomo. — Espero, porém, que tenha sido um alarme falso, e que o senhor encontre Sua Senhoria em perfeita saúde.
– Espero também — Ecoou Jellal, dirigindo-se à biblioteca.
Era uma desculpa que serviria ao propósito de dar uma satisfação aos que, no dia seguinte, quisessem saber de seu paradeiro.
Ele foi até uma mesa colocada entre as janelas e serviu-se de vinho. Achou que necessitava disso; mas, quando seus lábios tocaram a bebida, viu que não tinha sede. Sua mente girava em torno do mesmo assunto: Encontrar uma moça adequada para se casar. Mas onde? Entre as várias experiências que tivera com mulheres, jamais encontrara prazer na companhia de nenhuma delas.
Deu um suspiro e pôs na mesa o copo de vinho. Talvez Minerva o ajudasse... Esperava que ela não fosse tola a ponto de sentir ciúmes e aconselhá-lo a rir das ordens da rainha. Não, Minerva não era idiota e sabia, tanto quanto ele, qual o prêmio para seu sacrifício; uma posição de Ministro de Etherion aos trinta anos. Mais jovem que ele só Loki, que se tornara o Ministro Celestial com apenas vinte e três anos de idade.
Sir Jellal pegou o copo outra vez, bebeu o resto do vinho e saiu da sala. Já na porta, deu com os olhos numa pilha de convites sobre o consolo do enorme espelho Chippendale. Havia dúzias deles, mas um em particular, um grande cartão branco, chamou-lhe a atenção. Ele leu:
" O conde e a condessa de Vermillion têm o prazer de convidá-lo para uma festa nos jardins de sua residência de campo, em Fairy Tail, no dia dezesseis de julho, às três horas".
– Amanhã, as três horas — Disse ele em voz alta. — Minerva com certeza estará lá.
Sim, Minerva Orland Cheney compareceria à festa, como todo o condado, e seria possível encontrar-se com bastante naturalidade e abertamente.
Sir Jellal saiu da biblioteca levando consigo o convite.
A entrada para Fairy Tail estava congestionada.As carruagens tinham os mais variados tamanhos, tipos e formatos, mas os cavalos que as puxavam eram todos de raça pura. Meneando as bem tratadas crinas, com os arreios de prata tinindo, os animais aproximavam-se do pórtico da construção de tijolos vermelhos, onde lacaios de libré com cabeleiras empoadas aguardavam pelos convidados.
Erza Scarlet, olhando pela janela de sua enlameada carruajem de aluguel, suspirou à vista dos luxuosos veículos e afundou-se no assento do mal cuidado carro que conduzia, com uma expressão de desânimo no rosto. Havia se esquecido do dia da festa anual da família. Por que iria se lembrar do Garden Party, se não tinha intenção de comparecer? Não poderia ter escolhido data pior!
À noite, toda a família estaria cansada e irritada. De qualquer maneira seu regresso a mansão Fairy Hills seria mal acolhido, mas naquele dia... seria catastrófico!
Criando coragem, Erza abriu a pequena janela que se comunicava com a boléia e gritou:
– Cocheiro! Cocheiro! Vá para a porta dos fundos, por favor. — O homem pôs a mão em concha no ouvido, exibindo dedos sujos e inchados pelo reumatismo, e repetiu:
– Pela porta dos fundos, miss?
– Isso mesmo.
– Tudo bem, miss.
Erza acomodou-se de novo. Nesse momento, uma elegante carruagem de rodas amarelas e pretas passou voando por ela. Era conduzida por um cavalheiro de costelas frisadas que ela reconheceu logo; tratava-se do mais famoso solteirão do condado.
Todo o mundo na festa, pensava Erza como desaponto. E ela seria a única pessoa não convidada e a menos desejada.
– Não pude evitar, tinha de vir. Não havia mais nada que pudesse fazer! — Disse baixinho.
O som da própria voz lhe deu forças. Levantou a cabeça e seu ar de desânimo foi substituído por uma expressão de desafio. Porém, estava com as mãos ainda geladas e, por dentro, sentia muito medo.
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