Return to Paradise
5 05. Baby I miss you
"Baby, i miss you"
I
Jackie encarou o teto branco de seu quarto no hotel, sua mão esquerda descansava sobre sua barriga, ela acariciou a pele por cima do tecido de sua camisola, ainda não havia nenhum indício de que tinha um bebê ali dentro, nem um sinal físico de que aquele tão desejado filho se desenvolvia em seu útero. Ela suspirou sem conseguir fechar os olhos, o sol já havia nascido deixando seus raios entrarem pela cortina fina, Point Place já se agitava alguns andares abaixo despertando para um novo dia.
Ela girou o corpo encarando o rádio-relógio no criado-mudo, já eram quase sete da manhã e ela tinha que se levantar e se arrumar para ir tomar café na casa dos Forman, Jackie sabia que Red não aceitaria muito bem sua presença tão cedo em uma manhã de sábado, mas ela também sabia que ele não a expulsaria, ela era sua favorita.
Jackie sorriu minimamente com aquele pensamento.
Soltando novamente um suspiro e estendeu o braço e pegou o telefone fixo o deixando sobre a cama, seus dedos pairavam sobre as teclas enquanto ela cogitava ligar ou não. Ela não podia negar que sentia falta da voz dele, dos braços dele, de acordar todo dia com ele ao seu lado. Deus, ela sentia falta de ouvir ele dizer que amava. Ela sentia falta dele. Fechando os olhos por alguns segundos ela digitou o número que há muito tempo havia decorado, demorou apenas alguns segundos até ele atender.
—Baby, eu te acordei? — ela indagou um tanto hesitante. A voz do outro lado resmungou algo incompreensível, antes de dizer.
—Não, não. Já estava acordado. Por que está me ligando? Aconteceu algo?
—Não, eu estou bem. — afirmou tentando acalmá-lo. — Apenas… eu apenas queria ouvir sua voz.
Ele riu no outro lado. Não era um riso de deboche, era mais uma risada de alívio e alegria.
—Eu também senti falta de sua voz. Percebi que é horrível acordar sem ter você ao meu lado.
Jackie mordeu o lábio enquanto voltava a acariciar a barriga.
—Como está aí? Já tomou café?
—Ainda não. Não sei muito bem o que fazer, estou esperando algumas instruções. É estranho fazer isso sem você. — ele disse soltando suspiro. Jackie quase podia imaginá-lo parado ao lado do telefone brincando a aliança em seu dedo, ele tinha aquela mania desde que eles haviam se casado. — Você poderia me lembrar por que estamos brigados?
Jackie se sentou na cama deixando o lençol cair sobre suas pernas. Ele odiava quando ele fazia aquilo, fingir não saber porque estavam brigados apenas para poder dizer e, quem sabe, milagrosamente percebe que era tudo culpa sua. Mas daquela vez eles sabiam que não era apenas culpa dela.
—Eu vou voltar para San Francisco segunda à noite. Então depois, acho que podemos dizer adeus.
—Jaqueline. — ele insistiu, ela odiava quando ela a chamava pelo seu nome, era quase como um aviso de que a briga estava preste a se tornar séria.
—Não. Não desta vez. Eu não liguei para você para poder brigar, eu apenas queria ouvir sua voz e ouvir você dizer que me ama. — ela disse sentindo as lágrimas pinicarem seus olhos implorando para sair. Malditos hormônios de gravidez!
—Você sabe muito bem como eu me sinto a respeito de você. Por que é tão difícil entender isso?
—Porque algumas vezes parece que estamos dos lados oposto do planeta. Quanto mais a gente se aproxima, mais longe ficamos um do outro. E isso dói.
—Também dói em mim.
—Que bom. Pelo menos nisso a gente concorda. — ela afirmou e então os dois ficaram em silêncio. Jackie podia sentir seu coração na garganta enquanto esperava ele falar algo, fosse pedir desculpas ou dizer que amava, mas ele não fez. — Acho que devo ir. Tenho que me arrumar.
—Ok. Tenha um bom dia.
—Você também.
Jackie desligou o telefone antes de soltar um soluço que estava entalado, as lágrimas escorriam pelo seu rosto, ela puxou o travesseiro e se enrolou contra ele deixando a frustração se esvair. Por que eles tinham que ser tão orgulhosos? Por que não podiam dizer o que estavam sentindo, ao invés fazer aquela cena?
Às vezes ela se odiava por ser tão orgulhosa, mas ela era bonita, então compensava.
II
A cozinha tinha cheiro de ovos e bacon, Kelso sorriu enquanto atravessava a porta de correr com Elle em suas costas, segurando as pernas do filhos para que ele não caísse, Kelso se virou deixando Elliott se sentar no balcão.
—Bom dia Michael. Bom dia Elliott. Bom dia Lizzy. Bom dia Brooke. Bom dia Betsy. — Kitty sorriu para os Kelso que entravam um a um na cozinha. Betsy passou direto até Kitty e lhe deu um beijo na bochecha.
—Bom dia vovó Kitty. Como você está? — ela indagou com aquele sorriso que era capaz de derreter até o coração mais gelado.
—Onde está Hyde? — Kelso indagou roubando um bacon do prato ante que Kitty pudesse lhe bater com a espátula.
—No porão. Acho que ele ainda está dormindo. — ela disse puxando o prato de perto dele e entregando-o para Brooke colocar sobre a mesa.
—Pensei que Hyde estivesse dormindo no quarto de Eric. — Brooke falou enquanto ajudava Lizzy a se sentar na cadeira do balcão.
—Tio Hyde vive no porão? — Elle indagou franzindo a testa.
—Se lembra quando eu disse que Hyde era como o Batman? Sem pais, rico, anti-social e possivelmente luta contra o crime durante à noite. — Kelso olhou para o filho que assentiu rapidamente.
—Mas se o tio Hyde é o batman, quem é você, papai? — Lizzy questionou.
—O super cabeça-oca. — Red falou entrando na cozinha. — O que diabos o panaca, e os juniores estão fazendo aqui? Vocês não em outros lugares para ir? Outras pessoas para irritar?
—Red, as crianças apenas gostam de passar um tempo conosco. — Kitty disse sorrindo para os Kelso.
—Não, Kitty. Eles vêm aqui porque podem comer minha comida de graça. — Red bufou enquanto caminhava até a mesa e se sentava em sua cadeira habitual.
—Lizzy, Elliott, por que vocês não vão chamar o tio Hyde lá no porão? — Brooke sugeriu olhando com carinho para os gêmeos. As duas cabeças balançavam de cima para baixo em afirmação.
—Steven não está no porão. — Red disse abrindo seu jornal. — Ele saiu mais cedo.
—Para onde? — Kitty questionou colocando os pratos e os copos na mesa. Red deu de ombros voltando sua atenção ao jornal. — Steven está escondendo muita coisa de mim, e eu não estou gostando disso. Meus filhos não deveriam esconder nada de mim.
—Sra. Forman tenho certeza que Hyde tem uma boa razão para isso. — Brooke assegurou sorrindo calmamente para Kitty.
—É, sra. Forman. Não é como se Hyde estivesse escondendo uma família secreta. — Kelso afirmou fazendo Kitty o encarar com as sobrancelhas arqueadas.
—Do que você está falando, Michael? — Kitty o encarou desconfiada. Kelso olhou para Brooke em busca de ajuda, mas sua amada esposa apenas revirou os olhos.
Kelso se voltou para Kitty tentando pensar antes de falar, Brooke havia lhe ensinado isso, mas algumas vezes as palavras simplesmente saiam. Kitty continuou a encará-lo esperando uma resposta, porém, para a pura sorte de Kelso, uma animada Jackie adentrou na casa sorrindo como se o mundo disse feito de algodão-doce.
—Bom dia!
—Seria um bom dia se vocês não estivessem aqui. — Red resmungou sendo ignorado pelos outros.
—Sra. Forman, eu sinto o cheiro de suas panquecas lá de fora. — Jackie disse sorrindo para Kitty.
—Que bom, querida. Então sente-se para comer. — Kitty indicou a cadeira vazia ao lado de Betsy.
—Já vou, mas antes tenho que fazer uma ligação, com licença. — Jackie se afastou sorrindo e passou pela porta até a sala de estar.
—Eu vou ao banheiro. — Kelso disse já correndo para fora da cozinha tendo apenas tempo de ouvir Brooke rapidamente gritar.
—Michael!
Ele não fez muito barulho ao seguir Jackie, se havia algo que ele realmente tinha prestado atenção durante se há um treinamento na academia de polícia, era as aulas sobre discrição e camuflagem. Kelso observou Jackie caminhar até o covil de Red enquanto puxava o celular da bolsa. Kelso se encolheu contra a parede e esperou.
Brooke tinha lhe dito várias vezes desde que haviam saído da casa desde Eric no início da manhã, ele não podia e não devia se envolver no problema de Jackie e Hyde. E embora ele tivesse a melhor das intenções, aquele não era um assunto que lhe dizia respeito. Kelso não queria contrariar sua esposa, mas também não queria deixar eu seus amigos infelizes. Jackie e Hyde pertenciam um ao outro, assim como o ele pertencia as páginas das revistas de moda.
—Hey baby, já estava com saudade. — Jackie disse. — Desculpa ter saído sem me despedir, as coisas estavam complicadas demais para… nós. — a pessoa do outro lado falou algo e Jackie riu. — Mas só poderemos nos ver terça, com a festa dos Forman e tudo mais, não se terei tempo para outras coisas. — Seu tom baixo deixava a conversa ainda mais triste e Kelso ainda mais confuso. — Sim, sim. Não é como se eu realmente quisesse ficar longe de você, quando eu chegar podemos por em dia tudo o que não fizermos. — ela disse, Kelso arqueou a sobrancelha deixando um sorriso tomar seus lábios já imaginando tudo o que Jackie faria. — Eu sei que as coisas estão complicadas, não precisa me lembrar. Eu estou tentando resolver tudo, mas parece que quanto mais eu tento mais ruim elas ficam, somos dois orgulhosos na porra de uma corda-bamba. — Jackie fungou, como se estivesse reprimindo as lágrimas. — Eu não quero ter que assinar os papéis, será como por um pedra em algo que lutamos tanto para construir juntos, mas eu também não sei se consigo fazer isso de novo. Estou cansada, nós dois sabemos como é essa sensação. — Jackie deu outra pausa e fungos novamente. — Eu sinto falta o meu marido, baby. Sinto falta de se sentir amada. Sinto sua falta. — Kelso deu um passo para trás. Talvez Brooke estivesse certa, talvez se envolver não fosse a melhor solução. Talvez ele devesse deixar que Jackie e Hyde resolvessem a situação deles. Talvez. — Agora me diga, como anda meu bebê.
Kelso se afastou ainda olhando para a parede. Talvez fosse realmente melhor deixar isso para lá.
—O que o senhor está fazendo? — Lizzy indagou fazendo Kelso soltar um grito assustado.
—Liz!
—O que você está fazendo, papai? — ela cruzou os braços e o encarou com aquele olhar de desconfiança que Brooke tinha.
—Nada. — ele disse cruzando os braços e se mantendo sério. — Agora vamos ou Elliott devorará todas as panquecas.
—Vovó está no telefone com tio Hyde, ele disse que assim que terminamos o café temos que ir à um lugar, porque ele em uma surpresa para nós. — Lizzy falou sorrindo animada, ela amava surpresas como todo Kelso.
—Sério? Eu amo surpresas! — ele exclamou batendo palmas e arrancando um riso de sua filha. — Agora vamos antes que seu tio mude de ideia.
III
Donna havia demorado quase uma hora para expulsar todos de sua casa depois da inesperada reunião sobre o relacionamento romântico de Hyde e Jackie, ou melhor, a falta dele. Ela esperava que enfim pudesse ter mais alguns minutos de sono, porém a discussão de Luke e Anne sobre quem iria usar o banheiro primeiro acabou com o resto de se sono.
Então, depois de um rápido café da manhã ela viu dentro do carro junto com os filhos e o marido seguindo para algum lugar no centro da cidade, pois segundo Hyde, em uma ligação rápida que não durou mais do que trinta segundos, ele tinha uma novidade para contar a todos e precisava que eles estivessem lá. Donna não podia negar o quanto estava ansiosa para saber o que Hyde estava armando, ela sabia que não era algo ilegal, Hyde já não o mesmo adolescente irresponsável, mas mesmo assim não deixava de excitante.
—Para onde estamos indo? — Anne indagou em voz alta enquanto folheava a revista que havia levado. Ela fingia não se importar com o que estava acontecendo a sua volta, mas Donna sabia que que ela estava tão interessada quanto ela em saber a novidade de Hyde.
—Eu não sei, da última vez que Hyde disse que tinha uma novidade fomos parar na Disneyland comigo usando um vestido. — Eric disse semicerrando os olhos para encontrar uma boa vaga na rua movimentada.
—Por que você estava de vestido na Disneyland? — Luke indagou piscando confuso para seu pai.
—Porque papai é idiota. — Anne disse dando de ombros.
—Anne Katherine! — Donna gritou, repreendendo a filha.
—Foi mal! Papai, você não é idiota. — Anne disse olhando para Eric. — Apenas fraco para a bebida.
Donna revirou os olhos e esperou não ter que bater em sua filha para ela criar juízo. Eric estacionou perto de um armarinho e os quatro desceram seguindo para o endereço que Hyde havia dito. Donna se surpreendeu ao encontrar os Kelso, os Forman, Fez com Tucker e Jackie parados na porta de um prédio de dois andares. Ela olhou para a construção que tinha a fachada de tijolos expostos e grandes janelas de vidro, a porta da frente também era de vidro, mas estava coberta por um adesivo preto. Donna franziu a testa imaginando o que Hyde queria levando-os até ali.
—Que bom que chegaram, já estávamos ansioso esperando por vocês. — Kitty falou sem tirar o sorriso do rosto. Donna se voltou para Red que de todos era, obviamente, o que estava menos animado com a situação.
—Da última vez que um dos idiotas disse que tinha uma surpresa para mim, a barulhenta se mudou para New York. — ele disse, então segundos depois sorriu. — Talvez seja uma notícia tão boa quanto essa.
Jackie revirou os olhos e sem hesitar passou na frente de todos, ela abriu as portas de vidro e adentrou no local. E por um segundo, parada a frente deles, Donna percebeu que Jackie sabia. Os olhos dela percorreram o local enquanto um sorriso crescia em seu rosto.
O local era muito parecido com um hall de hotel, havia um grande sofá preto e duas poltronas, uma de cada lado. Também havia um balcão com um computador e um telefone, na parede atrás havia um desenho geométrico preto e branco. Era bonito e muito bem decorado, mas foi o nome, ou melhor a logo, fixada na parede do lado do sofá que chamou a atenção dela. Across the street Records.
—O que diabos…? — Red olhou ao redor perplexo, compartilhando o mesmo sentimento que ela.
Jackie então seguiu em frente subindo a escada de metal que ficava no meio do cômodo, ela subiu os degraus e dobrou na curva que a escada fazia subindo para o segundo andar e desaparecendo. Donna levou quase um minuto para sair daquele transe e seguir o mesmo caminho que a amiga havia feito.
Donna deu um rápida olhada no segundo, notando que o espaço era amplo e bem iluminado, haviam discos nas paredes e pelo menos dois sofás em cantos opostos do cômodo. Jackie estava parada no início do tapete escuro de estampas geométricas, Hyde estava na outra ponta segurando alguns discos em sua mão, eles dois se encaravam como se fossem as únicas pessoas no mundo. Donna hesitou, ela conhecia muito bem aquele olhar, então no momento em que Jackie deu um passo para frente afim de, provavelmente, correr até Hyde, Donna foi à frente e empurrou Jackie tomando seu lugar e abraçando Hyde. Não importava o que estava acontecendo. Ela não iria deixar eles se acabarem como fizeram anos antes.
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